NA CASA DO REI DRAGO
A Saga do Rei Drago - 1 VOLUME

Stephen Lawhead

Bertrand Editora
Venda Nova - 1996

***

CAPTULO I

A neve recente jazia, profunda e intocada, por debaixo da luz prateada do
cu de madrugada. L no alto, um corvo vigiava uma paisagem silenciosa,
com as negras asas a tactearem o ar frio e fino. O spero apelo da ave
era o nico som que se ouvia muitos quilmetros em redor, quebrando a 
gelada solido com um staccato irregular. A toda a sua volta, a terra 
jazia adormecida nas profundezas do inverno.
Todos os ursos, todas as raposas. lebres e esquilos permaneciam ainda no 
calor das suas tocas rsticas. Os cavalos e o gado mantinham-se, 
satisfeitos, nos seus estbulos, de cabeas pendentes de sono ou 
ruminando em silncio a primeira rao da manh.
Nos campos, o fumo erguia-se das cabanas dos camponeses para um cu sem 
vento. subindo pelas rudimentares chamins, libertado por lareiras que 
tinham sido mantidas acesas toda a noite. A aldeia, amontoada em volta 
das poderosas muralhas do castelo de Askelon, dormia num esplendor 
primitivo, como uma princesa que se sentisse segura nos braos do seu 
protector.
Nada se movia por toda a terra, salvo o corvo que descrevia lentos 
crculos no cu.
Quentin estava deitado na sua cela, a tremer, encolhido numa bola coberta 
por um fino cobertor de l que apertava com fora em volta das orelhas, 
num esforo resoluto para manter afastado o frio da noite. j estava 
acordado, e cheio de frio, muito antes de o cu comear a mostrar um leve 
tom cinzento atravs da nica fresta, muito alta, da sua cela. Agora, a 
escurido afastara-se o suficiente para lhe permitir distinguir os 
contornos dos objectos muito simples que mobilavam o quarto miservel.

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Ao lado da enxerga de palha em que dormia encontrava-se um pesado banco 
em madeira de carvalho, sado das mos de um qualquer campons local. Na 
parede oposta  cama via uma mesa do mesmo estilo. contendo os seus 
poucos bens pessoais: uma malga de barro para a comida. uma vela num 
castial de madeira, uma pequena campainha para as oraes e um rolo de 
pergaminho onde se encontravam escritas todas as regras e observncias 
das suas funes de aclito, e que, ao fim de trs anos, ainda se 
esforava por decorar.
Algures, nos recessos mais interiores do templo, ouviu-se o toque de um 
sino. Quentin gemeu, mas depois saltou da cama, enrolando o cobertor em 
volta dos ombros. Hoje era o dia, recordou-se. O dia da grande mudana. 
Perguntava a si mesmo qual ela iria ser. pois apesar de ter acompanhado 
os portentos com toda a ateno, no era capaz de a adivinhar.
Todos os augrios haviam apontado para uma mudana: o anel em volta da 
Lua, durante trs noites, antes da neve comear a cair, a prpria 
tempestade que surgira no dia do seu nome, a aranha que vira, atarefada, 
a construir uma teia atravessada na sua porta (o que acontecera havia 
algum tempo, mas de que no se esquecera).
No havia dvidas: estava prevista uma mudana.
A sua natureza exacta permanecia um mistrio, mas essa era frequentemente 
a vontade dos deuses, que mantinham oculta uma parte da profecia. 
Conseguira, finalmente, deduzir a data da mudana, graas a um sonho em 
que se vira a trepar a uma alta montanha, saltando depois do prprio 
pinculo, mergulhando no espao, no a cair mas a voar. Os sonhos de voo 
davam sempre boa sorte. Alm disso, o seu dia de sorte era sempre um dia 
santo e, aquele dia, o da festa de Kamali - que tinha de admitir tratar-
se de um santo de pouca importncia - era de qualquer modo o primeiro dia 
santo que surgira depois do sonho. Hoje, sem dvida nenhuma. seria o dia 
do acontecimento: os sinais eram indiscutveis. Quentin reviu~os 
mentalmente enquanto enfiava  pressa, pela cabea coberta por um cabelo 
castanho cortado muito curto, o spero e pesado trajo de aclito. Meteu 
os ps nas meias largueironas e apertou-as com fora com os cordes das 
sandlias. A seguir. penado na campainha das oraes, correu para fora do 
cubculo, para o corredor frio e escuro.
Quentin ia a meio caminho da galeria de enormes arcos quando ouviu o 
toque de outro sino. Desta vez era um som profundo e ressoante

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com trs curtos intervalos, seguido por uma pausa breve. O sino repetiu 
os trs toques. Quentin ficou intrigado com o significado do toque. Que 
se recordasse. nunca antes o tinha escutado.
De sbito, compreendeu! Era o alarme!
Parou. confuso. Quando se virou para correr em direco ao som do sino, 
colidiu cegamente com as formas arredondadas e bem acolchoadas de 
Biorkis, um dos sacerdotes mais velhos.
- Cuidado, rapaz! - gritou o sacerdote. bem-humorado. - No h motivo 
para o pnico!
- O sino acabou agora mesmo de tocar a alarme! - exclamou Quentin. 
procurando rodear o sacerdote ofegante. - Temos de nos apressar!
- No  preciso. Os servos de Ariel no correm. Alm disso - acrescentou, 
com uma careta -, aquele era o toque de chamada e no o do alarme.
De sbito, Quentin sentiu-se muito estpido. A cor subiu~lhe ao rosto e 
os olhos procuraram as lajes de pedra que tinha sob os ps. O jovial 
sacerdote colocou-lhe um pesado brao sobre os seus ombros jovens.
- Anda, vamos ver qual o motivo para nos arrancarem to cedo ao calor do 
sono, nesta fria madrugada.
Seguiram os dois juntos ao longo do corredor e, pouco depois, chegavam  
vasta entrada do templo. Um vento frio e penetrante precipitava-se pelas 
enormes portas abertas. Um sacerdote com sotainas escarlates, um dos da 
Ordem dos Guardas do Templo, estava j a empurrar as gigantescas portas 
de madeira, para as fechar. Trs outros rodeavam um grande fardo informe 
que jazia a seus ps. no cho. Fosse o que fosse, aquele volume escuro, 
to incerto sob a fraca luz da manh, acabara de ser arrastado do 
exterior. Havia um rasto de neve a atestar esse facto, para alm da neve 
que cobria o prprio fardo.
Ao aproximar-se. Quentin percebeu que o fardo era uma forma humana muito 
embrulhada para se proteger do frio. Os sacerdotes debruavam-se agora 
sobre o volume inerte, que, de acordo com todas as aparncias. deveria 
estar morto. Biorkis pousou a mo no brao de Quentin, num aviso. e 
avanou devagar.
- Que vem a ser isto. meus bons irmos? Um peregrino obstinado que chega 
mais cedo ao santurio?

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- Pelo aspecto, no se trata de um peregrino - disse o guarda, esfregando 
as mos para lhes restaurar o calor. - Parece-se mais com um mendigo em 
busca do nosso banquete de festa.
- Pois ento, t-lo- - replicou Biorkis.
- A comida j de nada lhe serve... - comentou Izash, o mais velho 
sacerdote do templo, cujo smbolo das funes era a longa barba 
entranada - ou receio bem que de nada lhe venha a servir muito em breve. 
- Bateu com o sagrado basto branco e agitou o ar na sua frente, num 
gesto que indicava que o homem deveria ser virado para que lhe pudessem 
ver melhor o rosto. Dois sacerdotes jovens ajoelharam sobre aquela forma 
sem vida e comearam a puxar pela parte mais larga do fardo, formada 
pelos ombros do homem. Os sacerdotes, demonstrando demasiada preocupao 
em no se contaminarem, no estivessem a lidar com um cadver, puxavam, 
de uma maneira muito pouco eficiente, pelas pontas das grosseiras peles 
que o homem usava para se manter quente. Biorkis observou com impacincia 
aqueles temi~ dos esforos, para acabar por explodir:
- Saiam da frente! No receio Azrael, as minhas mos j tocaram em coisas 
piores! - Dobrou-se para o corpo e f-lo rolar para os seus braos.
Quentin, que andava em volta do grupo em busca de uma posio em que 
pudesse ver melhor, ofegou ante a viso. O rosto do homem tinha um tom de 
cinzas brancas, e os lbios, comprimidos numa linha muito fina, estavam 
azuis. Parecia completamente gelado. Porm, no preciso momento em que 
Quentin o observava, avistou um estremecimento nas pestanas cinzentas do 
homem. Biorkis, que tambm notara aqueles vestgios de vida, deu ordem a 
um dos sacerdotes mais jovens:
- Traze-me o vinho, irmo! Despacha-te! E traze tambm um frasco de 
unguento! - A seguir ordenou para os restantes: - Vamos, ajudem~me a 
abrir estas peles. Talvez ainda o possamos arrancar a Heoth!
Os sacerdotes baixaram-se sobre a figura imvel, abrindo com cuidado as 
vrias camadas de roupas. Quando terminaram. tinham o espanto bem visvel 
nos rostos, tal como na cara do sacerdote que regressara com o vinho e o 
unguento.
Ali, no cho, na frente deles, jazia um cavaleiro envolvido num rude 
trajo de batalha. Tinha a cabea protegida por um elmo de couro coberto 
por tiras de ferro cruzadas entre si. No dorso exibia um peitoral do

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mesmo tipo e material, mas equipado com curtos bicos metlicos, e tinha 
os braos e antebraos protegidos por couro coberto de pregos.
Biorkis, ainda a segurar na cabea do homem, puxou a tira que mantinha o 
elmo no seu lugar. Caiu e rolou, tilintando sobre as pedras do cho, e 
ouviu-se um murmrio dos homens que o rodeavam. Quentin virou a cara para 
outro lado. A cabea do cavaleiro era uma massa de sangue. Tinha uma 
grande ferida aberta por cima da tmpora, onde a pele e os ossos haviam 
sido esmagados por um violento golpe.
O amvel sacerdote ajoelhou-se, com a cabea do cavaleiro pousada sobre 
os joelhos, e afastou-lhe da testa os cabelos manchados. Com cuidado, 
abriu as correias que seguravam o peitoral, que dois sacerdotes colocaram 
a um lado. Surgiu um gemido na garganta do homem, ao princpio muito 
fraco, mas que foi ganhando fora.
- O frasco - pediu Biorkis. Agarrando e mergulhando dois dedos na pomada, 
o sacerdote espalhou o unguento curativo sobre o rosto do homem. Os 
vapores aromticos produziram um resultado imediato, pois os olhos do 
soldado voltaram a estremecer e a seguir abriram-se de repente, como os 
de um homem que lutasse contra um sonho.
- Ah, vai estar connosco mais algum tempo - disse Izash. - Dem-lhe um 
pouco de vinho, talvez nos diga qual era a sua misso. - O velho 
sacerdote apoiou-se mais e inclinou-se sobre o bordo para melhor ouvir o 
que o homem pudesse vir a dizer.
Biorkis deu-lhe o vinho a beber enquanto o cavaleiro, sem foras para 
inclinar a cabea, deixava que o lcool lhe escorresse pela garganta. Nas 
mos de Biorkis, o vinho pareceu ter um efeito mgico. A cor regressou 
lentamente ao rosto do homem e a respirao, que anteriormente nem sequer 
era visvel, aprofundou-se um pouco.
- Bem-vindo, bom soldado. - Izash dirigiu-se ao cavaleiro com todo o 
respeito. - Se acha que pode falar, talvez nos possa dizer de onde vem.
O cavaleiro de cabelos claros rolou os olhos e tentou virar a cabea na 
direco de quem falara. O esforo provocou-lhe uma onda de dor que foi 
bem visvel nas suas feies. Voltou a deixar cair a cabea no colo de 
Biorkis.
Naquele momento j se encontravam rodeados por muitos outros sacerdotes, 
que tinham respondido ao apelo do sino. Falavam uns com os outros em voz 
baixa, especulando a respeito do estranho visitante

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que jazia na frente deles. O cavaleiro voltou a abrir os olhos. que 
emitiram um claro brilhante e duro, como se estivesse a recuperar as 
foras ou a vontade. Abriu a boca para falar. O queixo agitou-se no ar 
mas no se ouviu um som.
--Mais vinho - ordenou Biorkis. Quando lhe entregaram o copo, o sacerdote 
puxou uma bolsa de entre as dobras das roupas. Meteu dois dedos dentro do 
pequeno saco de couro e despejou uma pitada do seu contedo dentro da 
bebida. A seguir voltou a colocar o copo junto dos lbios do cavaleiro. O 
homem prostrado bebeu com mais facilidade e. quando terminou, fez uma 
pausa antes de voltar a tentar falar.
- Agora. senhor, esclarea um velho bisbilhoteiro... se no tiver bons 
motivos para ocultar a sua misso. - Izash inclinou a cabea. com a barba 
branca quase a tocar no cho. Um ligeiro sorriso encarquilhou-lhe a face 
enrugada, como se quisesse apoiar as suas palavras com uma expresso de 
simpatia.
- Sou Ronsard - disse o cavaleiro, numa voz rouca. o esforo foi seguido 
por mais um gole de vinho. Os seus olhos, de um cinzento de ao sob a luz 
prateada, olharam em volta. para o apertado crculo de rostos dobrados 
para ele. - Onde estou? - perguntou baixinho.
- Estais entre amigos, senhor - respondeu Biorkis. - Este  o sagrado 
templo de Ariel e ns somos os seus humildes servos. Podeis falar  
vontade. Aqui. nenhum mal vos atingir,
Como se se sentisse tranquilizado por aquelas palavras suaves. o 
cavaleiro humedeceu os lbios e declarou. com as foras que foi capaz de 
reunir:
- Venho da parte do rei.
As palavras eram simples, mas atingiram as orelhas dos que o ouviam como 
se de um trovo se tratasse. O rei! Vem da parte do rei! O murmrio 
elevou-se e ecoou nos elevados arcos do templo.
Apenas Izash. ainda apoiado ao bordo. no pareceu impressionado.
- O nosso rei? Ou outro rei qualquer?
- Eskevar... o rei - retorquiu o cavaleiro cado. num tom mais vivo.
O nome provocou uma nova agitao entre os sacerdotes ali reunidos. O rei 
estava ausente havia tanto tempo, e o seu nome era to pouco ouvido entre 
os seus prprios compatriotas... Ouvi-lo dava novas esperanas a todos os 
que ali se encontravam.

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- Que novas nos trazeis do rei? - prosseguiu o velho sacerdote. Havia um 
certo mtodo nas perguntas. Estava a manter ocupada a mente do cavaleiro, 
fazendo-o esquecer-se dos ferimentos e da dor que lhe contorcia as faces 
rudes.
- No o posso revelar... S  rainha. Tomei o compromisso de entregar a 
minha mensagem apenas a ela. - O guerreiro engoliu o ar e voltou a 
humedecer os lbios. - Fui atacado a noite passada. emboscado por alguns 
fora-da-lei que dormem agora no meio da neve.
O cavaleiro mirou os rostos dos sacerdotes debruados sobre ele. 
Escorria-lhe sangue fresco da ferida, de novo aberta pelo esforo 
exercido.
- No tenhais preocupaes - declarou Biorkis num tom tranquilizador. - 
Permanecereis connosco at poderdes reatar a vossa misso. - Fez um gesto 
para os sacerdotes mais jovens, para que o ajudassem a colocar o 
cavaleiro sobre a enxerga que algum fora buscar. - Ningum vos 
incomodar com perguntas sobre a vossa misso. O segredo est a salvo 
dentro destas paredes. Agora, descansai, no gosto do aspecto desse 
ferimento.
- No! - gritou o cavaleiro, enrouquecido, com o rosto a contorcer-se 
numa agonia. Depois acrescentou num estranho murmrio spero: - Estou a 
morrer. Tm de entregar a minha mensagem  rainha. No pode esperar.
Biorkis dobrou-se, apoiando gentilmente a cabea do cavaleiro enquanto 
este era cuidadosamente transportado para a enxerga. O homem agarrou-se 
s madeiras dos lados da cama e soergueu-se. apoiando-se sobre os 
cotovelos. O sangue corria-lhe livremente ao longo da cabea e do 
pescoo. provocando manchas de um cinzento avermelhado em cima da tnica 
verde.
- Tm de me ajudar! - exigiu. - Um de vocs tem de ir at junto da 
rainha, no meu cavalo. - Oscilou e caiu sobre a cama. A cor fugira-lhe do 
rosto. Parecia morto aos olhos de todos os que o olhavam, receosos e 
espantados.
Impotentes, os sacerdotes olharam uns para os outros. Biorkis levantou-
se, com as mos a pingarem o sangue fresco do cavaleiro. Observou o rosto 
dos seus irmos e viu-lhes as expresses de preocupao. A seguir 
aproximou-se de Izash. que lhe fez sinal para se chegar para o lado.

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- Temos um problema indesejvel - comentou o velho sacerdote. - No vejo 
que ajuda lhe poderemos dar, salvo fazer tudo para lhe sarar as feridas e 
devolv-lo ao seu caminho o mais depressa possvel.
- -Mas o atraso...
- Quanto a isso, receio que nada possamos fazer.
- Todavia, poderemos fazer tudo o que est ao nosso alcance para o 
restaurar... e mesmo assim pode vir a morrer - objectou Biorkis. -Isto. 
se no for j demasiado tarde...
Na voz, e no aspecto do cavaleiro. houvera qualquer coisa que 
impressionara Biorkis. Sem dvida que o homem enfrentara grandes 
dificuldades, e mesmo agora recusava o leito de morte, sustentado apenas 
pela fora da mensagem que tinha de entregar. As notcias sobre o rei 
eram da mais alta importncia, fossem elas quais fossem. Era mais 
importante do que a prpria vida.
Naquele momento, o cavaleiro recuperou a conscincia. mas estava 
demasiado fraco para se conseguir erguer. Escapou-se-lhe um gemido baixo 
dos lbios cerrados.
- Ainda no nos abandonou - disse Izash. - Que persistente que  este 
correio.
Biorkis e o velho sacerdote colocaram as suas cabeas junto da do 
cavaleiro.
- Bom Ronsard - murmurou Biorkis -, no se esforce mais se quer salvar a 
vida. Dispomos de grandes poderes sobre as doenas e os ferimentos. j 
arrancmos muitas almas s mos de Manes. Descanse um pouco. Faremos tudo 
para curar as suas feridas e para lhe devolver foras para a sua misso.
- No! - ops-se o cavaleiro, com uma fora surpreendente. -No h tempo. 
Um de vocs tem de galopar at junto da rainha. - Os olhos imploravam ao 
sacerdote.
- Senhor, sabeis o que nos estais a pedir? - retorquiu Izash, agitando um 
brao para designar toda a assembleia de sacerdotes. - Estamos sob votos 
sagrados e no podemos abandonar o templo, excepto em peregrinao ou 
para assuntos da mais alta importncia sagrada. O destino das naes, dos 
reis e das potncias no nos diz respeito. Servimos apenas o deus Ariel. 
Somos seus sbditos e de mais ningum.
Biorkis olhou com tristeza para o homem moribundo.
- Essa  a fria voz do juramento que prestmos. O meu prprio

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corao diz-me: "Vai", mas no posso ir. Abandonar o templo para essa 
misso seria quebrar os meus votos sagrados. Qualquer sacerdote que o 
fizesse desperdiaria todo o trabalho da sua vida, e a sua alma perderia 
a felicidade eterna. No h aqui ningum que se arriscasse a faz-lo, nem 
eu o pediria.
Os sacerdotes acenaram com solenidade a sua concordncia. Alguns 
encolheram-se e afastaram-se, para no virem a ser arrastados para aquela 
tarefa, outros levantaram as mos, numa splica de impotncia.
- No h um nico que troque a sua vida pela minha? No h um nico que 
se arrisque ao desagrado do deus para salvar o rei? - O desafio do 
cavaleiro soou com violncia aos ouvidos dos que o rodeavam, apesar de o 
ter proferido em pouco mais do que um sussurro.
- Irei eu - disse uma voz insegura e fraca.
Biorkis, Izash e os outros sacerdotes viraram-se para a voz. Ali, nas 
sombras de uma arcada, estava a frgil figura do dono da voz. Avanou 
devagar, para se colocar ao lado do cavaleiro moribundo.
- Tu, Quentin? - perguntou Biorkis, espantado. Os outros sussurraram por 
detrs das mos erguidas. - Tu irs?

CAPTULO II

O poderoso cavalo transportava o seu insignificante cavaleiro com uma 
facilidade incansvel. Treinado na dura escola das batalhas, Balder 
estava habituado a suportar no seu largo dorso o peso de homens adultos 
equipados com armaduras completas. Quentin, agarrado, como uma folha 
gelada, ao magnfico pescoo do animal, quase no constitua um fardo.
O dia era ainda uma criana e, apesar de nublado, tal como o anterior, a 
camada de nuvens baixas dava sinais de se ir desfazer dentro de pouco 
tempo. O vento refrescara, provocando a cada nova rajada turbilhes de 
nuvens brancas por cima dos montes de neve. Cada uma dessas rajadas 
provocava um estremecimento nas costelas de Quentin. Perguntava a si 
mesmo se alguma vez voltaria a sentir-se quente. De qualquer modo. no se 
importava muito com o desconforto, pois a mudana h tanto tempo 
profetizada estava agora em andamento. Onde o levaria e qual o seu 
significado eram algo que desconhecia. De momento estava envolvido na 
aventura da mudana, mas mantinha os olhos atentos a qualquer augrio que 
se pudesse apresentar.
Nada surgia ante os seus olhos, excepto a vasta expanso branca, quebrada 
apenas por salincias escuras e irregulares que irrompiam da neve como 
cogumelos. Eram as cabanas dos camponeses, e por vezes via um rosto a 
espreit-lo da esquina de uma ombreira, ou um tmido aceno que reconhecia 
a sua presena, vindo de uma forma dobrada, no meio da neve, sob o fardo 
de uma carga de lenha para queimar.
Durante os seus sete anos dentro do templo, a terra, ou pelo menos 
Quentin assim o julgava, no se modificara muito. No entanto. algo se

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modificara. Havia qualquer coisa de inconfundvel nos olhos dos 
camponeses que se lhe deparava, algo que chocava sempre que a voltava a 
ver. Seria medo?
A ideia provocou-lhe uma sensao de inquietao. Haveria alguma coisa  
solta naquela terra que levasse a que as pessoas simples sentissem medo?
O grande cavalo castanho avanava com firmeza, com os cascos silenciados 
pelo colcho de neve. jactos de vapor emergiam-lhe das narinas quando o 
ar quente tocava no ar gelado. Quentin fez regressar os seus pensamentos 
 breve sucesso de acontecimentos que o tinham colocado na sela de 
Ronsard, o cavaleiro do rei.
Aps a sua oferta espontnea de ajudar o cavaleiro a cumprir a sua 
misso, tivera lugar uma longa e agitada discusso. Todos os interessados 
- Borkis, Izash, os outros sacerdotes, e at o prprio cavaleiro - se 
tinham mostrado contra. -Mesmo assim, depois de analisados todos os 
factos, continuava a no existir um plano melhor. Quentin partiria 
imediatamente, aps um nico dia de descanso e de alimento para o cavalo. 
o animal fora encontrado pacientemente  espera no ptio exterior do 
templo onde o seu amo o deixara antes de subir e desmaiar sobre os 
degraus. Tinham sido os relinchos do cavalo, a chamar o dono, que haviam 
alertado os guardas do templo, que a seguir haviam descoberto o cavaleiro 
ferido e meio gelado.
Relutante, Biorkis dera a sua aprovao ao empreendimento, porque, apesar 
da sua pouca idade estar contra ele, Quentin era a nica escolha lgica. 
Era apenas um aclito, no um sacerdote, uma vez que no prestara votos 
nem terminara a iniciao, um processo que em geral durava vinte ou mais 
anos. Quentin completara apenas sete anos de instruo. Aos quinze, tinha 
ainda anos de estudo pela sua frente. Outros, com a mesma idade, eram j 
novios. A estrada para o sacerdcio era muito comprida, e a maior parte 
iniciava-a quando ainda eram crianas pequenas. Quentin, apesar de 
dedicado  vocao que sentira aos oito anos, comeara muito tarde.
Agora, a sua carreira terminara. Nunca mais lhe permitiriam regressar ao 
templo, excepto como fiel adorador para suplicar uma bno do deus. 
Ariel era um deus ciumento, quando se lhe virava as costas nunca mais se 
era reconhecido. S distinguindo-se num grande acto de herosmo poderia 
Quentin ter de novo a esperana de recuperar os favores do deus. jurou 
faz-lo... logo que lhe surgisse a oportunidade.

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A viagem de Narramoor, a cidade santa, para Askelon, a fortaleza do rei, 
era uma questo de dois dias a cavalo. O templo, de acordo com as mais 
velhas tradies do reino de Mensandor, fora construido nas altas 
vertentes que dominavam as terras que protegia com as suas oraes. Na 
Primavera e no princpio do Vero, os peregrinos surgiam, vindos de todas 
as partes do pas, para pedirem em orao boas colheitas e gado saudvel. 
Cada cidade ou aldeia tinha tambm o seu pequeno templo, ou casa de 
oraes, presididos, conforme as necessidades. por um ou mais sacerdotes, 
mas a maioria dos fiis preferia fazer a peregrinao ao Alto Templo, 
pelo menos uma vez por ano, ou at com mais frequncia se isso lhes fosse 
possvel.
A estrada. serpenteando nas ngremes colinas por debaixo das denteadas e 
velhas montanhas de Fiskill, no era muito larga mas era bem 
conservada... ou pelo menos fora-o, at aos tempos em que o rei partira. 
Quentin no se recordava da partida do rei, pois na altura no era mais 
do que uma criana de colo. Todavia, nos anos seguintes, ouvira, e mais 
do que uma vez, os vvidos relatos do esplendor dessa partida.
O rei, vestido com trajos de batalha completos, ostentando o braso real 
- um terrvel drago vermelho todo contorcido -, conduzira os seus leais 
guerreiros atravs das gigantescas portas do castelo. No meio de um 
milhar de estandartes flutuando ao vento e do grito de milhares de 
trompas que tocavam nas altas muralhas, o exrcito do rei marchara pelas 
ruas repletas por uma multido que o aplaudia e dirijira-se para as 
plancies de Askelon. Dizia-se que o desfile durara meio dia, tantos eram 
os homens que nele seguiam.
O exrcito marchara para Hinsen-by-the-sea, ou Hinsen-by, como era em 
geral conhecida, e embarcara em resistentes navios de guerra que os 
aguardavam na baa de Hinsen. de onde tinham levantado ferro. Os navios 
haviam sido fornecidos pelo rei Selric, do pequeno reino insular de Drin, 
cujo povo era bem conhecido por produzir os melhores marinheiros do 
mundo.
Tinham-se-lhes reunido outros reis de outras terras, aumentando as suas 
foras para alm de tudo o que jamais fora visto, ou at imaginado. Iam 
enfrentar os brbaros Urd. uma raa de criaturas - a quem ningum tinha a 
ousadia de chamar humanos - to brutal e to selvagem que a sua prpria 
existncia punha em perigo todos os outros homens. Os Urd, unidos sob o 
mando do seu rei Gorr, haviam-se levantado

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num desafio a toda a ordem civilizada, jurando extinguir ou escravizar as 
outras naes. Queriam governar o mundo.
Os doze reis das naes civilizadas tinham-se reunido e declarado a 
guerra a Gorr, navegando ao seu encontro e batalhando com ele, nas suas 
prprias terras. antes que o diablico senhor tivesse tempo para lanar o 
seu exrcito contra eles. nas suas terras.
A luta comeara no princpio da Primavera, e no Vero j se pensava que a 
campanha chegaria ao fim antes do aparecimento do inverno, tal fora o 
sucesso inicial dos reis unidos. O astuto Gorr, vendo os seus guerreiros 
a perderem a coragem ante aquela terrvel matana, retirara para a macia 
fortaleza amuralhada de Golgor. Instalara-se a, defendendo-se com uma 
fora e um fervor que ningum poderia ter previsto. A partir de Golgor, o 
furioso gigante desafiava as valorosas foras dos reis. Os seus grupos de 
assalto, apesar de serem quase sempre repelidos com pesadas perdas, iam-
lhes desgastando as foras de um modo contnuo. O Inverno surgiu e 
deparou com os inimigos num beco sem sada.
A guerra, to facilmente ganha na Primavera, arrastou-se 
interminavelmente. Os anos passavam e a guerra prosseguia. Milhares de 
homens morriam naquele horrvel pas, onde nunca mais veriam os seus 
amigos e os seres que amavam. Vrios reis tinham-se retirado no stimo 
ano de guerra, regressando a casa com os esfarrapados restos do que 
haviam sido os seus outrora orgulhosos exrcitos. Porm, Eskear, Selric, 
Brandon, Calwitha e Troen haviam continuado a lutar.
Tanto quanto Quentin soubesse, ainda combatiam.
Quentin levantou os olhos para o horizonte. A sua viso alcanava, ao que 
lhe parecia, at ao infinito. A terra descia para todos os lados, sem 
qualquer obstculo, excepto quanto s grandes formas ocasionais de um 
pedregulho gigantesco ou de uma salincia escarpada que de vez em quando 
surgiam, de um modo abrupto, nas vertentes das colinas. Todavia, o 
delgado cavaleiro estava a sair das colinas e a linha escura da floresta 
aproximava-se como por magia.
Askelon, o seu destino, ficava do outro lado da floresta. Para l dela, 
para ocidente, jaziam as terras planas e as aldeias agrcolas, bem como 
as cidades das plancies, entre as quais Bellavee era a mais importante.
Para o extremo norte ficava Woodsend, uma substancial povoao de 
agricultores e artesos, firmemente implantada nas margens do rio

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Wlist, um longo e preguioso brao de gua que saa de Arvin, cujas 
guas. tal como acontecia com todos os rios que atravessavam o reino, 
tinham a sua origem nas montanhas de Fiskill, por cima de Narramoor. Para 
trs dele ficavam essas mesmas montanhas imponentes, e para l delas as 
regies de SuthIand. para o sul, e Obrev, para o norte.
Eram as denominadas Terras Selvagens. regies remotas e praticamente 
inexploradas, habitadas apenas por animais ferozes e por homens ainda 
mais ferozes, os Dher, ou Jher, como por vezes lhes chamavam. Os Ther 
eram os descendentes, sobreviventes, dos mais primitivos habitantes da 
Terra. Continuavam agarrados. como o musgo s pedras carcomidas pelo 
tempo, s suas maneiras obscuras. e no existia ningum que se recordasse 
de alguma vez se terem modificado.
Dizia-se que possuam muitos poderes estranhos, dons que os dispunham 
melhor para com as criaturas selvagens, com quem partilhavam as suas 
terras bravias, do que para com os seres humanos civilizados, para quem 
no eram companheiros aceitveis. Durante a maior parte do tempo os Jher 
mantinham-se nos seus domnios. e eram deixados em paz por todos. 
Quentin, tal como a maior parte dos jovens, nunca tinha visto nenhum. 
Existiam, para ele, como se fossem personagens de histrias para 
crianas, histrias contadas para assustar e levar os mais jovens  
obedincia sempre que mostravam alguma relutncia em comportarem-se como 
era apropriado.
Quentin despertou das suas meditaes sobre todas aquelas coisas e 
reparou que o meio-dia se estava a aproximar. Comeou em busca de um 
lugar abrigado para parar, onde pudesse comer e deixar o cavalo 
descansar, apesar de este no parecer nada fatigado com os esforos 
desenvolvidos. O fraco Sol de Inverno, que se debatera toda a manh para 
queimar uma passagem atravs da neblina, brilhou subitamente no alto, 
como um ferro em brasa a abrir caminho num pano de estopa. 
Instantaneamente, a paisagem transformou-se, perdeu o tom fantasma~ 
grico e ganhou um brilho encandeante.
Com o Sol, apesar de este parecer pequeno e distante, chegou o calor, ou 
pelo menos Quentin imaginou que sentia o calor a espalhar-se pelas suas 
costas e ombros, e a penetrar no espesso barrete forrado a peles. Na sua 
frente avistou um pequeno bosque de btulas. rodeado por uma confuso de 
arbustos miserveis e por algumas outras plantas

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de folha perene. O local oferecia um ligeiro abrigo contra o vento 
mordente. que, agora que o Sol aparecera, se tornara mais cortante.
Quentin achou que o Sol era um bom companheiro enquanto puxava as rdeas 
do cavalo e o amarrava a um ramo prximo. Descendo da montada, o rapaz 
remexeu no saco pouco fundo que Biorkis lhe fizera e que enchera de 
provises para a viagem. Retirou do seu interior um pequeno bolo de 
sementes, abriu a capa no cho e sentou-se para comer a sua refeio.
O Sol brincava~lhe no rosto. aquecendo-lhe as geladas pontas do nariz e 
das orelhas. Quentin tirou o barrete e virou o rosto para aquele 
agradvel calor. A sua mente regressou mais uma vez  confuso e agitao 
da partida, e recordou de novo, como j fizera centenas de vezes, as 
instrues que lhe tinham dado. Ir ter com o eremita da floresta de 
Pelgrin. Nunca parar, excepto para comer e descansar o cavalo. No falar 
com ningum. Entregar a carta apenas  rainha.
A ltima ordem iria ser a mais difcil, mas Ronsard, no seu ltimo acto 
antes de perder a conscincia, entregara-lhe a sua adaga como meio para 
conseguir uma audincia. A adaga dourada do cavaleiro seria reconhecida e 
revelaria a gravidade da ocasio. Quentin no estava to preocupado pela 
sua prxima presena na corte como seria de esperar. Estava cheio de 
curiosidade e assustado - mas na realidade a curiosidade sobrepunha-se ao 
medo - a respeito da misteriosa mensagem agora cosida no interior da sua 
simples jaqueta verde. Distrado, deu umas pancadinhas no local onde a 
carta se encontrava, em cima das suas costelas... O que estaria l 
dentro? O que  que poderia ser to importante?
Todavia, apesar de se sentir intrigado com o enigma que transportava 
consigo, uma parte da sua mente remoa um outro problema, como um co a 
roer um osso. Era algo em que no queria sequer pensar: o seu futuro. 
Evitava aquela ideia como quem evita uma dor, no entanto a mesma pairava-
lhe sempre nas franjas da conscincia, nunca inteiramente esquecida. 
Quentin punha a questo de parte, com toda a delicadeza, sempre que a 
sentia a introduzir-se nos seus pensamentos... -Que vais fazer depois de 
entregares a carta?"
O rapaz no tinha resposta para aquela pergunta, ou para a centena de 
outras, sobre temas semelhantes, que o assaltavam constantemente. 
Comeava a recear, a cada quilmetro que percorria, o fim da

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sua misso. Desejava - e no se tratava de um desejo novo - nunca
se ter oferecido. No entanto fizera-o. e lamentara-o imediatamente.
Todavia, era como se no possusse vontade prpria. Sentira-se
obrigado, por uma qualquer fora exterior. a responder ao apelo do
cavaleiro moribundo. Talvez o deus Ariel o tivesse empurrado para a
frente ou talvez tivesse sido apanhado pela terrvel urgncia do
momento. Por outro lado, os augrios haviam profetizado Ah. mas
desde quando  que os augrios diziam a verdade?
De olhos fechados, virados para o Sol. Quentin mastigava o bolo
de sementes meditando no seu destino. De sbito sentiu um toque de
frio no rosto, como se o Sol tivesse pestanejado. L no alto. muito por
cima dele, ouviu o apelo de uma ave. Quentin abriu um dos olhos e
encolheu-se ante o brilho do Sol. Semicerrando os olhos com fora e
protegendo-os com um brao estendido, Quentin acabou por conseguir
determinar a fonte do apelo... e nesse mesmo instante o seu corao
contraiu-se-lhe dentro do peito, como um punho fechado.
Ali, voando baixo sobre a sua cabea, estava o pior augrio que
era capaz de imaginar: um corvo descrevia crculos por cima dele, e as
suas asas projectavam sombras sobre a sua cabea.

CAPTULO III

O cu azul salpicado de nuvens dissolvera-se numa cpula violeta riscada 
por fios de laranja e de vermelho, e sobre a brancura da neve as sombras 
haviam ganho um escuro tom azul, ainda antes de Quentin encontrar o seu 
abrigo para a noite: a rudimentar cabana de troncos de Durwin. o santo 
eremita da floresta de Pelgrin.
Entre as classes baixas, o eremita era conhecido como sendo algum que 
ajudava os viajantes e cuidava dos camponeses e dos habitantes da 
floresta, que tinham com frequncia necessidade das suas artes curativas. 
Fora outrora um sacerdote, mas abandonara o templo para ser-vir um deus 
diferente, ou pelo menos era o que constava nas redondezas. Para alm 
disso pouco mais se sabia a respeito do eremita, excepto que nunca se 
encontrava longe quando a sua ajuda era necessria. Havia tambm quem 
dissesse que possua muitos e estranhos poderes, e que entre os seus 
talentos se encontrava a capacidade de chamar os drages para o exterior 
das suas grutas, apesar de nunca ningum o ter visto faz-lo.
A Quentin parecia-lhe estranho que Biorkis conhecesse, ou recomendasse. 
uma tal pessoa para o ajudar, mesmo que essa ajuda fosse apenas uma cama 
para passar a noite. Biorkis entregara-lhe uma moeda de prata para dar ao 
eremita. dizendo: "Sada esse nosso irmo em nome do deus e d-lhe este 
penhor." Fora ento que lhe colocara a moeda na mo. Isto ir dizer-lhe 
muita coisa. Diz-lhe que Biorkis lhe manda saudaes..." Fizera uma pausa 
e depois acrescentara: " ... e que procura uma luz mais brilhante." O 
sacerdote virara-lhe as costas e afastara-se rapidamente, acrescentando, 
mas quase s para si mesmo: "Isso ainda lhe ir dizer mais."

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Assim, Quentin descobria-se agora sobre a fraca luz crepuscular do que 
fora um brilhante dia de Inverno. A cabana ficava a curta distncia da 
estrada mas completamente oculta das vistas, por se encontrar rodeada por 
enormes carvalhos, por folhagem verde e por espessos macios de tojo e 
silvas. Quentin precisou de algum tempo para a localizar, mesmo apesar 
das indicaes, muito precisas, que recebera.
Por fim descobrira-a. Era uma construo baixa, achatada, que parecia ser 
formada quase s por telhado e chamin. Duas pequenas janelas espreitavam 
para o mundo e a entrada estava fechada com uma curiosa porta, redonda na 
parte superior. A residncia pouco atraente encontrava-se aninhada num 
outeiro. na extremidade de uma clareira natural, o que permitia uma 
espaosa viso do cu. O cho subia ao encontro da casa numa inclinao 
suave, pelo que era preciso subir um pouco para se alcanar a porta da 
frente.
Quentin cavalgou calmamente at  entrada da cabana. Sentado no cavalo, 
poderia saltar para cima do telhado com toda a facilidade. -No entanto, 
preferiu deslizar do largo dorso do animal e bater na pesada porta de 
carvalho com a palma da mo. Aguardou, inseguro: a mo quase no 
produzira nenhum som, e se no fosse o fumo que se erguia lentamente da 
chamin de pedra seria capaz de desconfiar que a casa se encontrava 
abandonada. No entanto, estivera ali algum, pois a neve do cho da 
clareira encontrava-se muito espezinhada, com pegadas de homens e de 
animais.
Quentin retirou a adaga do cavaleiro do seu lugar, no cinto, por debaixo 
da capa, e segurando-a pela lmina utilizou-a para voltar a bater na 
porta. desta vez com um resultado mais satisfatrio. Ficou  espera.
Agora, j o cu estava a escurecer rapidamente. O Sol encontrava-se muito 
baixo, e sentia que o frio se lanava mais uma vez sobre a terra. Do 
interior no vinha um nico som.
Reunindo a sua coragem, Quentin experimentou o fecho rudimentar e 
descobriu que o conseguiria mover se fizesse alguma fora. Apoiou todo o 
seu peso na porta e empurrou. A porta de tbuas grosseiras girou nos 
gonzos e abriu-se com facilidade.
Quentin cambaleou para o interior com um pouco mais de cerimnia do que 
planeara, tropeando no limiar.
A sala era muito maior do que teria podido imaginar a partir do exterior. 
e estava afundada abaixo do nvel do cho. Havia degraus de pedra que 
desciam para a sala, quente e agradvel, iluminada pelo fogo

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que ardia na larga e generosa lareira. Estava mobilada com um estranho 
conjunto de mveis feitos  mo: cadeiras, mesas grandes e pequenas, 
bancos, uma grande cama cheia de altos e baixos, e algo que surpreendeu e 
deliciou Quentin: livros. Havia inmeros rolos empilhados nas mesas e 
enfiados em prateleiras de madeira. Muito mais rolos do que jamais vira, 
mesmo na biblioteca do templo.
Quentin abarcou tudo aquilo enquanto os olhos se ajustavam  relativa 
escurido da sala. Verificou tambm que o lugar estava vazio do seu 
principal habitante. Aparentemente, Dur-win estava ausente, talvez 
nalguma misso piedosa na floresta prxima. Quentin decidiu entrar e 
esperar pelo regresso do eremita, e puxou um banco para junto do fogo que 
ardia lentamente na lareira.
Quentin no soube se acordou por causa do som ou do cheiro. As vozes 
pareceram penetrar-lhe na conscincia, vindas de muito longe. No 
conseguia compreender as palavras, mas apenas o montono zumbido de duas 
vozes que conversavam num tom baixo mas com algum entusiasmo. A sua 
conscincia apercebeu-se de um cheiro a comida quente e muito 
condimentada com alho. Abriu os olhos.
Estava tapado com a sua prpria capa, deitado a alguma distncia da 
lareira. Avistou duas grandes figuras junto do fogo. Uma delas estava 
ajoelhada  beira da lareira, mexendo o contedo da panela negra com uma 
comprida colher de madeira. A outra sentava-se num banco. de costas para 
Quentin, pouco revelando das feies ou da estatura. Os dois homens 
usavam largas capas pretas. Enquanto conversavam, as suas longas sombras 
danavam na parede oposta como bonecos animados num teatro de sombras.
Quentin ps-se de p com cuidado. O movimento chamou imediatamente a 
ateno do homem atarefado com o borbulhante panelo.
- Ah! O nosso jovem amicro est vivo! Bem to disse, Theido... - Fez uma 
careta para o outro, que se virou para observar o jovem com uma expresso 
inquiridora. - Bem te disse que a minha sopa o faria acordar! 
Enfeitiado... Bah!
Embaraado por ter adormecido e por ser agora o centro de todas aquelas 
atenes, apesar de serem bem-humoradas, Quentin avanou timidamente para 
o fogo e dirigiu-se aos dois homens ao mesmo tempo.
- Sou Quentin, ao vosso dispor, senhores.

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- E ns ao vosso - foi a resposta habitual.
Remexeu no cinto, em busca da moeda de prata.
- Trago-lhe isto. com as saudaes de Biorkis, sacerdote do Alto Templo.
As saudaes soaram muito rgidas e formais, o que para Quentin estava 
muito bem, por se sentir inseguro quanto  espcie de recepo que iria 
ter. No entanto soube. logo que colocou a moeda na mo de Durwin, que 
nada tinha a temer daquele homem. O rosto de Durwin irradiou uma luz de 
simpatia. Os brilhantes olhos azuis espreitaram-no de debaixo de uma pele 
sulcada e enrugada como couro macio. queimado pelo Sol. Umas grandes e 
espessas sobrancelhas castanhas, que pareciam ter vida prpria, davam 
relevo s palavras do eremita e tinham o seu equivalente. plo por plo, 
na vasta floresta de um bigode e uma barba. Por debaixo da capa usavam os 
trajos simples de um sacerdote, mas em cinzento e no em castanho.
- Ento  isso? O velho fuinha enviou-te com isto? De verdade? -
Pensativo, o eremita virou a moeda na mo, de um lado para o outro. - 
Pois bem, suponho que no podemos fazer nada, no ? - A seguir virou-se 
para Quentin e prosseguiu: - H um caminho muito mais amplo do que muitos 
pensam... mas tenho a certeza de que no fazes a menor ideia daquilo que 
te estou a dizer. - Quentin mirava-o sem expresso. - Pois . claro que 
no... - murmurou o eremita para si mesmo. - Disse-te mais alguma coisa? 
- perguntou o santo homem.
- S mais isto: que procura uma luz mais brilhante.
Ao ouvirem as palavras, os dois homens explodiram em gargalhadas. Era 
bvio que o segundo, o que permanecera em silncio, acompanhara a 
conversa com ateno.
- Ento disse isso? - Durwin riu-se. - Pelas barbas dos deuses. ainda h 
esperana para Biorkis!
Quentin ficou mistificado com aquela exploso. Sentia-se desajeitado e um 
pouco utilizado, transmitindo anedotas de que nada sabia, a estranhos que 
se riam  sua custa. A sua expresso devia ter mostrado que no aprovava 
aquela frivolidade, porque Durwin parou imediatamente de se rir e 
devolveu-lhe a moeda de prata.
- Esta moeda  o smbolo de um sacerdote expulso - explicou. - Olha... - 
Meteu a mo nas roupas e puxou por uma moeda de prata que usava ao 
pescoo, numa corrente. - Tambm tenho uma.

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Quentin pegou nas duas moedas e examinou-as. Eram iguais at aos mnimos 
pormenores, excepto ser visvel que a de Durwin era mais antiga e mais 
usada.
- So moedas do templo, cunhadas para ocasies especiais e dadas aos 
sacerdotes quando morrem, ou se vo embora, como pagamento pelos seus 
servios ao deus. Fraco pagamento, hem!
- J foi... um sacerdote - interrogou-se Quentin, em voz alta.
- Sim. claro. Biorkis e eu somos bons amigos. Entrmos juntos
para o sacerdcio. Crescemos juntos.
- Basta de falar dos velhos tempos - interveio o estranho, impaciente. - 
Durwin, apresenta-me ao teu hspede, como convm.
Quentin virou-se e encarou o homem moreno. que at quele
momento quase ignorara. Tinha uma estatura acima da mdia, calculou
Quentin, mas sem ter a certeza porque o homem se encontrava sentado
num banco baixo, com as pernas cruzadas na sua frente. As roupas
eram de uma cor escura e indistinta, e consistiam numa comprida capa
usada solta por cima de uma tnica apertada e calas do mesmo tecido
escuro. Ostentava um largo cinto preto  cintura, onde se podia ver uma
bolsa de cabedal bastante grande. No entanto. foram as feies do
homem que dominaram as atenes de Quentin Sob a luz da lareira,
o rosto era inteligente, de olhos brilhantes e atentos. Uma testa alta 
ele
vava-se at um cabelo escuro e denso. puxado para trs e caindo quase
at aos ombros. O nariz aguado sobressaa sobre uma boca firme. que
se abria para revelar dentes direitos e brancos. No seu conjunto, a 
aparncia era a de um homem de aco e movimento, de reflexos rpidos
e uma inteligncia talvez ainda mais rpida.
- Quentin - dizia o ex-sacerdote -. este homem para quem
agora ests a olhar  o meu velho amigo Theido, muito bem-vindo a
esta humilde casa, onde a sua falta  muitas vezes sentida.
O homem baixou a cabea, agradecendo aquela cortesia. Quentin
fez uma rgida vnia de respeito, dobrando-se pela cintura.
- Tenho muito prazer em conhecer-te, jovem senhor - afirmou
Theido. - Sei, por experincia, que os sacerdotes expulsos do bons
amigos. - Os dois homens riram-se outra vez. Apesar de no saber o 
motivo, Quentin riu-se tambm.
Os trs jantaram uma espessa e saborosa sopa acompanhada por

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po escuro, tudo aquilo empurrado por uma forte cerveja de um tom 
castanho-escuro que Durwin fermentava na perfeio. Depois dos esforos 
daquele dia, entin tinha um apetite igual ao dos dois homens e comentou, 
em vrias ocasies, que nunca tinha saboreado comida to boa.
Depois de comerem, conversaram. A conversa vagueou de tema para tema, 
cobrindo tudo o que existia no mundo. A Quentin pare~ ceu-lhe que nenhum 
assunto, desde abelhas a adagas ou livros, fora deixado de fora. Nunca 
antes Quentin participara numa tal camaradagem, pois as estritas regras 
do templo obrigavam a que os contactos entre os sacerdotes fossem muito 
formais e extremamente refinados. Apesar de se ter limitado a escutar 
durante a maior parte do tempo, Quentin achou que aquela nova sensao, a 
de se encontrar sentado em volta de uma mesa com boa comida e a conversar 
com amigos, era inebriante. Divertia-se com ela e absorveu-o tanto quanto 
lhe foi possvel. Do fundo do corao, desejava que aquela noite se 
prolongasse para sempre. Por fim, Durwin levantou-se e sacudiu a cabea 
fatigada.
- A companhia  boa, mas temos de ir para a cama. Amanh poderemos 
conversar mais um pouco.
- Amanh, terei de partir - disse Quentin, que se esquecera completamente 
da sua misso. Olhou, apreensivo, para os rostos dos dois homens, que o 
miravam com ateno.
- To depressa? - perguntou Durwin. - Pensei que poderias ficar algum 
tempo. Gostava de te mostrar o que tenho andado a fazer desde que 
abandonei o templo.
- E como  que te vais embora? - inquiriu Theido.
- O meu cavalo! - cruinchou Quentin. No meio daquela conversa amigvel em 
volta da mesa do eremita, tambm se esquecera do animal. Correu para a 
porta e abriu-a, espreitando para a noite negra e gelada. No havia 
vestgios do cavalo. Virou-se para os homens com uma expresso de horror. 
- Perdi-o!
- Como era o cavalo? - perguntou Theido com uma piscadela de olho.
- Castanho... e era o mais belo cavalo que jamais vi. Agora... perdi-o!
- Vem comigo - ordenou Durwin num tom ligeiro. - Creio que iremos 
concluir que o cavalo no foi para muito longe.

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O eremita virou-se e desapareceu por detrs de uma divisria carregada de 
rolos de pergaminho. Quentin baixou-se por detrs dessa divisria e 
descobriu que a mesma servia para esconder a entrada de outra sala, com 
uma porta fechada por uma imensa pele de urso. A sala estava escura e 
tranquila. mas quente, e libertava um forte cheiro a feno e cavalos. 
Durwin levava consigo um coto de vela, de que se serviu para acender uma 
tocha de breu que se encontrava num suporte de parede. A chama fuliginosa 
estremeceu e deitou imenso fumo, mas depois pegou bem e lanou uma luz 
firme  sua volta.
Aquele anexo da casa do eremita era uma pequena gruta. A casa de Durwin 
fora construda exactamente de encontro  entrada da gruta, o que 
explicava o liso cho de pedra da sala onde se encontrava a lareira.  
plida luz da tocha, Quentin pde ver a sua montada ao lado de dois 
outros animais ligeiramente mais pequenos, com o focinho enfiado num 
monte de feno doce que lhes tinham atirado para que o comessem. Aliviado, 
e um pouco embaraado, Quentin agradeceu ao seu hospedeiro por se ter 
lembrado de tratar do animal.
- Calculmos que no eras um verdadeiro cavaleiro - comentou Theido de 
bom humor - quando o vimos parado em frente da porta sem estar preso. Um 
animal vulgar ter-se-ia afastado em busca de qualquer coisa para comer. O 
teu cavalo est bem ensinado, mas suponho que no s o seu dono.
Quentin abanou a cabea com tristeza.
- Pertence a outro... ou pertencia...
- Basta! Agora vamos dormir e falaremos destas coisas amanh de manh... 
Manh que, se no me engano, no est muito distante.

CAPTULO IV

Fora decidido, quase sem perguntarem pela opinio de Quentin mas no 
contra a sua vontade, que Theido o acompanharia durante o resto da 
viagem. O assunto fora discutido por cima de um alegre pequeno-almoo de 
papas e leite, com po mergulhado em mel. Quentin comeu com um entusiasmo 
pouco vulgar, cheio de boa disposio e de um renovado esprito de 
aventura.
Os dois homens tinham-se mostrado consideravelmente surpreendidos por 
Quentin ter conseguido chegar at quele ponto da floresta sem qualquer 
incidente. Theido dissera, rindo-se:
-  nossa volta, a floresta de Releria serve de abrigo a malfeitores de 
todo o tipo. Alguns deles daro um grande valor ao teu cavalo... - e 
Durwin acrescentara - e muito pouco ao cavaleiro.
- No ousaro tocar-me - anunciou Quentin de um modo descuidado, muito 
convencido dele prprio e cheio de boa disposio. Levo uma carta para a 
rainha.
Ante aquela declarao, a primeira sugesto da misso clandestina de 
Quentin, os dois homens quase saltaram dos assentos. A boca de Quentin 
fechou-se de repente, alarmada, ao verificar que revelara o seu segredo.
- A rainha? - exclamou Theido, recompondo-se instantanea~ mente. - Que 
assunto podes ter tu a tratar com a rainha, meu rapaz?
Quentin revelava-se agora mais cuidadoso e reservado.
- Isso  comigo e no vos diz respeito - retorquiu, um pouco zangado, mas 
a zanga era por causa do seu prprio descuido e no se dirigia contra o 
interlocutor,

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- Essa carta no ser, por acaso, do rei? - insistiu Theido.
- No falarei mais no assunto, senhor - retorquiu Quentin.
Naquele momento. Durwin intrometeu-se na conversa:
- jovem senhor, pode no te ter ocorrido imediatamente, mas j h algum 
tempo que o meu amigo e eu compreendemos que ests encarregado de um 
assunto de alguma importncia. O teu cavalo, por exemplo,  a montada de 
um campeo e no a montada de um aclito. Aposto que a tua expulso do 
templo no se deveu a qualquer quebra propositada dos votos sagrados, mas 
sim por necessidade, por causa da misso de que ests encarregado. - 
Durwin calou-se para olhar Quentin com ateno. Este corou um pouco sob o 
escrutnio do eremita e pelo sbito reconhecimento de que era demasiado 
transparente. - Vejo que no me enganei na minha apreciao.
- Rapaz, podes confiar em ns. No te desejamos qualquer mal. Creio que 
no poders descobrir dois melhores homens para guardarem o teu segredo, 
como se as suas prprias vidas estivessem em jogo. - Theido falou de um 
modo tranquilo e com profunda convico. Quentin acreditava naquele alto 
desconhecido, mas deixou-se ficar sentado, num silncio sombrio, sem 
saber se deveria falar mais ou calar-se.
- Possuis uma fora de vontade e uma coragem que seriam mais que 
suficientes para dois do teu tamanho - prosseguiu Druwin. - No entanto, 
esto em curso acontecimentos contra os quais a bravura e a fora, sem 
mais nada, no chegam. Creio que Biorkis se apercebeu disso e te mandou 
vir ter comigo, na esperana de que eu adivinhasse a seriedade da tua 
misso e te ajudasse, se pudesse. Talvez tenha sido o prprio deus quem 
te levou a revelar o segredo na nossa presena, para te evitar males 
maiores.
-  assim to perigoso... que um sbdito queira falar com a sua rainha? - 
perguntou Quentin num tom sombrio.
Os dois homens acenaram em silncio. Theido replicou:
- Ver a rainha no oferece qualquer dificuldade... desde que consigas 
entrar vivo no castelo. H aqueles que preferem mant-la ignorante do que 
se passa no mundo exterior, para melhor poderem plantar as suas sementes 
diablicas.
- Sem a nossa ajuda, nunca conseguirs chegar junto da rainha. O prncipe 
Jaspin apanha-te... se um bando qualquer de fora~da-lei no o fizer 
primeiro.

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- Prncipe Jaspin? - interrogou-se Quentin, admirado por nunca ter ouvido 
aquele nome.
- O prncipe Jaspin - explicou Durwin -  o irmo mais novo do rei 
Eskevar. Tem desgnios relacionados com o trono de Askelon, e j fomenta 
feitos de grande impudncia e traio, com uma ousadia cada vez maior. os 
homens honestos tm medo de perder as suas terras e vidas se se 
levantarem contra ele. Muitos dos nobres que no alinharam de boa vontade 
nas suas intrigas perderam tudo o que tinham para esse co ambicioso. 
Quentin revolveu na mente todas aquelas novas informaes, mas ficou sem 
saber o que fazer. Por fim decidiu confiar no ansio sacerdote e no seu 
invulgar amigo, partilhando com eles o resto do segredo.
- Vou procurar a rainha - declarou devagar - para lhe entregar uma 
mensagem de importncia. H dois dias, apareceu no templo um cavaleiro 
ferido, que pediu a nossa ajuda. Fora assaltado por bandidos e estava a 
morrer. Ofereci-me para transportar a mensagem, escrita em segredo e 
selada. Monto o seu cavalo... e esta  a sua adaga. - Quentin puxou a 
capa para trs para revelar o punho de ouro da adaga.
- E o cavaleiro Sabes como se chamava? - inquiriu Theido,
muito depressa.
- Sim. Era Ronsard.
- Ronsard! Tens a certeza?
- Sim, assisti a tudo. Disse como se chamava e pediu que algum
levasse a mensagem  rainha. Eu ofereci-me.
- Ento ainda s mais corajoso do que pensvamos - comentou
Durwin.
- Nesse caso. a mensagem  do rei - disse Theido. - Ronsard
 um dos seus guardas pessoais, um cavaleiro sem par em coragem e
valor. - Olhou com tristeza para Quentin. - Est morto, no foi o que
disseste?
- Sim Bom - Quentin hesitou. - Creio que sim. No fiquei
 espera at ao fim, mas encontrava-se muito prximo da morte quando
parti. - Calou-se, recordando de uma maneira muito vvida os 
acontecimentos que o tinham levado at ali. Sentia-se receoso e muito 
solitrio. - Poderei confiar No me trairo? Prometi no revelar
Durwin levantou-se do seu lugar, deu a volta  mesa e colocou a
mo no ombro de Quentin.

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- Meu filho. prestaste um grande servio  rainha quando partilhaste o 
teu segredo connosco. -Muito provavelmente, prestaste um servio ainda 
maior ao rei, e penso que Ronsard ficaria satisfeito se esta ideia 
tivesse sido dele.
- O eremita diz a verdade - afirmou Theido. - Agora, temos de fazer 
planos para entregarmos a tua mensagem. os fora-da-lei vo ser a menor 
das nossas preocupaes.

Theido e Quentin abandonaram a cabana do eremita por volta do meio-dia, 
quando ligeiros flocos de neve desciam lentamente para o cho, para se 
misturarem  brancura, j bem profunda, que o cobria. Durwin deixara-se 
ficar para trs, para tratar dos seus assuntos habituais, afirmando: 
"Estarei  espera com uma sopa quente e uma bebida fria, quando voltarem. 
Se fosse convosco s serviria para vos atrasar." Quando guiaram os 
cavalos ao longo do estreito trilho que dava para a estrada, escutaram a 
sua alta voz a gritar, no meio do silncio do Inverno: "Deus vos 
acompanhe e apresse o vosso regresso em segurana!"
- Qual  o deus que Durwin serve? - perguntou Quentin depois de terem 
cavalgado alguns minutos em silncio, perdidos nos seus prprios 
pensamentos.
Theido pareceu ficar a pensar na pergunta e levou tempo a responder:
- No sei se Durwin alguma vez lhe pronunciou o nome... Pode ser que no 
o tenha.
Um deus sem nome? A ideia ocupou a mente de Quentin durante muito tempo.
Cavalgaram atravs da floresta, uma densa e velha mata cerrada de 
antiqussimos carvalhos que teciam os seus ramos por cima do caminho. 
numa entrelaada cobertura de troncos nus. Aqui e acol, havia pinheiros, 
finos como dedos, que trepavam por entre os troncos dos carvalhos para 
procurarem a luz do alto. os cavalos moviam-se com facilidade, porque a 
neve no atingira grande profundidade no cho da floresta. Theido 
cavalgava  frente, no seu palafrm castanho e rpido, e Quentin, montado 
no poderoso Balder, seguia-o no muito atrs, do lado direito.
Quentin escutava os sons da floresta: neve que caa dos ramos das rvores 
com um suave plop, o estalar de um ramo contrado pelo frio, o apelo 
solitrio de uma ave, ntido e claro,  distncia. At o silncio estava 
cheio de sons quando se escutava com ateno.

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- Pensas que iremos encontrar foragidos por aqui? - perguntou Quentin 
passado algum tempo, lembrando-se do que tinha sido dito antes.
- Tenhamos esperana de que iremos encontrar apenas rvores e neve. No 
entanto h aqui alguns fora-da-lei que so mais honestos do que tu, ou 
eu, homens que foram empurrados para o refgio da floresta pelo prncipe 
Jaspin e pelo seu bando de patifes e ladres. - As palavras haviam sido 
pronunciadas com um calmo tom de desafio, que Quentin conseguia perceber 
com facilidade. Contudo, havia mais qualquer coisa no tom sombrio do 
homem moreno, que no conseguia entender. - Se por acaso se nos deparar 
algum no meio desta floresta, reza para que sirva um nico senhor, o Rei 
Drago - prosseguiu Theido. - Tenho alguma reputao entre essa gente.
- Talvez a neve os mantenha no interior da floresta - comentou Quentin. 
No entanto, no preciso momento em que falava, as nuvens por cima da sua 
cabea deram sinais de se quererem abrir. Os ltimos flocos de neve 
deslizavam devagar para o cho.
- Sim, talvez. No entanto, um viajante  uma viso bem recebida, nos 
tempos que correm. Os homens que dantes viajavam para o estrangeiro em 
negcios ganharam o hbito de contratar escoltas armadas, ou de se 
juntarem em grandes grupos, na esperana de que os nmeros bastem para 
afugentar os ladres. Na maior parte das vezes evitam passar pela 
floresta. e os que tm a sorte suficiente para a passarem sem problemas 
so, de qualquer modo, bem observados. Tu, meu jovem amigo, tiveste muita 
sorte em ter escapado sem dar nas vistas at este momento. No tiveste 
medo?
- No sabia que os ladres se tinham transformado num problema assim to 
srio...
- As notcias nunca chegam ao alto da montanha, hem? Os deuses e seus 
ser-vos no se preocupam com o que se passa no reino dos homens? - Theido 
riu-se de uma maneira estranha. - Mensandor est cercada por grandes 
sarilhos. Homens que outrora eram honestos viraram-se uns contra os 
outros, o sangue inocente escorre todos os dias. Passamos por uns tempos 
muito difceis...
- No ouvi nada... - replicou Quentin, como que a defender-se. No 
entanto, no sabia de qu.
- Suponho que no. Talvez fosse melhor assim. A inocncia  um

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dom. Quem sabe, talvez nunca te Oferecesses como voluntrio para uma tal 
misso se soubesses o que tinhas pela frente.

Por fim, quando lhes restava apenas uma hora de luz do dia, a floresta 
comeou a enfraquecer. a tornar-se mais dispersa e aberta. Ento, de um 
modo bastante inesperado, os dois cavaleiros viram-se livres dela. Em 
frente, do outro lado de um largo vale cortado por uma profunda e 
estreita torrente, erguiam-se as enormes muralhas de Askelon.
A fortaleza real coroava o alto de uma colina e brilhava sob a fraca luz. 
As suas altas torres possuam um amplo campo de viso, at ao horizonte, 
e podiam ser avistadas de muitos quilmetros em redor. Com a luz 
avermelhada do cu por detrs dela, a poderosa fortaleza pairava no alto 
como uma sombra negra e ameaadora, e parecia-se com um fantstico drago 
enrolado sobre um leito de pedra. Quentin estremeceu sobre a sela. Havia 
muito que sonhara com aquela viso, e agora tinha-a na sua frente.
- Diz-se que este castelo  a coisa mais antiga, feita pelos homens, que 
existe sobre a Terra - afirmou Theido. - De todas as antigas maravilhas, 
s Askelon sobreviveu. O rei Celbercor, quando chegou a este pas, 
colocou ele prprio a primeira pedra. O castelo s ficou pronto mil anos 
mais tarde. Pode abrigar cinquenta mil homens prontos para o combate, e 
metade desse nmero em cavalos. No h nenhuma outra fortaleza, feita 
pelo homem, que se lhe possa comparar. Resistiu a cercos aps cercos e 
guerras aps guerras. Aquelas muralhas j se encontravam de p quando os 
pais dos nossos pais eram crianas, e ainda ali estaro quando no 
passarmos de p, nos nossos tmulos.
- Nunca foi conquistada?
- Nunca, pelo menos do exterior e  fora. Porm, as intrigas, as lutas 
internas, j derrubaram muitos reis. Nem muralhas como aquelas conseguem 
deter as traies.
Os dois cavaleiros desceram a suave vertente da colina e atravessaram 
rapidamente o rio. j comeavam a faltar-lhes os ltimos clares do dia, 
mas havia luzes a brilhar na aldeia que se amontoava por debaixo das 
protectoras muralhas de Askelon.
Quando se aproximaram, a grande forma negra por cima deles perdeu-se na 
noite, como uma montanha a desaparecer por detrs de uma sombra. As luzes 
amareladas das janelas ficavam cada vez mais perto, a

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cada passo, e lanavam uma luz quente sobre a neve. Quentin ouviu vozes
no interior das casas por onde passaram e, ocasionalmente, chegava-lhe
s narinas o cheiro a fermento, do po quente, ou o odor de carne 
grelhada sobre o fogo. De repente sentiu-se muito cansado e esfomeado.
- Iremos directamente  rainha?
- No, penso que no. Teremos tempo. amanh. Quero descobrir
como correm as coisas na corte nestes dias. j no vinha aqui h algum
tempo. - Fez uma pausa, puxando pelas rdeas do cavalo. para que
Quentin se colocasse a seu lado, e falou num tom muito mais baixo.
- Esta noite, s meu sobrinho, se algum se mostrar curioso. Fala apenas 
quando te falarem e no digas uma palavra a respeito do rei ou da
rainha. Nunca tires os olhos de mim. compreendes?
Quentin fez um aceno rpido.
- Ento.--- muito bem - continuou Theido, numa voz mais descontrada. - E 
que tal um jantar?
Quentin levantou os olhos e viu que tinham parado no exterior de
uma pousada de dimenses relativamente grandes. Por cima da porta
encontrava-se uma tabuleta meio apagada pelo tempo, dando as
boas-vindas aos viajantes e exibindo o retrato pintado de algum, ou
alguma coisa, que Quentin no conseguia distinguir.
Quando desmontaram, a porta abriu-se de repente e surgiu um
homem baixo, com uma tnica curta e calas largas, e um pano branco
enrolado em volta da volumosa cintura, que avanou para eles com
grande vivacidade.
- Bem-vindos! Bem-vindos! - guinchou o homem. - O jantar
est a ser servido. Se se apressarem ainda encontraro lugares  mesa!
Despachem-se! No se preocupem, tomarei conta dos vossos cavalos!
-  uma grande amabilidade tua, Milcher - disse Theido com um
risinho. - Continuas to cego como sempre Nem sequer sabes quem
 que ests a arrastar l para dentro... e no te preocupas com isso!
- Pelos deuses! s tu, Theido? - O homem aproximou-se e espreitou o rosto 
do alto viajante. - Sim,  claro. Sabia que eras tu. Reconheci-te a voz. 
Entra, entra. Est demasiado frio para dar  lngua aqui
fora. Entrem os dois! - Tirou-lhes as rdeas das mos e conduziu os
cavalos para o outro lado da estrutura meio arruinada da pousada. -
Depressa, o jantar est a ser servido! - gritou uma vez mais, quando
desaparecia na esquina da pousada.

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Os dois viajantes avanaram para a entrada. Quando Theido empurrou a 
larga porta, colocou uma das mos no ombro de Quentin.
- Lembra-te do que te disse. - Levou um comprido dedo aos lbios. Quentin 
acenou uma confirmao, com um sorriso furtivo.
- Sim ... tio.

CAPTULO V

A sala era barulhenta por causa das pessoas a falarem em voz alta e do 
tilintar das jarras de cerveja... o fumo das velas sobre a mesa, das 
tochas das paredes e do fogo que ardia na lareira, com uma chamin que 
tirava mal, enchia a baixa sala com um tecto de vigas. A cena era 
simultaneamente alegre e descontrada, barulhenta e entusistica. Quentin 
descobriu-se com um grande sorriso no rosto ainda mal dera dez passos no 
interior. Theido empurrou-o para uma comprida mesa a apenas alguns passos 
da lareira. Ao contrrio do que Milcher insinuara, havia muitos lugares  
mesa, pois naquela noite a maioria dos hspedes parecia preferir alimento 
lquido. Porm, o estalajadeiro tivera razo noutra coisa: tinham chegado 
mesmo a tempo. Mal tinham acabado de se sentar no duro banco numa das 
extremidades da mesa quando comearam logo a aparecer os pratos de comida 
fumegante. O amontoado de pratos de carne, vegetais e vrias qualidades 
de po e queijo foi servido por uma mulher forte, com um sorriso fcil e 
faces vermelhas, e por um rapaz magricela e de ar apalermado que 
cambaleou, desajei~ tado, ao colocar os pratos de estanho sobre a mesa.
- Cuidado, Otho! - exclamou a mulher com amabilidade. - j comeste o teu 
jantar, agora deixa estes bons cavalheiros comerem o deles em paz e 
sossego!
O par de cmicos bateu em retirada para a cozinha, para reaparecer a 
intervalos regulares, incomodando os clientes com mais comida e bebida.
- Comam! - ralhava-lhes a mulher. - Comam, comam! Por favor, no esto a 
comer!

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Quando os convivas em volta da mesa terminaram a refeio, deram os 
lugares a outros. Theido e Quentin, por ordem do primeiro, comeram com 
uma calma e lenta deliberao. O olhar atento de Theid( mirava 
constantemente a ruidosa cena que os rodeava, alertado para o menor 
indcio de terem sido descobertos. No entanto, nem os seus olhos rpidos 
conseguiram ver um homem pequeno e muito moreno que apareceu  porta como 
uma sombra e deslizou para um corredor escuro. O espio partiu momentos 
depois, tambm sem ser detectado.
Passados alguns instantes. Milcher, o pequeno e atarefado proprietrio da 
estalagem, apareceu para ver como se encontravam os seus mais recentes 
hspedes.
- Desta vez vais passar a noite connosco. espero? - perguntou
- Sim, tens-nos  tua merc - replicou Theido com um sorriso
- Belo! Foi o que pensei. e por isso j preparei a cama para os vossos 
cavalos, Ah, mas quem  este? - exclamou, reparando na mirada benevolente 
de Quentin. - No creio que me tenhas apresentado o teu amigo, Theido! - 
Lanou um sorriso radiante para o rapaz com um rosto muito vermelho de 
andar sempre a correr de um lado para o outro, ocupado com as suas 
infindveis obrigaes.
- Ah, no? - respondeu Theido num tom casual. - julguei que j o 
conhecias.  Quentin, o meu sobrinho.
- Oh, pois claro! -j sabia! Ena. mas que alto que ele est. Isso que foi 
crescer! - Com aquele comentrio, o homenzinho afastou-se outra vez, 
zumbindo como uma abelha num outro canto da atulhada e barulhenta sala.
- Esperemos que esta noite mais ningum demonstre interesse pela vida da 
minha famlia. Milcher consegue falar mais do que vinte mulheres juntas. 
Preferia que a nossa pequena visita fosse conhecida por to poucos quanto 
possvel.
- Achas que pode andar algum  nossa procura? - A ideia acabava de 
surgir na cabea de Quentin.
-  provvel. Quem quer que fosse que matou Ronsard, ou que o mandou 
matar, j deve saber que o segredo que transportava no morreu com ele. 
Todavia, no podemos ter a certeza. Talvez nada saibam a respeito da 
mensagem.
- Quer dizer que no foi atacado pelos fora-da-lei?
- No, rapaz... ou, pelo menos, as coisas no foram assim to simples.

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Os fora-da-lei podem ter sido contratados para o fazerem, pois de outro 
modo no se atirariam contra um cavaleiro do rei sem um motivo melhor do 
que apenas a sua bolsa. Creio que at os fora-da-lei do um maior valor  
vida. No... foi provavelmente algum que sabia o que ele transportava, 
ou que suspeitou da sua misso.
- Talvez o prncipe Jaspin? - As intrigas da corte eram uma novidade para 
Quentin, mas sentia-se irresistivelmente atrado por elas. A sua mente 
rpida previa toda a espcie de conluios, como uma raposa que se 
descobrisse no meio de um ptio cheio de galinhas bem gordas.
Talvez. No seria a primeira vez que se servia de outros para feitos que 
ele prprio no realizaria. Mas, sabes... acho que h mais qualquer 
coisa... No te sei dizer o qu. Sinto-o... aqui. - Theido
apontou para o estmago. - Agora, se j tens a barriga bem cheia. 
melhor irmos para a cama. Amanh temos de descobrir uma maneira
de conseguir uma audincia privada com a rainha.
Milcher voltou a aparecer e conduziu-os para o quarto, onde a esposa, a 
alegre mulher de rosto vermelho, j abrira as roupas de uma enorme
cama. Uma enxerga mais porttil e pequena fora colocada junto da lareira
que aquecia o quarto. Era uma diviso quadrada e simples, mas privada
e suficientemente confortvel, sem janelas, tal como Theido pedira.
- Durmam bem, bons hspedes - disse o estalajadeiro, fechando
a porta e afastando-se em silncio, em bicos de ps.
- Se fosse a ti, limitava-me a desapertar o cinto apenas um pouco
avisou Theido, quando viu que Quentin, sentado na beira da enxerga, 
comeava a tirar a tnica. - Esta noite, temos de estar preparados para 
tudo.
No muito longe dali, no alto da colina, no castelo de Askelon, uma
vela ardia com uma chama baixa num quarto espaoso e ricamente
mobilado. O pavimento era de mrmore branco e das paredes pendiam
requintadas tapearias representando a actividade favorita do seu 
ocupante: a caa. Uma mesa magnificamente esculpida, coberta com uma
vasta toalha azul-escura bordada a fio de prata, ostentava a sua 
superfcie coberta de mapas e de rolos de pergaminho. Na outra 
extremidade
da diviso em cpula - porque se tratava da cmara superior da torre
leste - um fogo estalava e ardia com grande brilho numa lareira 
ornamentada, encimada por um pesado painel de carvalho esculpido com
braso de um anterior residente.

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Uma figura melanclica sentava-se, meio encolhida. num grande cadeiro de 
costas muito altas e orelhas de cada lado, para se proteger das correntes 
de ar, que eram constantes no interior das velhas paredes do castelo. A 
cadeira, mais parecida com um pequeno trono, fora arrastada para perto do 
fogo, mas o seu ocupante parecia no extrair nem calor nem conforto da 
dana das chamas. Em vez disso, olhava desanimado para o fogo, tendo na 
mo um alto copo de vinho, feito de chifre, que ainda nem sequer provara.
O prncipe Jaspin mal se moveu quando lhe chegou aos ouvidos o som de uma 
forte pancada na porta exterior dos seus aposentos privados. Um camareiro 
ofegante regressava com a notcia de que havia um certo cavaleiro que 
desejava uma audincia. Depois de saber o nome do homem, o prncipe 
Jaspin explodiu:
- Manda~o para aqui directamente, idiota! H dias que aguardo notcias 
dele e deixaste-o a arrefecer no corredor como se fosse uma pea de 
carne. Vou mandar-te chicotear!
O camareiro, j habituado aos ataques de fria do seu amo, no ouviu o 
que este disse na sua ausncia, pois sara imediatamente para ir buscar 
um to desejado visitante, para o conduzir  presena do irado prncipe.
- Diga-me, Sir Bran. que novas me traz? j o encontrou? - Jaspin saltou 
da cadeira quando viu entrar o cavaleiro.
- Sim, est aqui... na aldeia - respondeu o cavaleiro, dobrando-se pela 
cintura, numa vnia rpida.
- Na aldeia? Onde? Vou mand-lo capturar imediatamente!
- Vossa Graa, recomendo que se acautele contra uma tal aco. Atraria 
demasiado as atenes. -No sabemos quantos so. Pode ter trazido alguns 
dos seus homens com ele. De qualquer modo, essas coisas so mais fceis 
de fazer de manh.
- Sim, suponho que tem razo. - O prncipe voltou a sentar-se nas 
almofadas de seda do cadeiro, muito satisfeito com a notcia. -No 
podemos desperdiar esta oportunidade, como desperdimos a ltima. - Fez 
uma pausa e perguntou casualmente: - Tem a certeza de que Ronsard est 
morto?
- Absoluta. - Sir Bran, de luvas e vestido com uma capa forrada a pele, 
sobre uma rica tnica de fino brocado de linho. comeou a tirar as luvas. 
O camareiro foi buscar uma cadeira e afastou-se com a capa. o cavaleiro, 
de forte constituio, serviu-se de uma taa de vinho, de

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um jarro que se encontrava perto dele, e engoliu metade do lquido de uma 
s vez. - No h dvida que vive bem. meu prncipe - declarou quando se 
sentou em frente de Jaspin.
Aqueles que apoiam a minha causa no necessitaro de negligenciar os 
apetites por coisas boas, posso garantir-lho. j lhe terei dito, Bran, 
que estou a pensar em dar-lhe Crandall como reconhecimento pelos seus 
esforos? Pergunto a mim mesmo que faria com ela.
- Entregue-ma e ver - retorquiu o cavaleiro.
- Est ansioso, no est? - disse o prncipe, rindo-se. - Sim. daqui a 
pouco o veremos. At lha entregava agora, mas aquele desmancha-prazeres 
do Theido, ou l como  que se chama agora, ainda anda em liberdade e por 
a. No podemos permitir que aparea e reclame os seus direitos... Seria 
muito embaraoso, no acha?
- Sei como lidar com ele - troou Bran, servindo-se de outra taa de 
vinho.
Tal como lidou com Ronsard? - murmurou o prncipe com uma careta de 
desagrado.
Deve estar recordado de que no sabamos que era Ronsard at ao momento 
do encontro. De qualquer modo, com os seus ferimentos e o frio de gelar, 
no pode ter ido longe. Disso tenho a certeza.
- Mas nunca encontrou o corpo, pois no? - insistiu o prncipe. com 
firmeza.
- Por Zoar, estava a nevar! - ripostou o cavaleiro, irado. - No me 
acredita? A neve cobriu tudo imediatamente. O cavalo afastou-se e deixou-
o onde caiu, e a neve tapou-o...
- Sim, sim, j sei. A neve... Observou a emboscada de uma certa 
distncia.
- E quando l cheguei s consegui encontrar dois dos meus homens!
- Bom, esse assunto est arrumado. Agora temos de acabar com outro 
problema... Esse lder dos fora-da-lei... Como  que lhe chamam?
- O Falco - disse o cavaleiro num tom sombrio.
- Pois . No  estranho que esse Falco tenha aparecido to de 
repente... e  mo? Como  que o explica? - insinuou o prncipe, num tom 
carregado de intenes.
- No o explico! - O cavaleiro bateu com a taa de prata no brao da 
cadeira. O vinho saltou por cima do rebordo, molhando-lhe a

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mo. -  uma coincidncia, nada mais - continuou. numa voz mais calma, 
esforando-se por controlar o temperamento. - Ou ento. talvez um 
daqueles inteis ladres que contratei para esta... esta transaco, 
tenha voltado  toca e abanado o rabo ao seu amo.
-  possvel, sim. No h honra entre os ladres, como sabe - concordou 
Jaspin.
O prncipe bebericou o vinho e conservou-se silencioso durante algum 
tempo, mirando o fogo que comeava a extinguir-se.
- Suponho que teremos de fazer essa pergunta ao nosso amigo Hawk, amanh.
O cavaleiro esboou um sorriso rpido e tomou outro grande gole do vinho.
- Sim, sem dvida que amanh o saberemos.

CAPTULO VI

Depois de terminar o vinho, o cavaleiro, Sir Bran. trocou mais algumas 
palavras com o prncipe a respeito da prxima captura do fora-da-lei. 
Hawk, na manh seguinte. A seguir mandou-o retirar-se e esperou at que 
se afastasse antes de chamar o camareiro para dispensar tambm os seus 
servios durante o resto da noite.
Logo que ouviu o ranger da porta da cmara exterior a fechar-se, o 
prncipe levantou-se, pegou na vela que se encontrava em cima da mesa, 
caminhou para uma alcova na extremidade do quarto, escondida das vistas 
por debaixo da parte inferior de uma das gigantescas tapearias. 
Deslizando para trs da tapearia, Jaspin penetrou na alcova. Rebuscando 
entre as dobras das roupas que vestia fez aparecer uma chave, com que 
abriu uma porta astuciosamente disfarada no fundo da alcova.
O prncipe avanou em silncio para essa diviso secreta. pousou a vela 
em cima de uma mesa e sentou-se numa cadeira. Em cima da mesa encontrava-
se uma pequena caixa pousada sobre um elegante tecido de veludo. A caixa, 
com uns belos esmaltados num tom vermelho de fogo. e com incrustaes a 
fio de ouro e prolas, era uma magnfica obra de arte e brilhava sob a 
luz oscilante da chama da vela.
O prncipe no perdeu tempo. Colocou as duas mos de cada lado da caixa e 
levantou-a. Na mesa. em frente dele, ficou um curioso objecto pousado 
sobre o veludo: uma pirmide de ouro gravada com estranhos hierglifos. 
Todas as superfcies da pirmide tinham sido inscritas com curiosas e 
fantsticas runas, que eram, pensou, a fonte do seu poder pouco vulgar.

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O prncipe mirou a sua presa com um estranho brilho nos olhos, como se 
estes estivessem iluminados por uma fonte de luz sobrenatural, vinda do 
seu interior. A pirmide provocava-lhe sempre aquele efeito: sentia-se 
ousado, invencvel e inteligente para l de toda e qualquer inteligncia 
humana.
A pirmide de ouro fora uma oferta de Nimrood, conhecido por "o 
Necromante", um velho e astuto feiticeiro que Jaspin utilizava como scio 
para as suas velhacarias. Jaspin passara muitas noites a tentar decifrar 
o segredo do estranho objecto e os conhecimentos do seu inventor. Porm, 
ultimamente, Jaspin recebia cada vez menos apoio do seu cmplice, e 
sentia que comeavam a brotar as sementes de uma profunda desconfiana.
Colocando as mos dos dois lados da pirmide, Jaspin fechou os olhos e 
murmurou um suave encantamento. -Muito lentamente, a pirmide, plida sob 
a luz oscilante da vela. comeou a brilhar com um claro luminescente. O 
brilho tornou-se mais intenso, dando um forte relevo s feies de 
Jaspin. e projectando a sua enorme sombra na parede. Quando aquela luz 
irreal atingiu o mximo, os lados da pirmide comearam a tornar-se 
indistintos e nebulosos, apesar de permanecerem slidos sob os dedos do 
prncipe. A pirmide. agora iluminada por dentro por uma luz quase 
cegante, tomou-se translcida. Jaspin podia ver as suas prprias mos 
atravs das faces laterais. Instantes depois, o estranho engenho tornara-
se completamente transparente, quase invisvel, e Jaspin olhava para as 
suas profundidades de cristal. Um plido nevoeiro verde impedia a viso 
do interior, mas enquanto Jaspin o observava o nevoeiro desfez-se, 
transformando-se em farrapos em forma de fios, que se contorciam. j se 
conseguiam distinguir as formas de um homem, que avanava, como que de 
uma grande distncia, na direco de Jaspin. Porm,  medida que o homem 
avanava, aproximava-se com uma velocidade alarmante, pelo que, quase 
instantaneamente,
Jaspin ficou frente a frente com o velho feiticeiro, como se este se 
encontrasse presente.
No era uma face digna de ser admirada. Era contorcida e cruel. Dois 
olhos ardentes espreitavam por debaixo de uma testa pesada e ameaadora. 
Apesar da bvia velhice do feiticeiro, um cabelo negro e encrespado, 
salpicado de malhas brancas, formava uma formidvel juba em volta da 
grande cabea do homem. A face estava sulcada por rugas

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entrecruzadas. e cada uma delas representava algo de diablico que o seu 
possuidor contemplara.
- Ah, prncipe Jaspin! - A voz do necromante parecia-se mais com um silvo 
do que com uma fala humana. - j esperava a tua chamada. Correu tudo 
conforme eu disse que correria, suponho?
- Sim, as tuas informaes so sempre boas. Nimrood - retorquiu o 
prncipe, de olhos a brilharem. - O cavaleiro Ronsard apareceu, tal como 
previsto, e foi interceptado antes de poder concluir a sua misso. 
infelizmente, talvez nunca venhamos a saber qual era essa misso. Foi 
morto na emboscada.
 uma pena. Sem dvida que nos poderia ter revelado muita coisa. Todavia. 
h outras maneiras.
E outra das tuas sementes est prestes a dar frutos, feiticeiro. O fora-
da-lei. Hawk, apareceu de novo... tal como sugeriste que aconteceria. 
Desta vez estamos prontos para o receber... Amanh, ao meio-dia, o seu 
incomodativo bando de renegados j no ter um lder.
No cometas o erro de o subestimar outra vez - avisou o feiticeiro. - j 
te enganou antes, como muito bem sabes.
O necromante fez uma careta contorcida, o que noutra pessoa qualquer 
teria correspondido a um largo sorriso.
No penses que desta vez o vou deixar escapar. A lmina do meu carrasco 
est com sede, e o sangue de um fora-da-lei  o refresco que eu 
recomendaria. A sua cabea ir adornar um pau. na praa da aldeia. Esses 
bandidos podero ento ver o medo que tenho das suas ameaas. No terei 
oposio quando se reunir o Conselho de Regentes e serei nomeado rei. As 
peties j esto assinadas. - O prncipe esfregou as mos, numa vida 
antecipao do acontecimento. - Est tudo pronto.
- Ento e a rainha? - inquiriu o feiticeiro, trocista. - Estar disposta 
a abdicar com tanta facilidade? O seu poder j diminuiu assim tanto?
- A rainha concordar em ver as coisas como eu as vejo.  forte. mas  
uma mulher. Alm disso, creio que. se lhe derem a escolher entre a cabea 
do rei ou a coroa do rei, escolher a cabea.
- Pode acabar por perder as duas... tal como o rei! Ah! Ah! -cacarejou 
Nimrood.
Esse problema  teu, e no meu. No me metas nisso. Tu ficas com Eskevar 
e eu com a sua coroa. Foi esse o nosso acordo. No quero

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dificuldades. No me posso permitir despertar as desconfianas do povo, 
pois preciso do seu apoio pelo menos durante algum tempo.
- Sou um teu servo, prncipe Jaspin - replicou o feiticeiro. -Posso ser-
te til em mais alguma coisa?
- No, creio que no. Agora. est tudo preparado - afirmou o prncipe, 
acrescentando: - O meu irmo est confortvel?
- Oh. sim, sem dvida, No fim de contas, Eskevar  o rei. - O necromante 
riu-se subitamente e Jaspin sentiu uma inesperada ira a surgr-lhe dentro 
do peito.
- Mas no por muito mais tempo! - gritou. - Em breve haver um outro 
monarca no trono.  uma jura que te fao!
O feiticeiro pareceu fazer uma vnia e, de repente, a pirmide apagou-se, 
com as faces a ficarem cada vez mais opacas e frias. Jaspin voltou a 
cobri-la com a caixa ornamentada, pegou na vela e saiu imediatamente da 
sala. No sabia porqu, mas a simples meno do nome do irmo deixava-o 
inquieto. Nessa noite. aquele nome perturbou-lhe o sono, com sonhos de 
dvidas e medo.

Quentin acordou sobressaltado, num quarto que lhe era estranho. Olhou 
para a cama de Theido e descobriu-a vazia. Atirou as cobertas para um 
lado, levantou-se da enxerga, pegou na capa e foi  procura do amigo. 
Descobriu Theido no estbulo por detrs da estalagem. cui~ dando dos 
cavalos.
- Bom dia, rapaz. Fico satisfeito por ver que s madrugador. Eu prprio 
acabei de me levantar. - Endireitou-se, pois estivera a dar de comer aos 
animais. - Estes j esto despachados. Agora, vamos ver se arranjamos 
qualquer coisa para ns comermos.
Comeram juntos numa pequena mesa da cozinha. porque Theido desejava 
alguma privacidade, apesar de nenhum dos outros hspedes, se  que 
existia algum, ter dado sinais de vida.
- Tenho um plano que nos ir ajudar - disse Theido, falando num tom 
baixo.
Quentin comeu em silncio e escutou o plano que Thedo esboou. Era 
simples: entrariam como mercadores de peles acabados de chegar das terras 
selvagens, onde tinham feito comrcio, e iriam oferecer-se para mostrar  
rainha os belos tesouros que haviam obtido.
- Mas ns no temos peles... - objectou Quentin, ao que Theido1

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respondeu dizendo-lhe que no precisavam de nenhumas. Iam apenas ser 
admitidos para marcarem uma audincia em forma e para receberem quaisquer 
trajos que a rainha gostasse de ver ornamentados com as suas mercadorias. 
Esse tipo de audincias no era invulgar quando se tratava de artesos ou 
mercadores de elevada reputao. Todavia, uma vez na presena da rainha, 
poriam de parte o disfarce e dariam a conhecer a verdadeira finalidade da 
visita.
- Se alguma coisa correr mal - prosseguiu Theido, com uma voz firme e um 
olhar intenso e duro - safa-te como puderes. No pares para pensar ou 
para olhar em volta, limita-te a correr. Volta para junto de Durwin e 
conta-lhe o que aconteceu. Ele saber o que fazer. Escuta o que te estou 
a dizer e obedece-me. Compreendeste?
Quentin acenou com solenidade. No considerara a possibilidade de poderem 
falhar. mas Theido, ao notar a disposio sombria do rapaz, sorriu e 
acrescentou:
- Nada temas. meu jovem amo. No  a primeira vez que sou perseguido 
pelos homens de Jaspin. Mm disso, os meus planos raramente falham.
Quentin no se sentiu reconfortado com a ideia. Acabaram o pequeno-almoo 
e saram da estalagem pela porta da cozinha, atravessando o ptio em 
direco aos cavalos. Ao chegarem ao estbulo, Theido abriu as largas 
portas e imobilizou-se.
- Corre! Foge daqui! - gritou para Quentin, enquanto ao mesmo tempo 
atirava a capa para o lado e puxava por uma curta espada que transportava 
numa bainha oculta nas roupas. Quentin ficou paralisado de terror. Theido 
virou-se para ele e empurrou-o. dizendo: - Foge! Tens de ficar em 
liberdade!
Nesse mesmo instante, dois homens a cavalo saltaram do interior do 
estbulo. Tinham ambos as espadas desembainhadas e pequenos escudos de 
proteco nos braos, j levantados para apararem os golpes da sua presa. 
Quentin virou-se e fugiu, olhando por cima do ombro enquanto corria. Viu 
Theido enfiar a espada por debaixo do escudo de um dos homens, que 
desviou o golpe para um lado, enquanto o outro, apertando a sua presa 
entre os seus cavalos, levantava a espada para desferir o golpe fatal.
- No o matem, idiotas! - gritou uma voz no ptio, na frente de Quentin. 
Este virou-se mesmo a tempo de evitar a coliso com um outro

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homem a cavalo, Daquela vez era um cavaleiro, a avaliar pela armadura bem 
trabalhada. O cavaleiro gritou mais uma vez: - Temos de o apanhar vivo!
No instante seguinte, Quentin sentiu que a sua capa era agarrada por um 
brao poderoso, que quase lhe arrancou os ps do cho. Quentin, sem 
sequer pensar, atacou violentamente uma das pernas do cavalo e acertou-
lhe com um violento pontap, O animal sacudiu a cabea e levantou os 
quartos dianteiros, enquanto dava um salto para trs. O cavaleiro perdeu 
o equilbrio, largou Quentin imediatamente e este escapuliu-se por 
debaixo da barriga do cavalo e correu, Atingiu a esquina da estalagem a 
tempo de ver um dos homens a cavalo a descer o punho da sua espada sobre 
a cabea de Theido. Ouviu um estalar abafado e Theido abateu-se no cho.

CAPTULO VII

Quentin correu s cegas pelas estreitas ruas, algumas das quais no eram 
mais do que passagens por entre as habitaes fechadas. Lanou um olhar 
apressado por cima do ombro, enquanto corria, sempre  espera que um dos 
homens a cavalo casse sobre ele numa qualquer esquina. As suas fortes 
pernas desviavam-se de obstculos, viravam esquinas e voavam to depressa 
quanto o medo o fazia afastar-se da cena.
Por fim acabou por ficar sem flego e agachou-se numa estreita passagem 
entre dois edifcios do que poderia ser chamado rua principal da cidade 
de Askelon. Estava fora das vistas de quem passasse pela rua e esperou, 
para recuperar o flego e pensar. Recordava-se da voz de Theido a dizer 
"Volta para junto de Durwin, ele saber o que fazer". Porm, j no tinha 
cavalo e Durwin ficava a um dia de distncia para um homem montado. No 
podia ir a p, sozinho e sem provises. Precisava de as arranjar, e no 
fazia ideia nenhuma de onde e como as poderia conseguir.
No querendo ficar muito tempo parado no mesmo stio, comeou a caminhar 
pelas ruas. No fazia ideia nenhuma do stio para onde ia, e s teve 
conscincia de que se aproximava do castelo quando olhou para cima por 
acaso e se lhe depararam as enormes muralhas a erguerem-se por cima dele. 
Parecia ser arrastado para elas. pois, apesar de ter mudado de direco 
por duas vezes, de propsito para evitar aproximar-se, para no ser visto 
e capturado imediatamente, de cada vez que olhava para cima estava mais 
perto do que da vez anterior.
Entretanto, as lojas do bairro de mercadores, por cujas ruas caminhava, 
tinham comeado a abrir para o seu negcio dirio. Apesar de

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os telhados estarem cobertos por uma pesada capa de neve e de penderem 
fios de gelo dos beirais, os mercadores abriam as suas portas para uma 
brilhante manh sem nuvens e assinalavam o incio de outro dia atarefado. 
Em breve as ruas empedradas comeavam a ouvir o rudo de passadas 
apressadas e as vozes estridentes de lojistas, patres e vendedores. 
trocando cumprimentos, apregoando as mercadorias e regateando os preos. 
Um certo nmero de agricultores enfrentara o frio para instalarem bancas 
onde vendiam os produtos de Inverno: ovos e queijo, e vrios tipos de 
cerveja e cidra. Grandes braseiras cheias de carvo ardiam em frente das 
bancas. Quentin pairou em volta delas, aquecendo-se e tentando 
desesperadamente arranjar um plano que lhe permitisse sair da situao em 
que se encontrava.
Por fim, decidiu arriscar-se a voltar  estalagem, para recuperar o 
cavalo, isto se o animal ainda l se encontrasse e os raptores no o 
tivessem levado. Desceu uma rua, que pelo aspecto pertencia ao bairro dos 
artesos. Quentin viu vrias instalaes de artesos: uma forja de 
ferreiro, uma fbrica de velas, um peleiro. Havia qualquer coisa que o 
atraa para mais perto deste ltimo. Parou  entrada durante algum tempo. 
apenas a olhar, perguntando a si mesmo por que motivo tinha a sensao de 
pertencer ali, o que era inexplicvel. Nunca antes vira aquele lugar em 
toda a sua vida.
Quentin andou de um lado para o outro no exterior do prdio, mirando a 
tabuleta brilhantemente pintada com a imagem de uma raposa vermelha com 
uma cauda excepcionalmente longa e felpuda. Por fim virou-se para se 
afastar, antes que algum no interior o visse sem fazer nada e sasse 
para o mandar embora. Quando se comeava a afastar da porta. aproximou-se 
uma pequena carruagem coberta, de duas rodas. puxada por um pnei com um 
plo castanho e emaranhado. A carruagem estava pintada com brilhante 
tinta preta e ostentava uma insgnia na porta: um drago vermelho e 
contorcido, contornado a ouro.
O condutor, que seguia a p  frente, deteve o cavalo, com um trote muito 
animado pelo frio ar da manh, e abriu-se a porta do cabriol. Havia uma 
dama sentada no seu interior, enrolada numa espessa capa e com um capuz 
sobre a cabea. Pareceu preparar-se para descer, mas depois viu Quentin 
de p mesmo na sua frente. Sorriu e disse:
- Rapaz, aproxima-te.
Lanou o capuz para trs da cabea e revelou um rosto de belas

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feies e longas tranas negras sobre os ombros. Quentin pensou que nunca 
vira uma pessoa to bonita em toda a sua vida. Ainda por cima. tanto 
quanto lhe era possvel calcular, a jovem deveria ser da sua idade ou, no 
mximo. um ou dois anos mais velha. No entanto, as suas maneiras e pose 
convenceram-no de que se encontrava. sem dvida. na presena da realeza.
Quentin avanou, rgido. para mais perto da carruagem e pousou a mo na 
porta.
- Sim, Majestade.
A rapariga riu-se e Quentin sentiu o rosto a corar.
- No sou a rainha - replicou a jovem. - Sou apenas... Uma companheira de 
Sua Majestade. A minha aia deseja ser visitada, esta tarde. pelo teu amo. 
- A rapariga fez um aceno para a loja do peleiro. - Leva isto - 
acrescentou, entregando ao surpreendido Quentin um pequeno pergaminho 
enrolado, preso com uma fita e selado com cera. - Levar-te- directamente 
aos aposentos de Sua Majestade. A que horas devo dizer que vo? Sua 
Majestade sugeriu que fosse depois do repasto do meio-dia.
Quentin, recordando-se um pouco da etiqueta da corte, fez uma grande 
vnia e replicou, no muito seguro:
- O vosso gracioso servo assim far, minha senhora. - Misturara os termos 
da resposta. mas a inteno fora a boa. A companheira da rainha voltou a 
rir-se, com uma voz que era o alegre borbulhar de um corao feliz.
- Estou certa de que levaro as vossas melhores peles.
Quentin fez nova vnia e o condutor, sem olhar para a direita ou para a 
esquerda, pegou nas rdeas e afastou-se com a carruagem.
Quentin olhou para a convocao que tinha na mo. admirando-se com a sua 
notvel boa sorte. O deus Ariel, uma divindade entre cujos muitos 
atributos se encontrava a capacidade de conceber surpresas agradveis. 
tinha, no fim de contas, conseguido que Quentin tivesse a sua desejada 
audincia com a rainha. Quentin considerava que o erro da aia da rainha 
fora um milagre do mais alto nvel, e meteu a carta na tnica, junto  
pele. Afastou-se  pressa. cheio de renovada deciso, esquecendo-se 
completamente da ordem de Theido para que fosse pedir a ajuda do santo 
eremita Durwin.
Com vrias horas na sua frente para preencher at chegar o momento da 
audincia. Quentin decidiu ir avanando para as portas do

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castelo, para j l se encontrar quando chegasse a hora marcada. Planeava 
servir-se daquele tempo livre para seu benefcio, planeando com preciso 
o que iria dizer e fazer na presena da rainha. Como iria confessar o 
subterfgio, como entregaria a mensagem e, muito em particular, como iria 
implorar a libertao do seu amigo. Apesar de no saber por que motivo 
tinham capturado Theido, partia do princpio de que deveria haver alguma 
ligao com a mensagem secreta cosida dentro da sua jaqueta.

Quentin esqueceu o seu medo dos homens armados e da escaramua no ptio 
do estbulo da estalagem na madrugada daquele dia, convicto de que a sua 
misso era auxiliada pelos deuses. Avanou ousadamente, como se usasse a 
invencvel armadura de um cavaleiro do rei. A viso daquele jovem senhor. 
com uma vulgar capa castanha e uma tnica verde-escura, umas calas um 
pouco largas de mais, meias de fora e pesadas sandlias de campons, que 
marchava pelo centro da rua como se fosse todo um regimento de homens do 
rei, foi uma delcia para os habitantes da cidade.
Se Quentin se tivesse apercebido da troa que acompanhou o seu avano at 
aos portes do castelo, teria fugido de embarao. No entanto, assim no 
aconteceu, to ocupado estava com os seus pensamentos de valorosas aces 
e boa sorte.
Contudo, a sua atitude mudou de um modo abrupto ao chegar aos portes da 
fortaleza de Askelon. Eram construes de uma dimenso gigantesca, em 
madeira e ferro, suficientemente largas para permitirem que toda uma 
companhia de cavaleiros cavalgasse atravs delas em fileiras de doze. 
Erguiam-se como um desafio a quem quer que desejasse fazer a guerra ao 
rei Eskevar, e convidavam o inimigo a tentar aplicar-lhes os seus piores 
golpes. Aqueles portes tinham desafiado o fogo, o machado e os aretes. 
em cerco aps cerco. Na base da longa rampa que dava acesso aos portes, 
Quentin deteve-se de boca aberta, maravilhado por aquela viso magnfica. 
o castelo elevava-se, em linhas majestosas, trepando para o brilhante cu 
azul de Inverno. Pendes vermelhos e dourados flutuavam na brisa, no alto 
das inmeras torres e torrees. Quentin ouvia o estralejar das bandeiras 
sob o vento gelado.
Das cinco antigas maravilhas, s Askelon ainda se mantinha. As outras, as 
Fontes de Fogo de Pelagia. os Templos de Gelo de Sanarrath,

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os Tmulos-Grutas dos Reis Braldurianos, as Pedras Cantantes de Svphria. 
tinham desaparecido, arruinadas, perdidas em obscuras eras passadas. 
Porm, Askelon, a poderosa Cidade dos Reis, com o seu drago enroscado e 
a dormir sob a colina, continuava de p e ali permaneceria para todo o 
sempre.
As fundaes de Askelon haviam sido escavadas na pedra viva da colina em 
que repousava, que por si s era j uma montanha cheia de fora e graa. 
As macias bases de pedra haviam sido erguidas pela fora bruta de dois 
mil pedreiros e trabalhadores, chefiados por duzentos mestres pedreiros. 
O trabalho prosseguira, sem interrupes, durante uma centena de anos. 
Logo que fora erguida a muralha exterior, as torres haviam sido 
completadas e iniciara-se a construo da casa dos portes. A casa dos 
portes. o ponto mais vulnervel da fortaleza, era por si s um singular 
feito de engenharia, montado e aperfeioado ao longo dos cinquenta anos 
seguintes. A seguir iniciara-se o trabalho na muralha interior, a muralha 
que iria abrigar toda a zona habitacional e de trabalho para o squito 
real de soldados, servos, cozinheiros. encarregados. guardas. camareiros, 
e toda a restante hoste de funcionrios necessria para a devida 
manuteno do imprio.
A muralha interior, tal como a exterior. era formada por paredes duplas. 
O interior oco fora cheio com terra e detritos soltos capazes de 
amortecer os violentos impactes dos aretes de guerra. Uma vez terminada 
a muralha interior e as suas torres, comeara o trabalho nos apartamentos 
e aquartelamentos. Com o tempo, a configurao dessas divises interiores 
iria modificar-se infindavelmente, com cada um dos novos ocupantes a 
dirigir a reconstruo de acordo com os seus gostos pessoais e com as 
modas da poca. A estrutura exterior tambm se modificara, mas mais 
devagar, sempre que as inovaes nas estratgias ofensivas exigiam uma 
actualizao das tcnicas defensivas. O castelo crescera e modificara-se 
ao longo de mil anos, para se tornar naquela coisa de assustadora beleza 
que Quentin via agora. olhando embasbacado para o alto, tentando abarcar 
tudo com uma nica e prolongada mirada. Era tudo aquilo com que 
sonhara... e muito mais.
Decorrido algum tempo, passou para a rampa e comeou a longa subida at 
junto dos prprios portes. Na sua deslocao para o alto foi 
ultrapassado por vrios carros de bois e carroas transportando provises 
para o castelo. Nem sequer deu por eles. Os seus olhos estavam

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colados s enormes muralhas e altssimas torres da fortaleza,
que superavam tudo o que de mais ousado conseguira imaginar, e que, na 
mente de Quentin, estavam de acordo com os exageros que os homens 
contavam a seu respeito. A caminhada levou-lhe muito mais tempo do que o 
necessrio.
Quando atingiu finalmente o alto da rampa. at  extremidade da ponte 
levadia. a plataforma mvel que cobria o vasto espao desde o fim da 
rampa at aos portes, a grande altura sobre o fundo rochoso do fosso 
seco. Quentin parou. No querendo chamar a ateno dos guardas, de ar 
feroz, que se encontravam na casa dos portes. abrigou-se  sombra de uma 
das casas construdas,  maneira de degraus. ao longo da rampa. A ltima 
dessas casas fornecia-lhe abrigo contra o vento, pelo que se sentou junto 
de uma parede amigvel, para esperar.
As pessoas passavam, apressadas, de um lado para o outro, tratando dos 
seus assuntos, mas Quentin a nada prestava ateno. excepto  tarefa que 
tinha pela frente. Tentou imaginar como seria a rainha. Ouvira histrias 
a respeito da encantadora Alinea, mas, com a sua extremamente limitada 
experincia a respeito de mulheres. tinha dificuldade em imaginar que 
pudesse haver uma ainda mais bela do que a aia que encontrara naquela 
mesma manh. Dizia-se que a rainha Alinea possua compridos cabelos de um 
castanho que brilhava ao sol. com tons avermelhados, e profundos olhos 
verdes, da cor das sombras da floresta numa tarde de Vero. A sua voz era 
considerada como um instrumento de encanto. Quando falava ou cantava, 
canto que lhe merecera uma grande fama, a sua voz soava nos ouvidos dos 
homens como se fossem gargalhadas lquidas. Soubera daqueles e de outros 
pormenores em volta da mesa dos sacerdotes, ou pelas conversas dos 
peregrinos que ouvira por acaso quando estes, nas noites de Vero, 
acampavam no exterior do templo aguardando pelo seu orculo.
A rainha Alinea, dizia-se. era o complemento perfeito, em graa e beleza, 
 incansvel fora e vitalidade do rei Eskevar.

Quando Quentin calculou que j tinha passado o meio-dia, esticou-se, 
satisfeito por estar de novo em movimento. pois arrefecera com a espera, 
e avanou resolutamente para os portes. Apesar de os portes principais 
se encontrarem fechados, havia dois outros mais pequenos - mas mesmo 
assim suficientemente grandes para permitirem a

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passagem de dois carros, lado a lado - que estavam abertos e vigiados por 
guardas de feies cerradas. Quentin no conhecia o devido protocolo para 
se apresentar perante a rainha, mas partia do princpio de que bastava 
dizer o que desejava  primeira pessoa que encontrasse, para depois 
deixar que o decurso natural dos acontecimentos lhe dissesse o que fazer.
A primeira pessoa,  claro, era um guarda, de quem Quentin se aproximou 
com todo o respeito. Porm, quando Quentin abriu a boca para falar, o 
homem fez-lhe sinal, com a lana, para que continuasse. Encontrou-se 
imediatamente num tnel baixo e escuro, no interior da casa dos portes. 
por onde passava a estrada que dava para o ptio exterior do castelo.
Com a sua falta de conhecimentos militares, Quentin esperara que. ao 
ultrapassar os portes, se viesse a encontrar imediatamente dentro do 
castelo, tal como acontecia no templo. Achou que a estrada da casa dos 
portes era desagradavelmente assustadora. A sensao de mau agoiro 
devia-se s escuras e enormes grades, com aguados dentes de ferro, sob 
as quais tinha de caminhar. mesmo que por pouco tempo.
Uma vez passada a casa do porto, viu-se no permetro externo do ptio 
interior, a olhar para um outro castelo mais pequeno rodeado pela sua 
prpria cidade de casas, estbulos, cozinhas, armazns e edifcios de 
apoio. Alguns eram de pedra, outros eram de madeira e colmo. tal como na 
cidade que deixara para trs. O castelo interior possua os seus prprios 
portes. para onde Quentin se dirigiu imediatamente. Ali, a segurana era 
mais rgida e o guarda exigiu saber ao que ia. Quentin apresentou-lhe o 
pergaminho enrolado. O soldado lanou uma olhadela ao selo e mandou-o 
entrar.
Ao emergir da segunda passagem. Quentin entrou, hesitante, num ptio de 
grandes dimenses. Todo aquele ptio interior estava ocupado por 
elegantes jardins que continham todas as plantas de flor e rvores que 
eram conhecidas no reino e at para l dele. Na Primavera, aquele ptio 
seria uma verdadeira exploso de cores violentas, mas agora estava 
coberto com uma tranquila camada de neve branca.
Enquanto Quentin olhava a sua volta. um homem vestido com uma longa capa 
de brocado forrada a zibelina - um grande senhor, ou um prncipe, pelo 
aspecto e riqueza do trajo - emergiu apressado de um arco e atravessou o 
jardim em direco a outra parte do castelo.

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Quentin esperou que o nobre passasse e depois foi atrs dele. O homem 
atravessou, quase a correr, o ptio cheio de neve, e desapareceu no 
castelo, com Quentin logo atrs.
Uma vez no interior, Quentin perdeu o homem de vista quando este 
desapareceu numa das muitas portas que davam para o corredor central. 
Estava imvel, perguntando a si mesmo o que fazer a seguir, quando uma 
voz spera gritou atrs dele:
- Que ests tu aqui a fazer, servo?
Quentin deu meia volta, deparou-se~lhe um homem muito forte que avanava 
para ele com um ar ameaador.
- Vim para ver a rainha - respondeu, murmurando as primeiras palavras que 
lhe vieram  cabea.
- Ah, sim!? - O homem ganhou uma expresso furiosa. - Desaparece! Sabes 
muito bem que no gosto de gente por aqui a bisbilhotar! Vai-te embora,
j te disse!
- Que se passa aqui, guarda? - A voz provinha de uma porta aberta e 
Quentin virou-se e avistou o nobre que seguira at ao interior do 
castelo.
- Este rapaz aqui diz que veio ver a rainha, mas parece-me que deve estar 
a preparar alguma patifaria.
O homem avanou para Quentin.
- Deixa-me ver os teus papis.
Quentin engoliu em seco, com fora, e entregou o pergaminho ao nobre. 
Este pegou na carta, olhou para o selo, quebrou-o, e leu o contedo com 
uma vista de olhos.
- Onde est o teu amo? - inquiriu, mirando Quentin com ateno.
- Ele... no pode vir, e mandou-me  frente para pedir o perdo de Sua 
Majestade...
- Hum... Diz ao teu amo que para a prxima deve dar um maior valor aos 
pedidos da rainha, ou perder os seus favores... e os benefcios das suas 
aquisies. - Devolveu a carta a Quentin. - Muito bem, segue-me.
O homem no era um prncipe ou grande senhor, tal como Quentin supusera, 
mas sim o camareiro da rainha, que conduziu Quentin por um labirinto de 
corredores e antecmaras, at uma passagem formada por grandes arcos, num 
dos andares superiores do castelo.
- Senta-te - ordenou o camareiro.

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Quentin sentou-se num banco baixo, no corredor, em frente de uma grande 
porta esculpida. Perto dele encontrava-se uma janela com um vidro espesso 
e coberto de gelo, que dava para o ptio interior, e Quentin fixou-a sem 
a ver, tentando recordar-se do que iria dizer a rainha. Esquecera-se de 
tudo.
O camareiro entrou e saiu vrias vezes, tal como outras pessoas, na sua 
maior parte servos e mulheres. Uma ou duas vezes, Quentin pensou ter 
visto a prpria rainha a emergir das suas cmaras. Essas vises de 
beleza, descobriu Quentin. eram as aias pessoais da rainha. Contudo. 
estavam vestidas e comportavam-se, ante os olhos pouco experientes de 
Quentin, como verdadeiras rainhas.
Aps algum tempo. o camareiro surgiu uma vez mais e dirigiu-se-lhe:
Sua Majestade deseja ver-te agora - declarou, acrescentando a seguir, 
para elucidao do jovem: - Quando entrares no apartamento da rainha. o 
mais prprio  ajoelhares-te at que Sua Majestade diga que te podes 
levantar.
Quentin respondeu com um aceno e seguiu o homem atravs da porta que dava 
para a cmara exterior. Era uma sala muito grande e aberta, com as 
paredes cobertas de tapearias e ricamente mobilada. Encontravam-se ali 
algumas mulheres. fiando e conversando enquanto trabalhavam. A um canto, 
um trovador tocava, acompanhado por vrias damas que cantavam. A sala 
parecia cheia de uma encantadora actividade. Quentin perguntou a si mesmo 
qual daquelas belas mulheres seria a rainha Alinea. Contudo, o camareiro 
conduziu-o atravs da sala, em direco a uma outra, a cmara privada da 
rainha.
O camareiro bateu uma nica vez na porta maravilhosamente esculpida e 
abriu-a sem esperar resposta. Fez uma profunda vnia e empurrou Quentin 
para o interior. Este, sem ousar levantar os olhos, caiu de joelhos no 
cho.
- Vossa Majestade, eis o peleiro - anunciou o camareiro, retirando-se 
imediatamente. A voz que Quentin ouviu a seguir era a da rainha.

CAPTULO VIII

- Ah, como  jovem o nosso peleiro, e to formal - disse a rainha
Alinea. A voz, tal como os poetas a cantavam, soava a gargalhadas 
lquidas, pensou Quentin. - Levanta-te, jovem peleiro - ordenou, num tom 
agradvel. Quentin levantou a cabea. inseguro, meio receoso de lanar um 
olhar  rainha. Porm, quando a viu, no conseguiu olhar para mais nada.
A rainha Alinea estava de p em frente de uma janela. O brilhante azul do 
cu daquela tarde de Inverno formava um fundo iluminado que salientava a 
beleza castanho~avermelhada dos seus cabelos. As formas graciosas estavam 
envoltas num vestido muito simples, de um azul turquesa e com capuz, que 
descia at ao solo em pregas suaves. Usava um cinto de ouro trabalhado e 
prolas, que acentuava a sua cintura estreita, e um colar com o mesmo 
desenho, delicado e elegante, em volta do pescoo gracioso. O brilhante 
cabelo fora puxado para trs, revelando uma testa alta e nobre, e 
encontrava-se adornado por um simples diadema de ouro. As tranas 
castanho-avermelhadas, que desciam em escuras cascatas ao longo do 
pescoo elegante, enquadravam um rosto que era to aberto e franco que 
desarmava o observador. Os olhos brilhava-lhe com um bom humor que tambm 
era visvel nos cantos da boca encantadora, e que parecia estar prestes a 
dissolver as feies
requintadas numa sentida gargalhada.
Quentin notou tudo aquilo, esquecido das boas maneiras e com vergonha, de 
boca aberta de espanto, momentaneamente mudo ante aquela
viso de estarrecer.
- O nosso Jovem visitante parece ter ficado encantado com a tua
beleza Bria - comentou a rainha, e foi apenas ento que Quentin avistou

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a rapariga que encontrara naquela manh, agora sentada ao lado da rainha 
e com um arco de bordar pousado no colo. A rainha estivera a ensinar-lhe 
uma qualquer tcnica de bordar mais fina e complicada. -Digo-o mais uma 
vez, levanta-te, jovem peleiro - repetiu a rainha, descendo da plataforma 
elevada em que se encontrava e aproximando-se de Quentin, que se ps de 
p num salto e fez uma vnia respeitosa.
- Trouxeste alguma coisa para me mostrares, jovem senhor - inquiriu a 
rainha, amvel -. ou preferes que te descreva os meus desejos,
para que o teu mestre me surpreenda depois com a sua arte?
Com um sobressalto, Quentin recordou-se repentinamente que no era o 
peleiro, nem o aprendiz do peleiro, e que nem sequer sabia o nome do 
homem. A sua mo, a tremer, procurou a carta que Ronsard tentara levar 
at ali e pela qual dera a sua vida. A rainha detectou aquela trmula 
hesitao e perguntou:
- Passa-se alguma coisa? Porque ests to hesitante?
- Vossa Majestade... no sou o ajudante do peleiro - conseguiu Quentin 
balbuciar. Vendo-lhe no rosto um ar interrogativo. acrescentou: - No 
entanto, trago-lhe algo mais valioso do que imagina. L. - interrompeu-se, 
lanando um olhar  aia da rainha. - Penso que talvez Vossa Majestade 
pretenda receb-la em privado...
A rainha sorriu ante os seus ares conspiradores, mas de qualquer modo fez 
um aceno para Bria, que se levantou, no sem lanar a Quentin um intenso 
olhar de desaprovao.
- Agora, vejamos... - continuou a rainha, com as mos dadas na frente do 
corpo - o que  que tens de to importante que merea a minha particular 
ateno...
- Uma carta, Vossa Majestade - disse Quentin, abrindo a capa. Retirou do 
cinto a adaga de punho de ouro e cortou o fio que prendia  jaqueta o 
embrulho com a carta escondida.
- Essa adaga... Deixa-me v-la - pediu a rainha. com um interesse sbito.
Tirou-a da mo de Quentin e deu-lhe voltas, examinando o punho com 
ateno.
- j vi esta adaga em qualquer lado... - comentou, passados alguns 
instantes - mas no me recordo onde.
Quentin, que acabara de libertar o embrulho de pergaminho, apresentou-o 
sem hesitao, dizendo:

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- O proprietrio dessa adaga mandou-me entregar-vos isto.
Observou-a, enquanto a mulher pegava na adaga e quebrava o selo da carta. 
Desdobrou o estaladio pergaminho e leu-o. Quentin, que no conhecia o 
contedo da epstola, no sabia que reaco esperar. Fitou-lhe o rosto. 
em busca de uma sugesto sobre o contedo da carta, recordando-se que um 
homem a considerara to importante que dera a
vida por ela.
A Quentin pareceu-lhe que o efeito da mensagem sobre a leitora era 
absorvido com muita lentido, mas no entanto deveria ter sido 
instantneo. O rosto da rainha perdeu a cor, e deixou cair a adaga, que 
tilintou no cho. Os seus olhos pareceram gelar-se e encheram-se de
terror, enquanto afastava a carta para longe de si.
- Meu rei... - murmurou,
Quentin permaneceu imvel como uma esttua de granito, no ousando mover-
se para no interferir, de algum modo, no desgosto da rainha.
A mulher tinha os seus belos braos pendentes ao lado do corpo, como se 
as foras lhe tivessem fugido. A seguir, deixou que o queixo descasse 
sobre o peito. Quentin estremecia por dentro, ao ver uma mulher to bela 
lanada num to grande desespero. Nesse mesmo instante, jurou para si 
mesmo que ele, Quentin, corrigiria o que quer que fosse que causara uma 
tal calamidade. E se fosse demasiado tarde, vingaria o desgosto da 
rainha.
Aproximou-se dela, pois o corao a isso o impelia. Instintivamente, a 
rainha agarrou~lhe um brao e apertou-o. Os seus olhos estavam mais uma 
vez a examinar a carta. Ficou silenciosa durante alguns momentos. Quentin 
pensou em precipitar-se para a sala ao lado para pedir ajuda, mas no 
ousou deix-la. Por isso deixou-se ficar. oferecendo-lhe o brao e, 
naquele momento, at seria capaz de lhe oferecer a vida.
De sbito a rainha voltou a falar. mas a voz era muito diferente da
que Quentin ouvira apenas momentos antes.
- Conheces o contedo desta missiva? - perguntou. Quentin no respondeu. 
- Ento explica-me como foi que a obtiveste, pois receio bem que no se 
trate de uma brincadeira. Conheo a assinatura demasiado bem, e a adaga 
que est no cho  outra prova mais do que suficiente.
- Sou Quentin. um aclito do Alto Templo de Ariel. H trs dias apareceu 
no nosso templo um cavaleiro ferido, que nos pediu ajuda.

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Disse que a sua misso era de grande importncia para o reino. que se 
tratava de uma mensagem do rei. No temia a morte, mas apenas que esta 
chegasse cedo de mais e no pudesse cumprir a sua obrigao para com 
Vossa Majestade. Escreveu a mensagem... que tendes agora na mo.
- Ronsard - o bravo Ronsard - enviou-te no seu lugar? A um aclito do 
templo? - A rainha olhou para Quentin, incrdula ante a possibilidade de 
um simples rapaz se ter oferecido voluntrio para uma tal misso. 
Quentin, contudo. no entendeu a pergunta.
- Ele no queria que eu viesse... mas no havia mais ningum...
- E que aconteceu a Ronsard? - A rainha virou a cara para o outro lado, 
como que para evitar o impacte da resposta. - Est morto? - Quentin 
permaneceu mais uma vez em silncio, pois faltava-lhe a coragem para lhe 
dizer a verdade.
Ante aquilo, a rainha levantou-se, endireitou os ombros e ergueu a 
cabea. Quando se virou de novo para Quentin estava j notavelmente 
recomposta. revelando a sua singular fora interior.
- Confiou em ti, e ao faz-lo colocou nas tuas mos a segurana do rei e 
o futuro do reino. No posso fazer menos do que isso e terei tambm de 
confiar em ti.
Avanou para uma grande cadeira almofadada que fora colocada perto da 
janela. Para l dela, o cu, ainda h pouco limpo e belo, parecia agora 
frio e distante, indistinto, como se o tivessem coberto com um vu.
Alinea sentou-se e fez sinal a Quentin para que se aproximasse. Quando 
este se instalou no banco da janela, perto dela, disse:
- Quentin, esta carta pressagia acontecimentos desagradveis para todos 
os que conheam o seu segredo. O nosso reino est em perigo. O rei est 
prisioneiro de Nimrood, o necromante, graas a uma traio do seu prprio 
irmo, o prncipe Jaspin, que quer sentar-se no trono. A carta no diz 
mais do que isso, mas as consequncias podem ser facilmente adivinhadas.
"Tenho estado como cega todos estes anos. Enquanto observava as guerras 
no estrangeiro, o poder do rei foi diminuindo em casa, na sua ausncia, 
enfraquecido por Jaspin e pelos seus ladres contratados. Tomei 
conscincia disso demasiado tarde... e eu prpria sou uma prisioneira do 
meu castelo. A minha nica esperana estava em que o regresso do rei 
incutisse o medo no corao desses cobardes, e que, uma vez restaurado no 
trono, o rei ajustasse as contas.

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"Agora, no  provvel que isso acontea. Receio que a nossa causa esteja 
perdida antes de termos feito soar o alarme. - A rainha virou-se para a 
janela. mas os seus olhos no viam nada da cena que tinha na frente.
Quentin. sentindo imediatamente uma grande piedade pela rainha e uma 
ainda maior ira contra Jaspin, falou com uma tranquila resoluo:
- Ento,  preciso salvar o rei.
A rainha virou a cabea e sorriu com tristeza.
- s um verdadeiro homem. Ronsard teve razo quando confiou em ti. Porm, 
se eu conseguisse reunir uma fora qualquer o nosso rei perderia a vida. 
Jaspin iria imediatamente sab-lo. Os seus espies esto por todo o lado, 
e na floresta de Pelgrin no cai uma folha sem que ele no o saiba.
- Tenho amigos - afirmou Quentin. - Talvez... um grupo de pouca gente 
consiga fazer aquilo que um grupo de muitos no pode fazer. - Quentin no 
se deteve a pensar at que ponto eram poucos. Eram todo o mundo, as 
nicas pessoas a quem considerava como amigos, eram. para alm de 
Biorkis, Theido e o eremita Durwin.
- Irias salvar o rei? Tu e os teus amigos. e mais ningum? - A rainha 
Alinea pareceu preparar-se para recusar a oferta, mas depois hesitou. 
Mirou Quentin com muita ateno, com a cabea inclinada para um lado, 
como se estivesse a examin-lo para lhe fornecer todo um novo conjunto de 
vestes. - Parece uma loucura... mas as tuas palavras podem ser mais 
sensatas do que pensas. Quem so esses teus amigos?
Quentin vacilou ante aquela pergunta, apercebendo-se que a sua lista era 
muito curta. e que dela no constava o nome de um nico e solitrio 
cavaleiro. No entanto, respondeu com toda a convico que conseguiu 
reunir:
- Apenas Durwin, o santo eremita de Pelgrin, e um outro chamado Theido. - 
Ficou embaraado com a sua falta de amigos, mas surgiu uma luz nos olhos 
verde-escuros da rainha, que exclamou:
-  um homem de sorte aquele que conta com o nobre Theido entre os seus 
amigos. Sabes onde ele se encontra?
A questo levantava um problema. no saba onde estava Theido e, de 
facto. pouco sabia excepto que Theido fora capturado por alguns homens, 
naquela mesma manh, um pormenor de que se esquecera at quele momento. 
No sabia como responder, mas quando abriu a boca para admitir a sua 
ignorncia a rainha continuou:
- H algum tempo que ningum sabe de Theido... Era um dos

72

melhores cavaleiros do rei, e tambni um nobre. A morte do pai fez com 
que regressasse das guerras. Porm, ao chegar a casa, foi falsamente 
acusado de ser um traidor, porJaspin e seus apaniguados. e confiscaram-
lhe o castelo e as terras. No entanto, escapou-se, e desde essa altura 
vive a vida de um fora-da-lei.
A rainha levantou-se e virou as costas  janela, olhando para baixo, para 
Quentin, com um sbito ar caloroso.
- Alm disso.  tambm uma pessoa a quem confiaria a minha vida. -No sei 
quem  esse eremita Durwin, mas, se  teu amigo e de Theido, ento  
tambm um dos meus amigos. -Mas porque  que ests com essa cara? Passa-
se alguma coisa? - perguntou a rainha de repente, notando a expresso 
carregada de Quentin.
- Senhora... - gemeu Quentin, obrigando-se a pronunciar as palavras - 
Theido foi apanhado esta manh por homens que lhe montaram uma emboscada. 
Consegui escapar, para vir aqui, e no sei o que aconteceu ou para onde o 
levaram.
A resposta da rainha a esta aparentemente agourenta afirmao surpreendeu 
Quentin e encheu-o de alegria.
- Esse  um mistrio fcil de resolver - disse a mulher, com um tom de 
rancor a colorir-lhe a voz. - Existe apenas uma nica pessoa capaz de 
oprimir os inocentes sbditos do rei em plena luz do dia, praticando 
aces para as quais at os mais impudentes patifes escolhem as mais 
escuras das noites. Foi o prncipe Jaspin quem raptou o teu amigo. Quanto 
a isso, no h engano possvel. - Pensou por instantes. - Uma tal 
arrogncia nem sequer o impediria de trazer a sua presa para dentro 
destas prprias muralhas.
A rainha atravessou a sala rapidamente, abriu a porta e chamou o 
camareiro, que surgiu imediatamente. Falaram em murmrios  entrada e o 
camareiro afastou-se  pressa.
- Em breve saberemos o destino do teu amigo Theido. Mandei Oswald fazer 
algumas perguntas discretas junto do responsvel pelos crceres, para 
saber se entrou algum novo prisioneiro esta manh. Veremos se no me 
enganei...
Esperaram pelo regresso do camareiro. Quentin agitava-se, numa frustrao 
nervosa. Queria precipitar-se para as masmorras. fossem elas onde fossem, 
verificar ele prprio a verdade e libertar o seu amigo. A rainha, por seu 
lado, aguentou a espera com uma calma real. Fossem

73

quais fossem as suas emoes. eram de um tipo mais determinado, pensou 
Quentin. Pareciam ferver a fogo brando por debaixo do plcido aspecto 
exterior.
Por fim, Oswald, o camareiro, regressou. Fez uma profunda vnia enquanto 
se aproximava rapidamente da rainha, dizendo:
- Foi aprisionado um fora-da-lei. esta manh, Vossa Majestade. O 
carcereiro nada mais sabe, excepto que foi instrudo pelo cavaleiro que o 
levou a no deixar que ningum veja o preso, e a no fazer qualquer 
registo da sua presena.
- O carcereiro sabe qual era a identidade desse cavaleiro?
- Foi Sir Bran - replicou Oswald. A rainha agradeceu ao camareiro e 
mandou-o retirar-se. Voltou para junto de Quentin e declarou:
- Creio que resolvemos o nosso enigma. Agora, porm, surge-nos um outro, 
que no ser to fcil de solucionar. Como iremos conseguir libertar o 
cativo?

CAPTULO IX

A Quentin parecia-lhe que o Sol da tarde se pusera demasiado depressa. A 
cmara estava a ficar escura, e no deveria faltar muito para que os 
servos comeassem a acender as muitas velas que se encontravam nos 
aposentos privados da rainha. O dia passara-se numa actividade frentica, 
em particular durante as ltimas horas.
Agora. contudo. estava tudo pronto e esperavam.
- Pareces ansioso, jovem senhor. - A rainha atravessou a sala em direco 
a Quentin, que se mantinha vigilante, no banco junto da janela. Estivera 
a tratar de pormenores de ltima hora e acabara de regressar. - No 
estejas preocupado, Quentin.
O jovem exibiu um sorriso fraco e desviou os olhos da janela. onde 
passara a maior parte do fim da tarde a ver os servos da rainha a 
atravessarem o ptio  pressa, no meio da neve. em actividades furtivas 
em prol da rainha.
- No tenho medo - disse Quentin. - Talvez s um bocadinho... - Olhou 
para a bela Alinea, sob a luz mortia. Mudara muito, desde a ltima vez 
que a vira. Ainda pouco antes a rainha estivera vestida com trajes reais, 
fora a mais bela entre as belas, e agora apresentava-se. na frente dele, 
com roupas muito mais simples, com uma vulgar tnica verde (no muito 
diferente da sua) e uma capa prpura, muito pesada mas bem feita. Usava  
cintura um largo cinto de couro, de homem. e calas. As altas botas de 
montar completavam o traje.
- Ento, aprovas o aspecto da tua rainha? - Alinea riu-se. tentando pr 
Quentin  vontade. - Temos o mesmo alfaiate, tu e eu!
Quentin obrigou-se a soltar uma gargalhada e levantou-se.

76

- Quando  que partimos? O sol j vai bem baixo... Ainda falta muito?
- No, j no falta muito - tranquilizou~o a rainha. - Oswald vir 
chamar-nos quando tudo estiver pronto. No precisamos de nos atormentar. 
Os nossos preparativos esto em boas mos.
Quentin estava agora mais inquieto do que anteriormente. Saboreara um 
pouco do perigo da sua misso, e testemunhara, no caso do Theido, os seus 
efeitos. Agora, esse perigo fora aumentado e multiplicado por tudo o que 
tivera lugar nas ltimas horas: a mensagem de Ronsard, a precipitada 
conspirao para libertar Theido, os febris preparativos para a viagem... 
e agora a espera.
Durante o perodo de espera Quentin arranjara tempo para pensar em tudo o 
que j lhe acontecera, para duvidar da sua bravura recentemente 
descoberta, para questionar mais uma vez os seus pressgios, para desejar 
- mil vezes - no ter sado do templo, e para amaldioar a cega 
impetuosidade que o atirara para o meio daquela sombria aventura.
Desanimado, Quentin virou-se mais uma vez. para olhar pela janela: o 
ptio l em baixo estava coberto por profundas sombras violetas, e uma 
estrela solitria brilhava, como um farol, por cima de uma das torres, a 
Sul. Era um bom augrio, pensou Quentin, que ficou um pouco mais 
encorajado.
Soou uma pancada rpida na porta da cmara da rainha, e Oswald entrou sem 
esperar. Quentin teve dificuldade em reconhec-lo, pois estava vestido 
no como camareiro da rainha, mas sim como algum de um nvel muito mais 
elevado, apesar de Quentin no ser capaz de dizer quem. O homem parecia 
um nobre.
- Ds um belo prncipe, Oswald - disse a rainha. - Ests pronto para 
desempenhar o teu papel?
Oswald fez uma nova vnia, virou-lhe as costas e gritou num tom forte:
- Podem ir! Retirem-se! - Virou-se para a rainha e perguntou com 
delicadeza: - Acham que ser o suficiente para o que se pretende?
Havia um certo tom de sarcasmo na sua voz e Quentin apercebeu-se, com um 
sobressalto, que Oswald estava a desempenhar o papel do misterioso 
Jaspin.
- Penso que est muito bem... e tenho esperanas de no vir a perder o 
meu camareiro.  capaz de gostar de ser um prncipe... mas no um patife 
como Jaspin,  claro!

77

Oswald retirou-se para a antecmara. Quentin ouviu o eco das ordens dadas 
ao guarda. A rainha virou-se para Quentin e declarou;
- Est na hora. Segue o guarda, que te conduzir  porta traseira. Os 
cavalos estaro a  espera, com provises. iremos tambm, logo que seja 
possvel. Depressa. vai!
Quentin seguiu o guarda, um homem baixo e forte como um touro, de olhos 
negros e um cabelo preto encrespado. Tinha todo o aspecto do soldado que 
j fora. Quentin no se afastou da esteira do homem, enquanto avanavam 
por corredores escusos e por passagens pouco frequentadas.
Caminharam depressa, sem pararem para olhar para a esquerda ou para a 
direita, mas mesmo assim os olhos de Quentin captaram vises de salas 
muito mais opulentas e luxuosas do que as que a sua mente imaginara 
possveis. Ansiava por poder parar e olhar para elas, a partir dos 
corredores. Passaram por vrios apartamentos privados, pelo armeiro, por 
antecmaras e cmaras. A certa altura cruzaram uma enorme entrada com 
duas gigantescas portas de carvalho esculpido. abertas de par em par como 
que para lhes dar as boas-vindas. No interior. uma dupla colunata 
suportava um imenso tecto em cpula. de arcos concntricos, suspenso 
sobre um vasto salo que parecia conter todos os tesouros do reino. 
Quentin nunca vira uma coisa assim: o salo era suficientemente grande 
para engolir inteiro todo o templo de Ariel. Trenn. o guarda, ao ver os 
olhos de Quentin a esbugalharem-se enquanto avanavam, explicou:
-  o grande salo do Rei Drago. No h outro como ele em todo o mundo.
Quentin no duvidou. nem por um instante.
Mal o guarda acabara de falar quando se virou como um raio, atirando-se a 
Quentin e agarrando-o pela tnica, por detrs do pescoo. Quentin ficou 
surpreendido e chocado. Esperneou como uma marioneta e bateu no homem, 
agitando os braos e as pernas.
- Anda, rufio, ou lano-te aos ces! - rugiu o guarda.
- Precisas de ajuda, Trenn?
A voz provinha de detrs de Quentin. Virou-se e viu dois homens ricamente 
vestidos que avanavam para o grande salo. Pela armadura, um deles 
deveria ser um cavaleiro, mas de um tipo que Quentin nunca vira. A 
armadura era de prata e fora polida at atingir um brilho incomparvel,

78

e a capa era escarlate. forrada a zibelina tal como as luvas e as botas.
O homem de p ao lado do cavaleiro usava uma capa de seda brocada, com 
finssimos fios de ouro includos no tecido. A sua tnica era de um 
prpura real, e exibia um grande colar de ouro de onde pendia uma 
insgnia: um abutre com duas cabeas, uma virada para a direita e outra 
para a esquerda.
Quentin calculou que o homem que falara fora o cavaleiro, apesar de no 
ter maneira de o saber.
- Posso tratar disto sozinho. meu senhor - disse Trenn, baixando a cabea 
numa cortesia. - Apanhmo-lo na despensa, a encher os bolsos.
- Pois bem, d-lhe o teu cinturo a provar - disse o nobre, impaciente. 
Os dois homens viraram as costas e Trenn puxou Quentin para detrs de uma 
das grandes portas, colocando-lhe uma das mos sobre a boca.
- Silncio, jovem senhor! No podemos permitir que nos descubram aqui, 
sem motivo! - A seguir retirou a mo fazendo-lhe mais um sinal de aviso, 
para que no gritasse.
- Quem eram aqueles? - murmurou Quentin. Trenn rolou os olhos para o 
alto.
- Orphe, isto s visto! Era o prncipe Jaspin e um dos seus nobres, Sir 
Grenett... e nunca conheci pessoa mais torpe!
- Ento vamos embora daqui! - disse Quentin, no vendo motivos para 
permanecerem nas vizinhanas.
- No podemos... De um momento para o outro. Oswald ir cair numa 
armadilha, sem dar por isso. Temos de fazer qualquer coisa para o evitar!
O plano que tinham preparado era muito simples, mas existiam elementos de 
risco. O camareiro, Oswald, faria o papel do principe Jaspin. depois de 
obter, s escondidas, algumas das roupas do prncipe. Seria enviada uma 
falsa mensagem ao responsvel pelas masmorras, para que colocasse o novo 
prisioneiro sob guarda e o levasse ao grande salo, que fora o nico 
lugar de que os conspiradores se tinham lembrado onde era improvvel que 
o prncipe Jaspin aparecesse. Porm. como acontece com frequncia, os 
seus piores receios tinham-se materializado em forca.
O prncipe Jaspin e um dos seus nobres haviam escolhido precisamente 
aquele momento para uma conversa particular no grande salo,

79

onde Oswald. disfarado, apareceria dentro de momentos... e s o audaz 
Trenn e Quentin estavam a par desse perigo.
- Receio que os deuses estejam contra ns. jovem senhor. Dentro de 
instantes ir aparecer Oswald, e logo a seguir traro o prisioneiro... j 
se podiam escutar passos no fundo do corredor. Oswald apressava-se em 
direco ao salo. - S temos uma soluo - afirmou Trenn. - Uma 
diverso,
Espreitou pela beira da grande porta e apontou na diagonal. para o outro 
lado do salo, para o arco obscuro de uma alcova.
- Ests a ver aquela porta alm? - perguntou. -  o armazm das mesas, 
bancos, e de tudo o mais que enche o salo nos dias festivos. Tambm l 
est uma grande quantidade de bandeiras, pendes e outras bugigangas. 
Pega-lhes fogo! - Colocou nas mos indecisas de Quentin uma pequena 
pederneira e um ferro, presos por um fio de couro, que usava numa bolsa, 
 cintura. - Irei logo atrs de ti, a gritar, para lhes chamar as 
atenes. Quando me ouvires chamar, deixa tudo e vem. No teremos muito 
tempo... mas talvez seja o suficiente.
- Compreendo.
- Vai, ento. - Trenn empurrou Quentin com tanta fora que o rapaz caiu  
entrada do grande salo, largando a pederneira e o ferro, que tilintaram 
e deslizaram pelo cho de mrmore negro, indo parar a menos de cinco 
passos do local onde o prncipe Jaspin e Sir Grenett se tinham detido 
para conferenciar.
Quentin ps-se de p num salto e mergulhou para apanhar a pederneira e o 
ferro. Atrs dele, Trenn gritou:
- Agarrem! Agarrem esse ladro!
O prncipe Jaspin e Sir Grenett viraram-se a tempo de verem Quentin 
precipitar-se na sua direco, baixar-se para apanhar o utenslio 
perdido, e fugir a correr. Sir Grenett, sem pensar, correu atrs do jovem 
fugitivo, mas o prncipe Jaspin, considerando que era uma pouco oportuna 
interrupo dos seus importantes assuntos, deixou-se ficar no seu lugar, 
furioso.
Quentin alcanou a porta do armazm e puxou pelo fecho de ferro com a 
mo. A porta estava fechada por dentro... No, cedeu um pouco, mas Sir 
Grenett estava quase a apanh-lo. Servindo-se de todo o seu peso, Quentin 
conseguiu fazer funcionar o fecho, abrir uma nesga da porta, esgueirar-se 
para o interior e fech-la outra vez, tudo quase num nico movimento. O 
punho de Sir Grenett j batia na porta quando Quentin a travou por 
dentro.
A sala estava numa escurido quase total. A nica fraca luz que conseguia

80

abrir caminho provinha de uma estreita seteira colocada no alto, na 
parede. Acompanhado pela voz excitada de Trenn, pelo tos de Sr Grenett e 
pelos murros dos dois homens sobre a porta. Quentin cambaleou para a 
frente e descobriu, a um canto do quarto, as bandeiras colocadas em 
suportes. Atirou-as ao cho e comeou a esfregar o ferro na pederneira. O 
esforo pareceu-lhe ftil: no havia uma bandeira rasgada. ou um fio em 
que uma fasca pudesse pegar. Olhou em volta furiosamente, procurando 
outra coisa qualquer com que iniciar as chamas. No cho, avistou um 
bocado de pergaminho, uma proclamao, qualquer espcie, que fora lida 
numa festa h muito esquecida. Pegou-lhe e correu para junto da porta, 
amarrotando o pergaminho nas mos. Atirou-o para o cho mesmo em frente 
da porta, e fez saltar a fasca com o ferro e a pederneira. A fasca 
pegou na pele velha e ressequida. Soprou com cuidado e a fasca ganhou 
vida e transformou-se numa chama. A tremer, Quentin colocou o pergaminho 
a arder ji da fenda inferior da porta e soprou, enviando o fumo para o 
outro lado.
- Fogo! - ribombou a voz de Trenn. - O patife pegou fogo armazm!
O prncipe Jaspin, cada vez mais impaciente com a impertinncia daquele 
pretenso jovem patife, aproximou-se, a ferver, do local onde Trenn e Sir 
Grenett davam murros na porta.
- Chamem os guardas! Quero esta porta deitada abaixo imediatamente! - 
gritou.
- Toda a sala ser um braseiro antes de termos tempo para isso, - 
objectou Trenn. - Meu senhor, permita-me que permanea a( enquanto Sir 
Grenett d a volta at  outra porta, pela antecmara
- Se bem me recordo, essa sala tem mais duas dessas entradas - explicou o 
exasperado prncipe, a perder a pacincia.
- O meu senhor poderia tratar da outra... - sugeriu Trenn.
O prncipe pareceu querer pr de parte aquele plano, mas o fumo j se 
levantava em turbilhes entre os ps deles.
- Por Azrael! Eu prprio arrancarei a pele a esse patife, com o chicote. 
- praguejou Jaspin, correndo para ir  procura da outra porta, cuja 
localizao conhecia apenas de uma maneira muito vaga. - Sr Grenett! - 
gritou - ocupe a sua posio. Acabaremos instantaneamente com esta 
vexao.
Afastaram-se os dois, dirigindo-se para as respectivas portas. Logo que 
ficaram fora das vistas, Trenn chamou, com o rosto junto da porta.

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- j se foram embora. Vamo-nos daqui!
Ao ouvir o sinal, Quentin emergiu do armazm, a tossir. O pergaminho fora 
completamente consumido e jazia agora no cho, transformado em cinzas. 
Trenn agarrou-o pelo brao com tanta fora que pareceu querer arrancar-
lho, e puxou-o para longe. Na entrada do grande salo deparou-se-lhes um 
confuso Oswald, que estivera a espreitar, receoso, para a cena que tivera 
lugar.
- O nosso plano foi descoberto... - murmurou, quando chegaram junto Dele.
- No... - replicou Trenn num tom abafado - mas no fiques aqui toda a 
noite! Conseguimos mais alguns minutos. Trata do que tens a fazer e foge!
Oswald no pareceu muito convencido, mas o barulho de vozes no corredor 
por detrs dele, e uma rpida olhadela ao carcereiro e aos guardas que 
avanavam para eles com o prisioneiro obrigaram-no a decidir-se. O 
camareiro avanou para o outro lado do salo e ocupou a sua posio, de 
costas viradas para a entrada. Trenn e Quentin no ficaram no local para 
verem o fim daquele drama, e apressaram-se em direco ao local de 
encontro, a porta das traseiras.

Quentin sentiu no rosto a mordidela do ar gelado quando se precipitaram 
para o exterior do castelo, para o vasto espao do ptio. Trenn e Quentin 
deslizaram como sombras sobre a neve, passaram sob um baixo arco de pedra 
aberto numa parede e entraram no pequeno ptio de um posto da guarda. Na 
brancura do ptio encontravam-se trs cavalos carregados com provises. 
junto deles viram um dos membros da guarda de Trenn, que verificava as 
selas e os arreios.
- Est tudo em ordem, senhor - declarou o guarda quando se aproximaram.
- ptimo - respondeu Trenn. - Vai ver se a levadia est descida. os 
outros devem estar a chegar de um momento para o outro.
O homem virou-se e afastou-se  pressa. Trenn lanou um olhar preocupado 
para o castelo e disse baixinho para Quentin:
- Formos um pouco a nossa sorte para chegarmos aqui. Agora o resto  
com os deuses. - Calou-se por um instante e acrescentou com uma voz 
spera: - Escuta! Vem a algum!

CAPTULO X

Quentin tremia de frio. A Lua, muito grande e brilhante, comeava a 
mostrar o seu disco prateado por cima das montanhas orientais, por entre 
duas torres. Quentin observou-a, numa excitao nervosa, desejoso de se 
ver longe dali. Estava de p na neve, segurando as rdeas da montada. que 
era nem mais nem menos do que o resistente Balder, recuperado dos 
estbulos da estalagem por interveno da rainha. Os participantes na 
emboscada, tendo conseguido a sua presa, no se haviam interessado pelos 
cavalos, que tinham deixado ficar para trs.
A rainha permanecia ali perto, conversando baixinho com Trenn, que se 
mostrava teimosamente obstinado a respeito de qualquer coisa que ela lhe 
dizia.
- Meu bom guarda - dizia a rainha -, no insistiria se pensasse que 
corrias apenas um ligeiro perigo. O prncipe est raivoso e exige 
explicaes. julga que s responsvel por uma qualquer traio contra ele 
e no gostou nada da partida que lhe pregaram no grande salo. Quando for 
informado da fuga do prisioneiro, vai exigir a tua cabea.
- Como pode ele saber que tive alguma coisa que ver com o seu precioso 
prisioneiro? - objectou Trenn.
- Aquele que suspeita de todos no necessita de razes para suspeitar de 
quem quer que seja. Jaspin ficar desconfiado e depois, no mnimo, 
servir-se- da tua morte como exemplo para os que queiram interferir com 
ele. No  seguro deixares-te ficar para trs.
- j aturei a sua ira muitas outras vezes. Conseguirei suport-la.
- Desta vez no o conseguirs. S se contentar com a tua cabea espetada 
numa lana. Tens de vir connosco.

84

Nesse momento surgiram duas figuras a correr do arco de pedra. A da 
frente era alta e escura, e a segunda, com a capa a brilhar ao luar, 
seguia-a de perto.
- Theido! - gritou Quentin, quando os dois homens se lhes juntaram.
- Quentin! s tu? - perguntou o homem, com alguma surpresa.
- Despachem-se - interveio Trenn. - De verdade que no h um momento a 
perder. Tm de partir!
- Trenn, tu vens connosco - afirmou a rainha com firmeza, virando-se para 
um dos guardas que se encontravam ali perto: Preparem outro cavalo!
- No h tempo, minha senhora - protestou o teimoso guarda. - Poderei 
ser-vos mais til se me encontrar no castelo. Vo e no se preocupem 
comigo.
- Sim, tm de ir imediatamente - declarou Oswald. - O carcereiro em breve 
mandar buscar o prisioneiro. Quando descobrirem que desapareceu, Jaspin 
ficar a saber que houve uma traio.
Quentin encontrava-se j na sela do grande cavalo de batalha. Balder 
fungava e sacudia a cabea. As rdeas tilintavam no ar gelado, fazendo 
Quentin recordar-se de pequenas campanhas de oraes escutadas de muito 
longe. Theido montou o seu prprio cavalo castanho e o animal agitou-se e 
martelou com os cascos no cho, como que a dizer: "j chegou o momento! 
Vamos!"
Com a ajuda da mo firme de Trenn, a rainha trepou para a sela, dando a 
Oswald as suas ltimas instrues.
- Jaspin no pode ter motivos para suspeitar da minha ausncia durante 
pelo menos dois dias. Engana-o durante tanto tempo quanto fores capaz. 
Faz com que toda a gente acredite que estou de cama com uma sbita doena 
e que no devo ser incomodada. As minhas aias devero comportar-se como 
se me encontrasse nessas condies... e tu prprio te deves esquecer que 
sabes que no  verdade!
Oswald respondeu com uma vnia e Trenn fez sinal a um dos seus homens 
para abrirem o porto. Os cavaleiros partiram. Os cascos dos cavalos 
martelaram no pavimento de pedra da estrada que dava para a porta, 
ecoaram sobre as tbuas da pequena ponte levadia lanada sobre a fossa 
que separava a poterna da casa dos guardas do porto. Prosseguiram ao 
longo da passagem amuralhada que seguia a vertente

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pronunciada da colina rochosa em que o castelo fora construdo. Quando 
cavalgaram por cima da ltima ponte, ultrapassando o segundo fosso seco, 
Theido virou-se na sela e deteve-se por instantes, esperando que os 
outros ficassem a seu lado.
- Para alm de todos os outros a quem possa ter de agradecer a minha 
liberdade, agradeo ao meu amigo Quentin - declarou, fazendo uma vnia na 
sela. Virou-se para a rainha Alinea e acrescentou: - Agradeo tambm  
sua influente amiga.
- Teremos todos de agradecer pelo nosso cativeiro se no nos formos 
embora daqui bem depressa - respondeu a rainha com uma gargalhada, para 
depois continuar num tom mais srio: - Meu bom Theido, lamento muito os 
abusos que cometeram sobre ti, mas talvez os deuses ainda tenham um plano 
para desfazer todo o mal que o prncipe Jaspin j fez. Pela minha parte, 
estou contente por ainda estares vivo e te encontrares a meu lado. A 
nenhum outro confiaria a minha segurana de to boa vontade.
- Senhora, ainda nem sequer vimos o princpio do nosso percurso. Pode 
acontecer que venhais a ter motivos para amaldioar aquele a quem agora 
prestais tantas honras.
- No. j muitas vezes vi a tua coragem ser posta  prova. No tenho 
apreenses, sejam quais forem os perigos que temos pela frente.
- Mesmo assim, ainda no  tarde para voltar para trs...
A rainha interrompeu-o, dizendo:
- Tomei a minha deciso e vou mant-la. No podia continuar a viver 
naquela fortaleza depois de saber o que Jaspin. fez... e at que ponto 
so grandes as suas ambies. Depois de as conhecer, a minha vida seria 
to frgil como a do veado apanhado na rede. - Respirou fundo e virou o 
rosto para leste - No... o meu futuro jaz naquela direco. O meu rei 
aguarda-me.
Theido sacudiu as rdeas.
- Ento... partamos!
Os cavalos avanaram na neve, fazendo saltar brilhantes diamantes sob a 
luz prateada. As sombras dos trs cavaleiros oscilavam e deslizavam em 
silncio no suave vazio. Eram trs sombras em fuga precipitando-se por um 
mundo adormecido. Fugiam para longe, para leste, na direco da sombra 
negra da floresta de Pelgn!n, com as suas formas escuras desenhadas na 
colher de prata da neve, pela Lua de Inverno que se erguia no cu.

86

Quentin mantinha-se dobrado sobre o animal, agarrado ao pescoo de 
Balder, pois abandonara toda a esperana de se manter junto dos outros a 
no ser que desse rdea livre  sua montada. No era um bom cavaleiro, 
pois o templo tinha muito pouco uso para cavalos. Essa parte da sua 
educao fora negligenciada, a favor de outros estudos mais sacerdotais. 
Por isso seguia agora encolhido contra o vento, fustigado pelo esvoaar 
da crina de Balder,. espreitando para a noite, pestanejando para libertar 
as lgrimas de gelo, e aguentando a neve atirada pelos cascos dos cavalos 
que seguiam na sua frente.
A Lua pairava no znite quando atingiram as primeiras, e dispersas, 
franjas da floresta. Theido continuava a sua corrida, s curvas por entre 
as pequenas rvores e arbustos. at o ltimo cavaleiro se encontrar no 
meio do arvoredo mais denso. A chegado,  beira da floresta, Theido 
puxou as rdeas e parou, para dar um curto descanso aos cavalos. Todos se 
viraram nas selas para olharem para Askelon, agora a muitos quilmetros 
de distncia. Quentin torceu o pescoo para poder ver o castelo, 
vagamente delineado pelo luar, erguendo-se como uma montanha, formando 
uma sombra negra de encontro a uma noite ainda mais negra. Por cima das 
suas cabeas, um milhar de estrelas lanava brilhantes dardos de luz fria 
sobre eles. Os cavalos libertavam brancos farrapos de vapor.
- Devemos chegar  cabana de Durwin com a madrugada - disse Theido, 
virando-se mais uma vez para a vasta extenso branca que tinham 
atravessado. - No vejo que nos tenham seguido, mas creio que  melhor 
contar com isso. Podem ter a certeza de que tentaro deter-nos. A nossa 
nica esperana est em manter um avano to grande que os seus esforos 
surjam demasiado tarde.
- Poderemos ganhar vantagem ou perd-los durante o caminho -sugeriu a 
rainha.
-  possvel. De qualquer modo,  a nossa melhor soluo. Jaspin tem 
muitos espies por todo o pas e muitas pessoas que lhe devem grandes 
favores. Tentaremos servir-nos deles. Se os conseguirmos enganar durante 
tempo suficiente, acabaremos por os perder quando sarmos desta regio. 
Caminharemos to em silncio atravs de Pelgrin quanto seja possvel a um 
grupo a deslocar-se depressa. Contudo. terei de fazer uma paragem ao 
longo do caminho e dentro de pouco tempo. - Theido encaminhou o cavalo 
para a floresta e os outros seguiram-no.

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Quentin descobriu que o avano era mais fcil. Agora podia manter-se mais 
a direito na sela, apesar de os ramos mais baixos o obrigarem a dobrar-se 
e a desviar-se a todo o momento. Theido prosseguiu num passo incansvel 
durante quase duas horas, tanto quanto Quentin conseguiu calcular pela 
posio da Lua, que de vez em quando se esforava por avistar por entre 
aberturas nas rvores, que lhe permitiam ver o cu.
Mantiveram-se ao lado da estrada principal que atravessava a floresta. e 
acabaram por atingir um velho carvalho de dimenses imensas, maior do que 
qualquer outro dos que Quentn vira at a. Theido pediu que parassem, e 
depois avanou alguns passos sozinho. A seguir descalou uma luva, levou 
dois dedos  boca e soltou um assobio baixo. Repetiu o assobio e trotou 
de volta para o local onde Quentin e a rainha o aguardavam. Preparava-se 
para falar quando se ouviu um longo e agudo assobio de resposta.
- Vamos - disse Theido -. j podemos avanar.
Saram do caminho, junto do carvalho. e Quentin avistou uma estreita 
abertura entre dois matagais macios e impenetrveis. O espao era 
suficiente para permitir a passagem de um nico homem a cavalo. ou a 
p... desde que se conhecesse o local. pois este encontrava-se 
perfeitamente escondido por detrs do velho carvalho. Atravs daquela 
muralha de verdura, os cavaleiros entraram numa clareira em forma de 
taa. O terreno descia suavemente na frente deles. para voltar depois a 
subir do outro lado. onde havia um rebordo rochoso coroado com btulas 
jovens, numa pequena colina. A toda a volta da circunferncia da colina 
cresciam arbustos, espessos e negros sob o luar.
Theido levou o grupo para o centro da "taa", onde esperaram. Quentin no 
conseguia imaginar por que motivo ali tinham ido, ou quem respondera ao 
sinal de Theido. porque fora bvio que se tratara de um sinal. No teve 
de esperar muito para conhecer as respostas a todas essas questes. 
Sentado na sela, observou o limitado horizonte do vale e nada viu de 
especial mas. quando ainda se encontrava a olhar, apercebeu-se que os 
arbustos pareciam estar vivos... e que cada um deles era um homem 
disfarado por uma hbil camuflagem de ramos e folhas. fixos s costas e 
ombros. Quentin ficou fascinado ao ver aqueles "arbustos>, a porem-se de 
p e a aproximarem-se. Ao todo, eram dezasseis. O lder parecia ser um 
homem enorme, com um chapu de folhas secas puxado muito para baixo, para 
cima do rosto. Aproximou-se

88

com um grande  vontade e parou directamente em frente de Theido, fazendo 
uma vnia e dizendo:
- Uma muito boa-noite para si, Sir Falco. O seu sinal fez-nos despertar 
de um longo sono de Inverno. No entanto, estamos sempre prontos para o 
ser-vir, e aos seus, a qualquer hora ou seja qual for a necessidade. Em 
que lhe podemos ser teis?
- s muito amvel. Voss. Neste momento s quero falar contigo e a seguir 
podero voltar para a vossa confortvel toca.
O homem fez nova vnia e Quentin pde ver o seu rosto largo bem-disposto 
sob o luar que enchia a clareira, reflectindo-se no cho coberto de neve. 
Voss fez um sinal para os seus homens, e instantaneamente os cavaleiros 
viram-se rodeados por uma estranha mistura de cabeas, braos e ramos. 
Cada um dos homens transportava uma pequena espada e um comprido arco. 
Quentin no viu setas, mas calculou que estivessem escondidas no meio da 
camuflagem.
- Esta manh, fui feito prisioneiro por homens sob as ordens de Jaspin.
- Ces! - cuspiu Voss. O crculo de homens-arbustos soltou murmrios 
ameaadores. Quentin ficou com a impresso de que se Jaspin, ou quaisquer 
cinquenta dos seus homens, estivessem ao alcance dos arcos naquele 
momento, j exibiriam penas a enfeitarem-lhes os corpos. - Como foi que o 
conseguiram?
- No sei, mas esse assunto no tem grande importncia. Neste momento 
estou em liberdade graas  interveno rpida destes meus amigos. - 
Theido fez um aceno na direco de Quentin e da rainha.
Os homens-arbustos fizeram uma vnia em conjunto e Voss falou em nome de 
todos, afirmando:
- Pelgrin nunca vos deixar ficar mal enquanto um de ns estiver acordado 
e a respirar. Um assobio, assim... - e Voss assobiou - trar ajuda e 
salvao, tanto das garras dos homens como dos animais. Se a vossa 
necessidade for de alimentos ou abrigo, tero cama e mesa junto de ns 
enquanto as barrigas tiverem fome ou os olhos quiserem dormir.
- Aceitaremos a vossa generosa oferta, bravo homem - disse a rainha. - 
Podes estar seguro de que se alguma vez tiver tais necessidades, apelarei 
ao cumprimento dessa promessa.
- Por favor... - interrompeu-os Theido. - No vos incomodaremos mais esta 
noite, excepto para dizer que iremos directamente para

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a cabana do santo eremita, Durwin. Muito provavelmente seremos 
seguidos... se  que no o somos j. Gostaria de ter um vigia no nosso 
caminho e de ser avisado a tempo logo que algum dos homens do prncipe 
entrar nestes bosques.
- isso  to fcil de dizer... - respondeu o habitante da floresta, 
acenando para vrios dos seus companheiros, que se afastaram 
imediatamente, desaparecendo na floresta to silenciosamente como sombras 
- como de fazer. Mais alguma coisa?
- Talvez venha a ser necessrio pr  prova as vossas capacidades, mas 
penso que no ser para j. Vamos partir e agradecemos toda a vossa 
ajuda. Poderemos no ter tempo para o fazer mais tarde.
- No so necessrios agradecimentos - replicou Voss com um largo 
sorriso. - Estamos mais que satisfeitos por podermos pagar, em espcie, 
os servios que nos foram prestados muitas vezes. A caminho! - gritou de 
repente, dando uma palmada no pescoo dos cavalos. -Talvez ainda possam 
sonhar um pouco, antes da madrugada.
Theido saudou o corpulento habitante da floresta e fez uma vnia para o 
crculo de homens que os rodeavam. Retriburam a saudao, erguendo os 
arcos no ar e dizendo:
- Que Ariel vos guie!
Trs homens avanaram espontaneamente, pegaram nas rdeas dos cavalos e 
conduziram-nos para a floresta. Quentin olhou para trs, sobre o ombro, 
para onde Voss e os restantes continuavam a observ-los. Acenou-lhe e os 
homens-arbustos acenaram-lhe de volta. Quentin ficou a olh-los at a 
floresta se cerrar mais uma vez  sua volta.

CAPTULO XI

Quentin acordou ao cheiro de carne a assar, temperada com especiarias 
perfumadas. O aroma despertou-o, fazendo-lhe crescer gua na boca e 
provocando-lhe uma dor no estmago vazio. Parecia-lhe que se passara um 
ms desde que comera pela ltima vez.
As plpebras pesavam-lhe como chumbo e no tinha foras para as abrir. 
Assim, deixou-se ficar num estado de animao suspensa, acordado mas 
imvel, tentando reunir os seus pensamentos e convencer as pernas - que 
se mostravam muito relutantes - a moverem-se. Nos dois casos, obteve 
apenas um xito parcial. Por fim, dominado pela fome e incitado pelos 
agradveis odores que pairavam  sua volta, empurrou a capa para um lado 
e retirou as palhas que tinha agarradas aos cabelos.
Escutou vozes. Lutando para se pr de p e sair do canto, seco e cheio de 
palha, que lhe servira de cama, aproximou-se da comprida mesa do eremita, 
onde Theido e Durwin murmuravam um para o outro.
- ento temos de ter todas as cautelas. Qualquer erro pode vir a ser 
fatal. Est tanta coisa em jogo... - Quentin ouviu esta agourenta 
afirmao quando se aproximou da mesa. Era Durwin quem estava a falar. - 
Teremos de nos armar. No vejo outra alternativa,
- No - replicou Theido com suavidade, mas com a voz tingida por uma 
teimosa objeco. - No te posso pedir uma coisa dessas. Deve haver outra 
maneira.
Quando Quentin chegou junto da mesa, os dois homens interromperam a 
conversa de repente e saudaram-no com entusiasmo.
- Durwin, o nosso jovem aclito salvou-me a vida, ontem. j to contei? - 
perguntou Theido, levantando na direco de Quentin uma

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taa cheia de um lquido fumegante, enquanto Durwin se apressava a 
colocar na sua frente uma malga de papas quentes e po.
- Sim, j mo contaste, mas apenas trezentas vezes desde que nos 
levantmos. Terei todo o prazer em ouvir outra vez a histria - replicou 
o eremita.
Theido voltou a narrar, em termos brilhantes, tudo o que acontecera na 
manh anterior, desde a sua captura  ousada fuga e  cavalgada sob o 
luar.
- Se no fosse o meu jovem amigo ter desobedecido s ordens., hoje eu 
seria alimento para os mochos.
- Desobedecer? Quando foi que desobedeci? - protestou Quentin.
- Recebeste instrues para cavalgares de volta aqui se me acontecesse 
alguma coisa ou os planos falhassem.
Quentin recordou-se da ordem. O susto e a confuso da emboscada tinham 
sido tais que lha haviam varrido da cabea. Depois, de qualquer modo, 
tivera a sorte de conseguir um plano melhor.
- Quentin - continuou Theido -, ficas absolvido de todos os teus erros, 
mas agora tenho de salientar uma coisa: nunca mais desobedeas s minhas 
ordens. Cumpre-as, sem te importares com qual possa ser o resultado. 
Compreendes?
- Sim, senhor! - respondeu Quentin, incerto. Ainda minutos antes fora 
louvado pela sua coragem e iniciativa... e agora sentia-se severamente 
repreendido.
- Ora... - fez Durwin. - No sejas to cabeudo, Theido. Creio que o deus 
interveio com uma ordem sua. Sou eu que to digo, o deus est a interferir 
neste assunto. - O santo eremita acenou uma aprovao para Quentin, que 
ficou satisfeito com aquela afirmao.
- Obedecerei at ao mnimo pormenor - declarou Quentin. Sentou-se no 
banco, comeou a partir o po em bocados e a remex-los na fumegante 
papa. - Agora, posso perguntar uma coisa que me tem andado a intrigar?
- Pergunta. No haver segredos entre ns.
- Porque  que aqueles homens o trataram por Falco?
- Por causa do braso da minha famlia: o falco caador. Entre os homens 
da floresta, e outros que por a andam, sou conhecido por Falco. 
Consideram-me um fora-da-lei como eles prprios. - Encolheu os ombros. - 
Isso agrada-lhes e permite-me a liberdade de me deslocar

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onde um nome diferente seria um empecilho. - Calou-se mas depois 
acrescentou num tom mais leve: - Os meus amigos, como sempre, conhecem-me 
por Theido.
- E nenhum que conhea esse nome poderia desejar um amigo mais 
verdadeiro. - Era a voz da rainha, agora de p, atrs de Quentin, Fora 
acordada pelo som das vozes e aproximara-se silenciosamente da mesa. 
Durwin, parecendo um pouco corado, apressou-se a oferecer-lhe o melhor 
lugar  mesa, o seu.
- Majestade... - disse, fazendo uma vnia pela cintura - sinto-me honrado 
por vos receber na minha humilde casa.
- A vossa amabilidade foi apreciada - respondeu a rainha, deslizando para 
o lugar que lhe fora oferecido. - Porm, a partir de agora, tratem-me 
apenas por Alinea. Pus a coroa de lado e no serei rainha at que o meu 
rei regresse para reclamar o seu trono e redimir o meu.
- Ser como desejais, Alinea - replicou Durwin com gentileza. Tinha o dom 
de se relacionar bem com toda a gente, importante ou no, e de fazer as 
pessoas sentirem-se honradas e bem recebidas na sua casa. Quentin tambm 
o sentira desde o primeiro momento. - Agora, acabaram-se as conversas at 
quebrarmos o nosso jejum...

O prncipe Jaspin corria, furioso e de olhos vermelhos, pelos corredores 
do antigo castelo. No dormira durante toda a noite e acabara de ser 
informado de que a rainha cara de cama, doente, e que no queria ver 
ningum nem receber mensagens. Esse facto fizera-o perder a oportunidade 
de a interrogar. O prncipe estava irado.
Durante a noite mandara mensageiros  maior parte dos nobres que se 
encontravam ao seu alcance, marcando uma reunio para o meio-dia, para 
serem informados de um plano que estudava havia algum tempo. A sua fria 
por ter perdido o prisioneiro levava-o a implement-lo sem mais demoras.
Penetrou na Cmara do Conselho com o rosto magro vermelho de ira e 
exausto. Aguardava-o a um grupo de nobres e cavaleiros, debaixo dos 
seus pendes e bandeiras. Muitos deles mostravam sinais de terem 
cavalgado muito e com grande esforo para poderem estar presentes  hora 
aprazada.
- Meus senhores, por favor sentem-se. Temos muito que discutir. - Todos 
lhe fizeram uma vnia quando Jaspin lhes fez sinal que avanassem

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para cadeiras colocadas em volta de uma comprida mesa. Apontou a cadeira 
 sua direita para Sir Bran e outra  sua esquerda para o musculoso Sir 
Grenett. Perto deles sentou-se um homem de olhos estreitos e astutos e 
uma boca saliente e descada, um homem de inorme riqueza, que estava 
decidido a ser o primeiro-ministro do novo monarca. Chamava-se Ontescue, 
um nome pouco apreciado pelos servos que trabalhavam as suas terras e que 
tinham de suportar o fardo das suas dispendiosas ambies.
- Meu senhor, tendes um aspecto adoentado esta manh. Espero que o vosso 
sono no tenha sido perturbado. - Disse Ontescue, que calculara que o 
prncipe procurava uma oportunidade para se lanar numa narrativa de toda 
aquela agitao. Queria ser ele a servir de ouvinte atento.
-  verdade, no dormi a noite passada, mas essa questo fica para outra 
vez. - O prncipe ps de parte a oportunidade de desabafar os seus 
problemas, pois tinha um outro assunto, de importncia mais imediata. -
Meus senhores, a vossa presena  gratificante. Todos sabemos demasiado 
bem que o nosso reino est h muito tempo sem um monarca, e que na sua 
ausncia  governado pelo Conselho de Regentes. Descobri provas de que 
certos nobres desse Conselho tm ajudado os fora-da-lei nas suas 
campanhas de roubos e desafios, em todas as florestas deste pas.
"Foi apenas ontem que os meus homens aprisionaram o prncipe desses fora-
da-lei... e que o tinha em segurana dentro destas muralhas, at nos 
poder informar sobre o seu bando e sobre os lderes de outros grupos de 
fora-da-lei, com quem est bem relacionado.
"O meu desejo  libertar os bosques e colinas desses lobos rapinantes, 
para devolver as estradas ao povo e ao comrcio. Contudo, ainda antes de 
conseguir pr os olhos em cima desse chefe de bandidos, o mesmo foi posto 
em liberdade por companheiros de elevada posio e ttulos. No consegui 
apoderar-me dos homens que libertaram o vilo, mas sei quem lhes deu as 
ordens. - Jaspin fez uma pausa. Conseguira a ateno de todos os olhos e 
ouvidos. - Lord Weldon e Lord Larcott!
Ouviu-se imediatamente um grito.
- Impossvel! - Lord Larcott, batendo com o punho sobre a mesa, estava de 
p, protestando a sua inocncia. Lord Weldon permanecia no seu lugar, 
estupefacto. Os outros senhores e cavaleiros afogaram os protestos de 
Larcott com os seus prprios gritos, exigindo justia.
O prncipe Jaspin levantou uma das mos e exigiu silncio.

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- Como nobres senhores deste reino, iro ter a oportunidade de 
responderem pelas acusaes que vos so feitas. De momento, e at chegar 
a altura de serem ouvidos sobre os vossos crimes, apresentar-se-o na 
torre para a serem confinados. - Com um aceno da cabea, o prncipe 
Jaspin chamou quatro guardas armados para acompanharem Larcott e Weldon 
s masmorras. O furor continuou ao longo da mesa da reunio, enquanto os 
dois infelizes eram agarrados e conduzidos sob os empurres dos guardas. 
Lord Larcott ainda gritou, e todos o puderam ouvir:
- Por Zoar, pagars por este ultraje! Ainda verei a tua cabea espetada 
numa lana!
Lord Weldon deixou-se levar em silncio, com um ar de profundo desespero 
e desgosto estampado no rosto acinzentado. Os que lhe viram essa 
expresso viraram a cara  pressa: os olhos do homem pareciam perfurar as 
almas de todos os que o acusavam.
Depois de sarem e de a ordem ter sido restaurada, o prncipe Jaspin 
lanou-se no que constitua a parte principal do seu plano: preencher os 
dois lugares que acabavam de ficar vagos no Conselho de Regentes.
- Nobres senhores. como sabeis, o povo est cada vez mais dependente de 
uma liderana forte, para manter a ordem sobre a nossa terra. Proponho, 
portanto, que elejamos agora dois novos membros do Conselho, e que o 
faamos sem demoras.
- Bravo, bravo! - gritaram os nobres que se encontravam sob a influncia 
de Jaspin, deliciados com aquela demonstrao de liderana eficiente e 
cheia de viso. Depois, quando a agitao voltou mais uma vez a acalmar-
se, uma figura levantou-se do seu lugar.
- No posso concordar com uma tal aco - disse Lord HoIben. um cavaleiro 
de no pequeno renome. Era amigo de Larcott, e fora um dos escolhidos 
pelo rei Esicevar para se sentar no Conselho de Regentes. - Eleger novos 
membros para este Conselho seria declarar a culpa dos membros anteriores. 
No foram apresentados mandados da justia, no foram afixados os 
decretos. Uma vez que envolve membros da nobreza,  um assunto da mais 
alta importncia, que s poder ser julgado pelo rei, quando do seu 
regresso. - Lord Holben calou-se e sentou-se.
- Tem razo - disse algum. Os outros protestaram.
- O assunto no pode esperar!
A Cmara do Conselho ressoou mais uma vez com as vozes dos

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contendores, at que Ontescue levantou as Mos e conseguiu reduzir aquele 
tumulto ao silncio.
- De certeza que o prncipe pretende apenas defender os melhores 
interesses do reino. Por esse motivo, submeto~me  deciso do prncipe 
Jaspin no que se refere a este caso - declarou Ontescue, com um aceno e 
um sorriso contorcido na direco do prncipe.
- Tambm me submeto - afirmou Sir Bran. A sua opinio foi apoiada por Sir 
Grenett, que depois lanou olhadelas furiosas ao longo da mesa, 
desafiando algum a contrari-lo. A maioria, de boa vontade ou com 
relutncia, acabou por se por do lado deles, com a oposio apenas de 
Lord Holben e de vrios dos seus vizinhos, que no tinham grande simpatia 
porJaspin.
- Pois eu defendo a justia do rei nesta questo. No devem ser tomadas 
novas medidas contra os acusados por este crime - declarou Holben. - O 
caso fica assim at ao regresso do rei.
- Muito bem - retorquiu Jaspin, irritado. - De momento, o assunto no 
ter andamento. De qualquer modo, deixar lugares vazios no Conselho de 
Regentes  igualmente uma violao das leis reais. Dois novos membros 
devero preencher esses lugares. Uma vez que estamos todos aqui reunidos, 
no vejo razes para no procedermos  eleio dos novos regentes.
Lord Holben comeou a pr-se de p para exprimir as suas objeces, mas 
os gritos dos lacaios de Jaspin. impediram-no de falar.
- Muito bem - repetiu Jaspin. - Uma vez que a assembleia est de acordo,
proponho-me apresentar os nomes de Sir Bran e Sir Grenett para a vossa 
recomendao.
- Recomendo-os! - declarou Ontescue. Esta aprovao ecoou inmeras vezes 
enquanto o voto dava a volta  mesa, de homem para homem. Quase todos 
aprovaram de boa vontade a escolha do prncipe, e s se verificaram 
algumas abstenes no seio do grupo de Lord Holben. O nico a ter a 
ousadia de votar contra foi o prprio Lord Holben.
- Sir Grenett e Sir Bran - declarou o prncipe Jaspin, radiante -, sois 
agora regentes do reino. Prestareis o vosso juramento dentro dos prximos 
quinze dias, tal como  requerido pelo decreto real - acrescentou, 
trocista, fazendo uma vnia para Holben, que contraiu os punhos sobre o 
colo. - Que dizeis, corajosos cavaleiros? Aceitais a responsabilidade que 
vos foi dada pelos vossos pares?
- Aceitamos - responderam os dois homens.

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Nesse instante verificou-se nova agitao na sala. Por entrejuras iradas, 
gestos violentos e olhares ameaadores, Lord Holben e o seu grupo 
retiravam-se do Conselho de Regentes, numa grande manifestao de 
protesto. O sorriso que ainda momentos antes encurvava os lbios carnudos 
do prncipe laspin apagou-se lentamente.
Outros nobres e cavaleiros aproveitaram a oportunidade para se irem 
embora. rodeados pelos seus pajens e pelos porta-estandartes. cada um dos 
quais transportava a bandeira e o braso do seu amo. O prncipe Jaspin 
levantou-se e chamou Ontescue.
Algumas das vozes no foram suficientemente altas na sua aprovao dos 
meus novos regentes. Vai ter com eles e amacia-lhes as incerrezas com os 
meios que achares mais convenientes. Preciso que esses homens, ou tantos 
quantos for possvel conquistar com favores, estejam do meu lado.
- Claro. meu senhor. Como sempre. sabeis qual a melhor posio a tomar. A 
vossa causa no sofrer por falta de generosidade da minha parte. 
Acabarei por os convencer - declarou o candidato a futuro chanceler. Os 
seus olhos astutos acompanhavam j os nobres que se retiravam, como se 
calculasse o preo da corrupo para cada um deles.
- ptimo - respondeu o prncipe, acrescentando: -j lhe disse que estou a 
considerar entregar-lhe Crandall? No? Pois  verdade.  necessrio 
apenas uma pequena manifestao da sua lealdade para ter essa propriedade 
garantida. Segundo me informaram,  uma das maiores do reino.
- Sinto-me lisonjeado, meu senhor.
- V e mande-me notcias dos seus xitos logo que lhe seja possvel. h 
outros assuntos a requererem a minha ateno.
Ontescue apressou-se a seguir os outros. envolvendo-se numa conversa 
privada com cada um deles e pressionando-os com promessas, ouro e 
declaraes de eterna lealdade do prncipe, oleando assim a mquina do 
Estado com palavras calorosas e grandiosas indulgncias.
O prncipe Jaspin apressou-se a sair da Sala do Conselho por uma porta 
lateral, e dirigiu-se apressadamente para os seus aposentos. em cuja 
antecmara o aguardavam cinco homens.
- Estpidos impertinentes! - resmungou, furioso, ao sair da sala. - Em 
breve iro ver como Jaspin trata de todos os que levantam problemas! Ah. 
mas primeiro vamos lanar os "caadores,> sobre o Falco e os seus 
miserveis amigos!

CAPTULO XII

- A necessidade  grande... e pode ser j demasiado tarde. Se existisse 
outra maneira. ou a mais baixo custo, no insistiria. Porm. a escolha  
minha. e afirmo que temos de ir para Dekra.
A voz era de Durwin, e tanto quanto Quentin se apercebia. a discusso, 
que recomeara logo que a mesa do pequeno-almoo fora limpa. era uma 
continuao da que ele interrompera anteriormente. Quentin preguiava 
debaixo de uma quente mancha de luz de Sol, meio a dormir, sentado no 
cho sob uma janela de espessos vidros que o baixo Sol de Inverno enchia 
com uma faixa de luz amarela. Quentin banhava-se naquela luz e deixava 
que os seus ossos absorvessem o calor.
- No - retorquiu Theido. de novo a levantar objeces. e com, ou pelo 
menos Quentin assim o pensou, uma obstinao prpria de um deus. - 
Encontraremos outra maneira. Ainda temos tempo e no sabeinos o que 
Jaspin prepara...
- Precisamente! No sabemos quais os planos de Jaspin, mas de certeza que 
vo ser maus e cruis. Muito provavelmente a sua malevolncia j entrou 
em marcha. E ento Jaspin pretende apenas uma coroa. Nirarood no se 
satisfar com to pouco... esse pretende o mundo! Temos de ir para Dekra.
Quentin no sabia o que, ou quem, era Dekra. Todavia. a conversa durava 
havia tanto tempo que o fizera perder o interesse e batera em retirada 
para dormitar. A rainha continuava sentada  mesa com os dois homens. mas 
havia muito que no tinha oportunidade de fazer ouvir a sua voz. Quentin 
sabia que nada seria resolvido enquanto no fosse solucionado o impasse 
entre os dois homens.

100

Levantou-se. bocejou, enrolou a capa em volta do corpo e deslizou 
silenciosamente para o exterior. O ar frio fazia-lhe arder os pulmes e a 
violenta luz branca do reflexo do Sol na neve fez-lhe subir lgrimas aos 
olhos, lgrimas que limpou com as costas da mo. Pela primeira vez desde 
que deixara o templo, Quentin interrogava-se sobre o que estaria a fazer 
naquele momento o simptico e amado Biorkes, o seu nico amigo entre os 
sacerdotes do templo. Sem dvida a trabalhar nos seus remdios... ou a 
puxar as orelhas de algum pobre aclito por no ter aprendido qualquer 
coisa. ou no ter lido um rolo de pergaminho...
Quentin ouviu a porta a abrir-se com um estalido e virou-se para ver 
Alinea a deslizar para junto dele. Ficava to bela vestida com as roupas 
das gentes das florestas como com os elegantes trajos de uma rainha. O 
cabelo brilhava-lhe ao sol e o frio fez-lhe subir ao rosto um leve tom 
rosado.
- Tens saudades do templo. Quentin? - perguntou-lhe. num tom ligeiro. 
Alinea olhava-o com um calor e uma compreenso que Quentin raramente 
encontrara noutras pessoas.
- De certo modo... - respondeu - mas no muitas. Ainda no tive muito 
tempo para sentir saudades, fosse do que fosse.
- Tens razo - concordou a rainha com uma gargalhada, e a msica existia 
de novo na sua voz. No a ouvira desde que lhe entregara a mensagem de 
Ronsard. no momento do primeiro encontro. - Sim, tivemos muito pouco 
tempo para outras coisas, excepto a fuga. - Sorriu-se. puxou Quentin por 
um brao e comeou a andar. - Conta-me o que fazias no templo. Como  que 
te tornaste num aclito?
- No sei. senhora. Era muito novo. Os meus pais morreram na peste que 
varreu o pas durante a Primavera da Morte. No me recordo deles, nem da 
minha casa. Por vezes vejo um rosto... que talvez seja o da minha me. 
Vivi quase sempre no templo.
- Ento porque  que te ofereceste voluntrio para sair se no tinhas 
outra casa para onde ir?
- Senti... - Quentin hesitou, procurando a palavra apropriada - senti que 
havia qualquer coisa a empurrar-me. Como se tivesse de o fazer... e fosse 
essa a minha melhor opo. Nunca antes tive uma sensao semelhante a 
respeito de qualquer outra coisa.
- Deve ter sido uma sensao muito forte. para te obrigar a abandonar 
tudo o que conhecias... a tua casa. os amigos...

101

- No tinha amigos no templo... Apenas Biokis, um dos sacerdotes mais 
velhos...
- No te sentias muito solitrio?
Ao princpio. Quentin no soube como lhe responder.
- No... Ou seja. penso que no. O templo ... Os sacerdotes existem para 
servir o deus. Os aclitos servem os sacerdotes. H regras e obrigaes. 
Era tudo...
A rainha acenou, pensativa. Quentin no sentira a solido porque no 
conhecera nada para alm da disciplina rigorosa do templo. onde cada um 
ocupava o seu lugar e tinha uma tarefa.
- Que estarias a fazer agora se l estivesses? - perguntou, depois de um 
prolongado silncio.
- Oh. a estudar. Tinha muito que aprender... Por vezes at mais do que 
conseguia dominar. Dentro em pouco estaramos a prepararmo-nos para o 
regresso do deus. da sua jornada de Inverno. Chegar na Primavera. como 
sempre acontece, e o templo tem de estar pronto. Tm de ser executados 
rituais de purificao. As pedras sagradas tm de ser limpas e ungidas. 
H muito que fazer.
- Ali. sim. acredito.
- Depois - continuou Quentin, de olhos a brilhar de excitao. pois 
comeava a ganhar calor com a sua histria -. quando tudo est pronto. 
chega o deus e iniciam-se as celebraes... que se prolongam por semanas. 
H festas, e jogos. e muita felicidade. O templo abre-se para os 
peregrinos que entretanto se amontoaram no exterior das muralhas. e todos 
se juntam na celebrao.
- Sim, so tempos bons para o nosso povo. Eu prpria estive nessas 
celebraes, quando era ainda pequena. Sempre tive medo dos sacerdotes. 
Pensava que eram eles os deuses.
- Por vezes. tambm eles pensam que o so - comentou Quentin. com o rosto 
momentaneamente iluminado por um sorriso. - Ou ento... gostam de fazer 
com que as pessoas acreditem nisso. Porm, penso que deve haver mais 
qualquer coisa... No sei... - A voz apagou-se-lhe, incapaz de expressar 
os sentimentos. Tinham chegado ao sop da colina, por baixo da cabana do 
eremita.
- Percebo o que queres dizer. Penso com frequncia que os deuses no 
esto minimamente interessados em ns ou nos nossos problemas. No 
entanto... mesmo no meio das minhas dvidas sinto uma

102

presena que no sou capaz de explicar. Algo dentro de mim. Uma nsia. no 
meu esprito, por qualquer coisa mais.
- Tambm j a senti - declarou Quentin com firmeza. - Talvez fosse por 
isso que preferi partir. j no era capaz de l ficar mais tempo.
Muitas vezes jazi acordado durante a noite. ardendo com uma estranha 
febre. Ouvia algum chamar pelo meu nome, mas no entanto a noite 
continuava silenciosa  minha volta. Costumava contar essas coisas aos 
sacerdotes. e respondiam-me que era o deus a chamar-me. que tinha algo de 
especial preparado para mim. Porm, muito no fundo, sabia que no se 
tratava disso. Por fim Biorkis disse-me para no voltar a falar no 
assunto com os outros sacerdotes. Mesmo assim. sempre que ouvia essa voz, 
ou sentia o fogo dentro de mim. ia ter com Biorkis e conversvamos a esse 
respeito. Perguntava-me o que eu pensava do seu significado.
- E que era que pensavas?
Quentin respirou fundo e olhou o cu brilhante de sol.
- No sou um sacerdote. mas penso que se tratava de um deus a chamar-me. 
Um deus muito maior do que qualquer outro. -Mais elevado, mais sbio... e 
que me conhecia.
- s um rapaz especial - disse Alinea, levando a mo ao rosto de Quentin. 
- Soube-o no momento em que te vi, to nervoso, na minha cmara. Alm 
disso. tambm sabia que no eras peleiro - acrescentou. soltando uma 
gargalhada.
O ar pareceu tornar-se mais mordente quando uma rajada de vento soprou em 
volta das duas figuras. Sem outra palavra, deram meia volta e 
regressaram. subindo a pequena colina at  cabana.

O prncipe estava enfiado no seu cadeiro de orelhas, remexendo numa 
macia bolsa de couro cheia de moedas de ouro. Sir Bran e Sir Grenett 
encontravam-se um de cada lado, e os trs homens olhavam. com alguma 
perturbao, para os trs visitantes que tinham na frente. O prncipe 
Jaspin continuou, depois de pensar por uns instantes:
- Quero-os descobertos e trazidos de volta, a esse Falco e aos seus 
amigos, sejam estes quem forem. No me interessa saber como o conseguiro 
nem os meios que iro utilizar.
Sir Bran, e Sir Grenett, cavaleiros sem medo e endurecidos por muitas 
batalhas, encolhiam-se na frente dos "caadores", homens brutais e

103

violentos, desprovidos de piedade e de qualquer compaixo humana. Os 
"caadores". como eram conhecidos em Mensandor, eram os ltimos 
descendentes de um antigo povo do reino, os cruis Shoth. uma raa 
selvagem e amante da guerra, que matavam pelo prazer de matar e que 
tiravam grande satisfao do facto de infligirem dores aos outros.
No decurso de uma longa e interminvel histria de guerras, os Shoth 
haviam desenvolvido poderes especiais que lhes permitiam perseguir os 
seus inimigos com uma preciso inigualvel, poderes que os camponeses 
vulgares consideravam como sobrenaturais: a capacidade de verem no 
escuro, como os gatos, de sentirem o cheiro de um rasto, de se guiarem 
pelas emoes intensas das suas presas. Era como se conseguissem captar 
fragmentos de pensamentos em pleno ar, ou, pelo menos, eram muitos os que 
assim acreditavam.
No mundo j restavam muito poucos Shoth. Iam morrendo, por teimosia. 
Porm, os que viviam empregavam-se como soldados mercenrios ou como 
caadores dos fora-da-lei. Recebiam grandes recompensas dos seus patres 
por ambos os servios. Recompensas to grandes quanto o desejassem, pois 
no eram o tipo de homens que algum quisesse ter como inimigo.
Os "caadores" eram grandemente receados por todos os que os conhecessem. 
ou que os encontrassem por acaso, numa daquelas raras ocasies em que se 
podia ver um. ou mais, de passagem. De cada lado da cabea usavam duas 
compridas tranas, que lhes desciam pelas costas largas. As feies, 
parecidas com as de lobos e duras como pedra, eram tornadas ainda mais 
assustadoras pelos desenhos tatuados a azul que lhes cobriam as faces. As 
roupas eram grosseiras, feitas de peles de animais com o plo raspado ou 
queimado. Calavam botas macias fabricadas da mesma maneira, com cordes 
exteriores que iam desde os tornozelos at aos joelhos, Em volta dos 
pescoos usavam colares feitos de cabelos e de ossos das mos das 
vtimas. Nos braos musculosos ostentavam pulseiras de dentes humanos.
Deparar-se-nos um "caador" era deparar-se-nos o medo. A sua aparncia 
esquisita era friamente planeada para inspirar o terror e para imobilizar 
as vtimas indefesas.
Transportavam compridas e finas espadas. de lminas serrilhadas, pelo que 
um ferimento provocado pela espada de um "caador" no sarava depressa, 
nem com facilidade, o que na verdade pouco importava,

104

pois eram muito poucos os que as haviam sentido no corpo e ainda 
continuavam vivos. Usavam tambm pequenos escudos de madeira e couro 
pintados com os grosseiros smbolos da sua religio brbara, que se dizia 
incluir sacrifcios humanos regulares. Os "caadores" que vendiam os seus 
servios como pisteiros serviam-se tambm, com frequncia. de aves, em 
geral falces, mas tambm de pequenas guias ou corvos, que os ajudavam a 
localizar as suas presas humanas a uma grande distncia. Essas aves 
cavalgavam com eles, sobre os peculiares e resistentes cavalos dos 
"caadores". instaladas em poleiros ornamentados construdos nas selas, 
feitos em geral de ossos e peles. os ossos e peles das suas vtimas. 
Havia quem dissesse que os "caadores" falavam com as suas aves de mente 
para mente, to extraordinria era a comunicao entre os dois tipos de 
criaturas de rapina.
- So pelo menos trs, ou talvez mais. Tenho um relatrio de um dos 
guardas, que viu trs cavaleiros a afastarem-se em direco a Pelgrin a 
noite passada. - O prncipe Jaspin deteve-se abruptamente e atirou o saco 
de moedas de ouro para o "caador>, que se encontrava  frente, que o 
apanhou com habilidade e o fez desaparecer numa bolsa. no meio das 
roupas. - Tero ainda mais dinheiro quando regressarem. Sero bem pagos. 
- Bateu com um punho fechado na palma da outra mo. para dar nfase s 
suas palavras: - Quero que os apanhem!
- Assim ser feito - respondeu Gwert. o maior dos trs "caadores>,. 
Ento, sem mais uma palavra ou um olhar, os trs homens viraram-se e 
saram to silenciosamente como uma nuvem de fumo empurrada pela brisa.
Depois de os ver sair, Sir Bran soltou um profundo sopro por entre os 
dentes cerrados.
- Meu prncipe, no gosto disto. Preferia que me tivesse pedido a mim e a 
alguns dos meus homens de armas para trazerem de volta esse prisioneiro. 
Estes "caadores"... estes brbaros... no so de confiana. Entregar-
lhe-o o prisioneiro e seus companheiros, sim... se no se importar de os 
receber cortados aos bocados.
- No me importo. - declarou Jaspin, irado. - S quero que os encontrem e 
os detenham.
Sir Grenett interveio.
- Meu senhor, porque  que esse homem, esse tal Falco,  assim uma to 
grande ameaa para si? No passa de um fora-da-lei... E mesmo

105

que fosse um chefe entre os outros. o prejuzo que vos pudesse causar 
seria sempre inferior ao que tereis de pagar pela sua cabea. Porque  
que o procurais com tanto ardor?
- Isso... - retorquiu o prncipe. raivoso - s a mim diz respeito. 
Senhor. No  da vossa conta. - Virou-se para os dois. ameaador: -No 
falaro deste assunto a ningum. Compreenderam? Alm disso... -Jaspin 
prosseguiu, num tom mais suave - no cabe aos meus novos regentes 
perderem tempo com to difceis perseguies. H coisas mais importantes 
para serem feitas.
- Vamos. faamos planos para a nossa pequena surpresa seguinte... - 
Conduziu-os para a sua mesa. e para um jarro de vinho e taas que se 
encontravam sobre uma bandeja de prata. Meus amigos. bebo pela vossa 
sade e pelo prosseguimento dos vossos xitos - declarou. levantando a 
taa at junto da dos outros, depois de as ter enchido. Beberam-nas todos 
at ao fim e. quando as baixaram, devolveram a sade que Jaspin fizera:
Ao novo monarca de Askelon.

CAPTULO XIII

O velho jazia sobre o altar de pedra numa grande e obscurecida sala. As 
rochas fumegantes colocadas a cada um dos cinco cantos do altar lanavam 
um brilho estranho e oscilante que ondulava como gua sobre o rosto do 
homem. Este parecia estar a dormir, ou morto, mas mesmo aquele profundo 
repouso no era suficiente para apagar a malevolncia das suas feies. A 
negra alma que habitava aquele corpo era to malfica que contorcia tudo 
em que tocava. O rosto era uma mscara de dio, tornada ainda muito mais 
terrvel por se tratar tambm de um rosto que exibia uma aguda 
inteligncia.
Nimrood afundava-se, ou pelo menos assim lhe parecia, atravs de camadas 
de fumo, como se estivesse a cair de uma grande altura. Tinha a cabea a 
pulsar. sentia dores abafadas nos membros, mas estava disposto a 
continuar.
O fumo tomou-se menos denso e acabou por desaparecer completamente. Olhou 
para baixo e viu a terra slida a correr sob ele. Ainda a descer muito 
depressa, mas a planar, e no a cair, o mgico conseguia aperceber-se dos 
mais pequenos pormenores da paisagem. Para trs dele ficava uma grande 
cordilheira de montanhas cobertas de neve, as Fiskills, Para a direita, 
via a longa fita prateada do rio Wilst. agora gelado, no seu ondulante 
percurso para o mar. Em frente, mas ainda demasiado apagada para se poder 
ver com clareza, estava a escura massa verde-acinzentada da grande 
floresta de Pelgrin, parcialmente oculta pelas nuvens. Ainda mais para 
diante, mas fora das vistas, jazia Askelon, a cidade sobre a colina.
Nimrood abrandou a descida e ouviu o sussurro do ar frio a passar por 
ele, mas no sentia nada. Fechou os olhos. Quando os abriu

108

outra vez, virou a cabea e viu uma asa negra subindo e descendo 
ritmicamente, com o vento a cantar por entre as penas. O feiticeiro 
tomara a forma de um corvo. Voou em frente, com rapidez.
Ao aproximar-se de Pelgrin, os aguados olhos de corvo de Ximrood 
avistaram a forma imprecisa de Askelon, erguendo-se  distncia. A luz 
diminua e o mundo mergulhava na escurido de uma longa noite de Inverno. 
E l seria noite quando chegasse ao castelo, mas o facto no tinha 
importncia. Nimrood era um amigo da escurido e de todas as coisas que 
amavam a escurido. Servia-se do negrume da noite como capa para ocultar 
os seus feitos.
Nimrood mergulhara muito profundamente nas artes ocultas e brincara com 
searedos escondidos desde os tempos da criao do mundo. Viajara muito, 
aprendendo os segredos de mgicos e feiticeiros de todas as raas. 
Discpulo insacivel quando jovem. estudara com todos os mestres do 
oculto at ser tanto ou mais poderoso como qualquer um dos que tinham 
vivido antes dele. Pousara os olhos no prprio corao do indescritvel, 
e pusera de parte todas as emoes humanas para obter o poder que 
buscava: o poder de vergar todos os homens sob a sua vontade.
Quando atingiu finalmente o seu destino, Nimrood descreveu crculos sobre 
Askelon e desceu em espiral. Mergulhou na direco da torre onde se 
situavam os aposentos do prncipe Jaspin e pousou no estreito rebordo de 
uma alta seteira. O prncipe Jaspin estava sozinho. sentado no grande 
cadeiro perto do fogo. Nimrood pairou at ao cho sem produzir um som, e 
mudou para a sua forma humana quando tocou no pavimento com toda a 
leveza.
- Prncipe - Jaspin - disse, divertindo-se com o susto que pregou
ao prncipe. - No estava  espera de mim, pois no?
- Por Zoar. Assustaste-me. - Jaspin atirou-se de novo para a cadeira, 
agarrado ao corao. - No, por Azrael. no esperava ningum... e muito 
menos a ti, Nimrood. Como foi que chegaste aqui?
- Receio que isso no seja de grande interesse para ti. Na realidade. nem 
sequer aqui estou. O que ests a ver  um fantasma, uma projeco de uma 
alma-corpo... ou qualquer outra coisa que lhe queiras chamar. - O 
feiticeiro atravessou a sala e quando passou em frente do fogo Jaspin viu 
as chamas a brilharem fracamente atravs das suas formas fantasmagricas. 
Parou directamente em frente do espantado prncipe.

109

- Que ests aqui a fazer? Podes no querer dizer-me como apareceste, mas 
espero que ao menos me digas o que queres.
- Sem dvida que direi. - O feiticeiro cruzou os braos sobre o peito e 
ficou a olhar para baixo, para o prncipe Jaspin, que se encolheu ainda 
mais nas almofadas da sua cadeira. - Deixaste-o fugir! - gritou Nimrood. 
e Jaspin imaginou que tinha ouvido um trovo a estoirar na voz do mgico.
- Teve ajuda... amigos dentro do castelo. Mandei cortar a cabea ao 
carcereiro e aos guardas... eu...
- Silncio! - silvou Nimrood. - Achas que derramar o sangue de guardas 
sem prstimo ser o suficiente para me apaziguares? Isso servir para 
trazer a presa de volta?
--imrood fez uma carantonha furiosa e comeou a andar de um lado para o 
outro em frente da lareira. Jaspin observava-o num fascnio assustado.
- Ele pertence-me.  meu. J o deixaste escapar duas vezes! Bah! - 
explodiu. irado.
- Duas vezes? - inquiriu o prncipe. timidamente. - Deves estar enganado, 
s o capturamos uma vez.
- Nimrood, enganado? - Os olhos do feiticeiro cuspiram fogo, mas abriu a 
boca para soltar uma gargalhada oca e cacarejante. - Conheces-me muito 
mal, prncipe chacal! Estpido! - gritou Nimrood, voltando a perder a 
calma. - Ento no sabes? Esse fora-da-lei, o Falco, no  outro seno 
Lord Theido de CrandalI, o maior gnio militar do nosso tempo. Eu... - O 
prncipe ofegava, sem voz.
Esse mesmo! Tiveste-o nas tuas mos quando o prendeste depois de 
regressar das guerras. Dessa vez tambm o deixaste escapar.
- Isso foi diferente - protestou Jaspin. levantando-se da cadeira.
- Levantas a tua voz contra Nimrood? - gritou o feiticeiro. Na lareira. o 
fogo atiou-se de repente. com um rugido. cuspindo uma nuvem de cinzas e 
fascas para dentro da sala. - Posso reduzir este empilhado de pedras a 
cinzas fumegantes. meu prncipe. Acautela-te. - Nimrood passou as mos 
compridas e delgadas pelos cabelos em desordem e continuou a andar de um 
lado para o outro.
- Que pretendes fazer quanto a isso? - perguntou.
- Mandei "caadores" seguirem no seu encalo - respondeu Jaspin. abatido. 
Devemos t-los de volta antes que se passem muitos dias.

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- Hum... est bem. Vejo que podes servir-te da cabea quando s obrigado 
a faz-lo. Informa-me imediatamente logo que o tenhas de volta. Morto ou 
vivo, quero-o para mim. Conseguiste uma nova oportunidade e talvez tenhas 
salvo a tua coroa. No entanto... no falhes desta vez, ou esse poder vir 
a ser o teu ltimo acto humano. Ah! -troou o feiticeiro.
Virou-se e fitou o prncipe Jaspin com um olhar terrvel. O prncipe 
sentiu os membros a ficarem pesados e a perderem a fora. enquanto o 
corao se tornava de gelo dentro do peito.
- H destinos muito piores do que a morte, posso garantir-to. Conheo 
vrios... igualmente incomodativos. Reservo-os para os que me desapontam 
de um modo especial. Tens mais uma oportunidade... e no me desapontes. - 
O feiticeiro virou-lhe as costas e meteu-se no meio das chamas da 
lareira. Aquele feito levou Jaspin a pr-se de p de um salto.
O feiticeiro cacarejou e pareceu esticar-se, tomando-se cada vez mais 
alto e transparente. No instante em que estava quase a desaparecer, 
disse:
- Sabes que Ronsard est vivo? No? Pois no ser por muito tempo. Enviei 
homens para o capturarem. - Riu-se mais uma vez e desapareceu 
completamente no meio das chamas. O prncipe Jaspin ouviu apenas um fraco 
eco de uma gargalhada depravada e depois at isso se sumiu.
Jaspin voltou a sentar-se na grande cadeira. O seu rosto ganhara a 
palidez de um cadver.

O fogo na cabana de Durwin estivera a arder baixinho. Quentin mergulhara 
num sono leve, enrolado num canto quente, perto da lareira. Sentia-se 
como se se tivesse finalmente saturado de sono e a sua mente derivava de 
sonho para sonho. Fora um dia sem nada de especial, passado em conversas 
e preparativos, em que Quentin desempenhara um papel muito pequeno. 
Passara a maior parte do tempo a comer e a dormir, para alm de tomar 
conta dos cavalos, certificando-se de que todos tinham uma rao extra 
como recompensa pela dura cavalgada da noite anterior.
Theido e Durwin estavam sentados junto do fogo, fumando por longos 
cachimbos de madeira cheios de ervas aromticas cultivadas por

111

Durwin. Permaneciam em silncio, pois j tudo fora dito. De vez em quando 
sopravam o fumo e resmungavam, revolvendo problemas nas suas mentes.
Alinea dormia confortavelmente esticada em cima da baixa cama de madeira 
de Durwin. Falara muito pouco durante todo o dia, mas Quentin pensava que 
os seus olhos haviam sido mais do que eloquentes quanto aos seus 
tormentos ntimos. Os olhos de esmeralda pareciam chorar para dentro, por 
causa da angstia que sentia pelo seu rei. Mesmo assim, pusera de parte 
os sofrimentos prprios e encontrara palavras amveis para dizer a 
Quentin, nos momentos em que tinham estado juntos. S por isso, declarara 
Quentin para si mesmo, daria alegremente a sua vida pela dela na primeira 
oportunidade.
Por fim, Durwin levantou-se e espreguiou-se. Bateu com o cachimbo de 
encontro  pedra da lareira e virou-se para se ir enrolar na capa num 
outro canto qualquer, deixando Theido sozinho com os seus pensamentos. 
Quentin, meio adormecido, julgou ouvir Durwin a emitir um assobio agudo e 
achou que se tratava de um comportamento muito estranho quela hora da 
noite. A seguir voltou a ouvi-lo e despertou um pouco mais, apoiando-se 
sobre os cotovelos. Durwin imobilizara-se,  escuta. Theido, com a 
cadeira inclinada para trs, deixara de soprar o fumo do cachimbo e 
estava tambm  escuta.
O assobio voltou a soar, mas desta vez vinha de mais perto. Theido 
levantou-se, dirigiu-se para a porta e escapuliu-se para o exterior. Uma 
vaga de ar frio envolveu Quentin, despertando-o ainda mais. Ouviu-se 
outro sinal, mesmo junto  cabana. Era Theido, respondendo aos assobios 
anteriores.
Alinea acordara e colocara-se perto de Durwin. Baixou a cabea e falou 
para o eremita, mas Quentin no conseguiu ouvir as palavras. Estava com 
todos os seus sentidos postos no que se passava no exterior. Tudo o que 
ouvia era o estalar do fogo na lareira e a sua prpria respirao.
Porm, a seguir ouviu o som suave e abafado de passadas na neve, de 
regresso  cabana. Theido entrou, dobrando-se e esfregando os braos para 
os aquecer.
- Voss e os seus homens tm um para ns - explicou.
- Vo traz-lo aqui.
Mal acabara de pronunciar estas palavras quando se ouviu uma leve
pancada na porta. Theido abriu-a, e ali estava o corpulento lder dos

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homens da floresta. Por detrs dele havia outro homem. seguro por vrios 
companheiros de Voss.
- Entra, Voss - pediu Theido. - Vejamos o que foi que apanhaste.
O forte homem da floresta entrou na cabana e fez sinal ao prisioneiro 
para que avanasse.
- Trenn! - exclamou a rainha, quando o seu fiel guarda cambaleou para a 
luz. Oscilou sobre as pernas inseguras e pareceu querer cair para um 
lado, mas Voss levantou uma das mos para o apoiar. Durwin puxou por um 
banco e obrigou o homem a sentar-se.
- Vimo~lo assim que entrou na floresta. Apanhmo-lo quando percebemos que 
vinha nesta direco - declarou Voss com um tom casual.
- Trenn, que ests tu aqui a fazer? - Os olhos de Alinea miravam o rosto 
do homem em busca de uma resposta. - Jaspin descobriu o nosso jogo?
- Tal como eu receava, senhora - responde Trenn. - Vim avis-los a todos: 
Jaspin ps "caadores" na vossa pista. Rezei a todos os deuses que 
conheo para que no chegasse demasiado tarde.
Ao ouvir mencionar os mortferos "caadores", o largo rosto de Voss 
perdeu as cores.
- Ms notcias - comentou.
Alinea levou uma das mos  cara. Lanou um longo olhar para Theido, que 
se mantivera impassvel.
- A temos a resposta - murmurou Durwin.
- H quanto tempo foi isso? - perguntou Theido, com uma calma forada. 
Falou com muito cuidado e suavidade, para no trair a inquietao que 
sentia.
- Vi-os entrar pela poterna esta manh, por volta do meio-dia, conduzidos 
por cavaleiros de Jaspin. Esta manh houve tambm muita actividade nos 
portes principais do castelo. Entraram muitos cavaleiros e nobres. 
alguns de to longe como as terras planas. Diz-se que Jaspin convocou um 
conselho de emergncia, para apanhar os que vos ajudaram a fugir.
- Qu? O homem est louco! - comentou Theido.
- Foi apenas uma desculpa - explicou Trenn. - O prncipe Jaspin acusou 
dois nobres de vos terem ajudado a fugir. Soube pelo car cereiro...

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pelo novo carcereiro... - o guarda fez um rpido gesto com a mo junto do 
pescoo, para se explicar melhor - que foram presos dois nobres, os Lords 
Weldon e Larcott.
- Vbora! - disse Theido num tom baixo. - Est a servir-se da minha fuga 
para alterar o Conselho de Regentes. Suponho que no perdeu tempo e que 
nomeou dois outros. Sabes quem ocupou esses lugares?
- No tenho a certeza, mas penso que foram Sir Bran e Sir Grenett - 
respondeu Trenn. - Diz-se que o Lord Holben lhe fez frente... e que 
salvou a vida dos dois outros senhores. O principe queria-os acusados de 
traio, mas Lord Holben reclamou a justia do rei.
- Salvou-lhes a vida por algum tempo... e provavelmente ir perder a dele 
- replicou Theido.
- Jaspin tem a coragem de proceder assim?! - perguntou a rainha. chocada 
com o facto de na sua prpria corte se verificarem afrontas to 
descaradas. - No fazia ideia...
- No podemos ajudar Weldon e Larcott - murmurou Theido com tristeza. - 
Agora... temos de nos ajudar a ns prprios. - Trenn, como  que 
conseguiste chegar aqui sem os "caadores" te verem?
- Parti antes deles, e como sabia para onde vinha no foi difcil avanar 
depressa. Provavelmente, quase matei o meu bom cavalo...
- Devem ter-te seguido - observou Voss. - Isso ir tomar-lhes a tarefa 
mais fcil.
- Espero que no me considerem assim to estpido - fungou Trenn. - 
Alguns dos meus homens cavalgaram comigo, para confundir os rastos. 
Acompanharam-me durante algum tempo, e depois cada um deles partiu numa 
direco diferente. Foi tudo o que consegui fazer em to pouco tempo.
- ptimo - exclamou Theido, saltando para a frente. - isso ir conceder-
nos mais algum tempo.
- Os meus camaradas e eu poderemos fazer-vos ganhar ainda mais tempo - 
gabou-se Voss. - Vou p-los a trabalhar imediatamente, para confundirem 
os rastos. Vamos obrig-los a andarem s voltas pela floresta durante 
dias.
- So "caadores"... e no pessoas vulgares - retorquiu Theido.
- E ns no somos uma caa vulgar. No nos vero, nem descobriro os 
nossos truques, antes de vocs j irem longe. De qualquer modo. no os 
poderemos deter para sempre.

114

- Podemos lutar... - sugeriu Trenn.
- Morramos se o tentssemos - respondeu Theido. - No, a nossa nica 
esperana est em mantermo-nos  frente deles at atravessarmos a 
muralha. Duvido at que os "caadores" nos consigam encontrar depois de 
termos passado para as Terras Selvagens.
- A est! - exclamou Durwin, triunfante. - Agora j admites que temos de 
ir para Dekra!
- Sim, vamos para Dekra. Vamos fazer-te a vontade, meu amigo... e  a 
nossa nica esperana. Vamos para Dekra... e partimos esta noite.

CAPTULO IV

O inverosmil grupo partiu da cabana de Durwin, no corao da floresta de 
Pelgrin, e sob o manto escuro da noite, para dar incio  sua demanda. 
No ousavam ter grandes esperanas no xito dos seus esforos. nem sequer 
tinham concebido um plano que lhes permitisse atingir a meta de 
libertarem o rei das garras do mgico maligno, Nimrood.
Durante uma semana de marcha. seguindo para norte e para leste atravs 
das mais longnquas paragens de Pelgrin e pelas vertentes mais baixas das 
montanhas Fiskills, no se lhes deparou qualquer outra alma viva. Isto, 
contudo, era visto como sendo um sinal auspicioso, pois significava que 
no tinham visto aquilo que mais temiam encontrar e que os mantinha 
constantemente a espreitar para trs, por sobre os ombros. quando 
pensavam que nenhum dos outros estava a ver: no havia o mnimo vestgio 
dos impiedosos caadores.
Guiados por Durwin e incitados por Theido, seguiram um percurso que 
evitaria as traioeiras montanhas e que, em vez disso, os conduziria para 
as serras arborizadas de Askelon, numa permanente curva para leste, em 
direco  Muralha de Celbercor. Uma vez do outro lado da muralha - e 
atravessar esse formidvel obstculo seria, por si s, uma verdadeira 
provao - o grupo caminharia a direito para a baa de Malmar, que 
atravessariam a p sobre os gelos. A salvo. do outro lado de Malmar, 
teriam um curto perodo de descanso na pequena povoao de pescadores de 
Malmarby, um dos poucos locais de habitao humana na vasta pennsula de 
Obrey. Teriam tempo. ou assim o esperavam, para repor os abastecimentos e 
conseguir um guia que pudesse ser convencido a conduzi-los at Dekra.

116

Quentin descobrira finalmente que Dekra no era uma pessoa. mass sim um 
lugar: a cidade abandonada de um misterioso povo h muito desaparecido. 
j ningum se recordava do que acontecera aos estranhos habitantes da 
cidade, que tinham deixado para trs fantsticas construes, tornadas 
cada vez mais ricas e maravilhosas com a ajuda das baladas e das lendas, 
apesar de muito poucos homens as terem jamais visto. Eram ainda menos os 
que acreditavam na sua existncia, considerando-a apenas como uma 
brilhante fantasia de bardos e trovadores, para obterem uma maior ateno 
por parte dos ouvidos dos tolos. Outros insistiam em que a cidade existia 
e que era um lugar diablico onde os homens no eram bem recebidos. 
Afirmavam que os que tinham partido para a procurar nunca mais haviam 
regressado.
- Nunca ouviste falar em Dekra, meu rapaz? - perguntou Durwin. As suas 
espessas sobrancelhas ergueram-se num arco interrogativo quando Quentin 
se arriscou a falar no assunto.
- Sim, suponho que no tenhas ouvido. Os sacerdotes de Ariel demonstram 
uma grande relutncia em admitir a sua existncia. Pois olha, irs ter a 
oportunidade de fazer uma coisa que poucos homens conseguiram: irs v-la 
com os teus prprios olhos.
-  um lugar assim to mau? - perguntou Quentin. - Era por isso que 
Theido no queria l ir? - Cavalgava no Balder. ao lado do eremita. 
depois de ter abandonado a sua posio na cauda do grupo, logo  frente 
de Trenn. Quentin gostava de cavalgar mais  frente, com Durwin, sempre 
que o trilho o permitia.
- No... - replicou o eremita, depois de uma pausa em que tentou 
encontrar as palavras exactas. - Dekra no  um lugar malfico. apesar de 
haver muitos que assim pensam.  um dos sete antigos lugares de poder 
sobre a Terra. No obstante esse poder ter desaparecido quase 
inteiramente, ainda h alguns vestgios. para aqueles que sabem onde 
procurar. No  um lugar mau... e no foi por isso que Theido se 
manifestou contra. Sabia que se tratava de uma viagem perigosa e longa, 
um esforo intil se l chegarmos e no conseguirmos obter o que 
procuramos.
Quentin teve de se contentar com aquela resposta, pois Durwin nada mais 
quis acrescentar sobre a cidade arruinada, nem sobre os motivos para l 
irem. De qualquer modo, Quentin pressentia, na voz do eremita, que este 
ocultava mais do que dizia. Havia qualquer coisa que Durwin

117

evitava contar-lhe, e Quentin. espicaado na sua curiosidade juvenil. 
estava ansioso por descobrir o que era. mantendo-se constantemente a 
escuta de qualquer indcio revelador que Theido ou Durwin pudessem deixar 
escapar durante as refeies, ou em volta da fogueira,  noite. A maior 
parte das vezes ficou desapontado.
Theido incitava o grupo a continuar num ritmo inexorvel, nunca parando 
por muito tempo nem permitindo fogueiras durante o dia. As noites eram 
curtas: paravam ao crepsculo, dormiam algumas horas e depois prosseguiam 
muito antes da madrugada. Quentin dominara a arte de dormir na sela 
quando j no conseguia manter os olhos abertos. De facto, descobrira que 
se estava a tornar um cavaleiro muito melhor do que fora at a. Gostava 
das novas capacidades que desenvolvia de dia para dia, e dos 
conhecimentos sobre a floresta que obtinha de Durwin, que demonstrara ser 
uma inesgotvel fonte de conhecimentos.
Quentin era agora capaz de designar trinta espcies diferentes de rvores 
e arbustos. e conseguia distinguir os rastos de todas as criaturas 
activas da floresta no pico do Inverno. Alm disso, conseguia ler os 
sinais do tempo com um certo grau de preciso. Quentin considerava que se 
tratava de informaes muito mais teis do que tudo o que aprendera no 
templo, apesar de ter de admitir que o treino a recebido fora til. mas 
de outras maneiras.
Por estas e por outras razes, provocadas principalmente pela camaradagem 
criada dentro de um grupo dedicado a uma finalidade comum. Quentin sentia 
uma profunda sensao de satisfao apesar dos rigores da jornada. 
esquecendo-se com facilidade dos inumerveis incmodos da vida numa 
picada. Alm disso, tambm se esquecera quase completamente do perigo que 
se aproximava a cada passo. os "caadores". - No entanto. parecia no 
existir qualquer indicao da presena dos odiados pisteiros.
Contudo, Theido estava continuamente a deixar-se ficar para trs, por 
vezes durante horas consecutivas. para observar e esperar, sondando a 
floresta em busca de um sinal de que estavam a ser seguidos. Sempre que 
regressava ao grupo comunicava que no notara sinais dos perseguidores. 
mas mostrava-se mais preocupado a cada dia que passava.
- Receio que estejam  espera que entremos em campo aberto -

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disse-lhes Theido uma noite. O Sol acabara de descer, e haviam-se 
instalado em volta de uma fogueira, envolvidos nas capas e em espessas 
roupas feitas com peles de animais, que Durwin lhes fornecera.
- Pensa que no os conseguimos enganar? - perguntou Trenn, esperanado. - 
Voss e os seus amigos podem t-los despistado...
- No - replicou Theido, numa voz grave. sacudindo a cabea. - Receio bem 
que no. Voss pode t-los enganado por algum tempo, e direi que isso  
provvel, uma vez que ainda estamos acordados e em movimento. Porm, a 
cada dia que passa, sinto que a sua presena  mais forte. Tenho a 
sensao de que os dedos das suas mentes se estendem para ns, 
aproximando-se cada vez mais. Podem ainda no ter encontrado a nossa 
pista, mas esto mais perto...
- Por que razo pensas que esto  espera de nos apanhar em campo aberto? 
- perguntou Alinea. - Porque  que no nos podem apanhar na floresta?
Theido voltou a sacudir a cabea.
- No sei. H qualquer coisa a impedi~los de o fazerem, mas no sou capaz 
de dizer o que . Todavia, logo que estejamos livres da floresta, o que 
acontecer dentro de dois dias, no tero dificuldade em ver~nos. As 
colinas para l da floressta oferecem muito pouca cobertura no Vero, e 
ainda muito menos no Inverno, para quem se deseja esconder de olhos 
predadores.
- Sim, mas se conseguirmos atravessar as colinas at  Grande Muralha, 
talvez tenhamos uma oportunidade - interveio Durwin, que era o nico que 
parecia animado com essa ideia.
- Ainda teremos de descobrir uma maneira de atravessar a muralha... - 
recordou Trenn - o que poder levar dias. A no ser que o meu cavalo 
ganhe asas, no estou a ver como o conseguiremos.
- Deve haver uma maneira - disse Alinea. - A muralha  velha, pode ter 
brechas...
- Reze para que no existam brechas, senhora - retorquiu Trenn. - 
Qualquer vantagem para ns ser ainda mais benfica para os nossos 
captores.
- Os "caadores" no so os nossos captores - declarou Quentin com uma 
voz estranha. Os outros calaram-se e olharam-no, levantando os olhos do 
fogo para lhe mirarem o rosto. Exibia uma expresso de medo e espanto, 
com os olhos redondos e escuros olhando para l do

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crculo de luz lanado pela fogueira. - So estes homens - acrescentou.
Theido foi o primeiro a seguir o olhar de Quentin e a vislumbrar o que 
ele vira: um anel de rostos - quase invisvel na escurido se no fossem 
os clares da fogueira a brilharem-lhes nos grandes olhos - que os 
rodeava. Estavam cercados.

CAPTULO XV

A povoao jher, se  que a palavra povoao podia ser aplicada de um 
modo to lato, era quase to invisvel quanto era possvel conseguir. 
Tinham sido levantados abrigos de troncos e ramos, folhas e cascas, para 
cerca de cinquenta pessoas. Cada um deles fora previamente escavado na 
terra e tinha a forma de uma cpula oca. Se no se encontrasse ningum 
parado em frente daquelas residncias simples ou a espreitar pelas 
estreitas fendas das portas, Quentin poderia ter passado mesmo pelo meio 
da povoao sem nunca vir a notar a sua existncia.
Porm, as pegadas na neve que cobria o cho contavam uma histria 
completamente diferente.
A neve que cobria o cho fora compactada pela passagem de muitos ps. 
Parecia que os Jher tinham vivido naquela parte da floresta durante todo 
o ano, e de facto assim fora. Caando e montando armadilhas na franja 
norte de Pelgrin, haviam estabelecido um acampamento de Inverno na 
floresta. Ir-se-iam embora de novo, na Primavera, quando regressassem ao 
seu habtat usual, as Terras Selvagens de Obrey.
Ao v-los agora, em plena luz do dia, Quentin perguntava a si mesmo 
porque fora que os receara durante aquela longa noite em que se haviam 
ficado em volta da fogueira mas fora do alcance da sua luz. A estranha 
vigilncia fora mantida durante toda a noite, com rostos que se 
modificavam apenas ligeiramente quando um partia e outro aparecia para 
lhe ocupar o lugar. Quentin imaginara toda a espcie de horrveis 
torturas s mos daquela gente. Todavia, agora, ao olhar para os rostos 
largos e escuros, com feies bem formadas mas fortes, e para os

122

tranquilos olhos castanhos, que pareciam sensatos e sbios, Quentin 
envergonhava-se de ter pensado mal de um povo to simples.
Quando a madrugada surgira, o chefe, que se designava a si mesmo por 
Hoet, avanara em direco  fogueira do acampamento, onde Theido e 
Durwin estavam  espera, prontos para os receber de acordo com o modo 
como se apresentassem: em guerra ou em paz. Ento, inexplicavelmente, 
Durwin surpreendera tudo e todos, e mais ainda os jher, que soltaram 
silvos de espanto quando pronunciou algumas palavras entrecortadas na sua 
ritmada lngua, que parecia cantada.
S depois Durwin se virara para os outros e dissera, com uma expresso 
envergonhada:
- Desculpem, meus amigos. Devia ter-lhes dito mais cedo que no tnhamos 
nada a recear dos jher, mas pensei que era melhor mantermo-nos em guarda, 
pois j se passou muito tempo desde que encontrei alguns deles nesta 
parte da floresta, e entretanto o mundo passou por muitas mudanas. No 
podia estar certo quanto  recepo que nos dariam. Porm, tal como 
esperava, do-nos as boas-vindas. como amigos. - A seguir voltara-se para 
o chefe dos jher e voltara a falar naquela estranha lngua.
Hoet fizera sinais excitados para os seus companheiros, num total de 
cerca de uma dzia, que se haviam aproximado soltando murmrios de 
espanto ante a raridade que contemplavam: um membro da raa branca que 
falava a sua lngua.
Na verdade, era uma raridade. Os jher eram um povo nmada. Simples e sem 
complicaes, o seu modo de vida no se alterara grandemente em mil anos. 
No construam cidades, no erguiam altares, no liam nem escreviam a sua 
prpria lngua. Eram um povo ainda mais antigo do que o dos odiados 
Shoth, e tanto quanto se soubesse era mais antigo do que a prpria Terra. 
De onde tinham vindo era um mistrio to remoto que no podia ser 
descoberto, e era apenas um dos muitos mistrios que - tal como a espessa 
casca que cresce em volta do tronco de um velho carvalho - rodeavam 
aquele povo tmido.
j s muito raramente eram vistos na regio de Askelon, pois a 
civilizao empurrara-os cada vez mais para o norte e para o leste, para 
as Terras Selvagens. Eram muito poucos os habitantes das cidades que 
punham os olhos nos jher, e at os camponeses que viviam perto da 
fronteira norte de Pelgrin s os avistavam em raras ocasies. Por vezes

123

no eram vistos numa regio durante toda uma gerao. ou mais, para 
depois aparecerem de repente, tal como anteriormente.
Os Jher eram um povo pacfico e tmido, que no tinha inimigos, excepto 
os brutais Shoth, a quem perseguiam tal como aos veados de que se 
alimentavam. Era uma maravilha verificar que seres to tranquilos sabiam 
lutar, pois o seu aspecto no dava a entender que fossem capazes de 
entrar em conflitos. Porm. dentro das suas surpreendentes 
caractersticas existia um dio inato pelos ltimos dos seus mais antigos 
inimigos.

Durwin estava sentado, em consultas com Hoet, o chefe jher, no meio da 
pequena clareira. Quentin podia ver que a conversa avanava devagar. 
Repetiam constantemente as mesmas palavras, com muitos gostos e 
interrupes, num silncio confundido. Porm, Durwin parecia ir 
entendendo. Acenava com mais frequncia e j no fazia tantas perguntas. 
Quentin chegou a estas concluses um pouco ao acaso, porque na fala jher 
no havia nada que se parecesse com palavras, no sentido vulgar do termo. 
Era mais um murmrio de sons da floresta e imitaes da natureza do que 
uma lngua verdadeira. No entanto, para os ouvidos de Quentin, tratava-se 
de uma fala estranhamente bela e comovedora. pois ouvia nela os sons da 
terra no seu avano atravs das estaes, o rudo do vento nas rvores, 
da gua a salpicar as pedras, de animais brincando. A lngua dos Jher 
estava repleta da beleza da floresta e das suas criaturas.
Enquanto os dois lderes tentavam compreender-se um ao outro. Quentin 
estabelecia contacto  sua prpria maneira: olhando de boca aberta e sem 
qualquer espcie de vergonha para o curioso povo que se amontoava  volta 
deles. Os Jher procediam com a mesma ousadia, apontando para os 
forasteiros (termo que utilizavam para todos os que no fossem jhers) e 
invejando os cavalos e as lminas de ao.
Os Jher, concluiu Quentin, eram uma raa muito regular, com mais 
tendncia para a graciosidade do que para a corpulncia. Possuam corpos 
suaves e bem formados, mais delgados do que musculados, semelhantes - 
mais uma vez era necessria essa comparao - ao dos veados. Quentin 
ficou chocado ao notar que at se pareciam com veados, por causa dos 
grandes olhos escuros, to calmos e profundos como a prpria floresta.

124

Usavam vesturio feito com peles de veado, cosidos com uma linha feita de 
tripas e com a ajuda de agulhas de osso. Comiam a carne dos veados e 
queimavam a gordura nas candeias, que eram feitas com crnios tambm de 
veados. A raa tomara-se inteiramente dependente dos veados para a sua 
sobrevivncia, e seguia os animais para onde quer que estes fossem, 
acompanhando-os durante as mudanas das estaes. Em todos os artigos de 
vesturio ou pessoais que Quentin pde ver enfeitados com decoraes, 
estas eram em geral imagens de veados. pintadas, riscadas ou esculpidas. 
Ocasionalmente deparava-se-lhe uma representao do Sol, que os Jher 
tambm reverenciavam. Por outro lado, aquele povo possua tambm os 
instintos rpidos e as reaces instantneas das tmidas criaturas da 
floresta. Isso a par com uma aguda conscincia do que os rodeava, 
tornava-os invisveis para as barulhentas e pesadas raas brancas, que 
atravessavam a floresta sem terem a conscincia de que podiam existir por 
ali outras almas vivas, talvez to perto como em cima da rvore sob a 
qual iam a passar.
Quentin estava entretido a fazer sinais de mos para algumas das crianas 
jher mais ousadas, que se tinham reunido  sua volta, quando Durwin se 
levantou e se arrastou de volta para onde os outros estavam sentados na 
neve, sobre peles de veado, aguardando o resultado da conversa.
- Hoet diz que estamos marcados para morrer - anunciou Durwin, que 
compreendeu rapidamente o seu erro ao ver as expresses de angstia a 
aparecerem nos rostos dos companheiros. - Oh, no! No pelos Jher! 
Desculpem... estive a ver se conseguia tirar sentido de toda esta 
histria e no me apercebi do que estava a dizer!
"Hoet diz que estamos a ser seguidos por "caadores", o que j sabamos. 
Contudo, esto muito mais perto do que imaginvamos. A noite passada 
deveria ter sido a nossa ltima noite. Declarou que foi por essa razo 
que ficaram connosco durante toda a noite, de vigia, no fossem os Shoth 
tentarem apanhar-nos. Sem o sabermos, aproximmo-nos muito da aldeia, e 
no querem nenhum Shoth to perto deles.
- Ah, ento protegeram-nos durante a noite? - comentou Theido. -Estou-
lhes grato pela ajuda... mas que acontecer quando sarmos daqui? Os 
"caadores" estaro  nossa espera logo que entremos na floresta.
- Tambm discutimos isso - replicou Durwin. Sorriu-se e inclinou a cabea 
na direco de Hoet, que se encontrava a alguns passos de distncia. O 
Jher repetiu o gesto. - Hoet diz que nos fornecer

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guarda-costas e um guia para nos afastar dos Shoth. por caminhos que s 
eles conhecem.
- Quantos homens iro para nos ajudar? - perguntou Trenn. Os seus olhos 
escrutinavam o grupo, em busca de possveis mobilizveis. - Cinco ou seis 
dos maiores seria o adequado, suponho. - No seu crebro de soldado, Trenn 
estava j a organiz-los numa unidade combatente, a equip-los com os 
capacetes, escudos e pesadas armaduras de couro dos soldados de 
infantaria.
- No sei dizer quantos so os que Hoet pretende enviar connosco - 
respondeu Dur-win, um pouco confuso. Virou-se e regressou ao local onde o 
chefe estava de p, de braos cruzados e queixo descansando sobre o 
peito. juntaram as cabeas e comearam novamente a discusso, com os 
braos a agitarem-se como se quisessem puxar as palavras do meio do ar. 
Por fim. Hoet virou-se, assobiou e acenou com a mo para um grupo de 
homens que se encontravam junto dos cavalos, admirando os animais e o seu 
equipamento. Um jovem muito delgado, pouco mais velho do que Quentin, 
deslizou para junto deles e apresentou-se a Hoet, que por sua vez o 
apresentou a Durwin.
- Aqui est o nosso guarda-costas e guia - declarou Durwin, regressando 
com o jovem.
- O qu? - explodiu Trenn, desconcertado, de olhos sados das rbitas e 
boca aberta. O jovem jher no lhe parecia um oponente de respeito, nem 
sequer para um dos membros do seu grupo, quanto mais para os sanguinrios 
"caadores---.
- Este  Toli - continuou Durwin, apresentando o jovem.
A seguir deu a volta a todo o grupo, pronunciando o nome de cada um 
deles. Toli no fez qualquer tentativa para duplicar os sons. Limitou-se 
a sorrir e a acenar com respeito.
- Quando partimos? - perguntou Theido, com um suspiro.
Tambm ele tinha as suas dvidas a respeito do guarda-costas jher. Lanou 
uma rpida olhadela para o alto, para ver que o cu, anteriormente limpo, 
se fizera muito carregado enquanto aguardavam que terminassem as 
deliberaes entre Durwin e Hoet.
- Hoet sugere que durmamos algumas horas. Podemos partir esta noite. Diz 
tambm para no nos preocuparmos, porque Toli nos mostrar um caminho 
secreto para atravessarmos a muralha, que aparentemente os Shoth no 
conhecem.

CAPTULO XVI

O rei estava sentado na escurido da profunda masmorra de Kazakh, a 
propriedade amuralhada de Nimrood, em plena montanha.  sua volta jaziam 
as peas espalhadas da armadura, agora a enferrujarem na humidade da 
masmorra. A cabea outrora orgulhosa pendia para a frente, desanimada, e 
os olhos afundados permaneciam fechados para no ter de ver a desgraa 
que o rodeava. O cabelo comprido e negro, e a barba bem tratada, sempre 
to cheios de vitalidade e encaracolados, pendiam como farrapos, sujos e 
manchados, que comeavam a ficar acinzentados. No ntimo, amaldioava-se 
a si mesmo pela sua prpria estupidez e falta de previso. Estivera to 
entusiasmado com o regresso a casa, e to cheio de boa disposio, que 
entregara os homens aos respectivos comandantes e, acompanhado apenas por 
um pequeno grupo de cavaleiros, tratara de apanhar o ltimo barco antes 
de os mares enraivecidos do Outono impedirem toda a navegao. Haviam 
embarcado e levantado ferro apesar das dvidas do capito, enfrentando um 
mar picado e um cu que brilhava de fria contida.
A tempestade rebentara ao quarto dia e o capito dirigira-se para o porto 
mais prximo, a baa Fallers, na extremidade mais a sul de Elsendor. O 
capito recusara-se, com toda a sensatez, a ir mais longe, pelo que 
Eskevar e os seus cavaleiros haviam iniciado a viagem atravs dos campos. 
A um dia e uma noite de distncia de Fallers, tinham sido atacados. Uma 
fora de homens armados aguardava-os quando penetraram num estreito 
desfiladeiro.
O rei e os seus cavaleiros haviam lutado com valentia, apesar da 
inferioridade numrica, mas tinham acabado por ser dominados.

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-Amarrados e atirados para dentro de carros, tapados com panos de velas, 
tinham viajado durante muitos dias no meio de um territrio pedregoso. Um 
dos cavaleiros, Ronsard, conseguira libertar-se das cordas, recuperar o 
cavalo e as armas e escapar-se, forado a deixar para trs o seu rei e os 
camaradas.
Ronsard seguira os carros at ao seu destino final, um navio de velas 
negras que os aguardavam numa faixa de costa deserta. na esperana de 
descobrir uma oportunidade para libertar os companheiros. Porm, quando 
avistara o navio de velas negras e os seus ocupantes, perdera toda a 
esperana de salvar os amigos apenas com a sua espada solitria, e 
dirigira-se a Mensandor com a mensagem para a rainha.
Os meses haviam passado, com cada dia a tornar-se mais insuportvel do 
que o anterior. O rei Eskevar recusava render-se  impotncia que sentia 
cerrar-se  sua volta. Ao princpio protestara contra o seu captor, com a 
poderosa voz a vibrar de uma justa ira. Os sales e galerias de Kazakh 
haviam ecoado aquele trovejar de fria.
Nirrirood andara de um lado para o outro nos seus aposentos, cacarejando 
como um manaco, com os olhos iluminados por uma luz violenta e 
fantasmagrica.
Depois de semanas de cativeiro, Nirrirood descera s masmorras para 
pousar finalmente os olhos na presa. Eskevar desafiara-o, pedira a 
liberdade para os seus cavaleiros, oferecera um enorme resgate, exigira 
saber a razo para aquele rapto. A exigncia tivera resposta: tinham-lhe 
dito que o seu irmo, prncipe Jaspin, providenciara para que fosse 
mantido em todo o conforto mas preso em segurana, at ao momento em que 
pudesse usar a coroa. Nimi-ood a seguir retirara-se, deixando sozinho o 
seu miservel prisioneiro, para que roesse o corao de fria e 
frustrao. Eskevar nunca mais vira qualquer pessoa desde esse breve 
encontro.

Eskevar ouviu o raspar de um fecho de ferro a ser levantado e largado de 
novo, seguido pelo guinchar de gonzos com pouco uso. A seguir chegou-lhe 
o som tilintante de passos que desciam as escadas em espiral que davam 
para as masmorras. "Vem a o carcereiro com a comida", pensou.
Momentos depois avistava a luz oscilante de uma tocha lanando clares 
sobre as grosseiras paredes de pedra da galeria que seguia ao

129

longo da fila de celas. Escutou e aguardou. Pelo barulho na galeria, 
apercebeu-se de que o carcereiro no estava sozinho. De sbito a tocha 
apareceu-lhe  vista. cegando-lhe os olhos nublados com o seu brilho 
indesejvel. Sentiu violentas guinadas de dor no crebro quando se 
obrigou a fitar o carcereiro.
Eskevar ps-se de p, inseguro, erguendo-se como uma torre acima do 
carcereiro e dos dois desprezveis guardas.
- Para trs! - gritou o carcereiro. enfiando a tocha por entre as barras 
de ferro da porta. A velha porta ferrugenta abriu-se e os dois guardas, 
com as lanas prontas, entraram apressadamente. Um deles empurrou Eskevar 
para a frente com o punho da lana, e o rei cambaleou para a galeria. 
como se fosse um velho. A passagem. a escorrer gua. era to estreita e 
baixa que tinha de se encolher e baixar para poder avanar. Como medida 
de segurana, e para lembrar ao prisioneiro que seguia sob escolta, o 
guarda picava-o periodicamente nas costas com a lana, enquanto avanavam 
para os degraus em espiral.
Eskevar cambaleou duas vezes nos degraus da escada, mas endireitou-se e 
continuou a subir devagar e com grande deliberao. Procurava ganhar 
algum tempo para restaurar parte das suas foras e para ir habituando os 
olhos  luz plida, mas que se tornava mais intensa  medida que subiam 
para fora das masmorras.
Por fim. Eskevar descobriu-se mais uma vez  luz do dia, que era 
estonteante para os seus sentidos h tanto tempo sujeitos a privaes. 
Respirou fundo, enchendo os pulmes de ar fresco e puro, e descobriu que 
a sua mente ficava mais clara, sem a sensao de confuso em que 
mergulhara nos ltimos tempos. Endireitou-se com dificuldade, puxou os 
ombros para trs e levantou a cabea.
O grupo dirigiu-se para o grande salo onde Nimrood os aguardava, sentado 
no seu elevado trono negro.
- -Ah. ento o nosso prisioneiro ainda vive. no  verdade? - silvou o 
necromante. -  pena. os nossos bichinhos de estimao ainda tero de 
esperar mais algum tempo pelas suas carnes! - Riu-se sozinho, e Eskevar 
notou a enorme e horrvel cabea de uma tremenda serpente a espreitar por 
debaixo do trono.
- Liberta-me, ou mata-me - disse o rei. - Nunca recebers qualquer 
resgate, e o meu irmo no se sentar no trono. Os regentes nunca o 
permitiro.

130

- Os teus regentes... talvez no, orgulhoso rei. Todavia, vrios dos teus 
regentes esto sob a suspeita de terem cometido certos crimes. Dois deles 
esto neste momento encerrados nas entranhas da fortaleza de Askelon,  
espera do seu destino.
- Canalha! - gritou Eskevar, atirando-se para a frente. Um dos guardas 
tentou bloquear-lhe o caminho, baixando a lana, mas o rei agarrou a 
lana. arrancou-lha das mos e empurrou o guarda para trs com a sua 
prpria arma. A seguir fez girar a lana  sua volta, nun amplo arco, 
mantendo  distncia o carcereiro e o outro guarda. Eskevar baixou a 
lana e avanou, ameaador, para Nimrood. O feiticeiro levantou os braos 
acima da cabea e gritou um encantamento:
- Borgat Invendum cei Spensus witso borgatti!...
- Os teus poderes no conseguiro... - comeou o rei a dizer. mas nesse 
momento algo como uma rede de chumbo caiu-lhe sobre os membros e sentiu 
que as foras o abandonavam. Levantou o forte brao para atirar a lana, 
mas de repente a arma pareceu-lhe pesar tanto como a porta da masmorra. O 
lanamento foi sem fora e a lana deslizou no cho de pedra.
- Vais ver o que os meus poderes conseguem fazer! - retorquiu o irado 
feiticeiro. - H muito que espero por este momento. Amarrem-no e levem-no 
para a torre!
O rei Eskevar explodiu de raiva:
- Mata-me. agora mesmo! Se perderes esta oportunidade irs arrepender-te 
para toda a eternidade, feiticeiro negro!
Os guardas lanaram-se sobre o indefeso monarca e prenderam-no com 
correntes. Arrastaram-no para fora do salo, e depois para a torre, onde 
o prenderam mais uma vez numa estranha sala. No era uma sala, mas sim 
uma diviso muito alta, em cpula, pintada com formas grotescas e 
misteriosas inscries.
Mal Eskevar penetrara na sala e a porta se fechara atrs dele, quando se 
sentira invadir por uma pouco natural e irresistvel vontade de dormir.
Os pesados vapores do sono pareciam emergir do prprio pavimento por 
debaixo dele. A cabea oscilou-lhe sobre os ombros, e as plpebras 
fechavam-se-lhe. Eskevar sentiu os joelhos irem-se abaixo e caiu no 
pavimento de madeira. Tentou levantar-se e conseguiu pr-se de joelhos, 
de uma maneira desajeitada, porque as correntes no lhe permitiam grandes 
movimentos.

131

- Espero que aches refrescante o descanso que aqui irs ter - silvou 
Nimrood. O monarca virou a cabea para ver as feies agudas e 
contorcidas do seu atormentador a espreitarem-no pelas fendas da porta.
Amaldioo os teus ossos, necromante. - retorquiu o rei. Porm. mesmo 
enquanto estava a falar, a lngua deteve-se-lhe na boca e as plpebras 
fecharam-se-lhe. Tentou levantar-se, mas as pernas no o suportavam, e 
caiu para o lado profundamente adormecido.
- Olha uma ltima vez para o mundo com os olhos de um mortal, grande rei. 
 uma ddiva rara que te concedo. Quando acordares, sers um dos meus 
prprios imortais. Dorme bem!

CAPTULO XVII

Nos quatro dias desde que tinham abandonado o campo dos nmadas Jher. o 
grupo de Durwin avanara a uma velocidade tremenda. Estavam todos 
espantados com as capacidades e a clareza de pensamentos do seu guia, 
Toli, e o mais espantado de todos era Trenn, que duvidara seriamente que 
pudessem sobreviver mais de uma hora na floresta.
Porm, Toli conhecia a terra como se da sua pele se tratasse. Sabia 
instintivamente quando uma pista mudava de direco, e quando abandonar 
um caminho para seguir por outro. Aparentemente a floresta no conseguia 
esconder os seus segredos dos olhos atentos do Jher. De facto. o jovem 
escuro e delgado lia-a com tanta facilidade como Durwin lia os 
pergaminhos que coleccionava em to grande nmero. Quentin suspeitava que 
geraes de perseguio aos veados tinham feito com que os Jher se 
sentissem mais  vontade entre as coisas selvagens da floresta do que no 
mundo dos homens. Sob esse aspecto, compartilhava do ponto de vista 
convencional, pois os tmidos Jher eram considerados como um povo que 
regredia para os hbitos animais, em vez de se estar a libertar deles.
Todavia. no poderiam ter encontrado melhor guia em qualquer outro lado, 
e se tivessem sido seis iguais a Toli, o grupo no teria estado mais 
protegido da descoberta por parte dos "caadores". Toli sabia quando 
devia parar e quando era melhor avanar. Variava o ritmo das deslocaes, 
sem nunca se manter agarrado a um determinado padro, movendo-se antes 
como um animal astuto, e principalmente de noite.
Mesmo assim. ningum duvidava que os "caadores" continuavam atrs deles. 
Toli estava de acordo em que no haveria segurana
134 STEPHEN L-~EAD

enquanto no atravessassem a muralha. Ele e Durwin faziam frequentes 
consultas pouco antes e pouco depois da jornada de cada dia. Durwin 
comeava a ficar cada vez mais apreensivo  medida que se aproximavam da 
grande estrutura.
A antiga maravilha arquitectnica protegera, de saqueadores e candidatos 
a conquistadores, e durante mais de mil anos. o reino de Mensandor. Agora 
permanecia como um aviso do poder e de determinao do povo de Mensandor 
em viver livre, pois ninguem se recordava que um qualquer inimigo tivesse 
ousado atravess-la com um exrcito. Sabia-se que a Muralha de Celbercor 
tinha uma altura de quatro vintenas de palmos desde o solo irregular e 
rochoso at ao alto das ameias denteadas. No topo, a muralha era 
suficientemente larga para permitir que trs cavaleiros cavalgassem lado 
a lado, ou para que uma coluna de homens marchasse  vontade. Cobria uma 
distncia de cem lguas por sobre uma terra acinzentada e rida, desde a 
baa de Malmar, onde se projectava para dentro de gua, at  cortina 
rochosa da montanha de Ostenkell. na extremidade norte das Fiskills.
A Muralha de Celbercor pretendera separar Askelon de toda a regio das 
terras selvagens de SuthIand, mas nunca fora terminada. S fora erigida a 
extremidade norte. que corria desde o dedo gelado que era a pennsula de 
Malmar at s traioeiras Fiskills, e a um custo muito grande.
Todavia, permanecia intacta. Fora uma realizao espantosa: sem costuras, 
sem aberturas ou brechas provocadas pelo tempo, erguida com uma tal arte 
de pedreiro que no fora utilizado cimento, mas apenas pedras encaixadas 
em pedras com uma preciso maravilhosa ao longo de todo o seu 
comprimento.
Quentin nunca vira a muralha. mas ouvira muitas histrias a seu respeito. 
A ideia de que ia finalmente v-la provocava-lhe um toque de excitao, 
mas Durwin acabou com ela quando anunciou ao grupo:
- Esta noite atravessaremos a muralha. e  quase certo que os "caadores 
- tentem fazer-nos parar. Toli pensa que no esto longe e que 
provavelmente j pressentem o que vamos tentar. Estaremos vulnerveis 
logo que saiamos do abrigo da floresta. A floresta termina a cerca de uma 
lgua da muralha, mas h um vale orientado na direco em que seguimos. 
Vamos entrar nele e segui-lo enquanto for possvel. Depois. Toli ir 
conduzir-nos  passagem secreta conhecida pelos Jher. Se conseguirmos 
atravess-la, duvido que os Shoth continuem a perseguir-nos.

135

Precisariam de semanas para descobrirem uma maneira de atravessarem a 
muralha com os seus cavalos, e de meses para a contornarem.
- E como  que passamos com os nossos cavalos? - perguntou Alinea.
- Pois ... - interveio Theido. - Levamos os cavalos para o outro lado, 
ou no?
Durwin chamou Toli, e os dois passaram alguns momentos a discutir o 
problema. Depois Durwin virou-se para os outros com uma expresso sria.
- Toli no sabe. Os Jher no tm cavalos. por isso nunca se lembraram da 
possibilidade de os fazer passar a muralha. Sabem, o caminho secreto no 
 por cima da muralha, mas por baixo.  um tnel.
- Diabo! - murmurou Trenn, a quem o plano agradava cada vez menos.
- Ser assim to mau continuar sem cavalos? - inquiriu a rainha.
- Ser muito difcil - replicou Theido.
-  impossvel - afirmou Trenn.
- No  impossvel - disse Durwin. - Lembrem-se que Toli e o seu povo 
vivem nas Terras Selvagens. Poder mostrar-nos como as atravessar, pois 
viajam constantemente por essa rea.
- O pior  que a perda dos cavalos nos ir atrasar consideravelmente. 
Dekra ainda est a semanas de distncia... e muito mais longe se formos a 
p.
Quentin escutava aquela conversa com uma sensao de tristeza. Odiava a 
ideia de ter de deixar Balder para trs, para se tornar numa presa dos 
lobos, ou pior ainda, dos "caadores". Virou as costas aos outros e 
dirigiu-se para junto do animal, a que se afeioara muito no curto espao 
de tempo em que tinham andado juntos.
- Dizem que vais ter de ficar para trs, Balder. Preferia ser eu a ficar 
para trs... - fungou, com lgrimas a formarem-se-lhe nos olhos. - No 
quero deixar-te. - Passou um brao em volta do grande pescoo do animal e 
encostou o rosto s suas espessas espduas. Balder resfolegou baixinho e 
virou a cabea para dar uma mordidela amigvel no brao de Quentin.
- Gostas deste animal. - Quentin virou-se e viu Theido junto dele, 
levantando a mo para afagar a testa branca de Balder.
- No o tinha compreendido, at este momento - respondeu Quentin, 
limpando  manga a lgrima que lhe corria pela face.

136 a sua

- No tens de que ter vergonha. Um cavaleiro deve pensar na sua
montada. No meio de uma batalha, so companheiros. Posso garantir-te
que este forte cavalo de batalha sabe como proteger o seu cavaleiro no
meio de uma luta.
- Ser capaz de se governar sozinho quando os soltarmos?
- Oh, sim, melhor do que ns, creio. No entanto, no tenho qualquer 
inteno de os libertar, se for possvel evit-lo. Precisamos 
desesperadamente dos nossos cavalos. - Quentin notou o ar de tenso nas 
linhas em volta dos olhos do amigo.
-  assim to difcil a estrada que atravessa as Terras Selvagens? - 
Quentin no considerava a hiptese de ser um caminho muito diferente do 
que o que tinha experimentado na floresta.
- Sim. Muito pior do que podes imaginar se nunca a viste. No h estrada, 
nem pista ou trilho. Toda a regio est coberta por macios de arbustos e 
silvas, sobre um solo pantanoso e inseguro. Pelo menos teremos a vantagem 
da neve, para dar alguma firmeza aos nossos passos, mas mesmo assim temos 
de ter muito cuidado, porque alguns pntanos so alimentados por fontes 
quentes subterrneas. No gelam no Inverno, mas de vez em quando deixam-
se cobrir pela neve. H poucos lugares mais perigosos para um grupo de 
viajantes.
Quentin exibiu um ar sombrio ante aquelas notcias e desejou que a viagem 
j tivesse terminado. Comeava a ficar cansado da constante montagem e 
desmontagem de acampamentos, e dos prolongados e gelados intervalos entre 
eles. Havia muito que tinha deixado de pensar nos "caadores" e nos 
terrores que estes trariam consigo. Depois de dias de tenso permanente e 
de ficar acordado durante a noite, agarrado  adaga, recusara-se a pensar 
mais neles. Agora era mais uma vez obrigado a interrogar-se sobre o que 
os "caadores" lhe poderiam fazer se o apanhassem.
Ao crepsculo, o grupo ps-se em movimento uma vez mais. A floresta 
tomava-se menos densa  medida que se aproximavam da muralha, enquanto 
aumentavam os terrveis receios. O que seguia atrs deles no demoraria 
muito tempo a aparecer.
Quentin s em parte se sentia mais seguro. Para aquela cavalgada para a 
muralha, Toli acompanhava-o montado em Balder, o cavalo maior. Seguiam 
confortavelmente juntos, com Toli a ocupar o lugar por detrs de Quentin. 
Apesar de os Jher no possurem cavalos, pareciam no os temer e eram 
mais ou menos capazes de os manobrar quando lhes davam essa

137

oportunidade. Porm, como Quentin era. dos dois, o melhor cavaleiro, 
continuava a segurar as rdeas, enquanto Toli apontava o caminho.
O grupo avanou mais de uma lgua, em fila indiana, guiado por Balder. 
Por cima deles o cu estava escuro, com a Lua e as estrelas obscurecidas 
por nuvens baixas que se deslocavam depressa. "Tanto melhor", pensou 
Quentin, "assim talvez os "caadores" no nos vejam."
Por fim atingiram o rebordo da floresta, e Toli conduziu-os, sem qualquer 
hesitao, para uma vasta extenso de colinas ridas, de cujo solo saam 
rochas aguadas, inclinadas em estranhos ngulos. A paisagem era uma 
imagem de desolao, de onde surgiam as razes expostas das rochas 
subterrneas que se iam erguendo para acabarem por formar as Fiskills. 
Para Quentin, tratava-se de um lugar solitrio e perdido. nu e 
assustador.
Acelerando o passo, Toli conduziu-os por uma vertente ngreme at ao 
fundo de um largo desfiladeiro que fora formado pelas guas geladas da 
Primavera, que tinham aberto um caminho no solo solto. Por cima deles, e 
de cada lado, levantavam-se as margens daquele leito de rio, agora seco. 
Das extremidades das rochas pendiam longas pontas de gelo, e o ligeiro 
vento que se levantara atrs deles murmurava por entre as fissuras.
No conseguiam ver nada para a frente ou para trs, e por cima deles 
avistavam apenas o cu vazio e negro. Porm, cada um deles comeou a ter 
um pressentimento, quase como um aviso para que no continuassem. Cada 
passo era um esforo, cada curva do caminho um obstculo a evitar. Apesar 
dos incitamentos de Toli, o grupo abrandou. avanando e parando 
constantemente.
Quentin sentia o medo a abater-se sobre ele. mas sabia que se tratava de 
um medo que no provinha do seu interior. Como aclito, testemunhara 
rituais de possesso em que um sacerdote pedia ao deus para que habitasse 
o seu corpo por um perodo breve, para desposar as mulheres-orculos do 
templo. Sentira a mesma coisa nessas ocasies, quando uma atmosfera 
emocional demasiado carregada dava vazo a estranhos procedimentos.
Quentin sabia que a fora que pairava sobre eles era estranha, e 
sobressaltou-se quando descobriu a sua origem: os "caadores". Por fim, 
a os tinham.
No preciso momento em que a ideia lhe surgira, Quentin sentiu um 
estremecimento gelado ao longo das costelas e virou-se na sela para

138

olhar para trs. No primeiro instante no deu por nada de especial, mas 
quando ia de novo a virar-se para a frente teve o relance de uma forma 
negra a confundir-se com o fundo, a alguma distncia. No era possvel 
ver do que se tratava, mas bem no fundo do seu corao Quentin sabia que 
os "caadores" os tinham alcanado. Puxou as rdeas com fora. 
Balderparou de repente e Theido quase chocou com ele quando o seu prprio 
cavalo continuou a avanar no escuro.
- Acabei de avistar qualquer coisa atrs de ns - sussurrou Quentin com 
uma voz rouca. Via o rosto de Theido apenas como uma mancha escura no 
negrume que os rodeava.
- Muito longe?
- No sei dizer - respondeu Quentin, sem flego. - Vi apenas qualquer 
coisa a mover-se. Escutem! - Naquele instante ouviu-se uma pedra a 
rebolar na ravina a alguma distncia atrs deles. O fraco eco perdeu-se 
instantaneamente no vazio.
- Em frente! - murmurou Theido. A urgncia que existia na sua voz f-la 
soar fraca e distante. Theido virou o cavalo e passou palavra aos que 
vinham atrs. Quentin deu uma palmada em Baldere soltou-lhe as rdeas. 
Lanaram-se na escurido com grande rudo de cascos.
Cavalgaram pela serpenteante ravina, com Toli teimosamente agarrado a 
Quentin. O jher gritou~lhe qualquer coisa aos ouvidos e Quentin olhou 
para a frente e viu que as margens, dos dois lados, comeavam a 
desaparecer enquanto subiam uma pequena rampa. Um impulso final e 
encontraram-se fora do vale.
Erguendo-se na frente deles encontrava-se a macia e ondulante forma da 
Muralha de Celbercor, uma barreira de dimenses espantosas. Quentin 
incitou a montada a seguir em frente enquanto, por cima deles, a Lua 
abria caminho por entre as nuvens baixas. Agora podia apreciar bem a 
vasta construo que pairava no alto, apesar de ainda se encontrarem a 
alguma distncia da base.
A Lua voltou a desaparecer quando descreveram uma curva, seguindo as 
instrues de Toli, e cavalgaram ao longo da face da muralha, num ngulo 
em relao  mesma. Pelo som dos cascos que o seguiam, Quentin sabia que 
os outros no vinham longe. Desceram a galope uma ravina de margens 
inclinadas e comearam a subi-la do outro lado. Tinham acabado de chegar 
ao alto da margem oposta quando a Lua voltou a espreitar, lanando a sua 
luz sobre a paisagem
bravia. Para grande horror de Quentin. avistou o luar a brilhar sobre ao 
e dois cavaleiros que se precipitavam para eles. Toli puxou pelo brao de 
Quentin, que atirou as rdeas para um lado e se dirigiu directamente para 
a muralha.
Um grito agudo cortou a noite. Ao princpio Quentin pensou tratar-se de 
um grito de mulher, mas depois reconheceu que se tratava do grito de caa 
de um falco. Um cavaleiro passou por ele e ouviu Theido a gritar:
- Para a muralha! Conduz os outros para a muralha, - Quentin viu o luar a 
brilhar na fina linha que era a espada desembainhada de Theido.
Toli gritou e agitou os braos para que os outros os seguissem enquanto 
arrancavam em direco  muralha.
- Esto em cima de ns! - gritou Trenn. Nesse instante o seu cavalo 
tropeou numa pedra solta e Treen caiu,
A rainha. que seguia  frente, parou e voltou para trs, mas Durwin 
impediu-a, dizendo:
- Eu trato dele! Continuem!
A montada da rainha pareceu voar sobre o terreno inseguro. gil como uma 
sombra, e colocou-se junto de Quentin e Toli num instante.
Mesmo em frente, mas fora das vistas por causa de uma salincia de rocha, 
Quentin ouvia o frio ressoar de ao contra ao e os relinchos de cavalos 
que se atiravam uns contra os outros.
Ao atingirem uma cova mais abrigada, Toli saltou para o cho e correu 
directamente para a face da muralha. Quentin pestanejou, pois sob a 
incerta luz do luar parecera-lhe ter visto o jovem Jher a desaparecer nas 
prprias fundaes de pedra da Muralha de Celbercor.
Regressou quase imediatamente, gritando e empurrando-os para a frente. 
Quentin ouviu novo grito no ar, por cima dele, mas desta vez perto. 
Virou-se instintivamente e colocou um brao em frente do rosto, para o 
proteger, enquanto Toli, saltando como um gato, o agarrava pelo outro 
brao e o puxava para o cho. Houve uma agitao no ar e um som de coisas 
a rasgarem-se enquanto caa, Quentin sentiu uma dor aguda no brao que 
colocara sobre a cabea. Avistou Durwin, que caval~ gava para eles, com 
Trenn pendurado de lado sobre o dorso do cavalo e deixando-se cair para o 
cho. Quentin levantou os olhos e viu duas asas brancas a erguerem-se nos 
ares. desaparecendo na noite. Olhou para o brao, notou a tnica rasgada 
e o sangue a escorrer da ferida.

140

- Aqui est o tnel. - gritou algum. Quentin sentiu mos a colocarem-no 
de p e correu para a muralha. Por detrs deles aproximou-se um cavaleiro 
a galope e soou a voz de Theido, a gritar. De repente, Quentin achou 
muito estranho estar a fugir como um veado: o que queria era sentar-se. 
Zumbiam vozes  sua volta e o ar tornou-se quente. Abrandou e virou-se. 
Theido disse qualquer coisa e Quentin inclinou a cabea, intrigado, 
porque o cavaleiro comeara a falar numa lngua desconhecida. Parou e 
olhou para as luas gmeas suspensas mesmo por cima da cabea. Esticou-se 
para atingir uma delas, como se a quisesse arrancar do cu para a segurar 
na mo. Ouviu msica. o toque de sinos de um templo, muito  distncia. 
Ento, o cu negro tornou-se de um vermelho de sangue. Quentin pestanejou 
e sentou-se. maravilhado com um to estranho acontecimento. Sentiu a 
cabea bater contra a lisa pedra da muralha, e a ltima coisa que viu foi 
o rosto de Durwin a pairar sobre ele, como que a uma grande altura, 
falando-lhe numa linguagem confusa. Uma lgrima rolou pelo rosto de 
Quentin. que deixou de ter conhecimento fosse do que fosse.

CAPTULO XVIII

A luz estremecia e modificava-se sob a forma de globos brancos. Quentin 
podia v-los mesmo com os olhos fechados. Seguia o seu percurso nas 
plpebras. durante horas, meio acordado. meio a sonhar. De um qualquer 
stio muito distante. de um outro quarto ou talvez de um outro mundo, 
chegava-lhe o som de msica. Sinos muito agudos tilintavam com fora. 
perfurando-lhe os ouvidos com a sua leve melodia.
No sabia havia quanto tempo observava as luzes que danavam e escutava o 
som cristalino dos sinos. Talvez horas. Talvez dias. Talvez para sempre.
Quentin. no seu mundo crepuscular entre a escurido e a luz, derivava 
entre a conscincia e a inconscincia quase  sua vontade, e de nada 
tinha percepo excepto dos globos de luz, por vezes vermelhos ou azuis. 
mas quase sempre com um tom de ouro rosado, e da entoao dos minsculos 
sinos.

O quarto onde Quentin jazia tinha uma vista para ocidente, para uma 
cordilheira de montanhas baixas e florestadas. Subiam e desciam em curvas 
suaves, tal como o plo espesso e eriado de uma qualquer besta mtica 
dormindo pacificamente atravs das eras. Do alto parapeito da varanda 
podia olhar-se para o ocidente e para as violentas cores do Sol a pr-se.
Todas as tardes, a curva descrita pela descida do Sol passava pelo arco 
das portas duplas que se abriam para a varanda. A luz banhava a forma 
inerte de Quentin, transfigurando-o, levando-o a deixar de ser uma plida 
imagem de cera para se transformar numa criatura de luz

142

viva. Um pequeno carrilho de vento, suspenso no centro do arco, danava 
na ligeira brisa que de vez em quando entrava pelas portas abertas, 
soltando os seus sons delicados.
Ao lado da alta e larga cama de Quentin sentava-se uma mulher idosa com 
um xaile de l branca. Segurava nas mos um pequeno recipiente com 
unguento aromtico, que aplicava periodicamente num ponto mesmo por cima 
do corao e nas tmporas de Quentin. Nesses instantes sussurrava algumas 
breves palavras entre dentes, mantendo as mos sobre a forma inerte do 
jovem, que quase no respirava.
Durante todo o dia verificava-se uma constante torrente de visitantes que 
paravam aos ps da cama de Quentin ou se limitavam a dar um passo para o 
interior do quarto. Olhavam para a velha, sempre com a mesma pergunta nos 
olhos, e partiam sempre com o mesmo tipo de resposta: nada se modificara.
De tempos a tempos, Durwin substitua a mulher, sentando-se durante horas 
a olhar o corpo imvel estendido na sua frente.  noite levava consigo 
uma malga de caldo morno, que administrava a Quentin por meio de um curto 
tubo de osso. Durwin deixava que o caldo deslizasse muito devagar pela 
garganta de Quentin, tendo o cuidado de no o engasgar. Nunca havia uma 
reaco.
Uma noite, acabara Durwin de lhe administrar o caldo quando Theido entrou 
no quarto.
- Nenhuma mudana?
- Nenhuma. Paira entre a vida e a morte. Por vezes penso que pode 
acordar, pois parece prestes a levantar-se... mas o momento passa e ele 
continua na mesma.
- Achas que conseguir recuperar? J se passaram quase dois meses.
- No sei. Nunca antes tinha visto este tipo de doena. De certeza que 
ningum recupera do veneno dos Shoth... mas o povo de Dekra tem muitos 
poderes desconhecidos do resto do mundo. Se a ferida tivesse sido mais 
profunda, ou mais perto do alvo, a arte desta velhota de nada teria 
servido. Teria morrido logo, ou durante o percurso.
Durwin suspirou, olhando com tristeza para o magro corpo do rapaz.
- Viemos aqui para nada. Foi por minha culpa que isto lhe aconteceu.
- No te acuses a ti mesmo. Se  preciso olhar um culpado, ento no 
precisas de ir mais longe do que a porta de Jaspin. Foi ele quem atiou 
os "caadores".

143

- Mesmo assim, no obtivemos qualquer resultado da nossa vinda aqui, e o 
nosso nmero diminuiu. Foi a minha teimosia e orgulho. Theido. Foi por 
causa delas que o jovem Quentin est a sofrer.
- No, meu bom eremita. Foi graas s tuas capacidades de curandeiro que 
ele ainda se encontra vivo.
Theido no voltou a falar durante muito tempo. Depois,  pressa. como se 
receasse o que ia dizer, declarou:
- No podemos esperar mais tempo, Durwin. Temos de partir no fim-da-
semana. Em breve os navios iro sair dos ancoradouros de Inverno de 
Bestou. em Tildeen. Temos de conseguir um navio que nos leve at Karsh.
O eremita ergueu as sobrancelhas, surpreendido.
- Pensas que encontrars um mercador que esteja disposto a arriscar o seu 
navio desse modo?
- Pelo rei... sim.
- Nem pelo rei nem pelo reino. O destino do rei interessa muito pouco a 
esses marinheiros. No se ralam com a ascenso ou queda de naes. A sua 
lealdade varia com o peso das bolsas...
- Ento. o capito que se junte  nossa empresa receber um resgate real 
pelos seus esforos, posso garantir-lho. A prpria rainha o afianar.
- Mesmo assim, no tenhas tantas certezas. So gente primitiva e 
supersticiosa, piores do que os camponeses no que toca a amuletos e 
sacrifcios. Karsh pode ter sobre eles um poder que nem o amor pelo ouro 
consiga vencer.
- Veremos. De qualquer modo, no temos outro plano... No podemos voar.
- No, suponho que no. Duvido que at o velho Nirrirood pudesse prever 
isso - declarou Durwin com uma gargalhada.
A frase pretendera ser uma brincadeira, mas Theido permaneceu muito srio 
ao ouvir mencionar o nome do feiticeiro.
- Achas que o necromante v assim tanta coisa? Estar a par do nosso 
empreendimento?
- Sem dvida que est... ou por intermdio das suas artes, ou por 
espies, sabe que estamos no estrangeiro. Porm. no me parece que 
considere um grupo de cinco...
- Quatro - corrigiu-o Theido.
Durwin preparava-se para continuar quando ouviu um rudo junto  porta, e 
Alinea entrou no quarto. Aproximou-se da cama e colocou a

144

mo quente sobre a testa fria de Quentin. Olhou com tristeza para o rosto 
do jovem e depois caminhou para onde os dois homens conversavam.
- No poderemos fazer mais nada por ele? - perguntou, numa voz que 
continha um ligeiro tom de splica. Via-se-lhe nos olhos uma comovedora 
piedade pelo companheiro cado.
- Tudo o que podia fazer-se j foi feito. Agora temos de vigiar e esperar 
- respondeu Durwin.
- Sim, eu sei. j mo disseste o nmero suficiente de vezes. S desejava 
que pudesse existir alguma coisa que modificasse o equilbrio. Estas 
semanas no foram fceis...
- A nossa espera est a chegar ao fim - disse Theido. Captou o olhar 
interrogativo da rainha e explicou-se: - Temos de partir no fim da semana 
para iniciarmos a nossa viagem para a ilha Tildeen. Os navios comearo 
brevemente a navegar, e estou ansioso por garantir o nosso embarque.
- Ento temos de o abandonar?
- Creio que  a melhor soluo - concordou Durwin. - No podemos viajar 
com ele neste estado,  bvio. Mesmo que recuperasse, continuaria 
demasiado fraco para conseguir viajar durante as prximas semanas. Temos 
de o deixar aqui. Os Curatak tomaro conta dele. Quando estiver 
suficientemente forte, poder regressar a Askelon. Toli conduzi-lo- em 
segurana at Pelgrin.
- Sim - afirmou Theido -,  a melhor soluo. No sabemos qual poder ser 
o resultado da nossa misso.  prefervel que Quentin chegue em segurana 
 cabana de Durwin.
- Vai ficar de corao desfeito quando souber que partimos... murmurou 
Alinea. - Veio at to longe, para depois lhe negarem...
- No temos outro remdio, senhora - afirmou Theido. Tambm ele se sentia 
mal com o facto de Quentin, que se mostrara um companheiro resistente e 
valoroso, ter agora de ser deixado para trs.
- Quando  que partimos? - perguntou a rainha. - No fim da semana? 
Escreverei uma carta de salvo-conduto para ele, no vo deparar-se-lhe os 
homens de Jaspin.
- Acha que essa carta ir ser muito importante? - inquiriu Theido.
A rainha calou-se e olhou para os dois homens com tristeza.
- No - respondeu, baixinho -, mas  a nica coisa que posso fazer.

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 verdade - concordou Durwin - Eu prprio irei escrever uma carta, 
explicando-lhe o que aconteceu e o que pretendemos fazer. Isso ajudar a 
fazer-lhe ver que no o abandonmos sem boas razes.
- Belo!  uma ptima ideia. Vou comear a tratar das provises e do 
equipamento - disse Theido, sentindo-se um pouco melhor por terem de 
partir. Tal como acontecia com a maioria dos cavaleiros, no deixava 
ficar para trs um companheiro cado, fosse em que circunstncias fosse. 
se o pudesse evitar. Saiu do quarto com uma resoluo maior do que a que 
tinha quando l entrara. A sua mente sentia-se mais  vontade.
- No sei se... - murmurou Dumin para a sua prpria barba.
- Que te preocupa, amigo Durwin? - inquiriu a rainha. - H mais alguma 
coisa?
Mais do que estou a dizer? Sim, confesso que sim. - Aproximou-se da cama 
de Quentin e sentou-se na beira. Pousou a mo sobre o peito do rapaz 
apenas por um momento. - Uma vez, disse-lhe que ele iria ter um papel a 
desempenhar em tudo isto... e continuo a pensar da mesma maneira. Porm, 
receio que o deus a quem sirvo no me tenha esclarecido com mais 
preciso. - Lanou um olhar de amizade para a forma imvel a seu lado. - 
Talvez isto seja, para Quentin. um princpio e no um fim...
A rainha Alinea fez um aceno silencioso e pousou a mo no ombro do 
eremita. Depois de uns instantes de silncio, saram os dois juntos, 
deixando Quentin mais uma vez aos cuidados da mulher idosa.

CAPTULO XIX

A neve derretia-se no ptio interior de Askelon. A alta cpula do
cu, varrida pelo vento, mostrava-se perfeita e limpa, anunciando uma
Primavera tempor. Servos das mais variadas categorias atravessavam o
ptio a correr, procurando tanto quanto possvel evitar a lama e as
poas de gua. Cada um deles concentrava-se numa qualquer tarefa
importante. Olh-los era o mesmo que observar um carreiro de formigas a 
tratar dos seus assuntos com um vigor maior do que de costume.
Nas suas cmaras. onde o prncipe Jaspin concedia audincias no meio da 
agitao dos servos que embalavam as moblias e os seus outros pertences. 
via-se um constante desfile de cavaleiros e nobres, alguns dos quais 
iriam seguir na sua comitiva. Iam todos reafirmar lealdade e apoio  
causa. para em troca receberem uma qualquer indulgncia. O sicofanta 
Ontescue permanecia  esquerda do prncipe. dobrando-se para lhe 
sussurrar ao ouvido quanto custara a lealdade de um determinado nobre. ou 
qual a benesse que um determinado cavaleiro exigia para satisfazer a sua 
conscincia.
Um jovem cavaleiro que pretendia autorizao para recuperar. pelo direito 
das pontas das lanas, as terras do pai (que este dissipara) entrou e 
ajoelhou-se perante Jaspin. Apresentou a sua causa quando o interrogaram, 
e o prncipe concordou. de acordo com as instrues murmuradas por 
Ontescue. Quando o cavaleiro se levantou para partir. fazendo uma 
profunda vnia. o prncipe Jaspin perguntou:
- Irs acompanhar-nos at ao nosso castelo de Vero em Erlott?
- Se for esse o vosso desejo, Sire - respondeu o cavaleiro. Vrios dos 
cavaleiros mais jovens, e alguns dos nobres menos seguros de si

148

mesmos, tinham comeado a utilizar aquela designao real, numa mostra de 
deferncia, a qual no deixava de agradar ao ambicioso prncipe, que a 
considerava como sendo um seu direito. Os mais assisados preferiam 
comportar-se de um modo mais judicioso.
- Agrada-me ter a vossa lana sempre pronta a meu lado, senhor cavaleiro 
- replicou o prncipe. Gostava de ser acompanhado com grande estilo 
sempre que se deslocava pelo reino. - Creio que teremos desportos e jogos 
suficientes para ocuparem a espada jovem e entusistica de um jovem 
cavaleiro, ansioso por demonstrar valor entre os seus pares.
- Sinto-me honrado, prncipe - disse o cavaleiro, fazendo nova vnia. Por 
sua vontade, iria tratar de recuperar as terras do pai, mas um pedido do 
prncipe no podia ser recusado com ligeireza.
Depois de o cavaleiro sair, - Jaspin virou-se para Ontescue:
- Enviaste o meu camareiro e os ajudantes  frente, para prepararem 
Erlott para a minha chegada, no  verdade?
- Sim,  claro. Partiram anteontem e j devem estar a preparar tudo - 
replicou Ontescue. que nos ltimos tempos se conseguira infiltrar numa 
posio cada vez mais importante na estima do prncipe. Podemos seguir 
viagem logo que a ordem seja dada.
- Muito bem. Estou farto de viver nesta maldita torre. Quero voltar a ver 
as minhas prprias terras. Todavia, no me agrada o facto de a rainha ter 
desaparecido. Est fora h demasiado tempo, sem que tenhamos o menor 
sinal ou informao sobre o seu paradeiro.
- Porque  que isso o preocupa, Sir?
- Passa-se qualquer coisa... Pressinto-o. No receio pela sua segurana, 
mas sim pela minha. enquanto andar pelo reino a fazer sabe-se l o qu.  
capaz de organizar uma faco contra mim.
- Se o fizesse, senhor. no seria preciso muito tempo para o sabermos. 
Poderia acabar com a conjura num instante e atirar a rainha para uma 
masmorra.
- Meter a rainha numa masmorra? AhI Boa ideia. j o devia ter feito h 
muito, mas no tive coragem. De qualquer modo, estaria mais descansado se 
soubesse do seu paradeiro. - O prncipe fez uma pausa e passou-lhe pelo 
rosto uma pequena e sombria nuvem de preocupao. - Tambm j deveria ter 
notcias dos "caadores". H muito que deviam ter regressado com os 
cativos, ou com os seus ossos. Isso preocupa-me ainda mais do que a 
ausncia da rainha.

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- Que poderia correr mal com eles? A sua astcia no se mostrou j muitas 
vezes  altura das tarefas? Garanto-lhe que teremos notcias dentro de 
poucos dias.
O prncipe afagou o queixo e lanou uma mirada irritada ao seu 
conselheiro.
- Suponho que tens razo. No entanto, iria para a minha residncia de 
Vero com uma melhor disposio se tivesse essas pontas soltas j 
cortadas e arrumadas.
- No se preocupe, meu prncipe. Se o desejar. poderei ficar para trs e 
eu prprio lhe levarei as notcias que pretendeis. - Ontescue exibiu o 
seu sorriso mais gracioso e encantador.
- s um bom conselheiro, Ontescue - replicou Jaspin, satisfeito por haver 
algum para lhe tratar do assunto. - Digo-te uma coisa: posso fazer bom 
uso de homens com as tuas capacidades quando atingir o poder... o que no 
demorar muito. Sir Bran e Sir Grenett so bons homens, mas no fim de 
contas no passam de soldados, pelo que no compreendem as finezas da 
corte e do governo. Vejo que tu, apesar de talvez no o quereres admitir, 
s especialmente dotado nessa rea.
- Sois demasiado amvel para comigo, meu senhor. - Ontescue fez uma vnia 
e ganhou a expresso apropriadamente inocente para merecer um tal favor. 
Por dentro. saltava de alegria por a meta que se propusera atingir se 
encontrar ao seu alcance.

No total, o prncipe levou cinquenta nobres e cavaleiros a acompanharem-
no at ao palcio de Vero. Contando com os servos e homens de armas, 
esse nmero aumentava para mais de cinco vezes.
A peregrinao para Erlott, o castelo privado do prncipe, onde residia 
quatro ou cinco meses por ano. era um assunto complicado, que exigia 
demasiados esforos, mas o prncipe no queria as coisas de outra 
maneira, Como se encontrava a uma hora de distncia do mar. para quem se 
deslocasse a cavalo, o clima era a um pouco mais fresco durante os meses 
quentes, e apesar de o castelo ser muitas vezes mais pequeno do que o de 
Askelon, estava bem fortificado e tinha a amplido suficiente para as 
necessidades do prncipe. O castelo de Erlott abrigava com facilidade a 
sua populao flutuante.
A chegada do prncipe a Hinsenby, a aldeia mais prxima. era sempre um 
acontecimento de gala. As pessoas amontoavam-se ao longo das

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estradas para verem passar a caravana real. Maravilhavam-se com os 
cavaleiros e os cavalos, com as armas. com as dispendiosas moblias que 
podiam avistar cuidadosamente transportadas nos carros. Era um verdadeiro 
espectculo, cheio de alegria e diverses. Jaspin em geral tambm 
participava. fornecendo uma boa parte da carne e do vinho necessrios 
para a ocasio.
Naquele ano, o desejo de Jaspin de se refugiar na segurana das suas 
prprias fortificaes surgira semanas mais cedo do que era costume. Eram 
dois os motivos para aquela mudana prematura: a crescente inquietao a 
respeito da aliana com Nimrood. que demonstrava ser um aliado perverso e 
ambicioso, e o desejo de se manter longe de Askelon at que se reunisse o 
Conselho de Regentes, para o declarar rei. A seguir, planeava uma entrada 
gloriosa e triunfal na grande cidade, j como seu monarca. No queria 
diminuir o impacte do maior momento da sua vida. permanecendo em Askelon 
at tudo estar consumado. Jaspin adorava a pompa e o esplendor desses 
acontecimentos. Sabia como agradar s pessoas vulgares, e entretinha-as 
com belos espectculos e diverses baratas para lhes distrair as atenes 
dos seus problemas, para silenciar desse modo alguma lngua difamadora.

Um dia frio mas ensolarado saudou a partida do prncipe e do seu exrcito 
de nobres e cavaleiros, servos e soldados, bem como vrios trovadores, 
mestres de-jogos e damas, que tinham sido convidados para ajudarem a 
passar as frias noites da Primavera. Um bom dia de viagem coloc-los-ia 
mesmo a sul de Hinsenby, onde acampariam e gozariam de um dia dedicado 
aos desportos. antes de continuarem para Erlott, a mais meio dia de 
distncia. para ocidente.
O dia demonstrou-se favorvel para a jornada e chegaram a Hinsenby muito 
antes do crepsculo. Os servos comearam imediatamente a erguer as 
brilhantes e multicolores tendas utilizadas para essas ocasies, ocupando 
os terrenos a oeste da localidade. A cidade de tendas abriu-se, como uma 
flor, sob os olhos brilhantes e as gargalhadas do povo. Uma enorme 
fogueira faiscou para a vida no centro do acampamento, enquanto  sua 
volta, e em frente das vrias tendas, ardiam fogueiras mais pequenas, 
destinadas aos cozinhados.
A comida e bebida continuariam durante toda a noite, e de manh teria 
lugar um torneio amigvel entre os cavaleiros e os mais aptos dos

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seus acompanhantes. Realizava-se para divertimento e treino dos 
cavaleiros, e por constituir uma magnfica viso para o povo, que se 
amontoava no permetro para ver o espectculo dos cavalos a 
entrechocarem-se, transportando os galantes cavaleiros, perigosamente 
armados. Eram tomadas grandes precaues para que ningum se magoasse 
acidentalmente, pois no se ganhava qualquer renome ao ser-se ferido num 
torneio amigvel, e um cavaleiro incapacitado podia perder a honra ou uma 
fonte de rendimentos. Tal como os cavaleiros de todos os outros lados, a 
maioria servia-se da sua habilidade com as armas para garantir os favores 
e patrocnio de um rico nobre, isto,  claro, quando o prprio cavaleiro 
no era de nascimento nobre.
Na grande tenda, que se erguia acima das outras sobre uma plataforma de 
madeira. Jaspin dormia, inquieto, enquanto os roucos rudos da multido 
continuavam a ouvir-se pela noite dentro. O prncipe, que se desculpara 
por abandonar os seus alegres companheiros, retirara-se cedo, alegando 
que queria apresentar-se fresco para o torneio da manh seguinte. Na 
verdade. sentira-se cada vez mais inquieto e perturbado, depois de ter 
passado todo o dia a meditar no desaparecimento da rainha Alinea e na 
falta de notcias dos "caadores" que enviara para apanharem os 
fugitivos.
Meteu-se na cama com uma sensao de apreenso, e caiu imediatamente num 
sono perturbado e repleto de sonhos em que o fantasma do seu irmo se 
erguia ante ele, acusador, exigindo saber o que acontecera  sua mulher. 
Alinea.
Acordou duas vezes, durante a noite, com a sensao de uma presena a 
pairar por perto, como se algum rondasse no exterior da tenda. Chamou o 
seu camareiro. em cada uma dessas vezes, e este negou, depois de passar 
revista  circunferncia da tenda, que se estivesse a passar algo fora do 
normal.
De manh j quase se esquecera daquela noite desagradvel. Sentia-se 
alegre com a perspectiva dos jogos. Tudo o que restava das dvidas da 
noite era uma ocasional sensao de mau pressgio, vaga e indefinida, 
como se pudesse vir a receber ms notcias de um momento para o outro e 
inesperadamente.
Porm, as preocupaes diminuram com os preparativos para o torneio. As 
fronteiras do campo de luta foram medidas e marcadas com lanas que 
ostentavam pendes a vermelho e ouro. As tendas que se encontravam

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a cada extremidade do campo foram convertidas para uso dos cavaleiros que 
iam participar nos combates. As armas foram aprontadas, com todos os 
afiados gumes protegidos por couro e as pontas das lanas embotadas com 
proteces de madeira. Os capacetes, escudos e couraas peitorais foram 
polidas, enquanto os brases e insgnias eram pintados de novo em todos 
os casos em que o uso os tivesse apagado.
A populao de Hinsenby, e outras pessoas de mais longe, algumas das 
quais tinham caminhado toda a noite. reunira-se logo de madrugada no algo 
ensopado campo de Hinsen. A maioria trouxera consigo cestos com comida e 
bebida para todo o dia. mas outras negociavam com os mercadores locais 
que se aproveitavam do sbito afluxo de visitantes para venderem iguarias 
especiais: enchidos, rolos e empadas de carnes muito condimentadas, que 
constituam refeies de pouco volume e fceis de transportar.
Ao Sol do meio-dia, mais brilhante e quente do que seria prprio da 
poca, tudo estava pronto. Jaspin encontrava-se sentado debaixo de um 
toldo, sobre uma plataforma elevada que dominava o campo do torneio. 
Alguns dos seus nobres favoritos tinham obtido a graa de se poderem 
sentar a seu lado. As damas, com os rostos bem cobertos para se 
protegerem do Sol, sentavam-se mesmo em frente da plataforma. 
Publicamente, aquelas belas damas desdenhavam o duro desporto que era o 
dos torneios, mas no havia uma nica que estremecesse ante o choque das 
armas ou ante o sangue que por vezes caracterizava os jogos.
Depois de todos os concorrentes. vestidos, equipados e montados nos seus 
fortes cavalos de batalha, ter em dado duas voltas em torno do campo, o 
mestre-dos-jogos tomou o seu lugar no centro, e leu as regras do torneio 
aos participantes, agora alinhados em duas filas, uma em cada extremidade 
do campo.
Tinham sido tiradas sortes para decidir a ordem dos cavaleiros que 
participariam. Sir Grenett obtivera o primeiro lugar. Avanou atravs do 
campo, parou e virou-se, colocando-se na frente do grupo de Jaspin.
- Por Mensandor e pela glria! - gritou. Todo o povo respondeu com um 
grito.
- Pela liberdade! Lutem!
O prncipe Jaspin fez um aceno com a cabea e Sir Grenett cavalgou para o 
cavaleiro que escolhera para oponente, seleccionando-o entre os que se 
encontravam dispostos numa longa linha na extremidade

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ocidental do campo. Parou na frente de Sir Weilmar e tocou~lhe no escudo 
com a ponta da lana. Os dois homens cavalgaram. para irem ocupar os seus 
lugares de cada lado do terreno da justa.
Ao sinal. a luva do prncipe Jaspin a descer. os dois cavaleiros 
esporearam os cavalos, de lanas bem erguidas. Quando se aproximaram um 
do outro, no centro do campo, baixaram as lanas e prepararam-se para o 
embate.
A pontaria de Sir Weilmar era boa. Colocou o seu golpe precisamente no 
centro do alvo, o peito de Sir Grenett. Este no foi menos preciso e o 
choque da coliso fez vacilar os dois cavalos. A lana de Sir Weilmar 
partiu-se, como se fosse um frgil graveto, ao escorregar na pesada 
armadura do competidor. Sir Grenett poderia ter tido a mesma sorte se no 
fosse a superior fora do brao, e a vantagem de um maior peso na sela. O 
seu golpe acertou em Sir Weilmar e ergueu-o da sela, mas a habilidade 
deste. como cavaleiro, conservou-o no seu lugar, o que provocou a quebra 
da cinta da sela.
A sela de Weilmar escorregou para o lado e o cavaleiro caiu. Tratava-se 
de uma pequena vantagem a favor de Sir Grenett, mas nenhum dos cavaleiros 
dera um golpe decisivo.
Tudo isto tivera lugar no meio dos clamores gerais e dos aplausos das 
pessoas, muitas das quais tinham feito apostas nos seus favoritos. O 
mestre~dos-jogos considerou Sir Grenett como vencedor e Sir Weilmar como 
vencido. Os dois retiraram-se para observarem o resto dos jogos em 
sossego, depois de ganharem a honra suficiente para aquele dia, e dois 
novos competidores ocuparam os seus lugares. Sir Grenett recebeu um 
soberano de ouro pela sua vitria, e Sir Weilmar nada ganhou. excepto uma 
cinta de sela partida e uma certa dose de desgraa.
Os jogos prosseguiram o seu curso, para grande delcia dos espectadores. 
Um aps outro, os cavaleiros tentaram provar a sua fora e destreza com 
as armas. Porm, mais ou menos a meio do torneio, levantou-se um munnrio 
de alarme entre os espectadores que se encontravam do outro lado do 
campo, em frente  tribuna do prncipe Jaspin. Os cavaleiros que 
aguardavam o sinal para o combate pararam e viraram-se para a multido, 
para verificarem as causas da perturbao.
- Em nome de Orphe, que se passa ali? - praguejou o prncipe quando os 
espectadores, aparentemente assustados com qualquer coisa, se 
precipitaram para o interior do campo do torneio.

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- Provavelmente, houve algum que viu uma serpente no meio das ervas! - 
disse Bascan de Endonny, que se encontrava sentado ao lado do prncipe, 
soltando uma gargalhada. - Estou certo que no  nada de grave.
Houve outro cavaleiro que resolveu aproveitar aquela graa, 
acrescentando:
- Mais vale serpentes nas ervas do que ratos na cave.
Toda a gente se voltou a rir.
O prncipe, percebendo que se tratava de um comentrio ao facto de ter 
mandado prender Weldon e Larcott, explodiu:
- Quem se atreve a ridicularizar os meus juzos? Falem!
- Senhor, no foi essa a inteno - balbuciou Sir Bran. - Foi apenas uma 
brincadeira. No pretendia ofend-lo. juro-lho. - Bran preparava-se para 
dizer mais qualquer coisa quando se ouviram exclamaes entre as damas 
que se encontravam por baixo deles, e vrios dos cavaleiros sobre a 
plataforma se puseram de p num salto.
- Protege-nos, Azrael! - gritou algum.
Do outro lado do campo, a multido chegara-se para os lados, abrindo uma 
larga avenida para o cavaleiro solitrio que entrou lentamente no campo, 
com um ar digno e de certo modo ameaador. As cores desapareceram do 
rosto do prncipe Jaspin, enquanto as suas mos se agitavam como pssaros 
assustados.
Um "caador" avanava atravs do campo, e s deteve o cavalo quando se 
viu mesmo em frente do prncipe. No ombro trazia um grande falco 
empoleirado, e a seu lado pendia um fardo informe.
Sem pronunciar uma palavra, desprendeu o fardo da sela. Com um ar de 
desafio, o "caador" ergueu no ar o seu contedo, para que todos pudessem 
ver as cabeas cortadas e sangrentas dos seus dois companheiros mortos.

CAPTULO XX

Quentin estava de p, junto ao parapeito da janela do quarto. olhando 
para a floresta escura e envolta em neblina. sentindo-se intil e infeliz 
por ter sido deixado para trs. Tinha a mo cada ao longo do corpo. 
ainda a segurar nas cartas que os amigos lhe tinham deixado e que acabara 
de ler uma vez mais.
Ouviu um som atrs dele e virou-se. Era Mollena, a sua idosa enfermeira. 
Entrou, olhou para a cama vazia e depois para a varanda, e exibiu um 
sorriso desdentado quando o viu.
- Venha para dentro, jovem senhor. Vai ficar gelado se continuar a 
parado. O calor tambm chega a estas montanhas, mas leva o seu tempo. 
Ainda vai precisar muitas vezes da sua capa.
Quentin no respondeu. mas retirou-se para o interior do quarto com 
relutncia e atirou-se para cima da cama.
- Vejo que se est a sentir com mais foras, mas  melhor no abusar. Os 
seus ps esto ansiosos, mas o corao necessita de descanso. - Fez uma 
pausa e olhou para a expresso abatida de Quentin. - Que foi que leu que 
lhe perturba a alma, meu corajoso jovem?
- Abandonaram-me, Mollena. Porqu? - Quentin sabia porqu, mas queria que 
uma outra pessoa qualquer o tranquilizasse, dizendo-lhe que no fora 
esquecido.
- No podia ser de outra maneira. Essa  uma das coisas que sei. - A 
velha pronunciou estas palavras com um tom estranho.
Quentin virou-se na cama e olhou-a. Os Curatak eram um povo curioso e 
sabiam muita coisa, de maneira que tambm no eram muito vulgares.

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- E que mais sabes? - perguntou, como se se dirigisse a uma adivinha para 
lhe pressagiar o futuro.
- Sei que o seu amigo Toli o aguarda l em baixo. Venha, penso que o 
passeio lhe ir fazer bem.
Quentin saiu da cama e arrastou-se para a porta.
- No se esquea da capa - insistiu Mollena quando o viu sair. Quentin 
pegou-lhe e colocou-a sobre os ombros, e acompanhou a mulher para ir ao 
encontro do amigo.
Sob os cuidados da velha curandeira, Quentin voltara  vida e acordara 
trs dias depois da partida dos outros, Abrira os olhos, como se tivesse 
apenas passado por uma longa noite de sono, esfomeado e com pouco mais do 
que a cabea um pouco tonta. Deixara-se ficar deitado durante muito 
tempo, tentando recordar-se do que lhe acontecera e como fora ali parar. 
No entanto, essa tentativa no tivera xito.
Algures nos mais profundos recantos da sua mente ainda pairava um sonho 
sombrio e indistinto... Um sonho em que tinha um papel a desempenhar. No 
entanto, parecia-lhe um sonho de h muito, separado dele prprio, como se 
tivesse acontecido a outra pessoa e o conhecesse por ter lido um relato. 
E era verdade. Lera-o nas cartas que Durwin e Alinea lhe tinham deixado.
Ao segundo dia Quentin levantara-se e andara em volta do quarto. e no 
seguinte explorara todo o primeiro andar. Sob a tutela de Mollena, 
aprendera qualquer coisa a respeito de Dekra e dos misteriosos Curatak, 
que guardavam as runas.
Dekra fora a ltima fortaleza de uma grande e poderosa civilizao, de um 
povo que desaparecera sem deixar vestgios, mil anos antes de Celbercor 
forjar o seu reino. Os Curatak,, ou Curadores, haviam colonizado h muito 
a cidade arruinada e lutavam constantemente contra as ervas daninhas e a 
vida selvagem que a tentavam invadir, e de tempos a tempos tambm 
desencorajavam outros de irem ali instalar-se. Da poeira das paredes e 
colunas tombadas da outrora orgulhosa cidade de uma raa de nobre 
nascimento, os Curadores haviam recuperado a memria de Dekra e dos seus 
habitantes. Haviam mergulhado profundamente no seu passado, aprendido os 
seus usos e costumes, e at restaurado muito da antiga praa central da 
cidade, sede do governo local. Fora a, no palcio de inmeros quartos do 
governador de Dekra, que Quentin e os outros tinham obtido abrigo. Servia 
agora de habitao comunitria para os Curatak,

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Quentin vira muito pouco da cidade arruinada, mas o suficiente para 
perceber que a aura que rodeava at a simples meno do seu nome era 
completamente infundada. As lendas que os homens contavam uns aos outros 
no escuro, junto das fogueiras, eram absurdamente falsas... e talvez at 
tivessem sido inventadas de propsito para protegerem a privacidade dos 
Curadores e a sua misso de restaurar o esplendor original da cidade, uma 
tarefa que Quentin descobriu que, para os Curatak, era uma verdadeira 
devoo para com um povo a quem aparentemente adoravam como se de deuses 
se tratasse.
Os Curadores acreditavam que os Ariga, os habitantes originais de Dekra, 
voltariam um dia para reclamarem a posse da sua cidade, e pensavam que 
quando esse momento chegasse eles prprios se tornariam em Ariga. em 
virtude do longo e esforado trabalho.
No havia certezas quanto  origem dos Curadores, que pareciam preocupar-
se pouco com a sua prpria histria, a no ser que esta ajudasse a 
recordar a de Dekra. Porm, o pequeno grupo original transformara-se em 
vrias centenas de pessoas, ao longo dos anos. De vez em quando alguns 
estranhos vagueavam at  cidade e ficavam para ajudarem no trabalho. Os 
Curatak no desencorajavam os visitantes que apareciam com intenes 
honradas ou que desejavam estudar os usos antigos. De facto, mostravam-se 
sempre mais do que satisfeitos quando tinham a oportunidade de transmitir 
as artes dos desaparecidos Ariga a todos os que lhas pedissem. Tambm 
isso era considerado como um dever sagrado.
Durwin visitara a cidade em vrias ocasies e, de uma das vezes, ficara 
durante mais de trs anos. Vira e aprendera muito nas runas, e ajudara  
restaurao de um dos principais edifcios, o templo do deus dos Ariga. 
Um deus solitrio que no tinha nome.
- Achas que terei foras suficientes para partir em breve? - perguntou 
Quentin quando chegaram ao piso trreo.
Penetraram numa grande rea que fora dividida em quartos mais pequenos. 
mas que mantinha uma atmosfera de luz e de espao no que teria sido um 
escuro e slido rs-do-cho em qualquer das outras estruturas que at ali 
encontrara. Quentin, sentindo-se com falta de flego por ter descido 
tantas escadas, sentou-se numa tripea enquanto Mollena se instalava 
noutro canto. Aparentemente, Toli fora-se mais uma vez embora para ir 
vaguear pela cidade.
- Partir em breve? Isso  convosco. Pode partir quando achar que

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tem de o fazer. Ou ento, pode ficar durante tanto tempo quanto desejar. 
- Quentin observou os cabelos cinzentos da mulher. o rosto enrugado e o 
seu aspecto dobrado. Num outro stio qualquer a mulher seria considerada 
como uma das filhas de Orphe. No entanto, naquele local, fazia to parte 
do ambiente natural como a estranha arquitectura que via e os exticos 
murais que cobriam as paredes de quase todos os edifcios. Alm disso, no 
seu esprito havia qualquer coisa que a fazia parecer to jovem e viva 
como todas as donzelas que conhecera (e que, no caso de Quentin, haviam 
sido poucas).
Quentin tinha sempre a impresso de que Mollena se refreava, receando 
contar-lhe demasiadas coisas, e de que sabia mais do que queria que ele 
ouvisse. Notava-o no apenas em Mollena, pois todos os outros que 
conhecera nos ltimos dias tambm falavam de um modo criptico.
- Ensinas-me qualquer coisa? - perguntou, depois de a ver atarefada a 
preparar-lhe um prato qualquer. Mollena virou-se, para o mirar com um 
longo olhar de esguelha, a cabea inclinada para um lado como se 
procurasse tomar uma deciso.
- So poucas as coisas que lhe poderia ensinar, e h outros muito mais 
sbios do que eu. Que queria saber? - inquiriu.
- No sei... Quer dizer... no sei por onde comear. Diz-me o que pensas 
que devo conhecer deste lugar e do mundo.
- O que penso no tem grande importncia. Tem de ser o senhor a escolher 
o caminho - respondeu Mollena, colocando na frente dele uma pequena mesa 
com uma taa de frutos secos e uma chvena com um lquido quente e 
amarelo. - Agora, coma. Recupere as suas foras. Pense no que o ajudar a 
conseguir o que pretende... e ento poderei ensinar-lhe.
Quentin comeu, como lhe tinha ordenado, mas no fim da refeio ainda no 
se encontrava mais perto da resposta  sua prpria pergunta.
- No vale a pena - anunciou, empurrando a taa de fruta para longe e 
limpando a boca s costas da mo. - No sei o suficiente sobre este 
lugar, ou sobre a sua gente, para poder decidir o que seria melhor 
aprender.
- Bem dito - afirmou a mulher com um sorriso caloroso. - Esse  o 
primeiro passo para o conhecimento. Ande, vou conduzi-lo pela cidade e 
encontrar as respostas que procura.
Toli apareceu  entrada no preciso momento em que iam a sair, pelo que 
seguiram os trs juntos.

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Entre Quentin e o tranquilo jher consolidara-se uma amizade firme. Toli 
parecia encarar o amigo com um medo reverente, como se se tratasse de 
algum com fortes poderes msticos. Na sua opinio, e tambm sob o ponto 
de vista simplista dos camponeses vulgares, quem quer que fosse que 
conseguisse sobreviver s garras envenenadas do falco de um "caador" 
era um candidato  divindade. Parecia decidido a servir Quentin como seu 
guarda-costas e ajudante, e insistira em aprender a lngua de Quentin 
para poder saber como servir o seu amo de um modo mais eficiente.
Quentin, por seu lado, considerava que o nico motivo que o levava a 
ainda se encontrar no mundo dos vivos tinha sido o pensamento rpido e os 
reflexos de Toli. quando o puxara para o cho naquela negra noite. O 
falco mal lhe raspara na pele do brao com as garras metlicas, ocas e 
cheias de veneno. Na realidade, esses animais estavam treinados para 
atacarem a garganta. Assim, e por gratido, Quentin lanara-se na tarefa 
de ensinar Toli a falar a sua lngua, e de ele apreender a dos Jher. 
Ficou surpreendido ao descobrir que, depois dos rigores da aprendizagem, 
no templo, da lngua codificada dos sacerdotes. a linguagem dos Jher no 
era to obscura como receara. Possua apenas uma mo cheia de sons 
bsicos que se combinavam para formar palavras e frases mais complexas.
Graas a um trabalho constante e a muita pacincia, Quentin e Toli 
comearam a criar um mtodo de comunicao que lhes permitia falar um com 
o outro.
A mulher conduziu-os ao longo de largas avenidas bordejadas por rvores, 
que Quentin imaginou que em tempos passados deveriam estar cheias de 
carros puxados a cavalo e de gente a andar de um lado para o outro, 
comprando e vendendo... Olhou para os altos edifcios de engenhosa 
construo, com altivas torres que se elevavam com uma graa sem esforo. 
Apesar de terem utilizado a mesma pedra que os construtores de Askelon 
usariam muito mais tarde, em Dekra os arquitectos haviam feito coisas 
muito diferentes. A sua habilidade era tal que at as estruturas mais 
slidas e macias pareciam areas e leves, bem proporcionadas e 
elegantes. Era uma cidade que fora desenhada por poetas.
O nico templo da cidade encontrava-se no centro de Dekra e todas as 
linhas convergiam para esse ponto. As ruas descreviam anis concntricos 
e ngulos de interseco em relao ao templo, que era

160

suficientemente grande para acomodar  vontade de todos os habitantes da 
cidade.
Foi para a que Mollena os conduziu.
Quentin caminhou pelas ruas silenciosas, algumas delas mais restauradas 
do que outras, mergulhado numa espcie de sonho acordado. A cidade da 
raa desaparecida era um lugar estranho e extico, e era, por si s, uma 
cidade de sonhos. Olhava espantado  sua volta, maravilhando-se com a 
estranheza do lugar. Perguntava a si mesmo como teria sido aquele povo.
- Que aconteceu s pessoas?
- No se sabe... Oh, encontramos coisas de vez em quando, e entre ns h 
muitas teorias, mas a resposta para a pergunta mais intrigante continua a 
ser um mistrio. No entanto, sabemos algumas coisas: foram-se embora 
todos ao mesmo tempo, subitamente e muito depressa. Encontrmos potes 
ainda sobre as cinzas do fogo que ardia sob eles, com os restos queimados 
das refeies que estavam a ser preparadas. Descobrimos, no bairro dos 
mercadores, caixas de dinheiro deixadas abertas e com o contedo intacto. 
Uma vez encontrmos uma mesa preparada com instrumentos de escrita, e os 
restos de uma carta que estavam a escrever... com a pena posta de lado a 
meio do trabalho. como se o autor tivesse sido interrompido e chamado de 
repente, para nunca mais regressar.
A velha parou e olhou em volta. O seu rosto exibia uma excitao que no 
era inferior  de Quentin.
- A resposta est aqui, dentro destes edifcios e muralhas. Um dia, 
acabaremos por a encontrar.
Quentin ficou em silncio enquanto prosseguiam com aquele tranquilo 
passeio. Passado algum tempo, arriscou-se a fazer uma pergunta:
- Como eram essas pessoas, Mollena? Eram diferentes de ns?
- Na aparncia, no muito, apesar de serem mais altos e mais fortes. 
Sabemos disso pelos muitos murais que abundam em todas as casas e 
edificios pblicos. Entre eles encontravam-se artistas e escritores de 
inigualvel habilidade.
"Um dos primeiros edifcios que restaurmos foi o da biblioteca de Dekra, 
uma vasta coleco de escritos. Muitos dos pergaminhos ainda podiam ser 
lidos. Muitos outros foram preservados e restaurados, mas trata-se de um 
processo demorado e muitas vezes frustrante. Agora j

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aprendemos a ler as suas palavras, e so muitos os Curatak que se dedicam 
a aprender os ensinamentos dos antigos estudiosos. O que j lemos revela 
uma raa sbia e benevolente, de elevada inteligncia. Os ensinamentos 
no so fceis de compreender, mas aprendemos muita coisa, No entanto, h 
ainda muito por descobrir.
Os trs avanavam em direco ao templo por uma das avenidas que seguiam 
a direito e cortavam as ruas concntricas. Enquanto Quentin escutava 
Mollena, olhava fascinado para o templo. que se tornava cada vez maior  
medida que se aproximavam lentamente. O lugar sagrado erguia-se 
majestosamente por cima das rvores que o rodeavam, todo formado por 
linhas puras e pinculos erguidos para o cu.
- Quem eram? - perguntou Quentin, mais para si mesmo do que para a 
mulher, experimentando uma crescente sensao de excitao suprimida, 
inexplicavelmente misturada com um desgosto que no conseguia 
identificar, como se algum, que ele sabia que no existia, pudesse 
aparecer em qualquer momento.
- Quem eram? - repetiu Mollena, quando pararam na grande praa que 
rodeava o altssimo santurio. - Denominavam-se a si mesmos de Ariga, os 
filhos do deus.
- E quem era o seu deus^, - inquiriu Quentin. - Conhecemo-lo?
- So muitos os que o conhecem, mas no pelo nome. O deus dos .Viga no 
tem nome.  nico. sem nome e supremo. Por vezes serviam-se das palavras 
-V"hist Orren", ou "O mais Alto", e de "Peran Nim Gadre". ou -Rei dos 
Deuses". O mais frequente era designarem-no por Dekron, o nico" ou 
Sagrado,>. Porm o seu nome, se tem algum, nunca foi escrito.
Sem mais uma palavra, Mollena levou-os para o interior do grande templo. 
Quentin viu vrios Curatak trabalhando tranquilamente no interior, Uma 
seco da parede ocidental, em frente deles, abatera. Havia andaimes 
levantados na zona danificada, e os trabalhadores restauravam. com 
esforo, o edifcio. A Quentin parecia-lhe que todos se moviam com uma 
grande reverncia,
- Ns, Curatak - explicou Mollena -, tambm nos transformmos em Ariga 
porque adoramos o seu deus sem nome como se fosse nosso. - Viu o olhar 
interrogativo de Quentin e prosseguiu: - Acre~ ditamos, tal como os 
desaparecidos. que o seu deus tinha muitos filhos.
- Onde  que ficam os sacerdotes? - perguntou Quentin, olhando em volta. 
A maior parte do interior do templo era composta por uma

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vasta rea aberta, com uma plataforma elevada numa das pontas. a que se 
tinha acesso por uma srie de degraus de pedra, que descreviam uma 
circunferncia. No via lugar nenhum onde pudessem viver sacerdotes, a 
no ser que os aposentos ficassem debaixo do cho.
- No tinham sacerdotes... Ou seja, no tinham aquilo que o senhor 
considera como um sacerdote. Os Ariga aproximavam-se do deus sozinhos, 
apesar de terem leitores... homens que estudavam exaustivamente os textos 
sagrados, e que se dirigiam aos outros quando estes se reuniam, 
recordando-lhes os vrios princpios da religio. Todavia, no existiam 
sacerdotes servindo de intermedirios para o povo.
Viraram-se para sarem, e quando se encontravam de novo no exterior 
Quentin foi atingido por uma ideia subitamente recordada, uma coisa em 
que pensara muitas vezes e sobre a qual esperara interrogar Durwin 
durante a viagem para a cidade arruinada.
- Mollena, porque  que Theido tinha receio de vir aqui? Porque queria 
que Durwin se mantivesse afastado?
A velha olhou-o com a sua cara enrugada:
- Quem disse que Theido tinha medo? - inquiriu.
- Ouvi-os conversar a esse respeito. Durwin disse, desde o princpio, que 
devamos aqui vir. Theido estava contra. Depois aconteceu qualquer coisa: 
Trenn surgiu com a notcia de que os "caadores" nos perseguiam, e Theido 
mudou de opinio. De que tinha medo?
- No me compete a mim diz-lo, mas pode pergunt-lo a Yeseph. um dos 
nossos lderes. Talvez lhe possa dar uma resposta a essa questo. Eu no 
posso.
Mais uma vez uma resposta crptica, pensou Quentin. Que estariam aqueles 
Curatak a esconder-lhe At quele momento. no se encontrara motivo para 
receios em nada do que vira. Ficou intrigado durante o resto do dia, e 
durante boa parte da noite, antes de conseguir adormecer. No dia seguinte 
acordou decidido a falar com Yeseph e a fazer-lhe as perguntas. Porque 
fora que Theido receara por Durwin? E por que razo mudara de opinio?

CAPTULO XXI

A sorte est connosco, meus amigos - exclamou Theido depois do seuu 
regresso das docas de Bestou.
- Encontraste um barco que nos leve a Karsh? - perguntou Alinea.
Ela e Durwin estavam sentados  entrada da Estalagem Peixe-Voador. 
esperando que Theido conseguisse a passagem para a ilha-fortaleza de 
Niarood, o necromante.
- Sim, mas no foi fcil. Devo ter perguntado a metade dos capites que 
se encontram nas docas se nos podiam dar passagem, e a resposta foi 
sempre a mesma: "Ns mantemo-nos longe de Karsh. No nos aproximamos nem 
por ouro, nem pelos prprios deuses!" No entanto, houve um homem que nos 
procurou, dizendo que era proprietrio de um barco que ia passar perto de 
Karsh, e que no se importava de nos desembarcar numa costa amigvel. se 
 que na ilha existe tal coisa,
- Dizes que o homem te procurou? - inquiriu Durwin, desconfiado. -  
preciso cuidado com todos os que nos ofeream a sua ajuda com demasiada 
facilidade. Podem estar sob as ordens de Nimrood,
Impaciente, Theido ps de parte a observao.
- No podemos estar sempre a espreitar debaixo de cada pedra e atrs de 
cada rvore,  procura de espies. Temos de confiar na nossa prpria 
iniciativa. temos de agir!
- Meu amigo, sou todo a favor de prosseguirmos com a nossa iniciativa. 
mas precisamos de ter cuidado. O nosso inimigo  um mgico negro de 
grandes poderes, que no tem relutncia em praticar o mal, seja ele qual 
for. Alm disso, a sua rede de intrigas foi lanada at muito longe.

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- Pode ser que sim... - retorquiu Theido, um pouco irritado. Aborrecia-o 
estar parado. Era um homem de aco e queria avanar sem perda de tempo -
, mas no  possvel ficar  espera, para todo o sempre, de um sinal 
vindo dos cus. Quer o teu deus nos sorria quer no, temos de partir.
- Senhores, por favor! - implorou Alinea. - A bem da nossa causa, 
refreiem os vossos temperamentos. - Havia vrios dias que observava a 
crescente inquietao de Theido. enquanto esperavam um resultado 
favorvel nas docas, e j vrias vezes desempenhara o papel de 
moderadora, interpondo uma palavra gentil ou de calma em momentos de 
acaloradas discusses entre os dois homens. - Estou to ansiosa como 
vocs por ver o fim a esta jornada, mas no  custa da inimizade entre 
ns. Receio que isso pudesse ser desastroso tanto para ns como para o 
rei.
Theido fez um aceno, aceitando a recriminao, pousando a mo no brao de 
Alinea e dizendo:
- Tendes razo, senhora. A nossa misso no ficar a ganhar com a troca 
de palavras azedas.
- Ento. pronto, meus amigos. Tomemos uma deciso. As diferenas de 
opinio so pequenas e  melhor que as atiremos para trs das costas. - 
Olhou por longo tempo para a expresso fatigada de Theido, e para o rosto 
de Durwin, em geral bem-disposto mas agora nublado pelas preocupaes. - 
O meu rei nunca teve dois sbditos mais nobres nem to bravos. Vai ser-
lhe difcil encontrar palavras para exprimir a sua gratido para 
convosco.
- Para mim. ser recompensa suficiente v-lo mais uma vez vivo e em 
segurana - retorquiu Theido, com um sorriso. mas as linhas de tenso que 
tinha em volta dos olhos no se deixaram apagar.

O grupo chegara a Bestou, na ilha de Tildeen, depois de uma dura marcha 
atravs da emaranhada floresta que rodeava Dekra. O caminho fora mais 
fcil e mais seguro depois de terem atingido o entreposto de pesca de 
Tuck, demasiado pequeno para poder ser chamado povoao. Tinham trepado 
para bordo do barco que fazia a ligao com a ilha de Tildeen, uma das 
maiores entre as chamadas Sete Ilhas Msticas. -Na verdade, no havia 
nada de particularmente misterioso nas ilhas mais pequenas, e s Cotithv. 
a maior, fora em tempos o santurio de uma religio secreta e primitiva. 
Diziam que ainda se verificavam estranhos

165

acontecimentos na ilha, que tinha uma forma curiosa e estava 
frequentemente envolvida por neblinas.
Todavia, Tildeen. a segunda maior ilha, era o local de uma cidade 
martima relativamente grande e movimentada, Bestou. Aquele centro 
comercial servia de refgio de Inverno para os navios de toda Mensandor, 
devido a uma imensa e protegida baa que raramente gelava durante os 
meses mais frios, apesar de a ilha se encontrar to a norte.
Depois de chegados a Tildeen e de terem sido postos em terra, com
rudeza, pelo rstico operador do barco que fazia a ligao, Theido,
Dur-win, Alinea e o fiel Trenn enfrentaram uma dura jornada por trilhos
de montanha. subindo e descendo a contorcida espinha dorsal da ilha,
num percurso serpenteante que ia dar ao porto que se encontrava do
outro lado.
A viagem fora realizada em muito mais tempo do que aquele que Theido 
gostaria de ter gasto. Porm, quando o grupo chegou  vista da baa, 
aproximando-se como bandidos a descer das altas serras por detrs de 
Bestou, Theido ficou satisfeito ao ver recompensado todo o esforo a que 
obrigara o grupo nos trilhos da montanha. Os navios estavam ancorados. 
com as velas coloridas j preparadas.  espera do primeiro dia de tempo 
bom para a navegao.
Quando na manh do dia seguinte se dirigira ao cais, depois de, pela 
primeira vez em muitas semanas, terem passado uma noite sem frio junto  
lareira da Estalagem Peixe-Voador, Theido falara com marinheiros e 
capites de embarcaes grandes e pequenas. Todos se haviam recusado - 
alguns com polidez mas outros com uma rude m educao - a garantir-lhes 
passagem para a ilha maldita.
A relutncia era compreensvel. Karsh, um grotesco monto de terra, o 
pico de uma montanha submersa, sobressaa das guas muito para leste da 
costa de Elsendor, o pas vizinho de Mensandor. Havia muito que os 
marinheiros evitavam a ilha, mesmo antes de Nimrood tomar a residncia e 
construir uma fortaleza. A ilha era inapropriada para qualquer pessoa 
normal, e servia de abrigo apenas para as incontveis aves marinhas, que 
faziam os ninhos nas altssimas falsias do lado ocidental, e para os 
pequenos caranguejos-terrestres que se alimentavam dos restos de peixe 
podre e crias de aves que se precipitavam das falsias. Theido, com Trenn 
a acompanh-lo, calcorreara o cais durante dois dias antes de se lhe 
deparar o capito que se oferecera

166

para os levar  odiada ilha. Finalmente satisfeito por ter conseguido o
seu objectivo, Theido no se deu  formalidade de inspeccionar o navio ou 
a tripulao, confiando na palavra do capito, um homem baixo e com um 
aspecto opressivo, chamado Py gin. que lhe garantiu que o
navio era bom e a tripulao experiente. Regressara  estalagem 
cantarolando para si mesmo, e deixando Trenn encarregado de embarcar as 
poucas posses que levavam e de obter as provises que considerasse 
necessrias. Logo que terminou essa tarefa. Trenn regressou tambm  
estalagem, mas no to satisfeito como o seu amigo Theido.
- H qualquer coisa de estranho a respeito daquele navio - disse para 
Theido. puxando-o para um lado depois de terem jantado.
- Que foi que viste a bordo? Passou-se alguma coisa? - O cavaleiro 
perscrutou o preocupado rosto do soldado, em busca de uma explicao para 
aquelas dvidas.
- Nada que possa apontar concretamente, senhor. No entanto, reparei que 
todos os outros homens a bordo dos navios que esto no porto se 
preparavam para navegar, carregando e armazenando provises, remendando 
velas, vedando os cascos e sabe-se l que mais... enquanto os homens do 
capito Pyggin estavam a preguiar. Permaneciam de p no convs ou 
sentados nos barris... como se estivessem  espera de alguma coisa. - 
Trenn franziu a testa. - No me agrada...
- Talvez j estejam prontos e esperem apenas os primeiros ventos para 
iarem as velas. Foi o que o capito me disse - replicou Theido, 
desfazendo as dvidas do outro com tanta suavidade quanto lhe era 
possvel.
- Pois . talvez... mas nunca vi um navio daquele tamanho que no 
estivesse sempre a necessitar de pequenos arranjos, nem um capito que 
deixasse a tripulao sem fazer nada...
- No te preocupes. Trenn - disse Theido. - Estou certo que nada temos a 
recear. S pedimos que nos coloquem em terra no nosso destino. No h mal 
nenhum nisso...
Trenn afagou o queixo e fez uma careta, repetindo a declarao original:
- Pode ser que seja assim, por Ariel! No entanto. continuo a afirmar que 
h qualquer coisa de estranho naquele navio.

CAPTULO XXII

Quando o prncipe Jaspin fugiu dos jogos, to incomodado com o sbito e 
indesejvel aparecimento do "caador" com as suas sangrentas recordaes, 
retirara-se imediatamente para o castelo de Erlott.
Que prossigam os jogos! - anunciara, magnnimo, depois de pagar a dvida 
ao odioso pisteiro (que exigira o dobro do pagamento que lhe fora 
prometido, bem como o pagamento devido aos amigos mortos). O prncipe 
Jaspin, apanhado numa situao delicada, e tendo o cuidado de no ofender 
os sentimentos pblicos. que eram da opinio que quem tivesse negcios 
com os "caadores" era to vilo como eles, pagara e mandara o homem 
embora com o mnimo de agitaes.
O prncipe e os seus aclitos tinham ento fugido para a segurana do 
castelo de Erlott, onde realizaram uma apressada conferncia para 
discutirem a situao.
A reunio poucos resultados dera, em termos de correco dos prejuzos j 
causados e, como o prncipe no podia revelar qual era a fonte dos seus 
receios, mandou-os embora bruscamente e retirou-se para a sua prpria 
cmara privada.
Depois de bem fechada a porta dos seus aposentos e de mandar colocar 
guardas para ter a certeza que no iria ser interrompido por intrusos. o 
prncipe dirigiu-se para o quarto mais interior, uma diviso pequena e 
escura, sem janelas. escavada numa das macias muralhas exteriores do 
castelo, e sentou-se em frente da caixa esmaltada a preto.
Levantando a tampa e colocando as mos nos lados da pirmide miraculosa, 
sentiu o poder a pulsar quando o objecto dourado comeou a brilhar, Em 
breve tinha as feies aguadas banhadas pela luminosidade

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cerosa. Escutou nos ouvidos o bater do seu prprio corao, e observou as 
faces opacas da inveno de Nimrood a ganharem uma aparncia enevoada.
Depois, e tal como sempre, Jaspin olhou para as profundezas, cada vez 
mais claras, daquele objecto encantado, enquanto o nevoeiro aclarava para 
revelar as feies do seu malfico cmplice.
- Bem, bem! Que portentos te levaram a esta inesperada chamada, meu 
prncipe? Perdeste um alfinete? Ou um trono? - O necromante atirou a 
cabea para trs e riu-se, mas o som morreu-lhe na garganta. A seguir 
fitou Jaspin com um olhar gelado.
O prncipe temia a mensagem que ia ter de transmitir, mas, como no tinha 
escolha, decidiu-se e preparou-se para enfrentar a terrvel fria do 
feiticeiro.
- Os "caadores" regressaram - declarou com simplicidade.
- ptimo! Gozaram dos benefcios de uma caada com xito. suponho?
- N... no! - gaguejou Jaspin. - Voltaram de mos vazias. Ou antes, 
voltou um deles. Os outros dois perderam a vida.
- Estpido! Dei-te mais uma oportunidade e desperdiaste-a! Ests 
arrumado! Ouves o que te digo, insecto insignificante?
Pensando rapidamente, e num esforo para apaziguar a fria do feiticeiro 
e evitar mais ameaas, - Jaspin aproveitou a pequena parcela de
informao de que dispunha e atirou-a para a frente. como quem atira
uma folha para uma tempestade.
- Sei para onde eles foram, Nimroodl - gritou.
O irado feiticeiro acalmou-se um pouco, mas exigiu, com um rosto ainda 
furioso:
- Para onde  que foram? Diz-me!
- Primeiro, tens de me prometer... - comeou o prncipe Jaspin a dizer, 
mas Nircrood interrompeu-o.
- Eu, prometer!? Ah! Escuta-me, prncipe co. Nunca dou a minha palavra a 
ningum! No te esqueas disso! - De repente o mgico negro mudou 
instantaneamente, modificando o tom, como se estivesse a falar para uma 
criana infeliz. - No entanto, perdoo-te. Diz-me para onde foram esses 
malditos e esquecerei este problema entre ns!
Jaspin transmitiu-lhe rapidamente os pequenos fragmentos de informao 
que conseguira arrancar ao "caador".

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- So seis pessoas e h uma mulher entre eles. Suponho que  a rainha.  
quase certo que foram para as runas de Dekra, provavelmente para se 
esconderem. Toda a gente sabe que no h a nada.
- H mais coisas em Dekra do que aquilo que as pessoas pensam - declarou 
Nimrood. Passou-lhe uma leve expresso de preocupao pelo rosto 
enrugado, que foi instantaneamente substituda pelo seu habitual ar 
arrogante. - De certeza que vo ter de sair de l. Vou preparar uma 
surpresa especial para esses ousados viajantes. Sim. creio que j sei o 
que ir ser. - Voltou a falar directamente para o prncipe e prosseguiu. 
- Apesar de tudo, serviste-me bem. orgulhoso prncipe... e tens direito a 
uma trgua no meu desagrado. Pode ser que ainda te possa vir a utilizar.
- Ests a esquecer-te de qual  o teu lugar, feiticeiro! - revoltou-se 
Jaspin. enfurecido pela descarada insolncia do necromante. Fui eu quem 
te contratou. Tu ests ao meu servio.
- Cansei-me dos teus jogos e ambies mesquinhas - silvou o feiticeiro. - 
Outrora, os teus planos infantis foram-me teis, mas agora tenho 
desgnios que nem serias capaz de imaginar. Porm... serve-me e 
compartilhars da minha glria.
A pirmide perdeu a sua transparncia cristalina e tornou-se uma vez mais 
fria e slida.

Quentin implorara a Mollena. com uma incomodativa insistncia, para que 
esta lhe conseguisse um encontro com Yeseph. o mais depressa possvel... 
o que queria dizer o momento em que abrisse os olhos no dia a seguir ao 
curto passeio pelas runas da cidade.
Toli estava sentado em frente de Quentin, do outro lado da mesa do 
pequeno-almoo, apontando para objectos que se encontravam espalhados 
pela sala e exigindo que o seu instrutor lhe fornecesse as palavras 
apropriadas para os designar, para as poder aprender. Quentin, apesar de 
por vezes a tarefa lhe parecer colossal, estava radiante de prazer com os 
progressos feitos pelo seu pupilo. Toli j conseguia pronunciar frases 
entrecortadas. e conseguia compreender a maior parte das coisas que lhe 
diziam, apesar de nem sempre ser capaz de as repetir. Porm, quando havia 
outros por perto, em geral limitava-se  sua lngua nativa.
Encontravam-se profundamente concentrados quando Quentin ouviu os passos 
arrastados da mulher nos degraus de pedra, no exterior da cozinha onde 
terminavam a refeio.

170

- Mollena! Que notcias tens? Posso ir v-lo? - perguntou, atabalhoado, 
mal o rosto enrugado e simptico se tornou visvel.
- Nem amanh ... nem na prxima semana.
- Mollena...
- Hoje mesmo ... Iremos logo que estiver pronto.
- j estou pronto!
- No, ainda no acabou de comer. Tem de comer, para recuperar as foras.
Toli escutava a conversa, tal como fazia com a maioria de todas as 
outras, num silncio atento. Porm. daquela vez interveio, querendo saber 
o que Quentin se preparava para fazer e fazendo a pergunta na sua prpria 
lngua.
Enquanto comia, Quentin relatou-lhe, to bem quanto foi capaz, a conversa 
entre Durwin e Theido, o desacordo entre eles e a deciso final que os 
tinha levado at Dekra. Toli acenou e respondeu:
- E esse chefe, Yeseph, vai dizer-nos o que devemos fazer?
Quentin nunca teria posto o problema daquele modo, mas fez um aceno de 
concordncia com a cabea, depois de pensar um pouco.
- Sim, poder dizer-nos o que devemos fazer.
Mollena, que observara aquela conversa, admirando-se com os crescentes 
laos entre os dois jovens. levantou-se e disse:
- Vamos jovens preguiosos. No est certo deixar um lder dos Curatak  
vossa espera.
Os trs seguiram juntos, caminhando por cima dos montes de pedras das 
ruas desertas. Quentin ficou mais uma vez impressionado com a elegncia e 
a graa da cidade dos desaparecidos Ariga. Mesmo naquele estado 
arruinado, os edifcios abandonados falavam de pureza e harmonia, tanto 
nos pensamentos como nas funes. Sem dvida que deveriam ali encontrar-
se enterrados tesouros mais valiosos do que todas as riquezas materiais. 
Durante o percurso, onde de vez em quando se encontravam com grupos de 
trabalhadores curatak carregando pedras ou levantando andaimes em volta 
de uma parede danificada, Mollena explicou a Quentin quem era Yeseph e 
qual o modo como se lhe devia dirigir. Quentin escutou com ateno 
fixando as palavras da mulher, para no vir a ofender o homem mais 
capacitado para responder s suas perguntas. Viraram para uma passagem, 
que talvez fosse um ptio estreito, cheia de portas que se abriam para 
reas com pequenas rvores e bancos de pedra.

171

- Estas eram as salas de leitura da biblioteca dos Ariga - explicou 
Mollena, ao passarem em frente das portas abertas. Quentin espreitou por 
algumas das portas e viu escribas ocupados com os pergaminhos que tinham 
sobre as mesas de trabalho.
- Onde  a biblioteca? - perguntou, ao aperceber-se de que no vira 
nenhuma estrutura suficientemente grande para abrigar a grande biblioteca 
que lhe tinham descrito.
Mollena viu-o torcer o pescoo para um lado e para o outro,  procura da 
biblioteca, e riu-se.
- No. no a encontrar a. Est em cima dela! - Quentin pousou os olhos 
nos seus prprios ps e ostentou uma expresso intrigada. -  
subterrnea. Venha.
Conduziu-os para o fim do estreito ptio e para uma grande porta. No 
interior, caminharam por cima do mrmore polido de uma grande sala 
circular, rodeada por murais representando homens com togas.
- Estes eram os lderes dos Ariga - disse Mollena, indicando-os com um 
gesto largo. - Sabemos pouco a seu respeito, mas estamos a aprender.
No centro da sala redonda que, tanto quanto lhe era possvel ver, no 
continha qualquer outra espcie de mobilirio, erguia-se um arco. Quando 
se aproximaram Quentin avistou degraus que desciam para uma sala 
subterrnea.
-  a entrada para a biblioteca - explicou Mollena. - Sim, reparem como 
os degraus esto desgastados pela passagem de tantos ps dos Ariga, ao 
longo das eras. Eram amantes dos livros e do conhecimento. Esta... - 
Mollena fez um novo gesto largo, que inclua todo o edifcio - ...  a 
maior responsabilidade. Temos de proteger os pergaminhos dos Ariga, para 
que no se percam da vista dos humanos e os seus tesouros no desapaream 
tal como a raa que os criou.
Quentin captou algo da reverncia com que a mulher se manifestava. Tal 
como de outras vezes, sentiu mais uma vez uma mistura de reverncia e 
excitao, como se se encontrasse na presena de um poderoso e 
benevolente monarca que se preparasse para lhe dar um maravilhoso 
presente.
-Alm - disse Mollena, apontando para a escura escadaria -  onde Yeseph 
est  espera. Vo ter com ele... e espero que encontre o tesouro que 
procura.

172

Quentin deu um passo em frente e colocou o p no primeiro degrau. 
Instantaneamente, a escadaria escura iluminou-se nas duas extremidades. 
Virou-se para Mollena e Toli, que pareciam ter querido segui-lo mas 
depois haviam hesitado, inseguros, e passou pela estranha sensao de que 
poderia nunca mais regressar. Pondo-a de parte, declarou:
- No me demoro - e comeou a descer as escadas.
Ainda mal atingira o fundo quando ouviu uma voz a cham-lo.
- Ah, Quentin! Tenho estado  tua espera.
Quentin deu mais um passo em frente. entrou na gigantesca e cavernosa 
cmara, e avistou muitos mais livros do que alguma vez num s lugar. 
Estantes que eram trs vezes mais altas do que um homem continham um 
interminvel nmero de rolos, cada um no seu prprio compartimento, com 
uma fita cada para o exterior. onde se podia ver o ttulo do livro, o 
autor e o contedo. Ficou to embasbacado por aquela espantosa viso que 
nem deu pelo homem de pequena estatura que se encontrava de p na sua 
frente.
- Sou Yeseph, um dos ancies dos Curatak e responsvel pela biblioteca. 
Bem-vindo.
O homem estava vestido de uma maneira muito simples. com uma tnica azul-
escura, sobre a qual usava um manto branco contornado a castanho.
- Sinto~me feliz por o conhecer, senhor - disse Quentin, de certo modo 
desapontado. Estava  espera de algum com um aspecto impressionante, de 
monarca ou nobre, e no de uma pessoa baixinha e careca, que coxeava 
ligeiramente enquanto o conduzia pelos corredores entre as prateleiras.
- Anda! - chamou-o o ancio. - Temos muito que conversar e muito para 
ver. - Yeseph parou entre duas altas estantes e disse: - Sei distinguir 
um amante dos livros, quando o vejo. Tu pertences aqui, sabes?
Quentin pareceu preparar-se para dizer qualquer coisa, mas as palavras 
como que se desvaneceram da sua cabea... expulsas pela mais notvel das 
sensaes. Era como se j ali tivesse estado antes... tivesse visto tudo 
aquilo, algures, noutra altura qualquer... talvez h muito, muito tempo. 
Estivera ali... e agora regressava.

CAPTULO XXIII

Nimrood estava a meditar no seu grande trono negro, enrolado dentro dele 
como se fosse um farrapo para ali atirado pelo vento. Irritado com a 
ineficincia do prncipe Jaspin, considerava no entanto, de mau humor. 
que o encontro ocasional entre Theido e Pyggin iria permitir uma 
possibilidade ainda melhor do que a que planeara, a oportunidade de 
derrotar de uma vez por todas o incomodativo eremita, Durwin, que era h 
tanto tempo uma espinha atravessada na sua garganta.
Enquanto considerava os recentes desenvolvimentos, na sua mente comeou a 
ganhar forma um novo plano. Chamou os servos para que lhe levassem as 
chaves, o que fizeram, pois obedeciam sempre com tanta pressa a todas as 
ordens recebidas que quase cambaleavam, no fosse dar-se o caso de 
desagradarem ao perverso amo.
- Diz a Euric que quero v-lo imediatamente nas masmorras ordenou Nimrood 
ao miservel assustado que lhe levou as chaves. Arrancou a grande argola 
das trmulas mos do servo e voou do trono, como um morcego, atravessando 
a sala e saindo. Numa das zonas mais profundas das masmorras, Euric, 
quase to depravado como o seu amo. encontrou Nimrood a abrir uma porta 
especial.
- Permita que o faa por si, patro - grasnou Euric, um homem muito 
moreno e com falta de dentes. Pegou nas chaves e abriu a relutante porta 
em poucos segundos. Nimrood entrou na sala obscurecida. Bateu as palmas e 
saltaram-lhe chamas dos dedos para a tocha que se encontrava num suporte 
de ferro, na parede. Entregou a tocha a Euric e indicou-lhe para seguir  
frente. Atravessaram a diviso em direco a uma segunda porta. Para l 
dela ficava um estreito corredor que dava

174

para uma sequncia de celas. Deixaram-nas para trs apressadamente e 
foram at ao fim da passagem, que terminava num estreito lano de escadas 
que descia, descrevendo uma curva. para uma escura cmara abobadada.
Entraram os dois. Nimrood voltou a bater as palmas, e as tochas que se 
encontravam em volta da sala acenderam-se e brilharam. Ali, sob a luz 
oscilante das tochas, jaziam nove macias mesas de pedra, em fileiras de 
trs. Seis delas estavam ocupadas pelas formas prostradas de seis 
poderosos cavaleiros envergando brilhantes armaduras, com as espadas 
seguras sobre o peito e os escudos sobre a cintura. Todos eles tinham um 
ar composto e sereno, como se dormissem e estivessem prontos para, num 
instante, responderem a um apelo s armas. No entanto, as carnes tinham o 
tom de cinza das carnes dos mortos, e os olhos estavam afundados como os 
dos cadveres.
- A Legio da Morte - silvou Nimrood. - Olha bem para ela, Euric.  
terrvel, no ? Em breve estar completa. Darei um sinal, e estes 
homens, o meu exrcito. Erguer-se-o. Com eles conquistarei o mundo. Quem 
 que poder enfrentar estes homens, os cavaleiros mais ousados e 
corajosos que o mundo j viu? - Deslocou-se por entre as mesas. 
pronunciando nomes: - Hestlerid, Vorgil, Junius, Khennet, Geoffric, 
Llev,-vI...
Euric indicou as trs mesas vazias e perguntou:
- Quem ir ocupar estes lugares, para completar o nmero?
- Um deles  para Ronsard. que j aqui estaria se no fossem Pyggin e os 
seus homens... Porm, j lhes dei uma nova oportunidade. Desta vez vo 
traz-lo pelo mar. O outro  para o rei Eskevar. que ser o comandante da 
minha legio.. e que muito em breve se reunir ao seu novo regimento. A 
sua vontade  forte, ainda resiste. No entanto, a minha vontade  mais 
forte e em breve ser meu. Olha como eles dormem... Nem a morte os 
conseguiu diminuir...
Os olhos do necromante brilhavam de excitao ao contemplarem o seu 
trabalho.
E para quem  a ltima mesa, senhor? - perguntou Euric. que tirava tanto 
prazer na sua participao nas artes negras como o prprio Nimrood.
- Receei que a ltima tivesse de ficar vazia. O grande cavaleiro Marsant 
morreu nessa guerra mesquinha contra os Gorr, e os brbaros

175

ignorantes queimaram-lhe o corpo. Porm, agora, parece que irei ter todos 
os guerreiros de que necessito, para conduzirem os meus soldados para a 
batalha. Theido, esse renegado que s nos tem causado problemas, vai 
finalmente juntar-se a ns. Sem dvida que me agradecer a oportunidade 
de servir o seu rei na morte, tal como o serviu em vida, nos campos de 
batalha.
- E como o ir conseguir?
- Ainda no to disse? Os deuses decretaram que eu fosse um homem 
afortunado. Pyggin encontrou-o a vaguear pelos cais de Bestou, onde 
aguardam a poca boa para a navegao. Ao que parece, o estpido 
cavaleiro queria transporte para ele e para os companheiros, para Karsh! 
Queriam vir para aqu! Uma vez que esto to ansiosos pela morte, no os 
quero desapontar. Py gin ir transport-los at ao seu
destino... e com uma cortesia de que no estavam  espera. Ah!
A face de Euric brilhou sob a luz da tocha. Os olhos reviraram-se-lhe nas 
rbitas, em xtase, enquanto se maravilhava com as complicadas e 
malficas maquinaes do seu senhor. Fez uma grande vnia, dizendo:
- Sereis o senhor do mundo, Nimrood, meu amo!

A baa de Bestou permaneceu envolvida em nevoeiro e chuva durante vrios 
e longos dias desperdiados. Ento, numa tranquila tarde muito hmida, de 
chuva miudinha, o Sol rompeu as nuvens com um brilho sbito. e todos os 
marinheiros abrigados nas tabernas e estalagens da cidade se encaminharam 
para os cais, com os parcos haveres metidos em mochilas e sacos de lona. 
Era como se tivessem recebido um sinal. Nessa noite dormiriam a bordo dos 
seus navios e iariam as velas com a madrugada.
Quando o Sol nascente no passava ainda de uma vaga promessa no horizonte 
oriental, Theido e os companheiros encaminharam-se para o cais e meteram-
se na embarcao com alguns outros passageiros que iriam ser distribudos 
pelos vrios navios ancorados na baa.
Havia j navios encaminhando-se para a estreita abertura da baa, para 
serem os primeiros a ganharem o mar alto. Durwin e Alinea podiam ouvir os 
marinheiros a chamarem-se uns aos outros, de navio para navio. os 
capites a amaldioarem as capacidades que as tripulaes haviam perdido 
durante o Inverno, visveis agora que se preparavam para partir, e o 
chocalhar dos remos nas guas verdes.

176

Quando avanaram mais para o interior da baa, a corcovada espinha de 
Tildeen ergueu-se no fino nevoeiro que pairava sobre Bestou como uma 
nuvem difana. As gaivotas agitavam o ar com as asas elegantes, 
queixando-se de tanta actividade na sua baa, enquanto pairavam e 
mergulhavam entre os navios. Trenn seguia na frente da embarcao, 
dirigindo os remadores para o navio em que pretendiam embarcar, e Theido 
seguia na r, vendo a terra a afastar-se lentamente.
- Parece pensativo. bravo cavaleiro - comentou Alinea, que notara a 
expresso sombria de Theido. - Diz-nos o que foi que te perturbou a mente 
numa manh como esta? Finalmente, vamos a caminho.
- Dormi mal a noite passada, senhora. Tive um sonho assustador e revolvi-
me na cama. Acordei com suores frios, mas j no me lembro do sonho. 
Desapareceu, tal como este nevoeiro ir desaparecer quando for tocado 
pelo sol da manh. No entanto, a sensao de mau pressgio no me 
abandonou.
Durwin escutava o amigo, acenando e esfregando o queixo com a mo.
- Tambm eu me senti mal a noite passada. Pode ser uma confirmao da 
nossa demanda. Por vezes temos de entrar na corrida pela porta mais 
improvvel... O deus tem os seus prprios caprichos, muitas vezes 
misteriosos e sempre imprevisveis.
- Pois bem, vamos a caminho e nada nos poder deter - replicou Theido. 
encolhendo os ombros. - Acontea o que acontecer. os deuses no nos 
encontraro inactivos.  bom estar de novo em movimento.
- S espero que cheguemos a tempo - disse a rainha. Virou o belo rosto 
para um lado e ficou silenciosa.
- Sim. Jaspin e os regentes convocaro o Conselho muito em breve, creio. 
Se bem o conheo, j deve ter a coroa bem segura nas mos - afirmou 
Theido.
- O tempo no pode ser apressado - murmurou Durwin. -No podemos andar 
mais depressa do que  possvel. Rezarei ao meu deus, pedindo-lhe que no 
surjam impedimentos  nossa misso.  um deus ntegro e que adora a 
justia. No permitir que falhemos.
- Bem dito, santo eremita. Esqueo-me que o deus que serves  diferente 
dos deuses antigos. -No entanto, prefiro confiar no meu prprio brao 
para defender a integridade, e na ponta da minha espada para defender a 
justia.
- Os braos perdem as foras e as lminas o fio. Nessa altura 

177

bom recordar de onde vem a fora, e quem  que agita uma espada que nunca 
fica embotada.
Alinea, que escutara com ateno aquela troca de palavras, pediu:
- Santo eremita, fala-me do teu deus. Parece ser muito diferente dos 
caprichosos imortais que o nosso povo h muito adora. Achas que poderei 
aprender a seu respeito?
- Ora,  claro, senhora. O meu deus no vira a cara a quem quer que o 
procure, e ser uma honra instruir uma dama to sbia e bela. Ser uma 
maneira de preencher muitas das horas vazias que teremos pela frente 
durante a viagem - respondeu Durwin. satisfeito por ter uma discpula e 
um motivo para falar sobre o seu tema favorito.
Quando pronunciava as ltimas palavras, a embarcao a remos embateu no 
casco do navio do capito Pyggin.
- Passageiros! - gritou Trenn, agarrando a corda pendente da amurada. 
Surgiu um rosto a espreitar. O homem olhou-os com ateno e voltou a 
desaparecer. A seguir algum lanou uma escada de corda, que os remadores 
seguraram com firmeza. Trenn trepou pela escada e estendeu a mo para os 
companheiros. Pyggin s apareceu, apressado, quando j todos se 
encontravam reunidos no convs.
- Est toda a gente a bordo? Ah, sim... Perdoem-me, no sabia que amos 
ter o prazer da companhia de uma dama durante a viagem. Sinto-me honrado. 
Por aqui... - disse o capito, como que a querer despach-los. - Vou 
conduzi-los s vossas instalaes. - Enquanto Pyggin empurrava os 
passageiros na sua frente, fez sinal  tripulao para levantar ferro. 
Nem Theido nem Durwin viram esse sinal. e tambm no repararam em vrios 
membros da tripulao que os seguiam. empunhando malaguetas nos punhos 
espessos.
- A Gaivota Cinzenta  um navio pequeno mas bom. Penso que no tero 
razo de queixa dos vossos aposentos. - Pyggin apontou para uma estreita 
porta que dava acesso  escada que descia para os pores do navio.
- H mais algum passageiro? - perguntou Theido.
- No. Raramente metemos passageiros... mas abrimos uma excepo para 
vs. meus senhores. - O capito abriu a porta e empurrou-os para as 
escadas.
Quando Theido, que fora o ltimo a descer as escadas, chegou ao ltimo 
degrau, ouviu Pyggin fechar a porta com fora e gritar:
- Espero que faam boa viagem, senhores!

178

Ainda antes de o cavaleiro ter tempo de subir as escadas para se lanar 
contra a porta, escutou-se o som de pesados fechos e o tilintar de 
fechaduras, que os fez saber que eram prisioneiros. Theido bateu na porta 
com os punhos:
- Abre esta porta, patife! Em nome do rei, abre a porta!
Para l da porta bem segura ouviu-se apenas o som de gargalhadas 
trocistas e de passos que se afastavam sobre o convs.
- Bom, fomos apanhados - disse Theido. - A culpa foi minha. devia ter 
dado ouvidos aos conselhos de Trenn. o nosso bom guarda.
- No. no se censure - respondeu Trenn. -  verdade que pressenti 
qualquer coisa, mas agora  melhor pensarmos sobre o que poderemos fazer.
Nesse instante, e vindo de trs de uma muralha de barris empilhados, 
chegou-lhes o som de um gemido baixo, quase inaudvel.
- Que espcie de monstro andar por aqui ...? - perguntou Trenn num 
sussurro tenso.
- Escutem... - pediu Theido.
O som ouviu-se outra vez, inicialmente baixo mas tornando-se cada vez 
mais alto, para depois se apagar a pouco e pouco, como se um animal 
ferido estivesse a esgotar as suas ltimas foras.
- No  nenhum monstro - declarou Alinea. -  um homem e est ferido.
Apalpando o caminho na semiescurido do poro, iluminado apenas pela 
pouca luz que passava por entre as ripas cruzadas da tampa de poro 
existente no centro do convs, Alinea deslocou-se lentamente em volta dos 
hmidos barriletes, seguida de perto pelos outros. Sob a fraca luz 
acinzentada. avistou a forma de um homem deitado em cima de uma pilha de 
trapos sujos e de cordas. Tinha a cabea coberta por uma ligadura, e ao 
avistar os novos companheiros de priso deixou-a cair sobre a suja cama, 
desmaiado.
A forma inconsciente tinha qualquer coisa que chamou a ateno da rainha.
- Conheo este homem - declarou Alinea, dobrando-se sobre ele. Segurou 
nas mos a cabea envolta em ligaduras e olhou atentamente para o rosto 
insensvel.
- Poder ser ... ? - perguntou, abrindo muito os olhos, de espanto, ao 
reconhecer o ferido.

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- Quem , senhora? - inquiriu Trenn. - Reconhece-lo?
- Vem ver - pediu a rainha. puxando Trenn para junto dela. O navio, j a 
caminho. mergulhava e balanava, e por instantes a fraca luz vinda do 
alto acertou em cheio no rosto do ferido.
-  Ronsard! - exclamou a rainha Alinea, segurando com ternura na cabea 
do cavaleiro.
-  mesmo! - gritou Trenn. - Pelos deuses,  ele!

CAPTULO XXIV

- Porque  que ficaste a a pestanejar, jovem senhor? - perguntou Yeseph 
com simpatia. - H alguma coisa que o teu corao queira dizer. mas a 
lngua no o consiga?
Quentin, suspenso da sensao de que j uma vez se encontrara naquele 
preciso local, a falar com aquele homem pequeno e venervel, permanecera 
imvel, intrigado.
No entanto, a sensao passou, como se fosse uma nuvem varrida pelo Sol. 
e Quentn recuperou a compostura.
- Tive a impresso de j aqui ter estado antes, e de o conhecer... - 
explicou. sacudindo a cabea como que para aclarar as ideias.
O ancio curatak exibiu um sorriso de compreenso e acenou:
- Talvez tenhas aqui estado... o que  mais uma razo para que eu trate o 
meu convidado com todo o respeito. - Virou-se e indicou o caminho por 
entre as enormes estantes. - Estes livros so a minha vida - declarou 
Yeseph. Fazendo um gesto com a mo para indicar as fileiras de rolos. A 
seguir continuou. descrevendo os trabalhos que estavam em curso na grande 
biblioteca. Quentin seguiu-o com uma ateno extasiada, fascinado por 
tudo o que via, sempre perseguido pela sensao de que o seu lugar era 
ali, e de que. sem saber como, regressara a casa.
A caminhada acabou por os conduzir a uma fila de mesas de copista. onde 
os estudiosos curatak trabalhavam nos manuscritos, tirando apontamentos e 
traduzindo. Yeseph continuou ao longo das mesas, parando em cada uma 
delas para uma palavra de encorajamento ou para responder a uma pergunta. 
A seguir dirigiu-se para uma porta aberta e Quentin viu-se na sala de 
trabalho do prprio Yeseph.

182

A pequena sala estava escassamente mobilada, com uma secretria, coberta 
por um monte de rolos, e uma mesa que se vergava ao peso de uma ainda 
maior quantidade de livros. De uma clarabia redonda, no tecto, penetrava 
uma luz generosa.
Havia duas cadeiras de aspecto frgil em frente uma da outra. Yeseph 
sentou-se numa delas e convidou Quentin para a outra, depois de fechar a 
porta. para poderem ter um pouco de privacidade.
Mollena disse-me que tens perguntas a que s eu
Muito bem, poderei responder. Vou tentar... - concluiu com um aceno e um 
sorriso de encorajamento.
Por instantes Quentin esquecera-se completamente das perguntas, mas 
depois de pensar um pouco voltou a recordar-se. No entanto. agora 
parecia-lhe que se tratava de questes sem importncia, depois das coisas 
que acabara de ver  sua volta. Quentn explicou a Yeseph, que o escutou 
com pacincia, tudo o que sabia a respeito do desacordo entre Theido e 
Durwin, e sobre a relutncia de Theido em deslocar-se a Dekra. Terminou, 
dizendo:
- ... apesar de no conseguir ver razes para ter medo... e penso que 
aqui s existem foras benficas... - Fez uma pausa e acrescentou: - A 
no ser que o perigo no se encontrasse no destino em si, mas na razo 
para c vir...
- A tua mente  rpida! - disse Yeseph, com um sorriso. - Sim, eu prprio 
no o teria conseguido dizer com mais clareza. No h qualquer espcie de 
perigo em Dekra. As histrias... - p-las de parte com um gesto e uma 
careta trocista - que se contam so apenas superstio, e foram 
inventadas para assustar as crianas. Admito que no as desencorajamos. O 
nosso trabalho  importante, pelo que  melhor que o mundo se mantenha 
afastado e s raramente nos incomode. No entanto, no era por isso que 
Theido no queria c vir, ou antes, que no queria que Durwin aqui 
viesse. - Levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro na sala, 
de mos dadas atrs das costas. como um professor a dar uma lio a um 
aluno. - Dekra  um lugar de poder, um dos ltimos existentes sobre a 
Terra. Durwin sabe-o, tal como Theido. - Soltou uma gargalhada. - Ests 
muito mal informado a respeito do teu amigo eremita... que  um homem de 
mltiplos talentos. Veio ter connosco quando era o alto-sacerdote do 
templo de Ariel. Veio em peregrinao, procurando aprofundar a sua busca 
do conhecimento. Nessa altura

183

acreditava que o conhecimento era suficiente para transformar um homem, 
torn-lo imortal, exalt-lo  estatura dos deuses. Foi aqui que descobriu 
at que ponto estava enganado... o que teria dado cabo de qualquer outro 
homem, mas no dele. Foi ganhando fora, pondo de parte todas as suas 
anteriores crenas to depressa como conseguia compreender as novas. 
Aprendeu em apenas trs anos tudo o que tnhamos para lhe ensinar. Voltou 
ao templo e renunciou  sua posio e f. Quase o mataram, e na verdade 
t~lo-iam feito se no tivessem receado o escndalo. - Yeseph deixou de 
andar de um lado para o outro, pousou as mos nas costas da cadeira e 
olhou para Quentin. A seguir continuou:
- Durwin regressou para junto de ns, mas apenas por pouco tempo, apesar 
de lhe termos implorado que ficasse e nos ajudasse no nosso trabalho. 
Todavia, tinha coisas mais importantes para fazer... fora o prprio deus 
quem lho revelara.
"Sabes, regressou aqui apenas para se libertar de todos os seus antigos 
poderes terrenos. Como alto-sacerdote, estudara durante muito tempo a 
magia dos feiticeiros, as suas artes, e tomara-se num grande adepto. No 
entanto, reconheceu essas artes por aquilo que elas eram: o caminho da 
morte. Deixou os seus poderes aqui, onde sabia que ningum lhes daria um 
mau uso. Assim, quando se descobriu que Nimrood se levantara contra o rei 
e contra o reino, Durwin pensou em voltar c para recuperar os seus 
poderes, para poder lutar por uma boa causa, Propunha-se enfrentar 
Nimrood sozinho. - Yeseph fez um sorriso triste. - Tal no aconteceria...
Quentin apreendia devagar as palavras do ancio, mas o seu significado 
surgiu-lhe subitamente na conscincia. Exclamou:
- Ento, que vai ser deles? Vo ao encontro do inimigo, completamente 
desarmados!
- Pois vo. Podem ir desarmados, mas no vo desprotegidos. No podamos 
permitir que o nosso honrado amigo tomasse sobre si um to terrvel 
fardo. Iria destru-lo. Theido compreendeu-o, mesmo que apenas de um modo 
imperfeito, Sabia que a vinda a esta cidade podia significar a morte de 
Durwin.
- Todavia, mudou de opinio. Porqu?
- A sua determinao enfraqueceu ante a ameaa posta pelos "caadores", e 
por causa da insistncia de Durwin - respondeu Yeseph, encolhendo os 
ombros. - De qualquer modo, isso no teve qualquer

184

importncia. No lhe permitimos concretizar o seu plano. O poder foi 
posto de parte. Encontra-se aqui. e aqui ficar.
Quentin lutou contra as emoes que o invadiam, mas o receio pelos seus 
amigos e a ansiedade a respeito da sua segurana borbulhavam no seu 
interior.
- Como pde permitir que partissem? - gritou, dando um salto na cadeira.
Quentin nada sabia a respeito de Nimrood. a no ser que toda a gente que 
via  sua volta parecia tremer quando ouvia proferir o nome do 
feiticeiro. Aparentemente, o feiticeiro era a causa de todos os problemas 
existentes sobre a Terra. No experimentara, em primeira mo,, a 
malevolncia do feiticeiro negro. Fora poupado a uma tal provao, mas na 
mente formara uma imagem de algo grotesco e deformado por tanto dio, 
mais parecido com um monstro malfico do que com um homem. Era esse 
monstro, Nimrood, o que os seus amigos iam agora enfrentar, desarmados do 
poder que Durwin poderia ter dominado.
- Como pde permitir que partissem? - perguntou outra vez, baixinho, num 
tom de impotncia.
- Como  que podia impedi-los? - retorquiu Yeseph com amabilidade.
- Que ir acontecer agora? - Quentin j estava  espera do pior resultado 
possvel. - No podem enfrentar Nimrood sozinhos.
Yeseph sorriu para o jovem.
- Os teus amigos no esto sozinhos. O bom deus vai com eles. - Disse-o 
com tanta simplicidade e confiana que Quentin desejou desesperadamente 
poder acreditar. Todavia, as suas prprias dvidas e tudo o que vira no 
templo afastaram a semente da crena antes de a mesma poder ganhar 
razes. A infelicidade banhou-lhe o rosto.
- Os deuses pouco se preocupam com os assuntos dos homens. Para eles, as 
nossas vidas no tm significado - declarou. com amargura.
- Tens razo... mas. no obstante, ests muito longe da verdade. Yeseph 
atravessou a distncia entre os dois e mirou atentamente os olhos de 
Quentin. - O mais Alto,  o nico. Os deuses da Terra e dos Cus no so 
mais do que poeira soprada pelo poderoso vento da sua chegada. No 
conseguem suportar a sua presena e vo perdendo os poderes...
- Mas... o que faz com que este deus sem nome seja diferente de todos os 
outros?

185

- Preocupa-se com os seres humanos.
Mais uma vez Quentin estava desesperado por acreditar, para bem dos seus 
amigos... e mais uma vez se precipitaram sobre ele os anos de treino no 
templo. e todas as suas antigas crenas, abafando a pequena fasca de 
esperana. A esperana de que o que Yeseph lhe estava a dizer pudesse ser 
verdade.
- Quem me dera poder acreditar em si...
- Nada temas pelos teus amigos - disse Yeseph. colocando a mo sobre o 
brao de Quentin. - Deus tem-nos na palma das suas mos.
- Vo ser destruidos! - exclamou Quentin, encolhendo-se de terror ante a 
ideia dos amigos a marcharem a direito para a batalha contra o monstro 
Nimrood, indefesos e vulnerveis.
- Podem ser mortos. sim... - concordou Yeseph - mas no destruidos. H 
coisas piores do que a morte. embora no espere que saibas alguma coisa a 
esse respeito. Para Durwin, seria pior ter de enfrentar os poderes que 
abandonou h tantos anos, e que acabariam por o destruir. Ficaria igual a 
Nimrood. transformar-se-ia precisamente naquilo que mais odeia. Uma sorte 
dessas  pior do que uma morte honrosa. Alm disso - acrescentou o ancio 
curatak num tom ligeiro -, achas que a tua presena junto deles iria 
desequilibrar assim tanto a relao de foras?
Quentin deixou cair a cabea para o peito. Tinha as faces a arderem de 
vergonha.
- Sim. quem sou eu para fazer diferena? - perguntou, troando de si 
mesmo, com tristeza. - Ningum...
- Sentes as coisas com demasiada profundidade. Quentin - acalmou-o 
Yeseph. - s jovem e impetuoso. Deixas que o corao fale antes da 
cabea. Descansa. nem sempre ir ser assim...
- No poderei fazer qualquer coisa para os ajudar? - inquiriu Quentin. 
Sentia-se impotente e deixado de lado como uma pea de bagagem intil.
-  assim to importante para ti? - O ancio olhava-o com ateno.
Em silncio, Quentin acenou uma confirmao. Procurou Yeseph
com os olhos, em busca de um sinal de que este o ajudaria a descobrir uma 
maneira.
- Compreendo. Os desgnios do deus so na verdade misteriosos.
Meditarei no assunto. que apresentarei ao nosso Conselho de Ancies.
H entre ns quem compreenda mais claramente do que eu o modo

186

como a mo do deus se move atravs do tempo e dos homens. Iremos pedir os 
seus conselhos.
Os olhos de Quentin brilharam ante a perspectiva. e a esperana 
reacendeu-se no seu corao. Quando se despediu de Yeseph, deixando-o 
dedicar-se ao trabalho, sentia-se como se lhe tivessem tirado um grande 
fardo de cima dos ombros. No sabia muito bem como entender essa 
sensao.
- Quentin - dissera o velho "curador", quando o jovem j se encontrava  
porta -, h em ti mais do que aquilo que se v  vista desarmada. Soube-o 
no momento em que abriste a boca para falar. Quando tudo isto terminar, 
promete-me que voltars aqui e te sentars aos meus ps... H muita coisa 
que te posso ensinar.
Nessa noite Quentin voltou a sonhar que voava.

CAPTULO XXV

Jaspin convocou os seus seguidores para o grande salo do castelo de 
Erlott. O Sol ia j bem alto e aquecia a terra, dando origem a um 
verdadeiro dia de Primavera. O prncipe ficava mais inquieto a cada dia 
que se passava. Umas vezes apresentava-se mais pensativo e meditabundo. 
outras mais corts ou at alegre, mas as linhas contradas em volta da 
boca informavam, pelo menos aos que o conheciam bem, que o prncipe se 
encontrava profundamente preocupado.
- Decidi que o Conselho de Regentes deve ter lugar dentro de
quinze dias - disse Jaspin  sua assembleia de cavaleiros e nobres.
Alguns tinham partido de Erlott para tratarem dos seus prprios assuntos, 
mas ainda ali se encontravam muitos. a disposio do prncipe. Soltaram 
alguns murmrios ante a sugesto de o Conselho se reunir antes
da poca habitual, que era em meados do Vero.
- Sire, temos de protestar contra uma tal alterao - declarou Lord 
NavIor com ousadia. Ele e um seu vizinho, Lord Holben, eram os nicos que 
tinham a coragem de enfrentar o prncipe abertamente. NavIor. regente-
chefe do Conselho de Regentes. no era grande amigo de Jaspin. No grupo, 
houve mais quem demonstrasse a sua concordncia com Lord NavIor. acenando 
e murmurando uns para os outros. - Ao fim de tantos anos, no h motivos 
para que o Conselho no possa cumprir os seus deveres na altura habitual. 
- Soltou uma gargalhada rgida, pois sabia muito bem o perigo que corria 
naquele momento. - No vejo motivos para nos afastarmos do calendrio 
estabelecido.
O prncipe estava exasperado com aquele desafio s suas ambies.

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- Ser feito tal como proponho - declarou com firmeza. - E vs, meu 
senhor. fareis com que tudo se efectue de acordo com os meus desejos.
Jaspin fitou NavIor com um olhar gelado, e depois olhou em volta para 
cada um deles, individualmente, desafiando-os a contrariarem-no. A seguir 
prosseguiu:
- Ordenareis que as cartas sejam escritas e despachadas para todos os 
membros que no esto aqui presentes, informando-os de que o Conselho se 
realizar aqui. em Erlott, e no em Paget.
- E se recusar as vossas sugestes? - inquiriu Lord NavIor, que comeava 
a perder o domnio sobre o seu temperamento.
O prncipe no sabia, nem se preocupava com isso, mas estava a tornar a 
situao mais difcil para ele prprio ao implicar com o lder dos 
regentes. Jaspin era um homem com uma mentalidade que se agarrava a uma 
ideia como um co esfomeado a um osso. e que no desistia com facilidade.
- A recusa seria considerada como uma falha no cumprimento das vossas 
funes. Poder ser substitudo.
Alguns dos presentes, que pretendiam dar o seu apoio a Jaspin, e que o 
teriam feito alegremente. numa verdadeira demonstrao de livre vontade, 
estavam agora inquietos com a possibilidade de virem a ter de o eleger 
para lder do Conselho, por sua prpria indicao, pois haviam 
compreendido que era essa a ideia do prncipe. No gostavam de o nomear 
rei no seu prprio castelo, mas sim, tal como ditava a tradio, no salo 
de Paget. Jaspin pretendera apenas apressar a reunio do Conselho. Uma 
vez que era ele o objecto da reunio, no poderia estar presente durante 
as discusses. Assim, pensara que se mudasse o local da reunio para o 
seu prprio castelo viria a conhecer o resultado muito mais cedo. 
poupando-se ao incmodo de uma deslocao a Paget, para a qual seria 
necessria uma viagem de vrios dias. No entanto, a sua ideia era 
claramente pouco popular. Se no tivesse sido o desafio de Lord NavIor. 
Jaspin poderia ter sido persuadido, por uma cabea mais fria, tal como a 
de Ontescue, a abandonar um tal plano. Porm, as posies haviam-se 
extremado e Jaspin agora no podia recuar.
Seguiu-se uma apressada conferncia entre Holben e o lder dos regentes. 
Por fim, Naylor declarou, por entre os dentes cerrados:
- Farei como ordenais. meu senhor, mas  provvel que vos venhais a 
arrepender de terdes forado a deciso a respeito deste

189

assunto. - Virou-se e atravessou a sala sob o olhar sombrio de Jaspin: - 
Com vossa licena... - concluiu, saindo da sala.

Os cativos no ouviam nada, excepto as pragas ocasionais dos seus 
captores, atarefados no convs por cima deles, e o barulho das ondas de 
encontro ao casco do navio. Em quatro dias de mar, haviam sido 
alimentados apenas duas vezes - com uma rao de po seco -, mas como 
tinham acesso a toda a gua existente a bordo pelo menos no sofriam de 
sede.
A rainha Alinea conseguira tratar Ronsard e faz-lo recuperar os 
sentidos. Com a sua ajuda e graas aos poderes curativos de Durwin, o 
cavaleiro jurava que se sentia melhor de hora para hora. Alinea insistia 
em que continuasse deitado. a repousar. mas Ronsard, alegre com a 
proximidade dos amigos, na maior parte das vezes ignorava esses apelos. 
Tinham muito que conversar e Ronsard tinha muito para contar.
- No tenho qualquer prazer em afirm-lo. senhora - disse Ronsard. 
apoiado sobre um cotovelo -, mas receio pelo rei. Nimrood  uma serpente 
manhosa e as suas conjuras esto para alm da nossa compreenso. Contudo. 
podemos estar certos de que todos os que estiverem ao seu alcance correm 
um perigo mortal.
- Convenceu o prncipe Jaspin. que no precisou de ser muito encorajado, 
a levar a cabo as suas ousadas afrontas, numa traioeira tentativa de se 
apoderar do trono - afirmou Theido. - Por outro lado, tenho ouvido dizer 
em muitos stios que Nimrood est a organizar um exrcito. Pergunto a mim 
mesmo quem, ou o qu, seria capaz de lutar por ele. Em Elsender correm 
boatos a respeito de uma Legio dos Mortos.
- Por Orphe, no! - ofegou Alinea. - Oh.  demasiado horrvel para poder 
acreditar!
- Ter poder para fazer coisas dessas? - perguntou Trenn.
- Tem. sim - respondeu Durwin. - E ns no possumos os meios para o 
fazer parar.
- Descobriremos uma maneira - declarou Theido, com olhos que despediam 
fogo contra a malfico necromante. - Nimrood ser detido. juro-o... pela 
minha vida.
- Ah, se o meu brao tivesse foras para empunhar a espada... gemeu 
Ronsard. As suas feies, como que esculpidas em pedra, lutavam contra a 
dor que os companheiros lhe viam no rosto. Procurou levantar-se.

190

- No. bravo cavaleiro. Descansa e permite ao teu corpo recuperar as 
foras - protestou a rainha, pousando-lhe as mos nos ombros e 
empurrando-o para trs com gentileza.
- infelizmente - lamentou-se Ronsard -, j fui capaz de brandir dez 
espadas. mas no possuo nenhuma nesta hora de infelicidade.
- Muito em breve (e receio que seja breve de mais) no haver falta de 
lminas. mas sim de mos para as segurarem. Irs ter a tua oportunidade. 
Ronsard. At esse momento. resigna-te e reza para que recuperes as 
foras... - Durwin falou baixinho. fitando as profundezas dos olhos 
nublados do cavaleiro... Este sacudiu a cabea, pois comeou a sentir as 
plpebras a quererem fechar-se. Pousou a cabea e adormeceu. Durwin 
murmurou: - Se eu tivesse um tal poder sobre os nossos inimigos como 
tenho sobre cavaleiros feridos...
Trenn olhou para o eremita com os olhos muito abertos de espanto.
- Tem poder suficiente para muitas coisas. Talvez consiga encantar 
Nimrood e p-lo a dormir, como acabou de fazer com Ronsard...
- Podia, sim... mas o poder que resta em mim  curativo. Claro que pode 
ser empregue para outras coisas. em caso de necessidade... mas se eu 
pensar em prejudicar algum com ele, mesmo que seja o diablico Nimrood, 
estes ltimos restos dos meus antigos poderes desaparecero 
imediatamente.  uma das leis a que esto sujeitos os poderes curativos. 
- Fez uma pausa. mergulhado em pensamentos. para depois prosseguir. 
excitado: - Porm, o que pode ser feito com maldies, poes e misturas 
de terras raras ainda est ao meu alcance! Que estpido que tenho sido. 
Aproximem-se, depressa! Tenho uma ideia!
Momentos depois os cativos ouviam o estalar de uma chave numa fechadura, 
e o som de trincos enferrujados a abrirem-se. As correntes tilintaram 
quando caram e de sbito a porta do poro escancarou-se. atingindo-os 
com um claro de brilhante luz. Uma voz spera anunciou:
- Espero que os meus passageiros estejam a fazer uma boa viagem. - A voz 
era do capito Pyggin, cujas formas corpulentas podiam agora ser vistas a 
descer as ngremes escadas, seguido por dois dos seus rufies. - Dem-
lhes a comida - ordenou a um dos homens. O outro ficou de guarda.
- Por Zoar! Eu... - praguejou Trenn. pondo-se de p num salto.

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Instantaneamente. surgiu uma comprida navalha na mo do homem que se 
encontrava de guarda.
Se no querem morrer... no faam ameaas - avisou Pyggin. Os meus homens 
so um pouco menos civilizados do que eu. Gostam de matar s para passar 
o tempo.
Trenn recuou devagar.
- Que queres agora, pirata? - perguntou Theido com toda a tranquilidade.
- Vim apenas dizer-vos para gozarem bem as vossas ltimas horas.
Lanou um olhar de luxria para as formas de Alinea. - Chegaremos ao 
nosso destino dentro de dois dias. - Fez um sinal com a mo e o 
marinheiro que segurava na comida pousou um pote de ferro e atirou com 
dois pes para cima do sujo pavimento do poro.
- Saboreiem a comida! - disse Pyggin, virando-se para sair. Soltou uma 
gargalhada perversa e subiu os degraus. O guarda no tirou os olhos dos 
prisioneiros, desafiando-os a tentarem atac-lo.
A porta fechou-se e o poro mergulhou de novo na escurido. ouviram as 
fechaduras e as correntes a serem colocadas no seu lugar. e uma frase 
trocista do capito Pyggin.
- Tm dois dias! Aproveitem-nos bem, so os ltimos!
- S de pensar que lhe pagmos pela passagem... - murmurou Trenn, 
raivoso. depois de Pyggin se ter afastado.
- Ora, est a levar-nos para onde queramos ir - comentou Durwin.
- Sim. mas no da maneira que desejvamos - replicou Theido. - No 
entanto. em dois dias podem acontecer muitas coisas.

CAPTULO XXVI

A ltima luz do dia provocava manchas vermelhas no cu e tingia os 
rebordos das nuvens com tons de azul e violeta. Quentin caminhava  
vontade, embora nervoso. entre Mollena e Toli. Na frente deles erguia-se 
a graciosa silhueta do templo dos Ariga. Mollena estava vestida com um 
comprido vestido branco, contornado a prata, e puxara o cabelo para trs, 
para lhe cair para as costas. Enquanto caminhava, Quentin observava-a, 
pensando que, durante a noite. a mulher como que rejuvenescera e 
recuperara parte do aspecto que deveria ter tido. Parecia muito mais nova 
do que era, com a pele mais lisa e as rugas ocultas por um brilho 
radiante que nunca lhe tinha visto.
- Sim. sou eu. Mollena, e no outra... - respondeu a mulher ao ver-lhe os 
olhares interrogativos. Os seus olhos pestanejaram e brilharam quando se 
aproximaram da avenida de tochas que dava para a entrada do templo.
Quentin. simultaneamente embaraado e divertido, declarou:
- Ests muito bonita esta noite, Mollena.
- Diz isso porque nunca viu nenhuma das nossas jovens - replicou a 
mulher, rindo-se.
Com um sobressalto, Quentin compreendeu que nunca viria a conhecer 
nenhuma dessas jovens. Ele e Toli planeavam partir na manh seguinte. 
Retirou os olhos da boca risonha de Mollena e pousou-os nos olhos escuros 
e profundos de Toli. Este, tal como Quentin, ia vestido com um manto 
azul-celeste que cobria a tnica branca, bordada a prata no pescoo. 
Toli, com a sua pele castanha e brilhante cabelo negro, parecia um 
prncipe pelagian. Depois de tantos problemas para o

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convencer a retirar as rudes peles com que se vestia, Toli parecia agora 
perfeitamente  vontade com roupas to finas.
Quentin, contudo, estava demasiado nervoso para poder gozar aqueles 
momentos, excepto durante os curtos instantes em que se esquecia do que 
estava para acontecer. Ia estar presente a um servio especial. no 
templo, dado em sua honra. Quentin receberia uma ddiva invulgar. Segundo 
Yeseph lhe explicara. iria receber a bno dos Ariga.
No fazia ideia nenhuma do que se tratava.

- Ah. c ests! - disse Yeseph. Quentin no o vira quando entrara. Olhava 
para as linhas ascendentes da estreita e fina torre central do templo. 
Muitas outras pessoas, vestidas com a mesma elegncia simples de Mollena 
e Yeseph, afluam ao templo. - Sigam-me, vou lev-los aos vossos lugares.
Quentin obedeceu em silncio. Estava demasiado ocupado a absorver tudo o 
que via, para alm dos sons. uma vez que um coro comeara a cantar mal 
tinham entrado no vestbulo do templo. Yeseph conduziu-os rapidamente, e 
Quentin podia ver, atravs dos espaos existentes entre as grandes 
tapearias pendentes por onde tinham de passar, que o santurio do templo 
se encontrava quase cheio de fiis. Avanaram em volta de um auditrio 
semicircular e chegaram a uma entrada lateral onde os aguardavam trs 
homens de compridos hbitos brancos, acompanhados por meia dzia de 
jovens segurando grandes candelabros de ouro polido.
Um dos sacerdotes, pois foi assim que Quentin os considerou. estendeu um 
hbito branco a Yeseph, que o vestiu por cima das roupas que j usava.
- Bom... - disse Yeseph - estamos prontos. Quentin. segue-me e procede de 
acordo com as instrues que te demos anteriormente. Mollena. tu e Toli 
ocupem os vossos lugares na fila da frente, de onde podero assistir a 
tudo.
Os trs sacerdotes, ou ancies, viraram-se e formaram uma fila Yeseph 
colocou-se atrs deles, e Quentin imitou-o. Os portadores do fogo 
colocaram-se dos dois lados da fila com os seus candelabros, formando, na 
opinio de Quentin, o que devia ser uma procisso impressionante.
Avanaram ao longo de uma larga coxia central em direco a uma 
plataforma elevada, atrs da qual estava suspensa uma grande tapearia 
dourada, que brilhava como o Sol sob a luz de centenas de velas.

195

Na plataforma, por detrs de um grande altar de pedra. havia um 
semicrculo de assentos. Depois de subirem os ltimos degraus, os ancies 
dirigiram-se para os seus lugares e os portadores do fogo colocaram as 
velas em receptculos em volta do altar. Yeseph ocupou um lugar perto do 
centro do crculo, e Quentin instalou-se  sua direita.
- Escuta com cuidado e faz o que te disser - instruiu-o o ancio Yeseph. 
- Vai haver uma invocao... um apelo ao nico para que escute as nossas 
oraes. A seguir, o ancio Thernu pronunciar uma curta alocuo ao 
nosso povo. Depois disso, ser a nossa vez... Entraremos no local 
sagrado. irei  frente e tu seguir-me-s.
Quentin acenou que compreendia e o coro cantou um curto verso, que foi 
seguido pela subida de um dos ancies para cima daquilo que Quentin 
tomara por um altar. e que era um grande cubo de pedra colocado no centro 
da plataforma. com degraus na parte traseira, por onde o orador podia 
subir.  sua volta. em crculo, ardiam as velas que ali tinham sido 
colocadas pelos portadores do fogo.
- Poderoso Peran nm Perano, Rei dos Reis, Tu, que sempre escutas as 
nossas oraes, escuta-nos agora...
A invocao prosseguiu, e para Quentin parecia-lhe algo semelhante. no 
entanto muito diferente, das invocaes que ouvira no templo de 
Narramoor. Era semelhante no estilo e nas palavras utilizadas. mas muito 
diferente na maneira como era proferida. No demonstrava medo. 
autoconscincia ou ostensivas demonstraes de humildade. O ancio falava 
com simplicidade, e com a convico de que a sua voz era escutada pelo 
deus. tal como o era pelas centenas que enchiam o santurio. Quentin 
agitava-se na cadeira. nervoso, um pouco incomodado com a ideia de um 
deus que estava realmente a escut~los e a observ-los.
Quentin imaginou que conseguia sentir a presena da divindade. e depois 
ficou surpreendido quando dentro dele surgiu uma onda de emoes em 
resposta a essa sua imaginao.
Interrogou-se sobre tudo aquilo enquanto a cerimnia prosseguia o seu 
curso.
Quentin ps-se de p, imitando Yeseph. quando as palavras da alocuo do 
ancio Thernu se desvaneceram no grande santurio. Estivera a sonhar 
acordado durante todo o discurso, e parecia-lhe que se encontrara sentado 
apenas por breves momentos, apesar de ter uma vaga

196

lembrana de outros cantos e da leitura de um texto sagrado. Todavia. Na 
sua mente. tudo isso se reduzira a um instante. Agora encontrava-se de p 
e avanava para a pedra, atrs de Yeseph.
- Meus bons amigos... - disse Yeseph para a congregao. Quentin olhou 
para as centenas de olhos a brilharem sob a luz das velas. Tudo o que 
conseguia ver eram olhos. - juntmo-nos aqui esta noite para conferir a 
este jovem, um hspede entre ns. a bno dos Ariga. - Houve acenos de 
aprovao a agitarem as cabeas da multido.
Ajudem-nos com as vossas oraes.
Yeseph fez sinal aos portadores do fogo para que avanassem. Com cada um 
deles a segurar uma vela dentro de uma taa pouco profunda.
os portadores do fogo avanaram para a traseira da plataforma, seguidos 
por Yeseph e Quentin e pelos restantes ancies. Quando se aproximaram da 
bela tapearia dourada, dois dos portadores do fogo avanaram mais 
depressa, puxaram-na para um lado, e Quentin pde ver uma porta.
Yeseph entrou na estreita passagem, iluminada apenas pela luz tremulante 
das velas. Depois de percorrido um corredor. entraram numa cmara 
interior.
A cmara parecia-se com um tmulo, pensou Quentin. Estava completamente 
nua e fora cortada na rocha macia, com um banco comprido e estreito a 
todo o comprimento da parede em frente da entrada. Quando os portadores 
do fogo comearam a colocar as suas velas em volta da cmara, Quentin 
verificou que no existiam quaisquer smbolos ou ornamentos.
Quentin escutou gua a correr suavemente e viu que, numa das extremidades 
da cmara oblonga. existia uma pequena fonte a cantar dentro de uma 
espcie de taa escavada no cho.
Os ancies ocuparam os seus lugares no banco de pedra e Yeseph puxou 
Quentin para perto da fonte.
- Ajoelha-te, Quentin.
Quentin ajoelhou-se em frente da fonte e sentiu a pedra lisa e fria de 
encontro s pernas. No meio do silncio, distinguiu perfeitamente as 
respiraes dos ancies que se encontravam atrs dele, e o borbulhar da 
gua da fonte a danar na taa. Ento, Yeseph, de p junto dele, 
declarou:
- Este  um lugar de poder, o centro da devoo dos Ariga, e era

197

nesta sala que todos os jovens ariga recebiam a bno quando se tornavam 
adultos.
"Recebiam muitas bnos durante toda a vida. mas esta era especial, 
concedida no pelos ancies, ou sacerdotes. mas sim por Whist Orren. o 
prprio Deus nico.
"Era uma bno que os acompanhava toda a vida, que fazia parte das suas 
vidas. No tinham de a ganhar, nem era necessrio um ritual de 
purificao ou obedincia. A bno  uma ddiva do deus. Tudo o que  
necessrio  um corao puro e o desejo de a receber.
"Agora. diz-me: h alcuma razo para que no recebas a bno
dos Ariga?
Quentin. de olhos focados na fonte enquanto Yeseph falara, virou-se para 
fitar os olhos do ancio.
- No - respondeu. -  meu desejo receber a bno.
- Assim seja feito - declarou Yeseph. Colocando as mos sobre Quentin. 
comeou a falar: - Deus poderoso, eis um jovem que deseja ser teu 
seguidor. Fala-lhe agora, e com toda a tua sabedoria e verdade concede-
lhe a tua bno.
Quentin ficou mais uma vez surpreendido com a simplicidade da orao. Era 
um pedido. sem qualquer espcie de adornos. proferido com uma convico 
tranquila.
Yeseph dobrou-se para a fonte, ps as mos em concha e encheu-as de gua.
- Bebe - ordenou. oferecendo a gua a Quentin.
Quentin bebeu um gole e a seguir Yeseph tocou-lhe na testa com os dedos 
hmidos.
- A gua  o smbolo da vida. Todas as coisas vivas precisam da gua para 
se manterem vivas, e por isso.  tambm o smbolo do Criador da Vida, 
Whist Orren.
- Fecha os olhos - pediu Yeseph. comeando a entoar uma muito velha 
cano.
Ao princpio Quentin no reconheceu as palavras: a voz trmula do ancio 
ecoava de um modo estranho nos seus ouvidos e reverberava na pedra da 
cmara. O canto de Yeseph pareceu ampliar-se, encher toda a cmara, at 
que Quentin compreendeu que os outros tambm estavam a cantar. Era uma 
cano a respeito do deus e da sua promessa de caminhar entre o povo. 
para lhe ensinar os seus caminhos. Quentin

198

achou que a cano era comovedora, e como a melodia era simples e 
repetitiva recitou as palavras para ele prprio.
A pouco e pouco, a cano morreu e Quentin ouviu uma voz. Seria a de 
Yeseph. ou outra qualquer? No era capaz de o dizer... Podia at ter sido 
a sua prpria voz. Parecia falar-lhe directamente ao corao, a uma 
qualquer parte das profundezas do seu ntimo.
Ento, Quentin mergulhou num sonho.
No sonho. permanecia ajoelhado sobre o frio cho de pedra, mas  sua 
volta existia um prado brilhante e de dimenses aparentemente infinitas. 
O luxuriante vale verde brilhava sob uma luz cor de mel. A prpria luz 
no parecia emanar de uma fonte determinada, mas sim a pairar sobre o 
prado com um nevoeiro dourado.
O ar cheirava a pinheiros e  fragrncia mais leve e doce das ervas. Por 
cima dele o cu formava um arco com uma delicada iridescncia azul, 
levemente agitada por subtis mudanas de tonalidade mas que. no entanto, 
parecia nunca se modificar. No existia nenhum Sol a pairar no cu, mas 
este. tal como o vale, estava carregado de luz.
Um ribeiro cristalino borbulhava ali perto, oferecendo alegremente a sua 
msica. A gua parecia viva, saltando e deslizando por cima das pedras 
arredondadas e polidas.
Pairava um ar de paz por cima de toda a cena, e Quentin sentiu uma vaga 
de alegria a nascer dentro dele, como que jorrando de uma fonte. O 
corao palpitava-lhe no peito como se se quisesse libertar para ir 
pairar no alto em leves asas de felicidade.
A voz que ouvira antes voltou a cham-lo, perguntando:
- Quentin, conheces-me?
Quentin olhou em volta, algo assustado. No via ningum ali perto que 
pudesse estar a falar com ele. Estava completamente s, mas a voz 
continuava.
- j ouviste a minha voz no silncio da noite. e j procuraste o meu 
rosto nas profundezas do teu corao. Apesar de me teres procurado em 
templos no sagrados, no te pus de lado.
Quentin estremeceu e perguntou numa voz fraca:
- Quem s? Diz-mo, para que te possa conhecer.
- Sou o Criador, o nico, o Mais Alto. Os prprios deuses tremem na minha 
presena. So como sombras, leves nevoeiros empurrados pelas brisas e 
dispersos. S eu sou merecedor da tua devoo.

199

Enquanto a voz falava Quentin compreendeu que j a ouvira muitas vezes, 
ou que pelo menos ansiara por a ouvir, na escurido da cela do seu 
templo. quando chorara sozinho. Conhecia-a. apesar de nunca a ter 
escutado com tanta clareza, nem de um modo to distinto.
- Oh, Mais Alto. permite que o teu servo te veja - implorou Quentin. 
Instantaneamente. o pacfico prado desapareceu no meio de uma brilhante 
luz branca, que obrigou Quentin a colocar um brao em frente da cara.
Quando ganhou coragem para voltar a espreitar por debaixo do brao. viu a 
forma tremeluzente de um homem, de p na sua frente.
Era um homem alto, de largos ombros, bastante jovem mas com um rosto 
marcado pela sabedoria e pela maturidade. A forma do homem parecia vibrar 
sob os olhos de Quentin, como se estivesse a ver um reflexo na gua. O 
homem em si tinha um aspecto bastante slido. mas os seus contornos eram 
difusos. como se fossem formados por feixes de luz viva, ou estivesse 
vestido com uma aura com a luminescncia de um arco-ris.
Todavia, foi o rosto o que chamou a ateno de Quentin. Os olhos do Homem 
de Luz brilhavam como carves e o rosto emitia um claro de bronze. 
Quentin no conseguia afastar o olhar dos olhos escuros, infinitamente 
profundos e ardentes do homem. Sustentaram o seu olhar com uma espcie de 
abrao de amantes: forte mas gentil, dominador mas complacente. Aqueles 
olhos emitiam um tipo de desejo ardente que Quentin no conseguia 
especificar, e o jovem comeou a ter medo da sua presuno de querer 
existir na esfera de radiante viso de um ser como aquele.
- Nada receies - disse o homem, num tom infinitamente suave. - H muito 
que tenho a minha mo sobre ti e que te amparo. Olha para mim e sabers. 
no fundo do corao. que sou teu amigo.
Quentin fez o que lhe era pedido e sentiu uma sbita onda de 
reconhecimento. como se tivesse acabado de encontrar um amigo ntimo ou 
um irmo ausente havia muito. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas...
- Por favor, no sou merecedor...
- O meu toque ir purificar-te - disse o Homem de Luz. Quentin sentiu uma 
espcie de calor na testa, onde o homem lhe colocara a ponta de dois 
dedos. A vergonha desapareceu e o calor espalhou-se-lhe pelo corpo. 
Queria pular, cantar, danar ante o Homem de Luz que estava na frente 
dele.

200

- Procuras uma bno - proferiu o homem. - S tens de dizer qual.
Quentin tentou fazer com que as palavras lhe sassem. mas no o 
conseguiu.
- No sei como pedir esta bno... mas no meu corao sei que necessito 
dela...
- Ento pediremos ao teu corao que revele o que tem conservado 
oculto...
Da garganta de Quentin emergiu um som de angstia e tristeza como nunca 
antes escutara. Era como que algum tivesse tirado uma rolha a uma 
garrafa e o contedo desta se estivesse a precipitar para o exterior, 
numa verdadeira inundao.
O grito terminou to de repente como comeara, pairou por instantes no ar 
e desapareceu. Quentin piscou os olhos de espanto. chocado com a 
intensidade das suas prprias emoes, pois fora disso mesmo que se 
tratara. Deixara sair as emoes, cruas e nunca pronunciadas, presas no 
interior do corao.
- O teu corao est preocupado com muitas coisas - disse o Homem de Luz. 
- Choras pelos teus amigos. Receias pelo que lhes possa vir a acontecer 
se no estiveres com eles. Procuras uma garantia de xito para a 
libertao do teu rei das garras do malfico.
Quentin acenou uma confirmao acanhada. Tinham sido aqueles os seus 
sentimentos nos ltimos dias.
- Porm, mais do que tudo isso, procuras coisas mais elevadas: a 
sabedoria e a verdade. Queres saber se existem deuses verdadeiros a quem 
os homens possam orar e que escutem essas oraes.
Era verdade. Voltou a recordar-se de todas as compridas noites solitrias 
na cela do templo, de todos os gritos de angstia que soltara.
- Quentin. - O homem de Luz estendeu para ele uma das suas largas mos, 
aberta. - Os meus caminhos so a sabedoria e as minhas palavras a 
verdade. Procura-as e no ters que ter medo. Procura-me e encontrars a 
vida. Pedes uma bno. Vou dar-te esta: o teu brao ser o brao da 
virtude e a tua mo da justia. Mesmo que te sintas fatigado e caminhes 
no escuro, nada temas. Serei a tua fora e a luz aos teus ps. Serei o 
teu conforto e o teu guia. No me esqueas, e dar-te-ei paz para sempre.
Quentin, olhando para os olhos do Homem de Luz. sentiu-se a cair nos 
infindveis vazios do tempo. como se se precipitasse nas mais escuras

201

profundezas de uma noite sem estrelas. Viu, no com os seus prprios 
olhos, mas atravs dos olhos do deus, a ordeira marcha das eras. o tempo 
a estender-se na sua frente, para o passado e para o futuro, numa linha 
sem interrupes.
A seguir avistou um homem que julgou reconhecer: era um cavaleiro. Estava 
equipado para a batalha e a armadura brilhava como se fosse feita de um 
nico diamante. Usava uma espada que ardia com uma chama irada. e um 
escudo que emitia uma radiao fria, dispersando a luz como um prisma.
O cavaleiro falou, levantou a espada e a escurido bateu em retirada na 
sua frente. A seguir. o cavaleiro, com um poderoso impulso. atirou a 
espada para o ar, onde ficou a rodopiar, lanando lnguas de fogo que 
encheram o cu.
Quando o cavaleiro se virou, Quentin reconheceu, com um choque, que o 
cavaleiro era ele prprio... Mais velho e mais forte... mas era ele.
- Sou o Senhor de tudo - disse a voz. - O criador de todas as coisas. - A 
viso desvaneceu-se e Quentin viu-se mais uma vez a fitar os olhos do 
Homem de Luz. Porm. agora sabia que se tratava dos olhos do prprio 
deus, cuja voz ouvira na noite e que o chamara pelo nome.
- Quentin. seguir-me-s? - perguntou com suavidade.
Quentin. a explodir de emoes em conflito, atirou-se para os ps do 
Homem de Luz e tocou-lhes com as mos. Sentiu fluir para ele uma torrente 
de energia viva, que o deixou mais forte. mais sbio. e mais seguro de si 
mesmo do que jamais estivera. Era como se tivesse tocado na fonte da 
prpria vida.
- Segui-lo-ei - declarou. numa voz fraca e incerta.
- Ento, levanta-te. Recebeste a tua bno.

Quando Quentin voltou a si, estava deitado de lado. no escuro. Havia uma 
nica vela a arder numa taa. Na sua frente, a fonte continuava a cantar, 
e o som fazia com que a cmara parecesse vazia. Quentin levantou a cabea 
para olhar em volta e verificou que estava sozinho.
Quando se levantou para sair da cmara interior, notou que tinha a mo e 
o brao direito dormentes e com uma sensao peculiar: sentia-os 
simultaneamente quentes e frios. Parou para os esfregar e depois saiu.

CAPTULO XXVII

A gua caa de um cu baixo, cinzento e infeliz, em chuviscos miserveis. 
Por debaix!o dos ps, o trilho tornara-se num ribeiro lamacento que 
escorria lentamente pela colina por entre as gigantescas rvores sempre 
verdes da floresta. Quentin. montado em Balder. e Toli, cavalgando um 
pnei preto e branco, deixado para trs pelos outros, desciam o trilho 
com alguma insegurana, num silncio abafado que os envolvia como as 
pesadas capas em que se tinham enrolado para se protegerem da chuva. O 
caminho de Dekra para o leste era uma verso muito improvisada do 
labirinto pantanoso por onde tinham sido obrigados a passar quando a 
caminho da cidade arruinada. Assim, Quentin permitia que fosse Baldera 
escolher o caminho e deixava que a sua mente vagueasse para onde 
quisesse. Voltava a pensar na sua despedida de Yeseph. Mollena e dos 
outros.
Fora uma triste despedida, pois acabara por lhes ganhar amizade durante o 
curto tempo em que estivera com eles. Tinham pronunciado algumas breves 
palavras de adeus - os Curatak no acreditavam em prolongadas despedidas, 
uma vez que consideravam que todos os que serviam o deus viriam um dia a 
estar reunidos, para viverem juntos para sempre - e enquanto os cavalos 
escarvavam o cho, impacientes, Quentin abraara Mollena e Yeseph com 
algum embarao.
- Regressa, Quentin, quando a tua demanda terminar - pedira Yeseph. - 
Daria as boas-vindas a um discpulo como tu.
- Voltarei logo que puder - prometera Quentin. subindo para a sela. - 
Estou muito grato por todas as vossas amabilidades. Muito obrigado.

204

- Deus vai convosco - declarara Mollena, virando a cara para um lado, mas 
Quentin ainda se apercebera do brilho de uma lgrima no canto de um dos 
seus olhos.
Olhara-os durante alguns instantes e depois dera meia volta com o grande 
cavalo de batalha e comeara a descer a colina em direco  floresta. 
olhara por cima do ombro durante muito tempo. gravando na memria aquela 
imagem. final. Queria record-la para sempre tal como a via agora: a luz 
alegre do Sol a encher um cu brilhante, que parecia ter sido limpo e 
esfregado pelas nuvens brancas, as paredes de pedra vermelha da cidade 
erguendo-se graciosamente no ar da Primavera. e os seus amigos junto dos 
portes abertos. acenando-lhes at a curvatura da colina os ocultar das 
vistas.
Quentin nunca experimentara uma despedida to emocional. Por outro lado, 
pensou, nunca experimentara nada para alm da frieza dos sacerdotes do 
templo. que nunca se saudavam ou diziam adeus.
Por dentro, Quentin vibrava de excitao. O seu corao pairava no alto 
como um pssaro finalmente livre de um longo cativeiro. Esqueceu-se 
rapidamente da melancolia das despedidas, abafada pela boa disposio que 
sentia por estar vivo. de volta ao caminho. e a rever mais uma vez a 
viso da noite anterior. Fora-lhe muito difcil conseguir adormecer. 
Depois da festa em sua honra, em que se tinham verificado mais cantos. 
danas e jogos. e que se prolongara pela noite dentro, ele e Toli haviam 
regressado aos quartos de Mollena. na residncia palaciana do antigo 
governador. Fora ento que lhes falara na viso. Yeseph e alguns dos 
outros ancies que se tinham ali reunido haviam-no escutado com ateno. 
acenando e puxando pelas barbas.
- A tua viso  um pressgio poderoso. Foste favorecido pelo deus - 
dissera Yeseph. - Tem planos especiais para ti.
- A bno dos Viga - murmurara o velho Thernu. -  por si s uma coisa 
de poder, pois traz com ela a capacidade para a concretizao dos seus 
prprios fins. O Mais Alto garante uma bno a todos os de corao puro. 
e d-lhes a fora para concretizarem os seus desgnios Quando os 
atingires, encontrars a tua prpria felicidade e realizao
Quentin ficara intrigado e perguntara:
- Ento, qual  o significado da minha viso?
- Ters de ser tu a descobri-lo. O deus poder revelar-to. quando chegar 
o momento, mas  mais frequente que o conhecimento s surja

205

com o esforo. Tu mesmo ters de te esforar para entenderes o 
significado. pois a interpretao est na concretizao.
- No h duvida de que  qualquer coisa muito diferente do que  costume 
com os velhos deuses - dissera Quentin. - No templo, as pessoas iam 
procurar os sacerdotes para obterem um orculo. O sacerdote recebia a 
oferenda e pedia um orculo. ou um pressgio. em nome do peregrino, a 
quem explicava o seu significado.
Isso era porque os orculos no passam da estupidez daqueles que so 
cegos porque no querem ver. So fumo sem fogo - retorquira Themu.

Nessa noite. depois de os convidados terem partido e de se encontrar 
sozinho na cama. Quentin rezara pela primeira vez quele novo deus. o que 
encontrara na sua viso. Esta ainda lhe continuava a parecer mais real do 
que as vagas dimenses do seu prprio quarto envolto
em escurido e do que a cama confortvel. Orara: "Guia-me na descoberta 
do teu caminho. Mais Alto. Concede-me foras para te servir..>
No se recordou de nada mais para dizer. Depois de tantas oraes formais 
no templo. escritas para serem decoradas por meio de uma repetio 
constante. aquela orao to simples parecia-lhe ridiculamente 
inadequada.
Porm. confiando na afirmao de Yeseph de que o deus tinha mais em conta 
os sentimentos do corao do que o comprimento da orao. Quentin deixou-
a ficar assim. Obtivera uma forte convico ntima de que a sua orao 
fora ouvida. e por algum que se encontrava muito perto.

No princpio daquela manh. quando o Sol ainda espreitava por cima do 
horizonte ondulado. Quentin e Toli haviam discutido os seus planos.
-  meu desejo seguir Theido e os outros, e talvez apanh-los. se isso 
for possvel - dissera Quentin. mastigando um bolo de sementes. Toli 
mirara-o com uns olhos estranhos, que Quentin considerara enervantes. - 
Porque  que olhas assim para mim?
- Modificaste-te, Kenta - respondera Toli em voz baixa. com um certo ar 
de admirao. Kenta era a palavra Jher para "guia", (e. por extenso. 
parecia querer tambm significar amigo. mestre, amo, tudo ao mesmo 
tempo). Era tambm a maior aproximao ao nome de Quentin que Toli 
tentava atingir, apesar de para o jovem lhe parecer que o

206

seu amigo jher no se esforava o suficiente. Toli mantinha-se agarrado 
quela designao por razes que s ele conhecia.
- Mudei? Como  que mudei? - Quentin tentou exibir o seu antigo sorriso 
arrapazado, mas saiu~lhe forado. - Sou o mesmo que era.
Toli via as coisas de uma maneira diferente. Observara a cerimnia da 
bno com grande admirao e respeito. Parecera-lhe quase como a 
coroao de um rei, e tinha um grande orgulho por o seu amo - pois era 
assim que agora o considerava de uma maneira irrevogvel - ter ascendido 
a uma tal honra.
- No - respondeu -, no s o mesmo.
Fora tudo o que quisera dizer sobre o assunto e. por isso. Quentin 
passara a outros assuntos. Cavalgariam at Tuck e depois para Bestou, tal 
como os outros haviam feito, de acordo com as informaes de Mollena.
Tudo o que Quentin sabia era que Nimrood podia ser encontrado em Karsh, 
apesar de no fazer ideia de onde isso ficava. Mollena recusava-se a 
falar do lugar, dizendo que se tratava de uma ilha diablica que no se 
encontrava suficientemente longe, no obstante poder estar a meio mundo 
de distncia.
Assim, tinham encetado o trilho para Tuck, um trilho esquecido que 
atravessava as florestas no norte, lar de um grande nmero de veados 
vermelhos e javalis. Eram os prprios animais quem mantinha o trilho 
aberto. dando-lhe o pouco uso que tinha. Os Curatak no precisavam dele.
No segundo dia, Toli acordara Quentin para uma madrugada desagradvel. 
Pouco depois de tomarem o pequeno-almoo, retirado das provises 
empacotadas por Mollena, as nuvens espessas tinham comeado a libertar 
uma chuva fina, quase como nevoeiro. Haviam-se abrigado nas capas com 
capuzes e metido ao caminho com uma disposio mais calma e melanclica. 
A boa disposio do dia anterior
desaparecia debaixo daquela chuva triste.
Enquanto prosseguiam, Quentin comeou a mostrar-se cada vez mais agitado, 
com a mente inquieta com um pensamento que no deixava de lhe espicaar a 
conscincia. Resolveu mencion-lo a Toli na primeira oportunidade. Assim, 
quando pararam junto de um pequeno ribeiro para dar de beber aos cavalos, 
Quentin exps o que o preocupava:
- Toli, sabes o que temos pela frente? - perguntou. O jovem jher 
semicerrou os olhos e espreitou para as sombras do trilho.

207

No - retorquiu, com a lgica tpica dos Jher. - Como  possvel saber o 
que se tem pela frente? At os trilhos bem conhecidos se podem modificar. 
O bom caador avana com cautela.
- No... No era isso o que queria dizer. Vamos em busca de Theido. 
Durwin e dos outros... e muito provavelmente enfrentaremos grandes 
perigos. - Observou o rosto de Toli, em busca de um qualquer sinal de 
preocupao. No viu nenhum.
Quentin olhou para baixo. para o ribeiro, vendo o focinho do cavalo 
profundamente mergulhado na gua revolta, e continuou:
- No tenho o direito de te pedir que me acompanhes at mais longe. A tua 
gente mandou-te connosco, como guia, por amizade. Agora que atingimos 
Dekra. e que na verdade j a deixmos para trs, a tua obrigao 
terminou. Se quiseres, s livre de voltar para o teu povo.
Quentin levantou os olhos e viu profundos sulcos de tristeza no rosto 
castanho de Toli. Tinha os cantos da boca muito virados para baixo, e um 
brilho frio nos olhos escuros.
- Se  isso o que desejas, Kenta, regressarei para junto do meu povo.
- O que eu desejo?... O que eu desejo no interessa. Tens de voltar para 
trs. A viagem  minha, e no tua. No a pediste. No posso exigir~te que 
arrisques a vida... Esta luta no tem nada a ver contigo.
- Tens de me dizer o que queres que faa - pediu Toli, de mos estendidas 
e palmas viradas para cima.
- No posso - lamentou-se Quentin. - No compreendes?
Toli no compreendia. Pestanejou para Quentin, muito srio, como se 
estivesse a censur-lo por uma crueldade inimaginvel.
- Podes ser morto - explicou Quentin. Os seus conhecimentos da lngua 
jher estavam a ficar rapidamente esgotados, sob a tenso de tentar 
comunicar o dilema. - No posso ser responsvel pela tua vida se me 
seguires.
- Os Jher pensam que cada homem  responsvel pela sua prpria vida. Os 
Jher so livres (eu sou livre) e no aceitamos que algum nos queira 
dominar. No entanto, um jher pode aceitar um amo, se assim o desejar. - A 
voz de Toli ergueu-se e as linhas do seu rosto comearam a suavizar-se. - 
Para um jher, escolher um amo e servi-lo at  morte  a maior das 
honras, porque servir sob um amo de valor aumenta o valor do servo. Entre 
os do meu povo, so muito poucos os

208

que tm a oportunidade que eu tive. - Pronunciou a ltima frase com um 
tom de orgulho, de olhos a brilharem. - Um grande amo torna grande o seu 
servo.
- Mas eu no te pedi para me servires...
- No - retorquiu, orgulhoso -. fui eu que te escolhi a ti.
- Ento e os teus? - perguntou Quentin, abanando a cabea.
- Sab-lo-o e ficaro felizes por mim. - O rosto de Toli irradiava 
satisfao.
- No compreendo - queixou-se Quentin. apesar de no se importar muito 
com a sua falta de compreenso.
- Isso  porque o teu povo foi ensinado a acreditar que ser-vir outro  
um sinal de fraqueza. No se serve ningum por se ser fraco, mas sim por 
se ser forte.
- De qualquer modo. sentir-me-ia melhor se tivesse sido eu a pedir-to.
- Ento pede, mas j te dei a resposta.
- Quer dizer que no tenho maneira de me ver livre de ti? - perguntou 
Quentin. a brincar. Toli no compreendeu a brincadeira e a sua expresso 
voltou a entristecer momentaneamente.
- Ser recusado como servo  uma grande humilhao e uma desgraa.
- Um amo de valor nunca mandaria embora com ligeireza algum que o 
aprecia tanto - disse Quentin. - Talvez seja melhor que eu te sirva!
Toli riu-se como se Quentin tivesse feito a mais ridcula das afirmaes.
No - respondeu, ainda no meio de risinhos. - Alguns nascem para ser 
amos, mas um servo tem de comear a ser ensinado ainda muito novo.  
melhor ser eu a servir. - Voltou a ganhar uma expresso sria. - Tu, meu 
amo. ostentas a aura da glria. S a ti servirei, porque  apenas a teu 
lado que tambm poderei vir a encontrar a glria.
- Est bem - acabou Quentin por concordar. - Como na verdade prefiro no 
ir sozinho. e como de qualquer modo ests decidido a no mo permitir, 
iremos juntos.
- Se  esse o teu desejo... - retorquiu o Jher com uns ares muito 
agradveis.

209

- Os meus desejos parecem nada ter que ver com o assunto comentou 
Quentin. Toli ignorou o comentrio, segurou Balderenquanto Quentin 
montava e depois trepou para o seu cavalo preto e branco.
- Ento... a caminho, para Tuck - disse Quentin. Tinha o corao mais 
leve e a mente mais  vontade. No pretendera desistir da companhia de 
Toli, e teria tentado persuadi-lo a ficar se tivesse sido esse o caso. 
Contudo, iria precisar de algum tempo para se habituar quela nova 
situao de amo e servo. Ainda no se tinha apercebido da extenso da 
lealdade de Toli para com ele, e perguntava a si mesmo se seria capaz de 
ser um bom amo. A sensao de responsabilidade era j mais pesada do que 
teria imaginado.

Cavalgaram juntos durante toda a tarde hmida, e pararam para passarem 
uma noite encharcada. junto do trilho, sob o simples abrigo de uma rvore 
com longos ramos que quase tocavam no cho.
Toli peou os cavalos e deixou-os movimentarem-se com passos curtos para 
poderem pastar as ervas e a folhagem da floresta. Quentin desenrolou os 
cobertores debaixo dos ramos e fez uma cama seca e quente com um monto 
das aromticas agulhas dos pinheiros. Toli foi  procura de cascas secas 
e pedras e em breve tinham uma pequena fogueira a arder, para os aquecer 
e para secar as roupas ensopadas em gua.
A noite caiu muito rapidamente na floresta. -jazeram os dois na 
escurido, escutando os pingos de gua que escorriam dos troncos mais 
altos e o crepitar da fogueira. Quentin esticou-se em cima da cama 
improvisada e aspirou a fragncia das agulhas dos pinheiros.
- Que pensas tu deste novo deus? - perguntou Quentin, meio distrado, 
procurando o brilho dos olhos de Toli por entre a escurido.
Durante todo o tempo que haviam passado em Dekra, no falara a Toli a 
respeito da religio dos Ariga, esquecimento que agora o deixava 
embaraado.
- No  novo. Os Jher sempre o conheceram.
- No sabia. Como  que lhe chamam?
- Whinoek.
- Whinock... - repetiu Quentin para si mesmo. -  uma palavra bonita. O 
que quer dizer?
- Talvez se possa traduzir por Pai... Pai da Vida.

CAPTULO XXVIII

-  uma pequena probabilidade... mas  uma probabilidade disse Durwin. 
levantando a tampa de um dos barris de gua,
- Pergunto a mim mesmo porque  que no pensmos no assunto mais cedo - 
comentou Theido. - Mantm o ouvido encostado  porta e prepara-te para 
nos avisar - acrescentou, sussurrando atravs do poro, dirigindo-se a 
Trenn, que se encontrava agachado no alto dos degraus.
Durwin tirou um punhado de p amarelo de um saco de pano que Alinea 
segurava nas mos. Espalhou o p na gua que se encontrava no barril, que 
Theido agitou com um remo quebrado, voltando a tapar o barril.
- Achas que viro buscar gua? - perguntou Alinea. Deslocaram-se os trs 
para o barril seguinte e repetiram a operao.
- Espero que sim. - Theido rolou os olhos para cima, para indicar o 
convs. - Vm busc-la de dois em dois dias, para encherem de gua fresca 
os reservatrios que tm no convs. Com um pouco de sorte, hoje tambm o 
faro. Por outro lado, devemos estar perto de terra. Pode ser que 
esperem...
- Bom, fazemos o que podemos. O melhor  no contaminar o ltimo barril, 
Ser para nosso uso. - Durwin sacudiu o resto do p para dentro do barril 
e limpou as mos. Nesse instante Trenn comeou a raspar com os ps nos 
degraus da escada.
- Vem a algum! - murmurou em voz spera. - Tapem o barril, depressa!
Theido agitou a gua com vigor e tapou o barril, encaixando a tampa com a 
extremidade do remo. Quando a porta do poro se abriu

212

j os trs ocupavam os seus lugares habituais junto aos ltimos degraus 
da escada.
- e tragam um grande bocado - gritou uma voz no convs para as duas 
figuras que desciam.
- Para trs! - rosnou um dos marinheiros. O outro dirigiu-se para um 
canto e comeou a remexer numa pilha de cordas. Os cativos ficaram a 
olhar. desapontados.
Depois de os marinheiros terem fechado a porta atrs deles, Durwin disse:
- No percam a esperana, o dia ainda  jovem. Pode ser que voltem.
Trenn tinha um ar de grandes dvidas.
- No temos maneira de saber at que ponto estamos perto de terra. Podem 
largar a ncora de um momento para o outro.
-  verdade. E se assim for... pois que seja. O deus tem-nos nas suas 
mos e procede segundo os seus desejos.
Todavia, enquanto Durwin falava, ouviu-se uma grande agitao no convs, 
e algum que mexia, enfurecido. nas correntes que seguravam as trancas. A 
porta abriu-se mais uma vez e o grito de Pyggin pde ser ouvido por 
todos, repreendendo os desgraados marinheiros:
- A rao de gua para o dia. idiotas! Vo busc-la ou mando-os 
chicotear!
Trs marinheiros desesperados precipitaram-se pelas escadas, guiados pelo 
marinheiro que tinha a corda. Correram para o barrilete que se encontrava 
mais perto. sem sequer lanarem uma olhadela aos prisioneiros amontoados 
no facho de luz proveniente da porta aberta. Levantaram o barril nos 
braos musculosos e lutaram por o carregar pelas ngremes escadas. No 
viram as expresses surpreendidas e satisfeitas dos prisioneiros e 
desapareceram no convs com a rao de gua para a tripulao.
- Continuamos sem saber se Pyggin bebe da mesma gua que os 
tripulantes... - disse Trenn depois de deixarem de ouvir os passos dos 
marinheiros.
-  um risco que temos de correr - respondeu Theido. Depois virou-se para 
Durwin. - Quanto tempo  preciso para que a tua poo funcione?
- Varia,  claro. Depende do tamanho do homem. da quantidade de gua que 
beber... No entanto. fi-la de modo a actuar lentamente,

213

mas sem perder a fora. Esta noite vo-se todos deitar, e amanh de
manh nenhum deles acordar, mesmo que sopre a tempestade e as ondas 
deitem os mastros abaixo. - Riu-se e os olhos brilharam-lhe no escuro do 
poro. - Porm. antes que nos esqueamos... Temos um problema mais 
imediato para resolver.
-  verdade. Se no arranjarmos uma maneira de fugirmos deste poro mal 
cheiroso. no interessa saber por quanto tempo os patifes iro dormir.
- Talvez uma das outras escotilhas... - sugeriu Alinea. apontando para a 
zona mais escura do poro, onde se viam dois plidos quadrados de luz 
desenhados no convs.
-  uma excelente ideia. senhora. - A voz era de Ronsard. Surpreendidos. 
todos se viraram, e deparou-se-lhes o cavaleiro, de p mas algo inseguro. 
por detrs deles.
- Ronsard! - exclamou Theido. - H quanto tempo ests a de P!
- Para a cama. imediatamente! - declarou Alinea, correndo para agarrar 
num dos braos do homem. com a ideia de o puxar de volta para a sua 
enxerga rudimentar. Ronsard deu um passo em frente e o rosto contorceu-
se-lhe de dor. Levou a mo ao lado da cabea.
- Oh! - gemeu, endireitando-se. - Ainda no estou habituado a ter os ps 
no cho.
- Logo te habituas - garantiu Durwin.
- Ah. mas h muito tempo que no me sentia to bem - continuou o 
cavaleiro, deixando que o sentassem num barril. por insistncia da 
rainha. - Para alm destas pulsaes na cabea. sinto-me como novo!
- Ainda bem - manifestou-se Theido. - H muito que te tinha dado como 
morto... Mesmo depois de te termos encontrado aqui, o estado em que te 
vimos no nos deu grandes esperanas. Agora, afinal, parece que irs 
sobreviver...
- Tudo por causa deste vosso sacerdote feiticeiro - declarou Ronsard. 
sorrindo-se para Durwin.
- Eu? No fiz nada. Permiti apenas que o teu corpo tivesse o repouso de 
que necessitava. Dormiste durante os ltimos trs dias.
- Disseram qualquer coisa a respeito das escotilhas da proa... recordou 
Trenn. - Se no se importa que lho diga - continuou, dirigindo-se a 
Theido -,  esse o nosso problema mais premente.

214

-  claro. Que sabes da escotilha da proa? H uma sada por esse lado?
- Pode ser que possamos construir uma - disse Ronsard, levantando-se do 
barril. - Recordo de ter visto, quando me atiraram para aqui com muito 
pouca delicadeza, que a escotilha da frente no estava to bem fechada 
como as outras.
- Vamos ver.
Theido conduziu o grupo para a frente, escolhendo o caminho, com todo o 
cuidado, por entre a carga colocada de qualquer maneira. Momentos depois 
encontravam-se debaixo da escotilha. olhando para as suas barras 
cruzadas.
-  uma escotilha muito pequena. No tem espao para deixar passar um 
homem - declarou Trenn, pessimista.
- Talvez seja suficientemente grande para uma mulher - declarou Alinea 
com vivacidade.
- Senhora, probo-a de andar a passear pelo convs. E se um dsses 
piratas no adormecer? No,  demasiado perigoso! - Trenn proferiu a 
frase com um tom autoritrio. Theido e Durwin estavam inclinados a 
concordarem com ele, mas no se manifestaram.
- Ah, ento os actos hericos so apenas para os homens, no so? - 
perguntou a rainha com os olhos a brilharem de desafio. - Se for 
necessrio, acho que posso enfrentar qualquer dos homens de Pyggin, e de 
qualquer modo tenho a surpresa do meu lado, isto j para no mencionar as 
artes de Durwin.
- Talvez seja o melhor plano - murmurou Ronsard. - Estar escuro.
- Sim, e alm disso ela poder mover-se mais silenciosamente do que 
qualquer um de ns - concordou Theido.
- Seja como for, primeiro temos de encontrar maneira de abrir a escotilha 
- notou Durwin. - Sugiro que comecemos por a enquanto ainda dispomos de 
alguma luz.
- Ajudem-me a empilhar alguns destes fardos e barris - pediu Theido. - 
Construiremos uma escada que leve a nossa dama at  liberdade.
Os prisioneiros trabalharam durante todo o dia, desgastando a argola do 
cadeado solitrio que segurava a escotilha, servindo-se de bocados de 
metal e de uma ou duas ferramentas enferrujadas que encontraram no fundo 
do poro.

215

Quando o crepsculo surgiu. chegaram-lhes sons do convs, indicativos de 
que o navio avistara o seu destino. a cruel terra de Karsh.
A voz do capito Pyggin, rouca de gritar ordens aos marinheiros 
amolecidos, podia ser ouvida por cima do barulho de ps a correr e das 
cordas nos moites.
- Preguiosos! Esta noite no tero rum, com terra ou sem terra  vista! 
Que foi que lhes deu? Esto todos embruxados?
- Hummm... Parece-me que a droga comea a fazer efeito - disse Durwin.
- Ser que vo tentar desembarcar esta noite?
- No, o mais provvel  lanar a ncora em qualquer lado, e no querer 
arriscar os barcos contra as rochas em plena escurido - replicou 
Ronsard. da sua cama.
- Belo! - exclamou Trenn. - Assim, teremos tempo para trabalhar. Pela 
madrugada estaremos em terra e esta banheira repousar no fundo do mar.
- No vais afundar o navio com todos a bordo - protestou Alinea. 
empoleirada no alto de um barril, desgastando a argola do cadeado.
- Tambm no recomendo um acto desses - avisou Durwin.
- Seriam mortes inteis.
- Mas... estamos em guerra!
- Mesmo na guerra. devemos conduzir-nos de uma maneira prpria de homens.
- Alm disso - acrescentou Theido -, podemos precisar do navio para 
fugirmos daqui.
- Ah, isso posso eu compreender! - murmurou Trenn.
Nesse momento ouviu-se um tilintar de metal no convs por cima deles e 
Alinea anunciou:
- Est aberta! A escotilha est aberta!
- ptimo. Desa agora, senhora. Esperaremos pela escurido para entrarmos 
em aco - disse Theido. - Creio que no teremos de esperar muito.

Furioso, o prncipe Jaspin andava de um lado para o outro nos seus 
aposentos no castelo de Erlott. O Conselho de Regentes estivera em sesso 
durante todo o dia, e Jaspin encontrava-se impedido de se aproximar

216

de qualquer local que ficasse perto do local da reunio, que era o seu 
prprio salo.
- Deixe-os tratar do assunto - acalmou-o Ontescue, o candidato a futuro 
chanceler do prncipe. - Nada receie, iro recordar-se do seu benfeitor. 
Se quiser, mandarei algum  cave dos vinhos buscar um pouco da vossa 
excelente cerveja... Isso poder refrescar-lhes as ideias... e servir 
como amostra das riquezas que podero ter sob o vosso reinado, meu 
senhor.
Apesar de o egosmo de Jaspin. no apreciar o facto de ter de despejar a 
sua melhor cerveja pelas gargantas dos regentes. apercebeu-se da 
sabedoria de uma tal atitude. Seria uma maneira de os recordar quem 
puxava os cordelinhos...
- Sim,  uma boa ideia, Ontescue. Trata de a pr em prtica imediatamente 
- ordenou. continuando a andar de um lado para o outro.
- H quanto tempo l esto? - gritou momentos depois. Quanto tempo mais 
terei de esperar? Porque  que se demoram tanto?
Ontescue regressou pouco depois com uma mensagem na mo.
- A cerveja est a ser servida. Os regentes vo fazer um intervalo 
durante algum tempo. Sir Bran entregou-me isto, em segredo... O ansioso 
prncipe arrancou a mensagem das mos de Ontescue e leu-a imediatamente.
- Pelas barbas dos deuses! - explodiu, perdendo o domnio.
- O conselho est num beco sem sada. Aquele patife do Holben conseguiu 
pr alguns dos amigos do seu lado. - O prncipe fumegava. - A sua 
discordncia est a bloquear a minha nomeao!
- Como  isso possvel? No tem poder para sugerir outro em vosso lugar. 
O direito de sucesso  vosso!
-  verdade, mas servem-se de uma velha e poeirenta lei. insistindo em 
que sejam apresentadas provas que confirmem, sem deixar quaisquer 
dvidas, a morte do rei. No posso apresentar uma tal prova...
- Mas a prova existe?
- Deves sab-lo to bem como eu - retorquiu Jaspin. ocultando rapidamente 
o seu erro. - Se o rei est morto. ento h provas.
- O que eu pretendia dizer era isto: mesmo que o monarca continuasse 
vivo, mas incapaz de continuar com o seu reinado, deve haver
uma qualquer prova que possa calar aqueles agitadores. 1

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- Hummm... - A grande testa do prncipe enrugou-se. - H qualquer coisa 
de vlido nisso que dizes, meu amigo. Pensas depressa...
- Posso sugerir que se proceda a uma busca que faa aparecer alguma 
coisa, ou algum que fornea a necessria prova?
- Sim,  isso! - disse Jaspin. esfregando as mos de satisfao. - Onde  
que propes que se inicie a busca?
No rosto aguado de Ontescue surgiu uma expresso de astcia. Os seus 
olhos de furo semicerraram-se de jbilo. Aproximou a cabea do ouvido de 
Jaspin e murmurou qualquer coisa.
- Por Azraell - ofegou Jaspin. - s uma raposa esperta! Apressemo-nos, 
no h tempo a perder.

CAPTULO XXIX

- Shhh. No faas o mnimo som! - avisou Toli num murmrio tenso. Tapou a 
boca de Quentin com uma das mos, enquanto a outra pingava com os restos 
de gua com que salpicara a cara do amigo, para o acordar.
Quentin lutou contra o sono, sacudindo a gua dos olhos, surpreendido. 
Depois apercebeu-se da expresso que via nos grandes olhos de Toli: uma 
mistura de preocupao e medo.
Toli retirou-lhe a mo de cima da boca, voltando a avis-lo para no 
fazer barulho.
- Que se passa` - perguntou Quentin quase sem respirar.
Deitou-se de lado. apoiando-se sobre um cotovelo, e seguiu o olhar de 
Toli, fito na floresta. No se ouvia o mnimo rudo. Espreitou para a 
noite, A escurido era total. A fogueira apagara-se e a Quentin pareceu-
lhe que ainda faltavam vrias horas para a madrugada. Um pesado manto de 
nuvens tapava toda a luz das estrelas e da Lua. A floresta,  volta 
deles. jazia imersa num negrume completo.
Nesse momento um dos cavalos resfolegou baixinho. e o outro respondeu-
lhe, nervoso. Quentin, esforando os olhos e os ouvidos para ver se 
penetrava a escurido, no via nem ouvia nada. Esperou mais um pouco, e 
preparava-se para voltar a falar quando avistou uma ligeira mancha entre 
as rvores, a alguma distncia, Era uma figura fantasmagrica, de um 
cinzento esbranquiado, de encontro aos troncos negros. Movia-se junto ao 
cho e deslocava-se com rapidez por entre o mato. Uma forma fina e clara.
Desapareceu quase que imediatamente.

220

- Que  aquilo? - perguntou Quentin. inclinando-se para Toli. Podia ver a 
expresso tensa no rosto do amigo e sentia-lhe a respirao rpida e 
curta.
- Lobos.
A palavra levou o seu tempo a penetrar na mente de Quentin, como se no 
tivesse um significado bvio. Depois. de repente, como se lhe dessem uma 
estalada na cara, compreendeu o perigo em que se encontravam. Lobos! 
Estavam a ser atacados por lobos!
- Quantos? - perguntou baixinho. tentando conseguir que a voz lhe soasse 
calma e sem preocupaes, mas falhando.
- S vi um - respondeu Toli no mais fraco dos murmrios mas onde h um h 
outros.
Inconscientemente, Quentin estendeu a mo para a sua nica arma. adaga de 
punho de ouro do cavaleiro do rei. Os dedos contraram-se-lhe em volta do 
punho enquanto a tirava do cinto. Olhou para os restos fumegantes da 
fogueira, desejando que um golpe de magia a pudesse reacender. Os lobos 
tm medo do fogo. pensou. Ouvira isso em qualquer lado e perguntava a si 
mesmo se seria verdade. Como se lhe lesse os pensamentos, Toli inclinou-
se. colocou o rosto junto aos carves fumegantes e soprou-os. A cara de 
Toli brilhou sob a fraca luminosidade dos carves, e por instantes viu-se 
uma chama. Porm. como no havia combustvel para alimentar, a chama 
morreu e os carves arrefeceram.
Os cavalos, que se encontravam perto deles mas invisveis na escurido, 
fizeram tilintar os arreios ao agitarem a cabea para se tentarem 
libertar.
- Temos de libertar os cavalos - disse Toli - para poderem defender-se.
- Vamos chegar at esse ponto? - perguntou Quentin. No tinha experincia 
naquelas coisas. Sentia-se fora do seu ambiente e estranhamente indignado 
com o facto, uma emoo que o deixou surpreendido.
Nesse momento Quentin teve novo relance de uma forma cinzenta a flutuar 
por entre as rvores  direita deles. O animal encontrava-se muito mais 
perto.
- Esto a aproximar-se - disse Toli. Quentin apercebeu-se que estivera a 
suster a respirao.
- Que vamos fazer? - perguntou, chocado por no ter a menor ideia sobre 
como reagir.

221

Em resposta a esta pergunta, Toli entregou-lhe um forte ramo. que tinham 
apanhado para a fogueira. Era suficientemente pesado para se defender. 
Com o ramo numa das mos e a adaga na outra, Quentin sentia-se apenas um 
pouco mais confiante.
- Mantm-te baixo - avisou Toli. - Protege a garganta.
Toli levantou-se lentamente e, de muito longe por detrs deles, ouviu-se 
o lamentoso uivo de um lobo. O som fantasmagrico foi repetido por um 
outro,  direita. muito mais perto. Toli colocou uma das mos no brao de 
Quentin, segurou-o com fora e obrigou-o a levantar-se.
De repente ouviram um rosnar baixo mas forte,  esquerda. de muito perto. 
Quentin virou-se para o som e viu uma cabea branca a flutuar na sua 
direco, vinda da floresta.
- Para os cavalos! - gritou Toli, girando sobre os calcanhares e 
correndo.
Quentin virou-se no mesmo instante e correu para Balder. Encontrou a 
cabea do animal e cortou as rdeas que o prendiam ao ramo a que tinha 
sido preso para passar a noite.
O poderoso cavalo libertou-se e ergueu-se sobre os quartos traseiros 
enquanto rodava para enfrentar o fantasmagrico atacante. Quentin 
desviou-se no preciso momento em que um pesado casco calado a ferro 
assobiou no ar, no local em que a sua cabea se encontrara instantes 
antes.
Balder agitava-se com fria, escouceando o ar com os cascos da frente. O 
lobo que mergulhara para eles vindo da floresta, desviou-se para um lado 
para evitar os cascos do cavalo.
Pelo canto dos olhos, Quentin viu outro lobo a precipitar-se para o 
atacar, de um dos lados. Deu um salto para a frente, agitou o pau 
improvisado por cima da cabea e gritou com toda a fora dos pulmes. O 
grito surpreendeu-o a ele mesmo e assustou o lobo. que se deteve o tempo 
suficiente para Quentin lhe aplicar um violento golpe em cheio no 
comprido focinho. A boca do animal fechou-se de repente com um rudo de 
coisas esmagadas quando o pau o atingiu. O lobo soltou um ganido de 
queixume e recuou.
Soou um outro ganido nas suas costas e Quentin virou-se. para se lhe 
deparar Toli a bater com um longo pau num grande lobo cinzento. que se 
agachava sob os golpes ineficazes. Quentin avanou para Toli

222

para o ajudar. Dera apenas dois passos quando ficou com um p preso numa 
raz e caiu.
Ao cair, Quentin pressentiu um movimento por detrs dele e sentiu um peso 
sobre as costas ainda antes de embater no cho. Sem sequer pensar. lanou 
um brao para cima da cabea no momento em que os longos dentes do lobo 
se atiravam ao seu pescoo exposto. Sentiu a adaga na mo e tentou 
libertar o brao, preso debaixo do corpo.
Os dentes do lobo. presos na manga da tnica, comearam a rasgar o 
tecido. Quentin contorceu-se debaixo do peso do animal. teritando fazer 
subir a adaga, para a espetar na barriga do lobo.
A adaga brilhou. repentinamente livre, e Quentin espreitou por debaixo do 
brao para ver o corpo do lobo a voar. de lado. dobrando-se em pleno ar 
como se no tivesse espinha dorsal. Depois viu a cabea de Balder bem por 
cima de si. como se o cavalo estivesse pronto para atirar um golpe 
semelhante a qualquer predador que ousasse colocar-se ao alcance dos seus 
cascos.
- Kenta! - gritou Toli. Quentin olhou em volta e avistou o amigo. que 
mantinha quatro lobos  distncia fazendo rodopiar o pau. Trs outros 
aproximavam-se do segundo cavalo, preparando-se para saltar ao pescoo do 
assustado animal.
Pondo-se de p num salto. Quentin agarrou no ramo e correu para o amigo.
- Deus, Mais -Alto. ajuda-nos agora! - gritou. enquanto corria. Um dos 
lobos desistiu de atacar o cavalo para se lanar sobre Quentin. O jovem 
defendeu-se com o ramo mas a criatura selvagem desviou-se e agarrou-o nas 
mandbulas. O lobo puxou o ramo com tanta fora que quase arrancou o 
brao de Quentin pela articulao, obrigando-o a larg-lo. Levantou a 
adaga na sua frente enquanto o lobo se preparava para novo salto.
Toli gritou qualquer coisa ininteligvel e Quentin viu um lobo de p 
sobre os quartos traseiros. com as patas da frente apoiadas nas costas do 
amigo e as mandbulas a estalarem de raiva.
Ouviu um rosnar na sua frente e Quentin olhou para baixo. para os olhos 
do lobo. amarelos e diablicos. O lobo voltou a rosnar, exps as cruis 
presas e encolheu-se, como uma cobra que se prepara para atacar.
Foi ento que Quentin ouviu barulho nos arbustos a seu lado. Outro lobo? 
No parecia o barulho de um lobo. Ouvia guinchos e o rudo de qualquer 
coisa muito grande abrir caminho no meio do matagal.

223

O lobo tambm ouviu e desviou os olhos de Quentin para olhar para os 
arbustos.
De repente os arbustos pareceram explodir com o som de guinchos muito 
agudos e de pequenos cascos a martelarem no cho, Formas escuras. que 
pareciam grandes pedregulhos, precipitaram-se para a clareira a partir do 
lado mais afastado da floresta. As formas escuras lanaram-se para cima 
dos lobos, guinchando e soprando enquanto corriam. Os lobos, rosnando de 
terror, viraram-se para enfrentar aqueles novos inimigos.
Uma das criaturas negras roou por Quentin quase o derrubando. Foi ento 
que Quentin percebeu que os animais guinchantes eram javalis selvagens. 
machos e fmeas.
Os javalis, conduzidos por um enorme animal de longas presas encurvadas, 
lanaram-se com toda a fria sobre a alcateia. Toli saltou para um lado 
quando os viu entrar na clareira para combaterem os lobos.
Voaram bocados de plo. Entre os ganidos dos lobos aterrorizados ouvia-se 
o rasgar de carne e o estalar de ossos ainda vivos. O grande lobo branco, 
o lder da alcateia, que iniciara o ataque, soltou um latido e fugiu para 
a floresta. O resto dos lobos da alcateia. ou pelo menos os que ainda 
conseguiam correr, meteram o rabo entre as pernas e seguiram-no, com os 
javalis a guincharem atrs deles.
Momentos depois, todos os animais haviam desaparecido e Quentin lutava 
por regularizar a respirao, parado no meio da clareira. Agora. tudo o 
que era possvel escutar era o tumulto, cada vez mais afastado. dos 
javalis em perseguio dos lobos. Toli apareceu a seu lado. espreitando-
lhe o rosto com um ar maravilhado. O Jher tinha a cara molhada de suor e 
de sangue, de um pequeno corte por cima de um dos olhos.
Kenta. ests bem? - perguntou, tocando no brao de Quentin com a ponta 
dos dedos.
- Sim. estou bem, mas tu ests a sangrar.
-  apenas um arranho - respondeu Toli, virando-se para onde os sons da 
perseguio se apagavam, na floresta.
- Nunca vi uma coisa assim - ofegou Quentin. - E tu?
Toli abanou a cabea.
-  sabido. entre o meu povo. que os javalis por vezes atacam os lobos 
que lhes ameaam as crias. Mas isto...  um grande pressgio. Whinock 
levantou a mo para nos proteger.

224

- O deus deve preocupar-se muito connosco - confirmou Quentin, 
recordando-se da orao desesperada que proferira momentos antes.
- Sim - concordou Toli, pensativo, - Mas h outra coisa...
Quentin esperou que Toli se explicasse.
- H muita caa para os lobos nesta floresta, veados e javalis, os velhos 
e doentes.  muito mais seguro do que atacar humanos com cavalos, Os 
lobos no atacam os homens... S raramente, no pico do Inverno, quando a 
comida escasseia e tm fome.
- Ento... o que foi que os fez atacarem-nos? - Quentin abriu muito os 
olhos. - Nimrood?
Toli respondeu com um criptico encolher de ombros e levantou os olhos 
para o ponto onde as rvores se juntavam. por cima deles, O pequeno 
pedao de cu exibia um bao tom azul.
- O sol vai nascer. Temos de nos por a caminho.
juntos, trataram de acalmar os cavalos e de levantar apressadamente o 
acampamento. Apesar de nenhum deles o ter dito, era bvio que queriam 
afastar-se dali o mais depressa possvel.

CAPTULO XXX

O capito Pyggin ameaara no dar aos seus homens a rao de rum que era 
habitual quando o navio chegava ao porto. Porm, tal como com a maior 
parte das suas outras ameaas, no falara a srio. Quando a escurido 
desceu, as canecas encheram-se de rum e a tripulao comeou a festejar.
Os cativos podiam ouvir o clamor rouco das vozes bbadas que cantavam. 
Normalmente, a grosseira festa teria durado toda a noite, mas o rum, 
agindo em conjunto com o poder da droga de Durwin, aumentou o seu efeito. 
Assim. depois de alguns coros brejeiros e de uma ou duas bebidas, os 
homens deixaram-se cair sobre o convs nos locais onde se encontravam. 
Era um acontecimento normal numa noite como aquela, mas que se verificara 
mais cedo graas s artes de Durwin.
As canes acabaram mais ou menos de repente, e pouco depois podia 
escutar-se o ressonar da tripulao, contra o fundo do suave marulhar das 
ondas.
- Pronto! - anunciou Durwin. - O remdio fez efeito. Agora, vamos a 
isto...
- Tenha cuidado, Alinea - avisou Theido. - Pode haver um ou dois ainda de 
p. Mantenha-se fora das vistas at ter a oportunidade de olhar em volta.
- Assim farei - respondeu a rainha. - No te preocupes, tiro-vos daqui 
num instante. - Alinea, que tinha um aspecto que era mais de moo de 
estrebaria do que de rainha, trepou a escadaria improvisada com carga e 
abriu a escotilha enquanto os outros se juntavam em baixo.

226

- Senhora... - gemeu Trenn. nervoso - preferia que me deixasse ocupar o 
seu lugar.
- No  necessrio - afirmou Durwin com um sorriso. - Alm disso, com a 
tua actual forma, o mais provvel era no conseguires passar por aquela 
abertura. Vamos, preparemo-nos para sair daqui...
Os trs homens subiram os degraus que davam para a porta trancada. 
Instantes depois ouviam os suaves passos de Alinea. que se aproximava.
- Que pode ver da? - perguntou Theido quando a sentiu junto da porta.
- Esto todos a dormir. excepto o cozinheiro e o seu ajudante. Esto a 
cabecear por cima das canecas. na outra extremidade do convs.
- Podero ver-nos, de onde esto?
- No... - respondeu Alinea, depois de uma pausa. - Penso que no. De 
qualquer modo, dentro em breve j nem conseguiro levantar-se. quanto 
mais erguer uma espada contra um cavaleiro.
- Temos de encontrar as chaves dessas fechaduras. Quantas so?
- Duas. mais a da porta. Onde  que devo procurar?
- No criado do capito - sugeriu Trenn. - Se no me engano, foi ele quem 
abriu a porta quando entrmos aqui pela primeira vez.
- Tens bons olhos. homem! - disse Theido, que depois se dirigiu a Alinea: 
- Procura o homem que nos recebeu. Parece-me que usa um casaco azul e  
vesgo.
- O mais certo  estar ao p do capito - sugeriu Trenn.
- Sim, procura o capito.
Ouviram os passos a afastarem-se e ficaram  espera.
Passou-se um minuto... e outro... e mais outro. Cada minuto que passava 
parecia prolongar-se muito para l do seu limite normal. Por fim. 
ouviram-na regressar.
- No consigo encontrar o homem. mas encontrei Pyggin. No tinha as 
chaves com ele.
- Que fazemos agora? - interrogou-se Theido.
- Se eu l estivesse em cima, encontraria aquele pirata. As chaves tm de 
estar a em cima, numa algibeira qualquer - afirmou Trem cerrando os 
punhos.
-Mal acabara de pronunciar aquelas palavras quando se ouviu um ribombar 
baixo, vindo de muito longe.

227

- Que  isso? Escutem!
- Foi um trovo - disse Alinea. - O cu est limpo, mas posso ver que se 
aproxima uma tempestade, de leste. Vem-se raios. Parece uma grande 
tempestade... e avana depressa.
- Temos de encontrar as chaves - murmurou Theido.
- Ento e a outra escotilha? - perguntou Durwin. - A grande, da carga. 
Podamos sair por a com facilidade.
Alinea, vamos experimentar a escotilha da carga. Como  que est fechada? 
- Enquanto Theido falava, ecoou um trovo a distncia.
Escutem - disse Trenn. - Est a levantar-se vento.
Era verdade. Conseguiam ouvir o vento a cantar no cordame mais alto do 
navio. Soprava com suavidade. mas a sua fora ia aumentando.
-  melhor acordar Ronsard - disse Durwin. - Pode precisar de algum tempo 
para reunir as suas foras.
Alinea regressou da sua inspeco  escotilha principal.
- Tem uma simples argola por onde passa uma tranca. Seguraram a tranca 
com um taco de madeira. Poderei abri-la se encontrar qualquer coisa com 
que bater no taco. - Afastou-se outra vez.  pressa. em busca de uma 
ferramenta.
- Vamos - ordenou Theido -. preparemo-nos para sair logo que a escotilha 
se abra.
Atarefaram-se mais uma vez em volta dos barris e fardos. que na sua maior 
parte estavam vazios. para construrem uma espcie de escada que 
terminava a curta distncia da escotilha. Theido mantinha-se no alto da 
pilha enquanto Durwin e Trenn lhe iam passando mais volumes. Ronsard 
continuava sentado a um lado, queixando-se:
- j lhes disse que estou bem, posso ajud-los...
- Poupe os seus msculos, bravo cavaleiro - retorquiu-lhe Trenn. - Pode 
vir a precisar deles ainda antes de a noite chegar ao fim.
- Precisarei tanto quanto vocs. suponho.
- Talvez... - afirmou Durwim - mas nenhum de ns esteve to perto da 
morte como tu. Ainda h muito que fazer antes de a nossa jornada chegar 
ao fim. Chegar o momento em que necessitaremos das tuas foras.
De cima chegava-lhes o som de Alinea a bater no fecho da escotilha. O 
instvel monte de carga oscilava de uma maneira perigosa com os balanos 
do barco, agora que as ondas estavam mais fortes.

228

Os trs homens sustinham a respirao e esperavam.
- Abriu-se! - gritou Alinea. A seguir ouviram-na soltar um grito: - Affil 
- O grito durou pouco tempo e foi rapidamente abafado.
- Passa-se qualquer coisa! - exclamou Theido. subindo pela montanha de 
carga e empurrando a escotilha.
Quando colocou a cabea acima do nvel do convs. viu Alinea agarrada por 
uma figura volumosa. que a segurava pela garganta. Lutava com fria. mas 
sem resultado, contra a fora superior do seu atacante.
- Larga-a, vilo. - gritou Theido. iando-se para o convs.
O atacante da rainha virou-se devagar, meio bbado. pronto para enfrentar 
o ataque de Theido. Este atirou-se de cabea de encontro ao homem, 
atingindo-o no estmago como um arete.
- Uuf! - soprou o homem, ao cair.
O pirata embateu no convs como uma rvore a cair e ficou estendido a 
olhar para o cu. Fez uma fraca tentativa para levantar a cabea 
encharcada em lcool. e depois adormeceu e deixou-a cair com um estrondo.
-  o cozinheiro? - perguntou Trenn, agora de p ao lado de Theido e 
pronto para a aco se os seus servios fossem necessrios.
- Sim - confirmou Alinea. aspirando o ar com dificuldade.
- Senhora, est bem? - O guarda pegou-lhe pelo brao e fez-lhe um gesto 
para que se sentasse.
- No te preocupes, meu bom guarda. Estou inclume. O homem estava 
bbado... Assustou-me um pouco. nada mais.
- Venham, todos! - gritou Durwin, trepando pela escotilha e com os olhos 
postos no cu. - Receio que a tempestade nos atinja demasiado depressa. 
Temos de partir!
Theido correu pelo convs, chamando:
- Trenn, ajuda-me a descer as embarcaes!
- Ronsard, tu e Alinea vo com eles. j l vou ter. dentro de momentos - 
disse Durwin, trepando a pequena escada que dava para as instalaes do 
capito.
Ronsard e Alinea dirigiram-se para onde Theido e Trenn faziam descer um 
dos botes do navio. A bordo existiam trs botes semelhantes e muito 
velhos. Estavam num estado miservel devido ao tempo e  negligncia. Um 
deles encontrava-se j na gua quando a rainha e o cavaleiro do rei se 
juntaram aos outros.
- Segura bem nesta corda - pediu Theido. enfiando o grosso

229

cabo na mo de Ronsard, A outra ponta estava ligada a um pequeno bote 
aberto. - Este  o que parece estar em melhor estado.
Trenn e Theido correram pelo convs para irem arriar os outros dois 
botes.
- No gosto do aspecto do cu - disse Ronsard, no momento em que caam a 
seus ps as primeiras gotas de chuva. que provocavam pequenas poas. O 
vento assobiava no cordame e o navio comeou a balouar contra as ondas. 
- Receio que vamos apanhar com o grosso da tempestade.
- Onde est Durwin? - perguntou Theido. aparecendo a correr.
- Penso que foi procurar as instalaes do capito - respondeu Ronsard.
- Bom. vamos para bordo enquanto podemos faz-lo. - Theido passou uma das 
compridas pernas por cima da amurada e enterrou as mos na rede que a se 
encontrava pendurada. Desceu ao longo do navio como uma aranha 
desajeitada e saltou para o bote. Pegou num remo e puxou a embarcao, 
que agora saltitava na ondulao como se fosse uma rolha. para mais perto 
do casco.
- Senhora, minha rainha,  a sua vez. Trenn, Ronsard, desam-na com 
cuidado.
- Posso descer sozinha - declarou Alinea, passando por cima da amurada 
como um marinheiro experiente, deslizando pela rede e saltando para o 
bote. Trenn e Ronsard ficaram a olh-la, espantados.
- Mexam-se, vocs dois! - gritou Theido.
Foi a vez de Ronsard, que desceu para o bote de uma maneira algo 
laboriosa. fazendo um movimento de cada vez. Seguiu-se Trenn. que 
desamarrou os cabos que seguravam as outras duas embarcaes.
- Onde  que se meteu esse feiticeiro bisbilhoteiro? berrou Theido, 
impaciente.
- Deixe-me pegar nos remos. senhor - pediu Trenn, sentando-se no banco 
central.
- Podem vir a ser precisos dois para remar - acrescentou Ronsard. 
instalando-se ao lado do guarda. - Pelo aspecto dessas ondas, vamos ter 
muito que fazer.
Alinea instalou-se em baixo, no meio do bote,  proa. Theido manejava o 
leme, lanando olhares ansiosos para a amurada, na expectativa de ver, a 
qualquer momento, o rosto redondo de Durwin.

230

- O que estar a atrasar o eremita? A tempestade est quase em cima de 
ns!
Os troves rebentavam  volta deles e os raios rasgavam as nuvens 
pesadas. As ondas, cobertas de espuma branca, lanavam salpicos que os 
deixavam encharcados, e a chuva, que caa agora com mais fora, 
martelava-lhes nos corpos.
- Olhem! - gritou Alinea, com a voz perdida no meio dos rugidos do vento 
e dos troves. Os outros seguiram com os olhos o seu brao esticado.
- Valham-nos todos os deuses! - murmurou Trenn. As palavras foram-lhe 
arrancadas da boca pelo vento que uivava. Emitindo um brilho verde na 
escurido. rodando e contorcendo-se como uma gigantesca serpente, uma 
tromba-d!gua avanava directamente para eles. O assustador remoinho, 
iluminado pelos terrveis clares que choviam  sua volta. girava e 
enrolava-se sobre si mesmo, erguendo-se no cu por mais de meia lgua. 
Para l dele via-se uma cortina de chuva, empurrada por ventos 
ensurdecedores. Ao lado deles, o navio estremecia cada vez que era 
atingido por uma onda. O bote agitava-se violentamente, mas mantinha-se 
no alto das ondas, descendo depois ao vale para wltar a trepar a colina 
de gua do outro lado.
Por fim, o rosto de Durwin espreitou por cima da amurada. Sem sequer 
lanar um olhar para a tromba-d!gua. apesar de a tempestade parecer 
preencher todo o mundo com os seus uivos, o eremita passou por cima da 
amurada e desceu pelo casco do navio.
- Cuidado! - gritou Theido. Ningum o ouviu. mas viram-lhe a boca a 
formar a palavra.
A rede, agora demasiado escorregadia, estava a revelar-se perigosa. Os 
ps de Durwin escorregaram por duas vezes, e s evitou mergulhar no mar 
em fria por ter enfiado os braos dobrados por entre as malhas da rede.
- Salta! - gritou-lhe Theido. Durwin, tivera a mesma ideia e dera meia 
volta. Calculou a distncia e saltou para o bote. Logo que o eremita 
atingiu o fundo da embarcao. Theido empurrou-a para longe do casco do 
navio.
Trenn e Ronsard aplicaram toda a sua fora aos remos e comearam a remar 
furiosamente. O pequeno bote ia mordendo a gua e afastando-se lentamente 
do navio.

231

Theido atirou-se contra a forte cana do leme e dirigiu-os para a costa, 
agora visvel como uma fina tira branca no meio da escurido.
Quando tiveram a coragem necessria para a olhar novamente, viram que a 
tromba-d.gua crescera de uma maneira fantstica enquanto varria a 
superfcie do mar. Aspirando cada vez mais gua para o seu ciclone, 
oscilava como um fino dedo malfico a traar um percurso de morte em 
direco ao pequeno bote. As cegas, o grupo lutava contra as ondas que 
ameaavam engoli-los em cada vale e vir-los em cada pico. Sem saber 
muito bem como, Theido conseguia manter o bote apontado para a costa. 
enquanto Trenn e Ronsard o faziam avanar a pouco e pouco. Durwin, 
agarrado  amurada com os dedos muito brancos, levantou os olhos para o 
cu e orou:
- Deus de toda a criao, poupa-nos  ira da tempestade. Leva-nos a salvo 
para terra. pois sem a tua ajuda  certo que nos afogaremos.
A bordo ningum conseguiu ouvir as palavras de Durwin, mas todos sabiam o 
que o eremita estava a fazer. Os pensamentos dos outros membros do grupo 
foram como que um eco dos de Durwin.
Ouviram um grito, que os levou a virarem-se para Theido, que agitava os 
braos. Espreitaram por entre as massas de chuva para o stio indicado 
por Theido, e viram, para grande horror de todos, que a tromba~d!gua 
pairava atrs deles, agitando as guas como uma criatura mergulhada na 
agonia que libertasse toda a sua fria sobre o mar.
Theido atirou-se para a frente. para o fundo do barco, indicando aos 
outros que lhe seguissem o exemplo. A gua caa sobre eles em verdadeiros 
lenis. O uivo da tempestade ensurdecia-os.
Ento. de sbito e inexplicavelmente, quando a terrvel tromba deveria 
ter-se precipitado sobre o grupo, no se ouviu um som. Nada. A chuva 
parou e as guas acalmaram-se.
Durwin levantou a cabea e espreitou para cima.
- Olhem. a tromba passou por cima de ns!
Era verdade. A tromba-d-gua. que ainda momentos antes pairava sobre 
eles, ameaando engolir a pequena embarcao com todos os seus ocupantes. 
passara-lhes por cima e danava no alto, entre as nuvens. Podiam ver o 
tornado esverdeado a girar directamente por cima das suas cabeas. 
contorcendo-se como um verme a enterrar-se e dirigindo-se para terra.

232

A calma durou apenas breves segundos, porque a seguir o vento e a gua 
voltaram a atingi-los com redobrada violncia. o bote oscilava, 
impotente, sobre a torrente. O leme embateu contra o casco e partiu-se, 
Theido ainda se atirou para a barra, mas era demasiado tarde. A barra do 
leme rodou, intil, nas suas mos.
- As rochas! - gritou Alinea.
Viraram-se todos, para verem as rochas da ilha a sobressarem da 
ondulao e a desaparecerem, para momentos depois voltarem a ver-se 
quando as vagas deslizavam e desciam em volta delas.
As rochas formavam uma barreira baixa, de dentes aguados, que protegia a 
baa que se encontrava do outro lado. Com tempo calmo. as ondas morriam 
contra elas e at o marinheiro mais incipiente as poderia ultrapassar sem 
problemas. Agora, contudo, os dentes de pedra rosnavam. furiosos, 
enraivecidos por aquele mar que fervilhava.
O bote foi erguido muito alto e atirado para a frente com as vagas. 
Quando a onda que os levava se esmagou numa rocha  direita deles, 
Ronsard pegou num remo e apoiou-o na pedra no momento em que esta voltou 
a aparecer, desviando o bote para um lado. Mesmo assim, o frgil casco 
ainda tocou na slida massa de pedra.
A seguir, a embarcao foi mais uma vez erguida e empurrada para a 
frente, Do seu lado, Trenn limpava a espuma que lhe cobria os olhos e 
mantinha o remo preparado para se afastar de alguma outra rocha. Porm, 
antes que algum a pudesse ver, a ponta aguada ergueu-se do meio da 
espuma, e ouviram as madeiras a estalarem quando o bote caiu em cheio 
sobre o alto de uma enorme pedra.
O casco abriu-se e amolgou-se. O barco oscilou, agora completamente fora 
da gua, seguro no alto da rocha enquanto a ondulao descia. Por um 
segundo, o pequeno bote permaneceu no ar, como um peixe apanhado por um 
gigantesco dente de pedra serrilhada. Ento, com um safano lateral, o 
casco cedeu e comeou a soltar-se.
Uma onda caiu sobre eles, partiu o barco em dois e atirou os seus 
ocupantes para o meio da fria das guas.

CAPTULO XXXI

Nimrood caminhava nas altas muralhas do seu castelo, com a capa preta a 
flutuar atrs dele. Os cabelos negros como as penas de um corvo, apesar 
de riscados de branco. tal como os clares dos relmpagos no meio das 
escuras nuvens da tempestade que observa e o delicia, voavam em 
desalinho. O estrondear cataclsmico dos troves ecoava nos vales que 
jaziam por baixo do seu poleiro montanhoso. e o diablico feiticeiro 
soltava gargalhadas agudas cada vez que os ouvia.
- Sopra, vento! Ruge. trovo! Raios, iluminem os cus! Sou eu. Nimrood, 
quem o ordena! Ah! AhI Ah!
O feiticeiro no tinha qualquer poder sobre a tempestade, que era uma 
simples manifestao da natureza. No entanto, enquanto olhava na direco 
da baa onde o navio de Pyggin se encontrava ancorado, parecia retirar 
uma estranha vitalidade daquelas terrveis foras. Nimrood no tinha 
possibilidades de ver o navio. Construra o castelo no mais elevado pico 
da mais alta das montanhas que se erguiam no mar para formarem aquela 
ilha perdida. A baa ficava a mais de uma lgua, a voo de pssaro. A 
tempestade. que espalhava a sua raiva at bem alto na atmosfera, abria as 
suas asas para a ilha, vinda do mar. Nimrood observava-a, com o corpo 
velho e magro a estremecer em paroxismos de loucura demencial. As suas 
feies sinistras estavam erguidas para a tempestade e eram iluminadas 
pela brilhante fria dos raios. O feiticeiro cantava, danava e ria-se, 
arrebatado com a violncia que se desenrolava por cima dele.
Por fim, as primeiras pesadas gotas de chuva precipitaram-se para a 
terra. Odiando sair dali, mas detestando muito mais a humidade, Nimrood, 
o necromante, virou-se e fugiu para os seus aposentos.

234

- Euric? - gritou, libertando-se da capa negra. - Acende o incenso. 
Apetece-me seguir a tempestade.
O ajudante correu na frente dele enquanto desciam a escada de
pedra, em espiral. que dava acesso a uma cmara interior, toda em pedra 
nua, excepto quanto ao altar de cinco lados que se encontrava no seu 
centro.
Euric. com uma tocha na mo. deslocou-se em volta do altar acendendo os 
recipientes com incenso, colocados sobre baixos trips de metal, a cada 
canto do altar.
- Vai-te! - gritou Nimrood, depois de terminada aquela tarefa.
Nimrood deitou-se em cima do altar e dobrou as mos sobre o
peito. Deixou abrandar a respirao. que se tornou cada vez menos 
profunda, enquanto o fumo do incenso remoinhava  sua volta. Momentos 
depois entrava num transe profundo e o feiticeiro pareceu deixar de 
respirar.
Quando entrou no transe. a sua mente elevou-se, parecendo atravessar 
camadas de fumos coloridos e erguendo-se com os pungentes
vapores do incenso. Quando o fumo se dissipou, voava alto, sobre a Terra, 
na frente da violenta tempestade.
O feiticeiro fechou os olhos. Quando os abriu, tomara a forma de um 
francelho. pairando na turbulncia dos ares. O corpo tremia-lhe de
excitao enquanto brincava por entre as nuvens agitadas, mergulhando
nos ares e voltando a subir num abrir e fechar de olhos.
Rodopiando, em xtase, no meio da fria dos ventos. observava a Terra a 
deslizar sob ele. Mesmo por baixo podia ver o seu castelo, que era uma 
mancha negra no topo da montanha. Para ocidente. descendo rapidamente
em direco  baa, as curvas das colinas cobertas de espessos bosques
pareciam dorsos de animais atormentados. Para l delas ficava o brilhante
crescente da prpria baa. Sob o sbito claro de um relmpago, os seus
aguados olhos de francelho avistaram qualquer coisa na baa.
- Que poder ser? - perguntou para si mesmo. - Vou voar mais
perto, para ver melhor.
Nimrood mergulhou no vento, lanando-se para baixo como um
cometa e dirigindo-se para a baa.
- Um navio! - guinchou, quando outro raio revelou os contornos
do objecto, Pairou por cima da baa. - Poder ser o de Pyggin? To
cedo? S o esperava dentro de uma semana.

235

Ento, deslizando no ar sobre a baa. com o vento a assobiar-lhe entre as 
penas, Nimrood viu um pequeno bote a afastar-se do navio.
- Ah! - gritou. - Chegaram os meus convidados!
Nimrood voou de regresso ao castelo, com a velocidade do vento que 
soprava, e entrou na cmara pela estreita fenda existente na muralha. 
Pousou na beira do altar e transformou-se num farrapo de fumo cinzento 
que pairou no ar antes de se dissolver por cima da sua prpria figura em 
transe.
Mal o fumo desapareceu, os olhos do feiticeiro abriram-se de repente e 
sentou-se com um estico.
- Euric! - guinchou. - Vem c, imediatamente! Onde estar aquele estpido 
idiota? - murmurou, descendo do altar. - Euric!
Ouviu ento os passos rpidos do seu ajudante, precipitando-se para 
responder  chamada do amo. Nimrood foi ter com ele  porta.
- Chamou-me. sbio senhor? - O miservel Euric fazia vnias e agitava-se 
todo em frente do feiticeiro.
- Sim, sapo! Temos trabalho a fazer. os hspedes h tanto tempo 
aguardados esto a chegar. Temos de nos preparar para os recebermos. 
Chama os guardas e rene-os ante o meu trono. Quero dar-lhes instrues. 
Despacha-te! No h tempo a perder!

Era a terceira estalagem que tentavam naquela manh. Esta encontrava-se 
no cais. mesmo  borda da gua. Toli e Quentin ficaram a olhar para a 
tabuleta esbatida pelo tempo, que oscilava e guinchava sob o vento. Dizia 
"Estalagem Peixe-Voador" em grandes letras azuis pintadas  mo. com 
algum cuidado. pelo proprietrio, cujo nome, Baskin, se encontrava tambm 
pintado por baixo.
Creio que  a ltima em Bestou. - comentou Quentin. - Deve ter sido aqui 
que ficaram. Vamos.
Sacudiu a cabea para que Toli o seguisse ao interior. O Jher, invadido 
pelo espanto que todos os da sua raa sentiam pelas cidades, fossem elas 
do tamanho que fossem. seguiu-o com movimentos algo rgidos, olhando para 
o mar.
Perdoe. senhor... Chama-se Baskin? - perguntou Quentin com delicadeza ao 
primeiro homem que encontrou no interior.
O homem olhou para ele por cima do saco de moedas que estava a contar. 
com os olhos a pestanejarem por causa da luz da porta aberta.

236

- Meu bom amigo! - exclamou, algo surpreendido.
-  o senhor Baskin? - perguntou Quentin mais uma vez. espantado com as 
maneiras invulgares do homem.
- Ao seu servio. Sou eu, sim! Se  o Baskin que procuram. o Baskin 
encontraram. Que posso fazer por... - lanou uma olhadela rpida e no 
inteiramente aprovadora para Toli - por dois jovens senhores?
- Estamos  procura de um grupo que seguiu viagem a partir de Bestou... 
h j algum tempo.
O homem coou a cabea com um ar intrigado.
- Bom.  uma descrio que serve a um grande nmero de pessoas, 
suponho...
- Eram quatro...
- Isso ajuda, mas no muito. H muitos mercadores a viajarem juntos.
- Uma das pessoas era uma dama... muito bela.
- Assim  melhor... No, no me parece ter visto um grupo assim. Em que 
navio partiram?
- No sei. senhor.
- Disse que ficaram aqui na estalagem?
-  possvel... mas no tenho a certeza.  o ltimo stio em Bestou onde 
poderiam ter ficado... se  que o fizeram.
- Ora deixem-me ver... - disse Baskin. esfregando o queixo.
- Esto a procura de um grupo que chegou no sabem quando, ficou num 
stio que no sabem onde , e partiu no sabem com quem.  isto?
Quentin ficou com o rosto vermelho e olhou para o cho.
- Ora. no te rales, rapaz. Estava apenas a resumir os factos...
- Lamento t-lo incomodado - murmurou Quentin, dando meia volta para se 
ir embora.
- Tens a certeza de que no te consegues recordar de mais nenhuma 
informao? - perguntou Baskin nas costas deles.
Quentin parou e pensou por instantes, depois disse:
- Queriam ir para Karsh.
Ao ouvir aquela palavra, o estalajadeiro deu um salto no banco e rodeou a 
mesa para ir ter com Quentin e Toli.
- Shhh! No pronunciem esse nome! D azar! Mas... hum... O homem passou a 
mo pela testa alta. - Parece-me que me recordo deles... Sim, Era trs e 
a dama. Um era alto e nervoso. Parecia um

237

homem temperamental, o outro era grande, vestia-se como um sacerdote... 
mas eu nunca tinha visto um sacerdote daqueles. Tinham uma espcie de 
criado com eles, muito forte. No o vi muitas vezes. A dama... sim. podia 
ser bonita, mas no se dava por isso. S usava roupas de homem. Talvez 
estivesse disfarada...
- Sim. so eles! - exclamou Quentin.
- Tambm me parece. Queriam ir--- para esse tal lugar. Tiveram 
dificuldades (e quem no as teria para encontrarem um capito honesto que 
os quisesse levar.
- Encontraram algum?
- Sim. creio que sim, Devem ter encontrado. Foram-se embora muito cedo no 
dia em que os navios se fizeram ao mar pela primeira vez. Tinham pago a 
conta na noite anterior e saram. como toda a gente, logo de madrugada.
- Em que dia foi? - Quentin quase no conseguia respirar, de alvio por 
ter recebido notcias dos amigos.
- Oh. deve ter sido h uma semana. Sim. foi pelo menos h uma semana... 
talvez mais. Deixem-me ver... - O estalajadeiro virou-se e regressou  
mesa. Havia uma estante ali perto, onde levou algum tempo a procurar um 
pergaminho. que acabou por retirar do seu lugar.
- Sim. aqui est. Recordo-me agora. Deixaram os cavalos no ferreiro, l 
mais para cima. Tenho aqui o registo. - O estalajadeiro colocou o papel 
debaixo do nariz de Quentin.
- Tero dito em que navio iam?
- No, no ouvi nada. No entanto, tenho a certeza de que por ouro 
suficiente, deve ter havido quem quisesse arriscar-se. Por outro lado, e 
como j disse. devem ter sido muitos os que se recusaram.
Baskin olhou para Quentin com um ar confiante e perguntou:
- No ests a pensar em segui-los. pois no? - Leu a resposta no rosto de 
Quentin antes de este poder responder. - Esquece-te disso. Da no pode 
vir nada de bom. Vou dizer-te o mesmo que lhes disse a eles: ".Mantenham-
se longe desse stio." Volta para de onde vieste. No te aproximes dessa 
terra diablica!

CAPTULO XXXII

O prncipe Jaspin avanava pelos amplos corredores do castelo de Erlott, 
a caminho do grande salo, onde o Conselho de Regentes se encontrava num 
beco sem sada pelo terceiro dia consecutivo. Era seguido por dois dos 
seus prprios guardas pessoais, com alabardas. onde flutuavam pendes 
reais. Jaspin escolhera aquele momento para recordar aos recalcitrantes 
regentes o seu poder e prestgio.
Atrs dele seguia tambm Ontescue transportando um pequeno cofre 
ornamentado. Ao lado de Ontescue caminhava um homem com umas gastas 
roupas de soldado, de passos hesitantes. e olhos que giravam de um lado 
para o outro como se no tivesse uma conscincia tranquila e procurasse 
um buraco onde se esconder.
A parada chegou s altas portas do grande salo, fechadas e com o caminho 
barrado por trs guardas, um dos quais era o marechal do Conselho de 
Regentes.
- Alto! - gritou o marechal. - O conselho est reunido em sesso!
- O conselho no sabe o que fazer - disse o prncipe Jaspin, com os seus 
modos mais untuosos. - Tenho comigo tudo o que necessitam para poderem 
resolver o impasse. Deixa-me entrar! O marechal encheu as bochechas de 
ar, como se fosse protestar com violncia, quando se ouviu uma pancada na 
porta por detrs dele.
- Afaste-se - ordenou o marechal para o prncipe, virando-se para a 
porta.
- Marechal, o Conselho receber o prncipe - disse Sir Bran uma ligeira 
por fenda na porta. Depois acrescentou, entre dentes, para Jaspin:

240

- Lamento, mas s agora recebi o seu sinal, no tive tempo para dar 
instrues para o deixarem entrar imediatamente.
- Humm... - fez o prncipe. - Ests pronto? - Sir Bran acenou que sim 
enquanto o prncipe entrava. - E os outros?
Ontescue acompanhou-os, fazendo sinal ao homem vestido de soldado para 
ficar  espera. A enorme porta fechou-se com grande rudo e todas as 
cabeas se viraram para verem quem entrara para lhes interromper as 
deliberaes.
- Protesto! - gritou uma voz por cima do murmrio que acompanhou a 
descoberta de que Jaspin invadira a privacidade do Conselho. - Protesto 
contra a presena do prncipe nesta reunio. - A voz estridente pertencia 
a Lord Holben, que se encontrava de p, apontando um dedo acusador na 
direco de Jaspin.
- Venho como amigo deste Conselho. para lhe apresentar as provas de que o 
mesmo necessita.
Lord Holben cerrou os punhos ao lado do corpo e baixou a cabea, rgido, 
para conferenciar com um dos seus amigos.
- O conselho tratar de obter as suas prprias provas - retorquiu Holben. 
Houve acenos de confirmao em volta de toda a mesa.
- Sem dvida... - disse o prncipe, com um sorriso amvel, mas o Conselho 
pode tambm examinar todas as provas provenientes de outras fontes, se 
assim o desejar. - Verificaram-se mais acenos de assentimento.
- Como  que  do seu conhecimento que o Conselho precisa de provas? - 
perguntou Lord Holben com uma voz tensa e dificilmente controlada. - 
Parece ter grandes orelhas, prncipe. Orelhas to grandes como as de um 
burro!
- Isso  imprprio, senhor! - gritou Bran, parecendo querer precipitar-se 
para onde Lord Holben tremia de raiva.
- Senhores, acalmem-se, por favor! - gritou Navior, lder do Conselho. - 
O conselho tem o direito de decidir se admitir ou no as provas do 
prncipe Jaspin. Que me dizem, meus senhores?
A comear pela cadeira que se encontrava  direita de Lord Naylor. todos 
os regentes manifestaram a sua opinio: sim, ou no, a favor ou contra a 
admisso do exame de uma prova fornecida por Jaspin. A curiosidade levou 
a melhor sobre um grande nmero de membros da assembleia, e o prncipe 
foi convidado a apresentar a sua prova.

241

- Vergo-me ante o vosso discernimento - disse o prncipe, fazendo uma 
grande vnia. Sorriu, mas os seus olhos pareciam de pedra quando os 
pousou sobre Lord Holben e o seu grupo de dissidentes.
- Constou-me que o Conselho se encontra num impasse por falta de provas 
de que Sua Majestade morreu. Apesar de me entristecer grandemente (e no 
podem imaginar at que ponto) ter de transmitir esta m notcia, no 
seria correcto que, podendo acabar com o beco sem sada em que vos 
encontrais, me mantivesse de parte e no vos dissesse nada.
Em volta da mesa voltaram a ouvir-se murmrios de aprovao. Jaspin 
observou um a um os seus seguidores, a quem pagara generosamente.
- Recebi, ainda h muito poucas horas, uma prova final da morte do rei. 
Apesar de constituir para ns um grande golpe, pois sempre tivemos a 
esperana de o ver regressar um dia, o facto confirma as razes para a 
convocao desta reunio. - Levantou uns olhos muito tristes, que miraram 
toda a sala. - As nossas piores desconfianas esto agora confirmadas.
O prncipe Jaspin levantou um dedo e fez sinal a Ontescue que se 
aproximasse com o cofre ornamentado a jias. O prncipe pegou no cofre e 
colocou-o em frente de Lord Naylor. Entregou^lhe a chave, dizendo:
- Creio que encontraro a dentro a resposta a todas as vossas perguntas.
Sem uma palavra, Lord Navior pegou na chave. colocou-a na fechadura e 
girou-a. Em todo o salo ouviam-se apenas os estalidos da fechadura a ser 
aberta. Navior retirou a chave e abriu a tampa do cofre com cuidado. O 
que viu no interior fez com que lhe desaparecessem as cores do rosto. 
Fechou a tampa e olhou para outro lado, deixando-se afundar na cadeira, 
de olhos fechados.
O pequeno cofre dourado foi dando a volta  mesa, detendo-se na frente de 
cada um dos regentes. O prncipe Jaspin observava o efeito do contedo do 
cofre sobre os diversos membros do Conselho. Alguns olhavam-no, 
descrentes, outros mostravam uma profunda tristeza, tal como Naylor, e 
ainda outros nada mais exprimiam do que curiosidade mrbida.
Todos, excepto Holben, pareceram aceitar que se tratava de prova 
suficiente para confirmar a morte do rei.

242

- Estar convencido, prncipe Jaspin, de que estes vagos despojos so o 
suficiente para o esclarecimento das nossas dvidas? - perguntou. 
respirando fundo. -  uma fantochada! - gritou a seguir, afastando o 
cofre para longe e derrubando-o. O contedo. um dedo cortado, outrora 
sangrento e mutilado mas agora descorado e a apodrecer, rolou sobre a 
mesa. O dedo exibia um anel de sinete do prprio rei Eskevar.
- Vi esse anel na mo de Sua Majestade, com os meus prprios olhos! - 
gritou algum.
- Eu tambm! Posso garantir que  genuno! - gritou outra voz.
Houve mais vozes a juntarem-se ao coro, mas Holben no se mostrava 
disposto a ceder.
- O anel pode ser genuno, meus senhores. Na verdade. o dedo que ostenta 
o anel at pode ser do rei Eskevar. Todavia. isso nada prova! Nada!.
- Tem razo - comentou um nobre sentado  direita de Holben. - Um anel de 
rei e um dedo de rei. mesmo que sejam verdadeiros, no so prova da morte 
do rei. Qualquer pessoa pode ser separada de um ou de outro. sem que essa 
perda se revele fatal.
As dvidas comearam a perpassar por vrios rostos.
- Um monarca nunca aceitaria que o seu anel. smbolo da soberania, lhe 
fosse retirado, excepto se se encontrasse  beira da morte. O rei Eskevar 
preferiria lutar at ao seu ltimo flego do que ceder o anel. Para mim. 
a prova  suficiente. - O orador, Sir Grenett, sentou-se com um ar 
triunfante. como se tivesse ganho o dia.
Porm, Lord Holben continuava a no ceder.
- Sim, concordo em que o rei Eskevar preferiria ter de enfrentar mil 
mortes a entregar o seu anel. Porm... Sua Majestade pode nada ter tido 
que ver com o caso. - Virou-se para Jaspin. a quem olhou com um feroz ar 
de desafio.
Jaspin sacudiu a cabea devagar e respondeu, aparentemente com grande 
relutncia:
- Esperava poupar-vos aos pormenores macabros, mas uma vez que Lord 
Holben quer manchar a ilustre memria do nosso grande monarca com o seu 
mrbido desrespeito... - Virou-se e fez sinal a Ontescue para mandar 
entrar a testemunha.
Ontescue. que se encontrava  espera, deu uma forte pancada na porta e o 
marechal do Conselho abriu-a e deixou entrar o soldado.

243

- Este homem, este pobre diabo que se encontra na vossa frente, seguiu o 
nosso rei at terras estrangeiras e lutou sempre a seu lado. Estava 
presente no fim. quando Eskevar foi morto, na ltima batalha. e o inimigo 
lhe cortou o dedo com o anel.
O soldado deixou cair a cabea e fez o possvel para se mostrar cheio de 
desgosto.
- Como  que o anel foi parar  tua posse? - perguntou Lord Naylor com 
delicadeza.
- Senhor. a viso do rei cado no campo, morto, encheu os nossos homens 
de uma to grande raiva que chacinaram os inimigos que tinham morto o 
nosso rei, quando j se retiravam, vitoriosos. Foi assim que recupermos 
o anel.
- Viste Sua Majestade cair?
- Sim, meu senhor. - Os olhos do soldado saltavam. inquietos, de rosto 
para rosto.
- E como  que o... anel, foi parar s tuas mos?
- Como a guerra terminara, regressmos todos a casa. Encontrava-me no 
primeiro navio a levantar ncora, mas que infelizmente foi o ltimo a 
partir antes de chegar o Inverno. Ofereci~me para vir  frente e para o 
trazer.
- Os exrcitos regressaro em breve?
- Sim, meu senhor. nos primeiros navios da Primavera.
Lord NavIor voltou a fechar os olhos. como se se encontrasse muito 
fatigado.
- Obrigado, bom soldado.
Fez um aceno, mandando embora o homem. O soldado recuou, afastando-se da 
mesa redonda, enquanto fazia uma vnia. O prncipe Jaspin mandou-o 
retirar-se com um gesto furtivo.
- Onde est o teu comandante? - inquiriu Holben. - Porque  que estes 
despojos no tiveram direito a uma guarda de honra? Responde-me!
- O homem veio ter directamente comigo assim que lhe foi possvel - 
interveio o prncipe Jaspin, ignorando as perguntas de Lord Holben. A 
testemunha saiu da sala.
- Sim.  claro... - concordou Navior, cansado. A seguir levantou a cabea 
e. com uma voz carregada de emoo, declarou: -  o sufidente para nos 
decidirmos. No que a mim se refere, escolho acreditar

244

naquilo que vejo e no que foi dito entre ns. No vejo outra soluo se 
no a de fazermos o que nos trouxe aqui.
- Podemos esperar - sugeriu Holben  pressa. - Esperaremos pelo regresso 
dos outros. Pelos membros da guarda do rei, por exemplo. Pelos que o 
enterraram.
- E quantos seriam precisos para o fazer acreditar? - perguntou Sir Bran. 
- No quer crer nos seus prprios olhos... Porque iria acreditar nos 
olhos dos outros?
- Este Conselho foi encarregado de cumprir uma obrigao que no pode 
esperar - declarou Sir Grenett. - O reino grita por uma liderana forte.
- Ser que ouvi bem. Sir Grenett? - troou Holben. - Desde quando  que 
uma liderana forte o preocupa assim tanto e ao seu bando de miserveis 
ladres?
- Cuidado com a lngua, senhor. Est a ir demasiado longe. Este no  
local apropriado para as nossas desavenas - ripostou Sir Grenett, com um 
grande domnio.
- Tem razo, Sir Grenett - interveio NavIor, fazendo de mediador. - No  
este o momento nem o lugar para resolver essas coisas. Senhor Lord 
Holben, pode manifestar a sua discordncia, mas o resto desta assemblia 
tem o direito de votar como desejar. Prncipe Jaspin. deixe-nos, para que 
possamos cumprir o nosso dever. Quando o Conselho tomar uma deciso, 
trataremos de o mandar informar sem perda de tempo.

- Creio que uma coroao em junho seria uma maravilha! - riu-se o 
prncipe Jaspin, ao regressar aos seus aposentos. - Que achas, Ontescue? 
Estou mais que feliz! Finalmente,  minha! Vinho! Precisamos de vinho! 
Quero celebrar! Manda o camareiro abrir uma garrafa do meu melhor...
- j o fiz, senhor - disse Ontescue. - Eu prprio gostaria de lhe dar os 
parabns e aproveitar a oportunidade para o recordar de algumas promessas 
sobre que chegmos a acordo...
- Ora, no estou com disposio para discutir trivialidades! Voltaremos a 
falar nisso em breve. Temos muito tempo. Agora... celebremos!
- No gostaria de ser prematuro... - murmurou Ontescue.
- Prematuro? Foi isso o que disseste? Nem pensar! - No entanto, o brilho 
desapareceu dos olhos de Jaspin e o sorriso apagou-se-lhe dos

245

lbios. - Pois bem, se achas que devemos esperar. ento esperemos.  
melhor,  claro. Partilharei a celebrao com os meus amigos. Sim,  o 
melhor.
Jaspin atirou-se para a cadeira, onde passou uma hora de preocupao,  
espera da notcia que havia tanto ansiava por escutar. Por fim um 
camareiro enfiou a cabea pela fresta da porta, para anunciar que um 
grupo de regentes do Conselho desejava v-lo.
- Deixa-os entrar, estpido! - gritou para o homem, cuja cabea 
desapareceu imediatamente.
- Senhor. boas notcias! - Sir Bran atravessou a sala de um salto, 
seguido por Grenett e por vrios outros. - Fui encarregado pelo Conselho 
de Regentes de o informar que foi nomeado para ocupar o trono de Askelon, 
rei de Mensandor.
- O conselho fica a aguardar a vossa deciso a respeito da coroao - 
acrescentou Sir Grenett. - Permita-me que me encarregue de os informar, 
para que a coroao seja imediatamente anunciada.
- Hum... Ainda no tinha pensado nisso - respondeu o prncipe Jaspin, com 
um esgar trocista nos lbios carnudos. - Todavia... creio que o vinte e 
quatro de junho seria um dia perfeito. Sim,  isso mesmo. Ordena que o 
proclamem.

CAPTULO XXXIII

Quentin encontrava-se sentado nas pedras geladas da muralha da baa, 
batendo com os ps nos espessos musgos verdes. Toli permanecia de p a 
seu lado. como uma sombra, de braos cruzados sobre o peito. olhando para 
a baa. As gaivotas guinchavam e pairavam no ar, demonstrando o seu 
desagrado por os dois humanos lhes terem invadido aquele lugar 
ensolarado.
- Os navios partiram - suspirou Quentin. passando os olhos pelo grande e 
vazio espao da baa. De todos os navios que uma semana antes se 
encontravam ali ancorados s dois tinham ficado para trs. mas 
necessitavam de grandes reparaes e to depressa no iriam a lado 
nenhum. Quentin j se informara a esse respeito.
- Regressaro - replicou Toli, que tinha um jeito especial para expor os 
factos bvios de uma maneira muito misteriosa.
- Sem dvida. claro que voltaro. mas pode ser j demasiado tarde.
Quentin levantou-se da muralha inclinada, toda em pedra, que evitava que 
o mar entrasse pelas ruas de Bestou.
- Agora, no sei o que fazer - lamentou-se. Voltou a suspirar e escovou 
as calas com as mos.
- Wis thera ilya murenno - disse Toli, com os olhos sempre postos no 
mar.
- O vento... diz o qu? - perguntou Quentin, incapaz de traduzir toda a 
frase.
- O vento sopra para onde ele ordena - replicou Toli. Virou-se para olhar 
de novo para Quentin, que no pde deixar de notar que o seu servo tinha 
ainda uma estranha e distante luz nos olhos.

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- Quem  que ordena?
- Whinock.
- Hummm... - fez Quentin. pensativo. - Ento deixemos as coisas a seu 
cuidado. Anda, vamos tratar dos cavalos. - Lanando uma olhadela para o 
Sol, calculou que se aproximava o meio-dia. - J era capaz de comer 
qualquer coisa. E tu?
Treparam a longa vertente da colina em que Bestou fora construda, e que 
descia das florestas, mais acima, para ir mergulhar no mar. Tinham 
deixado os cavalos aos cuidados de um agricultor, nos arredores de 
Bestou, por no saberem se os animais seriam bem recebidos numa cidade de 
marinheiros.
Atravessaram a cidade num instante. pois esta estendia-se ao longo de 
toda a baa mas no era muito larga. Os mercadores acumulavam-se junto  
costa. Por cima deles ficavam as casas dos ricos proprietrios de navios 
que se tinham instalado em Bestou, e para l destas encontravam-se as 
dispersas habitaes de pedra e madeira dos habitantes das colinas e dos 
agricultores. Caminharam sem pressas at a arruinada casa do agricultor. 
Quando chegaram, Quentin falou com o homem, cuja mulher insistiu em que 
partilhassem com eles a refeio do meio-dia. Toli levou os cavalos a 
beber, e depois soltou-os para poderem pastar as novas ervas verdes que 
tinham nascido em volta da casa.
Os viajantes, e seus anfitries comeram grandes bocados de po escuro que 
a faladora mulher torrava num pequeno lume, na lareira, e grandes fatias 
de um queijo amarelo. Durante a conversa, o agricultor mencionou e 
referiu-se vrias vezes aos cavalos, com admirao, em especial no 
respeitante  tremenda fora de Balder.
- Aposto que era capaz de trabalhar - disse, como se estivesse a 
comunicar alguma grande verdade.
- Balder  um cavalo de batalha - explicou Quentin. - Foi treinado para 
combater.
- Pois, e  muito forte.
- Bom... - Quentin piscou um dos olhos para Toli - tem alguma tarefa 
apropriada para um cavalo? Veramos o que ele consegue fazer.
- Oh, no, no. No estava a pensar... Bem, temos aquela raiz de rvore 
no meio do campo, mas no... Acha que ele seria capaz?
- Podemos experimentar - disse Quentin, pondo-se de p com dificuldade. 
Desde que partira de Dekra que no comera tanto de uma

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s vez. e isso fora havia muitos dias. -  o mnimo que podemos fazer 
para recompensar a vossa amabilidade.
No se incomodem por nossa causa - declarou a mulher do agricultor. - 
Estamos satisfeitos por termos companhia, a vida de um campons  muito 
solitria.
Porm Quentin podia ver que estavam ambos muito satisfeitos com a ideia, 
e agradava-lhe poder ajud-los. Dava-lhe uma sensao de satisfao. " o 
servir", pensou Quentin.
Aquele toco de tronco tem dado cabo de mim nestes ltimos dois anos. Est 
mesmo no centro do novo campo - explicou o agricultor, enquanto 
caminhavam para o local.
Os cavalos, apesar de no serem desconhecidos em Tildeen, eram muito 
raros. No eram necessrios para viajar, pois no havia para onde ir, e 
Bestou, sendo uma cidade porturia, pouco uso tinha para lhes dar. S 
alguns dos agricultores melhor estabelecidos os possuam, para 
trabalharem a terra. mas eram muito poucos e verdadeiramente afortunados.
Tinham preparado arreios para Balder. feitos de tiras de couro e cordas. 
Nebo, o agricultor, transportava um pau comprido e forte, para servir de 
alavanca. Quentin conduzia Balder e Toli transportava os arreios. Tisha. 
a mulher do agricultor, agitava-se atrs deles.
Depois de vrias tentativas e de muitos ajustamentos nos arreios 
rudimentares. Balder baixou a cabea e comeou a puxar. As cordas 
esticaram-se e ameaaram partir-se. Nebo, Quentin e Toli faziam fora no 
pau, quase o dobrando. Tisha permanecia junto da cabea de Balder. 
encorajando-o com palavras suaves.
Ouviu-se um grande estoiro debaixo do cho, seguido pelo rudo de madeira 
a estalar. Os msculos de Balder sobressaam por debaixo da pelagem 
brilhante. Ento, de repente, o toco caiu para o lado, com as razes a 
pingarem humidade, cobertas de pedaos de terra. expostas ao quente ar da 
Primavera.
- Ena! Ah! - gritou o agricultor. -  o animal mais forte que jamais vi! 
Ena! Esperem s at o Hemp saber disto. Ah!
- Agora. Nebo - disse a mulher -, recorda-te que prometeste fazer um 
sacrifcio a Ariel se o tronco fosse tirado a tempo da sementeira. j 
est tirado, o deus exige o pagamento da dvida.
- Sim, pois .  verdade - resmungou o agricultor. relutante.

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- Farei o sacrifcio de uma salva de prata. no templo. - Hesitou um 
pouco. - De qualquer modo, preferia comprar um novo arado...
Quentin assistia quela cena sentindo uma curiosa sensao de 
afundamento.
- Por favor, no faam oferendas ao deus Ariel. No so necessrias. 
Ajudem outra pessoa quando a oportunidade surgir. Ser esse o vosso 
sacrifcio.
O agricultor e a mulher miravam-no com estranheza e, de repente, Quentin 
sentiu-se estpido. No deveria ter falado.
- Sois um sacerdote, jovem senhor? - perguntou Nebo, com muita cautela.
- Outrora, pertenci ao templo de Ariel - admitiu Quentin -. mas agora 
sigo um deus maior. Um que no se sente honrado com salvas de prata.
No rosto largo e agradvel de Nebo surgiu um ar de grande alvio.
- Ento farei o sacrifcio que o senhor e o seu deus me sugerem - 
respondeu alegremente, mais feliz do que nunca. Conseguira ver-se livre 
do incomodativo tronco e ainda por cima poupara a despesa de uma taa de 
prata. Aquele novo deus. fosse ele quem fosse, deixava-o muito bem 
impressionado. Bateu as palmas, numa alegria infantil.
- Estou cansado - anunciou Quentin. - Comi demasiado e o Sol est a 
deixar-me ensonado.
- Ento, o melhor  uma sesta - declarou Nebo. - Um pouco de sono  uma 
boa coisa.

Quentin acordou com relutncia. O ar estava fresco, o Sol aquecia-lhe o 
rosto enquanto descrevia o seu arco sobre as copas das rvores. J 
passava o ponto mais alto e iniciava a descida para o crepsculo. Toli, 
que j acordara havia algum tempo, estava sentado em silncio ao lado de 
Quentin.
- Porque  que no me acordaste? - perguntou Quentin, endireitando-se. 
jaziam numa pequena colina coberta de ervas, perto da quinta de Nebo.
- Est na hora de voltarmos  baa - replicou Toli.
Virando a cabea para o lado, Quentin olhou para o amigo.
- Agora? Porque  que dizes isso?
- Sinto que o devemos fazer - respondeu Toli, encolhendo os

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ombros. H aqui qualquer coisa que mo diz - acrescentou, apontando para o 
peito.
Ento... vamos. De momento, deixaremos os cavalos aqui.
No. Penso que devemos lev-los.
Como queiras - concordou Quentin, apesar de no ver motivos para levarem 
os cavalos para a cidade. S serviria para terem de os trazer de volta, e 
era melhor deixar que os animais descansassem. Todavia, no valia a pena 
entrar em discusses numa tarde to brilhante como aquela.
Despediram-se do amvel agricultor e da mulher e encetaram o caminho 
pedregoso que ia dar a Bestou. Ao descerem a colina podiam ver toda a 
cidade, a baa e o mar azul que ficava para l dela, brilhando  
distncia.
Caminharam juntos, em silncio, escutando o matraquear dos cascos dos 
cavalos, que seguiam tranquilamente atrs deles. Pairava no ar um fresco 
cheiro a ervas e coisas que cresciam. Quentin pensava que num stio como 
aquele, ou num dia assim to bonito, podia com facilidade esquecer-se da 
sua misso. Esquecer-se de reis, de feiticeiros. lutas e fugas. Podia 
perder-se naquelas colinas, no meio do zumbido montono das abelhas 
atarefadas por entre as Rores bravas, que acenavam com as suas cabeas 
amarelas e rosadas, sopradas pela brisa,  beira da estrada.
Quentin despertou da contemplao dos poeirentos caminhos que percorriam. 
Virou-se, com uma pergunta j pronta nos lbios. e aspirou o ar. 
preparando-se para falar. No entanto, a pergunta morreu-lhe nos lbios e 
o ar escapou-se-lhe por entre os dentes quando viu o rosto de Toli.
Nos olhos escuros do Jher brilhava mais uma vez a tal luz distante, que 
lhe iluminava as feies de um modo estranho. Era como se estivesse a 
olhar para o futuro, pensou Quentin, para algures fora daquele tempo e 
lugar, ou talvez para muito, muito longe, para distncias desconhecidas.
- O que ? Que ests a ver, Toli?
- Vem a um navio - replicou Toli. com uma expresso de total convico.
- Um navio? - Quentin virou os olhos para a baa. No havia ali nada. 
Olhou para l dela, para o mar... Nada. Tanto quanto pudesse ver, no 
havia nenhum objecto no horizonte. Olhou com ateno para

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o norte e para o sul, at aos pontos em que as colinas lhes tapavam a 
viso. - No vejo nenhum navio - confessou.
Toli no respondeu. Continuaram a descer a colina, mais uma vez em 
silncio.
Atingiram as casas, e depois as ruas calcetadas, onde os mercadores 
tinham as suas lojas e bancas, e por fim a prpria muralha da baa, em 
que tinham estado sentados naquela mesma manh. Quentin perscrutou mais 
uma vez o horizonte, tal como fizera durante todo o caminho, para tentar 
ver aquilo que Toli, aparentemente, via com tanta clareza.
As ruas estavam cheias de actividade. Os pescadores, nos seus botes 
compridos e de cascos baixos, tinham acabado de regressar de um dia de 
trabalho. Mulheres com cestos de canas apressavam-se, juntando-se em 
grupos em volta dos pescadores, que expunham o produto da pesca sobre as 
pedras da rua. As gaivotas guinchavam estridentemente por cima, na 
esperana de virem a apanhar qualquer coisa.
Quentin observava toda aquela actividade com algum interesse, pois ainda 
estava a descobrir o que era a vida no mundo exterior ao templo. Tudo lhe 
parecia novidade. Sentia-se como uma criatura selvagem que era arrastada 
para um ambiente domstico, interrogando-se sobre o seu novo tipo de 
vida. Era tudo muito vulgar, mas diferente. Eram o estranho e o vulgar ao 
mesmo tempo.
Toli estava parado, como se tivesse ganho razes naquele lugar, com os 
olhos postos num qualquer ponto distante.
No valia a pena discutir com um Jher fosse sobre o que fosse, pelo que 
Quentin prendeu os cavalos a um grande aro de ferro existente na muralha, 
que noutras alturas servia para amarrar os navios. Sentou-se, para 
esperar, e deixou-se mergulhar nas vrias actividades que se desenrolavam 
 sua volta.
O sol brilhava, j baixo, por detrs deles, e a sombra da muralha caa 
sobre as guas cinzento-esverdeadas da baa. Quentin levantou-se e virou-
se para Toli. Estivera a observar um homem com um barril cheio de 
mariscos, que separava os animais mortos dos vivos.
- Vamos ter de ficar muito mais tempo  espera? - perguntou Quentin, num 
tom que exprimia uma leve preocupao.
- No muito - replicou Toli, inclinando ligeiramente a cabea.
Quentin seguiu a direco indicada pelo gesto e virou-se para a baa. 
Ali, entre as pinas que constituam a entrada da baa, avanando

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lentamente, podia ver-se um grande navio com as velas tintas de cor-de-
laranja pelo Sol que se punha. Quentin abriu a boca de espanto, olhando 
para o navio e para o amigo. Toli conseguiu finalmente descontrair-se e 
sorrir.
- O navio chegou - anunciou. A sua voz exibia um tom triunfante, como se 
tivesse conseguido conjurar o navio apenas com o poder da sua prpria 
vontade. Quentin acreditava que o Jher tinha feito aparecer o navio de 
uma maneira qualquer, muito misteriosa, e no teria ficado mais 
surpreendido se lhe dissessem que fora isso o que acontecera. No fim de 
contas, Toli tambm possua muitas capacidades estranhas que Quentin s 
agora comeava a descobrir.
O navio aproximou-se e Quentin comeou a distinguir os mastros, o cordame 
e os marinheiros a moverem-se no convs. Tambm se apercebia. pelo modo 
como o navio oscilava de um lado para o outro. que havia qualquer coisa 
que no estava bem. O barco, agora muito perto, avanava de uma maneira 
rgida e com estranhas inclinaes, primeiro para um lado e depois para o 
outro. Alm disso, em vez de ancorar no centro da baa, aproximou-se do 
cais.
Quentin e Toli observaram-no at o navio encostar todo o seu comprimento 
ao cais. e s depois desprenderam os cavalos e caminharam ao loncyo da 
muralha at se encontrarem a seu lado.
-  o Marribo - leu Quentin.
- Um bom nome - replicou Toli, muito satisfeito consigo mesmo.
- Parece um bom navio - comentou Quentin. No percebia nada de barcos, 
mas gostava das linhas direitas do cordame, dos cabos enrolados no 
convs. e da maneira eficiente como os marinheiros tinham subido e 
prendido as velas. Tudo lhe parecia bem e em ordem e, portanto. era um 
bom navio.
A prancha de desembarque j fora descida e os marinheiros andavam 
ocupados com as mais variadas tarefas, trabalhando de um modo eficiente. 
O capito, ou pelo menos Quentin assim o considerou, permanecia de p  
proa e dava ordens para os homens que se encontravam em baixo. 
Aparentemente estavam com alguma pressa, o que Quentin achou estranho num 
navio que acabava de chegar ao seu destino.
Senhor capito... - chamou Quentin, que precisava de um bocado para 
conseguir arranjar coragem para falar. - Posso perguntar-lhe... - 
comeou.

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- -No sou o capito - gritou o homem de volta, num tom despreocupado, 
enquanto apontava com o polegar para um outro homem, com uma curta 
jaqueta azul, que descia a prancha a conversar com um arteso de avental 
de cabedal, talvez um carpinteiro naval.
Os dois homens permaneceram a conversar de cabeas juntas durante algum 
tempo, antes de o carpinteiro se afastar  pressa. O capito sentou-se na 
beira do cais. e acendeu um longo cachimbo de barro enquanto observava a 
tripulao a trabalhar.
- Desculpe, senhor,  o capito? - perguntou Quentin outra vez, agora com 
um melhor controlo da sua coragem.
- Sim, rapaz. Sou eu e este  o meu navio. Ao vosso dispor.
- E ns ao vosso - replicou Quentin com uma vnia feita por ele e por 
Toli. - Tem um belo navio.
- Percebes de navios? - O capito olhou-o de esguelha. soprando fumo.
- No... quer dizer... nunca estive num navio.
- Azar teu. rapaz. Ah. o mar... Podia contar-te histrias... - Calou-se e 
perdeu-se no meio de uma nuvem de fumo. - Sou o capito Wiggam. E tu. 
quem s?
- Quentin, e este  o meu... amigo, Toli. - Ainda sentia algum embarao 
quando pensava em pronunciar a palavra "servo>,.
- E que pode um homem do mar fazer por vocs, jovens senhores? - O 
capito estendeu-lhe a mo larga e seca. que Quentin apertou com vigor.
- Pode dizer-nos. senhor, se vai...
O capito Wiggam interrompeu-o:
- No vamos a lado nenhum sem o nosso leme. Maidita sorte. Rebentaram-nos 
os gonzos do leme a meio dia de distncia! Pelos deuses! Foi preciso mais 
meio dia para o fazer dar a volta, e um dia inteiro para nos arrastarmos 
para o porto. - Fez uma pausa e puxou outra longa fumaa do cachimbo. - 
Querem ir para algum lado?
- Sim, senhor. Queremos ir para Karsh. - Quentin falou com um ar muito 
convicto apesar de tudo o que lhe dissera o estalajadeiro
O capito ergueu uma sobrancelha.
- Karsh! - Olhou-os outra vez de esguelha e perguntou. desconfiado: - E 
para que querem l ir?
- Eu... ou seja, temos amigos em dificuldades. Queremos i

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ajud-los. - Quentin no sabia ao certo se, naquele momento especfico. 
os amigos estariam metidos nalgum problema, mas no poderia encontrar-se 
mais perto da verdade.
- Se estiverem perto de Karsh. sem dvida que se encontram metidos em 
sarilhos.
- Pode levar-nos l?
- Eu?! Este navio? Nunca! - O capito virou a cara para outro lado, 
zangado.
Quentin ficou sem fala. No tinha quaisquer outros planos. Porm. o 
capito. que agora chupava o cachimbo com fria. pareceu amolecer um 
pouco.
- Vamos para Andrai, em Elsendor. Posso lev-los, se acharem que isso 
lhes serve para alguma coisa.
- No sei onde isso fica, senhor.
- No sabes?
- No... Vivi num templo... at h pouco tempo. Era aclito.
- Que templo? Qual era o deus a que servias?
- Ariel. no grande templo de Narramoor. Era para vir a ser sacerdote. - 
Quentin notava um brilho de interesse nos olhos cinzento-claros do 
marinheiro. Houve um momento de silncio enquanto o capito pensava. 
Escutava-se o som de marteladas por cima do marulhar das ondas contra o 
casco do navio.
- Ariel  o deus da sorte e do destino,  o benfeitor dos marinheiros. 
No o quero desapontar. virando as costas a um dos seus servos. - Bateu 
com o cachimbo de encontro a uma pedra e levantou-se.
Vou dizer-lhes isto: levo~os at Valdai, do outro lado da pennsula de 
Andraj. No ousarei aproximar-me mais. Em Valdai h quem v de vez em 
quando a Karsh. Pode ser que encontrem algum que os leve onde eu no 
tenho coragem de ir.
O capito Wiggam olhou para Quentin e depois para Toli. Notando o ar 
atrapalhado de Quentin, inquiriu:
- H mais alguma coisa?
- No temos dinheiro para pagar a passagem.
- Oh, compreendo. Bom, no pensem mais nisso. O Marribo  um navio de 
carga, apesar de, de vez em quando, transportarmos passageiros.
- E temos os cavalos... - Quentin tentou depreciar as dimenses e nmero 
dos animais fazendo um pequeno gesto na sua direco.

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Wiggam piscou um dos olhos e apreciou os cavalos, presos a un dos aros de 
amarrao da muralha, a poucos passos de distncia.
-  um problema... - declarou. O seu tom solene encheu Quentin de 
dvidas. Surgiu nova piscadela de olhos. - Mas no  mais grave do que 
algas no embornal. j temos transportado cavalos. No fim de contas, somos 
um navio de carga. - O capito riu-se e Quentin riu-se tambm. aliviado e 
grato. O capito virou-se e comeou a afastar-se
- Tenho de ir ver como correm as reparaes, rapazes. O Starld( trata de 
vos meter a bordo. Digam-lhe que fui eu que mandei.
- Quando partimos? - perguntou quando o marinheiro j se apressava ao 
longo do casco.
- Logo que pudermos... ou seja, logo que o leme esteja reparado. Metam as 
vossas coisas a bordo, partimos esta noite.

CAPTULO XXXIV

Durwin acordou engasgado, a cuspir areia. Tinha o rosto apoiado numa 
camada de algas que o arranhavam e que emitiam um ftido odor a peixe. 
Por outro lado, sentia picadas e dores agudas na cabea. Talvez fosse por 
causa dessas dores que recuperara a conscincia.
Nova picada, e nova dor. Durwin levou um brao  cabea e fez fugir uma 
gaivota, que se afastou ao longo da praia guinchando o seu 
descontentamento.
- Ainda no sou comida para pssaros - murmurou Durwin entre dentes.
Ergueu-se sobre os cotovelos e esperou que se acalmassem as pulsaes que 
sentia na cabea. Limpou a areia dos olhos com uma das mos, tambm sujas 
de areia, e olhou em volta. jazia numa praia, ao lado de uma rocha que 
emergia do solo como uma presa a sobressair das gengivas de um velho 
drago. A rocha estava envolta em algas malcheirosas. tal como o prprio 
Durwin.
O sol ainda no nascera, mas o claro rosado que se espalhava pelo 
horizonte prometia um novo dia para muito em breve. As ondas da 
tempestade haviam depositado Durwin bem alto, na praia. Sentou-se e 
examinou o ambiente em volta, pressentindo olhos estranhos fixados nele. 
Olhando em torno, avistou uma multido de caranguejos que se aproximavam, 
com os olhos a oscilarem sob a nova luz.
- Vo limpar os ossos de outro pobre peixe! - gritou-lhes. - Este ainda 
precisa da pele durante mais algum tempo.
Durwin ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e incertas.

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Apoiou a mo na rocha e olhou para os dois lados, ao longo da costa 
rendilhada e cheia de rochas.
- Ah. este  mesmo um lugar malfico - resmungou. Avanou para a gua, 
que agora exibia uma ondulao pequena e calma. como se nada pudesse 
jamais perturbar a sua superfcie plcida. Mergulhou nela as mos, para 
lavar a cara e o pescoo cobertos de areia. Sacudiu a areia do cabelo e 
da barba, e depois comeou a andar  beira do mar,  procura dos outros, 
receoso do que pudesse vir a encontrar.
No dera mais de dez passos quando avistou a forma de um p elegante a 
sair detrs de uma rocha coberta de limos.
- Alinea! - gritou, correndo para o lado da dama, cujas plpebras 
estremeceram e se abriram.
- Durwin? Oh, que aconteceu? Sinto-me mal...
- Provavelmente bebeu metade do seu peso em gua do mar... Tal como eu.
A rainha ganhou um pouco mais de conscincia do que se passara e 
perguntou:
- Os outros?... Theido, Trenn, Ronsard... Onde esto? Encontraste-os? 
Esto ... ?
- Shh... uma coisa de cada vez - respondeu Durwin. acalmando-a. - Foi a 
senhora a primeira pessoa que descobri. Os outros no devem estar longe. 
Iremos procur~los juntos. - Hesitou e acrescentou. aps um instante: - 
Ou ento, se prefere, irei sozinho e poder descansar aqui.
- No, vamos os dois. Posso enfrentar o que poderemos vir a descobrir. A 
espera seria pior.
Durwin ajudou a rainha encharcada e coberta de areia a pr-se de p.
- Sente-se nessa pedra por momentos. Respire o ar. com fora. Sentir-se- 
melhor.
- Devo ter o aspecto da filha de Orphe... mais apropriada para a 
companhia de peixes do que de seres humanos.
- Todos ns iremos precisar de nos limparmos e arranjarmos posso garanti-
lo. Porm ... no h nada mais belo do que estar vivo Depois da noite 
passada...
- Oh, Durwin... - ofegou Alinea, segurando-lhe num brao apertando-lho.
Durwin virou-se para o ponto onde a rainha fixara os olhos e vi o que 
tomara como sendo um monte de algas atirado para a praia.
259

Verificou que o monte de algas tinha uma forma humana, e a seguir 
percebeu o que fora que Alinea olhara com horror. Havia dezenas de 
caranguejos a alimentarem-se, reunidos em volta de uma ferida aberta. As 
pinas dos caranguejos arrancavam bocadinhos de carne vermelha dos 
flancos do corpo.
- Ah! - gritou Durwin, precipitando-se para o companheiro e obrigando os 
caranguejos verdes e azuis a escaparem-se; correndo de lado. -  Trenn! - 
gritou, depois de virar o corpo. Pousou o ouvido em cima do peito do 
homem. - Est vivo, graas ao deus!
O eremita baixou-se para examinar a ferida no flanco de Trenn. Era um 
corte longo e irregular, profundo. mas que no sangrava. A gua do mar 
estancara o fluxo do sangue.
- Vai ficar bom? - perguntou Alinea, aproximando-se de Durwin.
- Penso que sim. A ferida  funda, mas no me parece grave. Porm pode 
ter outros ferimentos que no podemos ver.
Alinea estremeceu ao recordar-se dos caranguejos.
- Vi-os a arrancarem-lhe bocados... Pensei...
- Tambm eu... mas, olhe! Os caranguejos at foram teis. A ferida est 
limpa. cicatrizar mais depressa. - Durwin falou com convico, mas 
lanou um olhar duvidoso sobre a forma inconsciente de Trenn.
De sbito ouviu-se um grande rudo nas matas da espessa floresta que 
rodeava aquela zona da costa. Durwin levantou o rosto e deparou-se-lhe um 
anel de olhos afundados. em rostos sombrios e sem expresso. Estavam ali 
talvez vinte soldados, vestidos com cotas de malha e capacetes, com as 
lanas apontadas para eles. Cada capacete exibia uma crista com a 
insgnia do cruel amo daquela tropa: o corvo negro de Nimrood, o 
necromante.
Um cavaleiro. num cavalo preto malhado, saltou por cima dos arbustos e 
pousou na praia. Observou os miserveis sobreviventes com um olhar 
malicioso. Tinha o rosto cortado por uma cicatriz prpura, que ia da 
testa ao queixo e lhe torcia o nariz para um lado.
- Apanhem-nos! - gritou o cavaleiro, num tom de troa.
Os impassveis soldados lanaram-se imediatamente  tarefa de porem 
Durwin e Alinea de p, para depois os amarrarem com brutalidade. A 
seguir. os prisioneiros foram obrigados a avanar, com muitos empurres, 
para os bosques por cima da praia.

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- Est vivo? - perguntou o cavaleiro, apontando com um gesto de cabea 
para o local onde Trenn jazia na areia.
- Sim, est vivo - confirmou Durwin. - Tenham cuidado com ele, est 
ferido.
- Ah, que pena! Seria melhor que estivesse morto. - O cavaleiro esporeou 
o seu nervoso cavalo. passou junto de Alinea e Durwin e gritou para os 
outros: - Levem tambm o outro.
Foram os trs atirados para uma carroa com taipais muito altos. Alinea e 
Durwin empurraram Trenn, com cuidado, para o fundo da carroa, e 
instalaram-se, o melhor que puderam, junto dele.
- Nem uma palavra a respeito dos outros - avisou Durwin, num sussurro.
- Levem-nos! - ordenou o cavaleiro da cicatriz, que parecia ser o 
comandante do grupo que se encontrava na praia.
A carroa avanou para a floresta, aos solavancos, oscilando como se 
quisesse virar-se. Nem o condutor nem os quatro soldados que os 
acompanhavam lhes prestavam a mnima ateno. A carroa atravessou uma 
floresta rala e pouco saudvel. de rvores contorcidas e macios de 
vinhas bravas. As rochas de pontas aguadas que saam frequentemente do 
solo tornavam o caminho extremamente cansativo. Apesar de o Sol estar a 
nascer as rvores pareciam afugentar a luz e estarem mergulhadas numa 
sombra perptua.
-  um lugar triste - comentou a rainha.
-  verdade! Qualquer stio a que o necromante chame seu  triste... e 
receio bem que possa ainda vir a tornar-se muito pior do que isso.
A carroa e o seu contedo continuaram a saltar e a estremecer por cima 
de rochas e razes. Por fim atingiram um caminho rudimentar aberto no 
solo pedregoso. A floresta ia-se tornando mais aberta  medida que 
avanavam.
Em breve se tornava aparente que seguiam o percurso de um ribeiro. porque 
o barulho da gua a correr lhes chegava de muito perto. Surgiram pequenos 
montes de cada lado do caminho, formando uma espcie de vale, cobertos 
por uma vegetao densa e de espcies desagradveis. Por todo o lado 
pairava um ambiente sombrio e ameaador. e s o ocasional grito de uma 
ave e o gemer. e chiar, das rodas no oleadas da carroa quebravam o 
silncio opressivo.

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Depois de uma hora. ou mais. pois o tempo parecia irrelevante num lugar 
como aquele, a carroa entrou numa estrada mais larga e encetou uma 
ngreme subida. Alinea observava a paisagem de olhos muito abertos e 
assustados.
- Nada receie, senhora - acalmou-a Durwin. - Nimrood no  to terrvel 
que no possa ser enfrentado. O mal tem sempre um aspecto enganoso. Reze 
por Theido e Ronsard, que talvez ainda consigam escapar. Tenhamos essa 
esperana.
- Farei o que pedes, mas no tenho tantos conhecimentos sobre o deus como 
tu.
- As palavras que utilizamos no tm importncia. O deus escuta os 
prprios coraes.
Depois de uma longa subida, a carroa atingiu uma zona plana, um grande 
rebordo de pedra escavado na montanha. Da, espreitando por cima dos 
lados da carroa, os prisioneiros podiam avistar as colinas por onde 
tinham viajado. O Sol ia j alto e, no entanto, parecia apagado e 
distante. Havia um nevoeiro triste a envolver as colinas e a amontoar-se, 
denso, nos vales miserveis. Toda aquela terra tinha o ar de ter sido 
envolta num sudrio e esquecida.
De algures chegou-lhes um lamento agudo que se ergueu no ar como uma alma 
perdida a chorar que a libertassem.
-  apenas uma gaivota - disse Durwin, olhando para cima, mas num tom a 
que faltava a convico.
O silncio voltou a abater-se sobre eles, mas por pouco tempo. O ar 
encheu-se com um gemido prolongado. Durwin olhou para a rainha e depois 
para Trenn. Estremeceu uma plpebra. Agitou-se um dedo.
- Ah! Est a acordar! - Durwin, de mos atadas atrs das costas, nada 
podia fazer para ajudar Trenn a regressar ao mundo dos vivos, mas 
debruou-se sobre a sua cabea e murmurou-lhe ao ouvido: Descansa, com 
calma. No h nada a temer. Estamos contigo.
o guarda abriu os olhos e virou a cabea com dificuldade.
- Pois esto... amarrados como galinhas, pelo que vejo - murmurou.
- Ah, Trenn. Vejo que ests bem.
- julgo que sim... oh! - Trenn fez uma careta de dor quando tentou mexer-
se para se sentar. - Ainda estaria melhor se pudesse ver alguma coisa.

262

- Tens um corte horrvel - disse Alinea. - Deixa-te estar deitado.
- Onde esto os outros?
- Shh! - fez Dur-win. num aviso. - No sabemos, no os conseguimos 
encontrar esta manh. - O eremita ostentou uma expresso duvidosa. - De 
qualquer modo, no tivemos tempo para os procurar.
- Onde estamos? Na tribo do Nimrood?
- Julgo que vamos a caminho para o vermos.
- No devias falar tanto - sussurrou Alinea. - Aproveita para descansar 
enquanto o podes fazer.
Depois daquilo, ningum falou durante muito tempo. Cada um deles 
entreteve-se com os seus prprios pensamentos, e tentou manter afastado o 
medo que crescia, como uma dor, a cada passo, passo esse que os punha 
mais perto do antro de -Nimrood.
- Ali est! - exclamou Durwin, por fim, inclinando a cabea para 
espreitar para l do condutor da carroa. Alinea virou-se. e o castelo de 
Nimrood, semelhante a um esqueleto negro pousado sobre um rochedo, 
surgiu-lhe  vista.
- Que runas assustadoras! - exclamou Alinea.
-  verdade.
As muralhas de pedra negra erguiam-se sobre a rocha da montanha. Um 
labirinto de escadas e escuras entradas esculpidas nas pedras 
assemelhava-se a tneis abertos por vermes. Torres de formas estranhas e 
alturas diferentes lanavam-se para o alto, por cima da cpula do grande 
salo. Os buracos das portas e janelas espreitavam-nos, como rbitas 
vazias, dos diversos aposentos em volta da cpula. Viam-se as formas 
escuras de aves que esvoaavam no ar frio, por cima do castelo, e que 
guinchavam  aproximao da carroa.
A estrada serpenteante que dava acesso ao castelo fora construda no 
dorso de um espinhao rochoso. A estrada, que s tinha a largura 
suficiente para a carroa, acompanhada por um homem de cada lado, 
descrevia curvas pronunciadas. Dos dois lados da estrada a montanha 
descia, em ngremes vertentes. O espinhao terminava de repente, ante um 
abrupto precipcio transposto por uma ponte levadia.
A carroa deteve-se. porque a ponte estava levantada. Na frente deles 
estava o vazio, com uma altura capaz de tirar a respirao. Muito no 
fundo, ressoando como espadas a baterem sobre escudos, uma

263

ruidosa catarata abria caminho at terrenos mais baixos. A ponte levadia 
comeou a descer com um prolongado gemido. Embateu no cho com um som oco 
e a carroa avanou. O precipcio ampliava e devolvia ecos de cada 
estalido das rodas da carroa, enquanto as pancadas dos cascos dos 
cavalos soavam como um toque a finados que se repercutia no vazio.
Chiando o seu protesto, a carroa atravessou a ponte levadia e penetrou 
no sombrio tnel da entrada, sobre a mirada triste de um mocho 
empoleirado nas vigas. O tnel, que passava sob a muralha, era escuro e 
hmido como uma gruta. A gua caa do tecto e escorria das paredes, 
pingando sobre o solo.
Trenn, agora sentado no fundo da carroa, soltou um assobio baixo que 
ecoou pelo tnel.
- H um espao oco por baixo desta estrada - disse, depois de desaparecer 
o eco do assobio. - No me agradaria ter de ser obrigado a descobrir o 
que l pode andar...
- Coragem, amigos. O nosso inimigo procura quebrar-nos a vontade. 
Resistam, no cedam ao medo...
- No receio qualquer mortal - declarou Trenn, com a voz tremente. - 
Porm, este feiticeiro...
-  um homem. to mortal como qualquer outro. Tem poderes,  verdade, mas 
pode ser vencido. Podemos desafi-lo.
Eskevar est aqui - declarou Alinea. Apesar de Durwin e Trenn no a 
conseguirem ver na escurido, pelo tom da voz apercebiam-se de que 
deveria encontrar-se perto das lgrimas. - Oh! h quanto tempo estar 
neste horrendo e maldito lugar?
Coragem, minha rainha. O rei  forte, e a no ser que esteja muito 
enganado, a sua priso no dever ter sido insuportvel. Conseguir 
aguentar-se.
- Foram palavras bem ditas - fungou Alinea. - Sou a rainha e portanto 
tambm aguentarei.
A carroa saiu subitamente do escuro tnel da entrada, passando para a 
luz de um ptio mal concebido e mal conservado. Aguardava-os um homem com 
uma capa de zibelina. uma tnica escura e calas, com altas botas negras.
- Tragam-nos - ordenou. virando-se e desaparecendo na enorme boca do 
castelo. Os prisioneiros foram descarregados e levados a caminhar por um 
labirinto de corredores e passagens. O castelo tinha um

264

ar deserto e encontraram muito poucos servos. inesperadamente. e sem 
cerimnia, foram atirados para a sala do trono de Nimrood.
O feiticeiro esperava-os, de olhos meio fechados, como se estivesse a 
sonhar acordado, esparramado sobre o grande trono negro. Dava a ideia de 
ter sido atirado para ali no auge de uma qualquer paixo monstruosa que o 
deixara sem foras. Por detrs do trono, as tochas oleosas lanavam na 
sala um fumo negro e espesso e emitiam um claro que dava um brilho 
escorregadio a tudo o que os rodeava.
- Bem-vindos a Karsh, meus amigos - troou o feiticeiro. sem abrir os 
olhos ou levantar a mo, para reconhecer que se encontravam presentes. - 
Tenho estado  vossa espera. Basta-me esperar... e com o tempo todas as 
coisas me caem nas mos.
- Incluindo a morte e a destruio....  o fim dos teus planos respondeu 
Durwin. calmamente.
- Silncio, idiota! Posso arrancar-te a lngua a mesmo onde te 
encontras! - Nimrood pusera-se de p num salto e olhava-os de cima, 
irado. Nas mos segurava uma vara de mrmore preto, muito polido.
- Ah, mas no... - acrescentou o feiticeiro, acalmando-se de repente. - 
Dem  lngua. As vossas palavras so como o balbuciar de crianas. 
Rudos e ar. No tm qualquer poder. Divertem-me. Por favor, continuem.
Durwin permaneceu em silncio.
- No tens mais nada a dizer? Veremos se conseguirei dar-te inspirao! 
Levem-nos para as masmorras! - Fez girar a vara sobre a cabea, e os 
guardas que os tinham acompanhado na carroa afastaram-nos dali com os 
cabos das lanas. Quando saam da sala, ouviram Nirrirood a cacarejar:
- Em breve tero companhia. Os vossos amigos, a no ser que estejam 
mortos, no conseguiro escapar-me durante muito tempo. Ah! No faz 
diferena. Vivos ou mortos, iro ter companhia. Ah! Ah!

CAPTULO XXXV

Quentin acordou sob o suave toque da mo de Toli no seu ombro. que o 
sacudia para o despertar. Acordou sobressaltado e confuso. Tranquilizou-
se ao sentir o balouar e estalar do navio. recordando-se que se 
encontrava a bordo do Marribo, a caminho de Valdai.
- Gritaste durante o sono, Kenta - afirmou Toli.
- Sim? - Quentin esfregou os olhos com os punhos. para afastar o sono. - 
No me lembro... - disse, mas depois recordou-se. de repente.
- Oh, Toli. tive um sonho... - Conseguia ver os olhos de Toli no meio da 
escurido. Eram lagos lquidos que brilhavam com os reflexos de um cu 
cheio de estrelas. A Lua desaparecera debaixo do horizonte, deixando que 
as luzes mais pequenas que cobriam o cu brilhassem e piscassem como 
lanternas de pescadores nocturnos. espalhadas por um mar infindvel.
- Conta-me o teu sonho. Agora, antes que o esqueas!
- Estava no alto de uma montanha... Olhei em volta e vi toda a terra 
coberta pela escurido. Sentia que essa escurido era como um sinal,  
espreita,  espera...
 medida que falava, Quentin ia entrando no esprito do seu sonho. Viu de 
novo, tal como no sonho, mas agora de uma maneira mais clara e real, as 
terras distantes que se estendiam sob um cu negro e vazio. Era uma terra 
velha de incontveis anos. e o negrume rodeava-a como uma criatura 
predadora: respirando. esperando.
Prosseguiu:
- Depois. surgiu uma luz na escurido. como se fosse a luz de uma nica 
vela, caindo, como uma fagulha, do prprio pinculo do cu.

266

Tornou a ver o ponto de luz caindo pelo espao, descrevendo um arco pelo 
cu, precipitando-se em direco  Terra.
- A luz caiu e quebrou-se em milhares de bocados que se espalharam por 
todo o lado, ardendo na escurido. Foi uma chuva de luz. Cada um dos seus 
pequenos fragmentos tornou-se numa chama igual  primeira, comeou a 
brilhar e a escurido bateu em retirada ante a sua luz. Foi tudo. Nessa 
altura, acordei.
Quentin permaneceu em silncio enquanto se recordava da brilhante chuva 
de luz, tendo ao mesmo tempo a sensao de que o sonho tinha algo que ver 
com ele. Levantou os olhos para Toli, que mostrava um ar tranquilo mas 
maravilhado.
-  um sonho de poder - disse Toli.
- Achas que sim? No templo, costumava ter sonhos como este... Vises 
sonhadas, como eu lhes chamava. No entanto, pensei que j tinham acabado. 
Nunca mais se me deparou um augrio ou tive um sonho desde que deixei o 
templo... se no contar com o que se passou em Dekra. - Calou-se de novo 
durante um bocado. - Que pensas do seu significado?
- Entre o meu povo, costuma dizer-se que a verdade  como uma luz.
- E que o mal  como a escurido. Sim, ns dizemos o mesmo. A verdade 
est a chegar, talvez at j se encontre aqui, vai lanar-se contra a 
escurido e venc-la.
- Um sonho pode querer dizer muitas coisas, todas elas verdadeiras.
- Achas que essa poder ser uma das respostas?
- O sonho foi teu... e acabars por encontrar a resposta dentro de ti 
mesmo.
- Sim, talvez... Foi to real... Eu estava l. Eu vi...
Quentin voltou a deitar-se na espessa enxerga de palha. Dava voltas ao 
sonho, na sua cabea, e por fim, sentindo-se outra vez com sono. 
murmurou:
-  melhor dormirmos um pouco. Chegamos a Valdai amanh de manh... - 
Porm, Toli j se encontrava profundamente adormecido.
Quando Quentin se mexeu, sob o cheiro de um fresco ar salgado. o porto de 
Valdai j se encontrava  vista. O Sol ia alto e enchia o cu com a luz 
dourada, cu que era um arco de azul-real. por cima da sua cabea. 
salpicado por pequenos farrapos de nuvens navegando no vazio.

267

Toli estava a p e j tratara dos cavalos. Quentin encontrou-o
encostado  amurada olhando para a cidade de que se aproximava.
- Olha - disse, apontando. quando Quentin se lhe juntou.
- H outro navio a entrar no Porto.
Mesmo na frente deles, um navio arava as guas, separando as ondas e 
lanando para trs de si uma colheita de espuma branca. Era um navio 
resistente, achatado, muito afundado na gua, de um tipo muito vulgar. 
mas Quentin sentiu uma sensao estranha ao v-lo avanar para o porto. O 
barco tinha algo de fora do normal... O que seria? De repente, percebeu o 
que o incomodara.
- Toli, aquele navio tem velas negras!
Toli no respondeu, e confirmou o facto com um curto aceno de cabea.
-  estranho - comentou Quentin. - Sei muito pouco de navios mas nunca 
tinha ouvido falar de um que tivesse velas negras. Pergunto a mim mesmo 
de onde ser...
- E fazes muito bem em perguntar... - respondeu uma voz forte, atrs 
dele. Quentin virou-se para o capito Wiggam. que continuou. Aquelas 
velas negras so de Karsh. Tomem bem nota disso...
Nos poucos dias da curta viagem, o capito fizera-se amigo de Quentin, e 
ficara muito preocupado com os planos deste. de se juntar aos amigos.
- Esquece-te de Karsh - insistiu. olhando para o navio com desgosto. - 
Vem comigo. Farei de ti um marinheiro e mostrar-te~ei o mundo.
- No posso esquecer-me dos meus amigos - replicou Quentin. No era a 
primeira vez que o capito lhe fazia aquela proposta. - No entanto. 
quando regressar...
- Sempre que quiseres - disse Wiggam, mas Quentin viu-lhe alguma 
tristeza. - Procura por mim em qualquer porto. e onde quer que me 
encontrares poders viajar comigo. - O capito juntou as mos atrs das 
costas e afastou-se ao longo da amurada.
- Ele gostava de nos ajudar... - disse Toli. depois de o capito se ir 
embora - mas tem medo.
- Achas que sim? - Quentin observou a figura que se afastava e encolheu 
os ombros. - De qualquer modo. o assunto no  com ele. A misso  nossa.

268

- A misso  de todos aqueles que a quiserem aceitar - respondeu Toli com 
um certo ar de convico.

Valdai estremecia de actividade. Tinha uma baa e um porto mais pequenos 
do que Bestou, mas com grande movimento. Elsendor. um reino muito maior 
do que o de Mensandor, possua muitos portos ao longo da sua costa 
ocidental, que serviam todo o mundo.
- Ali est o navio negro - declarou Quentin, apontando para o outro lado 
da baa. Tinham atracado na extremidade norte da baa, enquanto o navio 
negro, como lhe chamavam, penetrara mais para o interior, por ser mais 
pequeno. No entanto, Quentin podia ver as velas negras a carem, sem 
vida, enquanto a tripulao as recolhia.
A prancha em breve foi colocada e Quentin e Toli fizeram as suas 
despedidas. Conduziram os cavalos para o cais e lanaram um aceno final 
para o capito Wiggam, que os observava do convs, fumando o seu 
cachimbo. Correspondeu ao aceno e virou-se para outro lado.
- Temos de encontrar um stio para deixar os cavalos - disse Quentin. Na 
sua cabea comeava a formar-se um plano. - Deve existir um ferreiro que 
talvez nos possa ajudar.
A busca no foi longa. O mais difcil foi fazer com que o ferreiro 
compreendesse o que tentavam pedir-lhe. Os habitantes de Elsendor, que na 
maior parte das coisas eram semelhantes aos seus vizinhos de Mensandor, 
falavam um dialecto prprio, muito cerrado, facto que Quentin no previra 
e que esgotou as suas fracas capacidades lingusticas. O ferreiro, 
esforando-se por entender o significado do estranho (para ele) pedido de 
Quentin, insistia em que este queria os cavalos ferrados de novo.
- No. No so ferraduras. Queremos que nos guarde os cavalos, ou que nos 
diga quem o poder fazer.
O homem, encorpado e todo sujo de fumo. sempre a sorrir. sacudiu mais uma 
vez a cabea. A seguir levantou-se, aproximou-se de Balder, deu-lhe uma 
palmada no pescoo e levantou-lhe um dos cascos. observou a ferradura, 
bateu-lhe com o martelo e soltou um grunhido de aprovao. Largou a pata 
do animal e virou-se para Quentin, abrindo os braos num gesto 
interrogativo. Toli desaparecera nas traseiras da oficina do ferreiro. 
Regressou naquele instante, dizendo:
- Aqui por trs h um estbulo com cavalos. Tm gua e comida.

269

Vem - disse Quentin para o ferreiro. Conduziu-o at ao estbulo, e 
indicou os animais - Guardas os nossos cavalos? - A seguir apontou para 
Balder e Ela. nome que Toli dera ao seu cavalo, para o prprio ferreiro e 
para o estbulo. O rosto do ferreiro iluminou-se com o lento claro da 
compreenso. Sacudiu a cabea para baixo e para cima. repetidamente. A 
seguir estendeu uma das mos e apontou a palma com um dedo muito sujo.
- Quer dinheiro. Agora, que vamos fazer? - interrogou-se Quentin.
Nesse momento surgiu uma figura familiar  entrada da oficina.
-  o capito Wiggam. Capito! - chamou Quentin,
- Pensei que pudessem precisar de ajuda - declarou o homem. com toda a 
simplicidade. - Querem que ele lhes guarde os cavalos, no  assim? Muito 
bem.
O capito virou-se e falou para o homem. muito depressa,
- Est feito - afirmou. - Por quanto tempo?
- No sei! - Quentin no pensara naquilo.
O marinheiro, de rosto largo e simptico, meteu a mo no bolso e entregou 
uma moeda ao ferreiro. O homem agitou a cabea e agradeceu.
- Pronto. os cavalos podem ficar durante uns tempos. Podero vir busc-
los e pagar o que for preciso quando regressarem.
- Obrigado. capito Wiggam. Um dia pagar-lhe-ei, se puder.
- No penses mais no assunto. Se eu estivesse (e que os deuses no o 
permitam) metido em sarilhos em Karsh, gostaria de ter algum como tu a 
tentar salvar-me. s corajoso, rapaz.
Quentin ficou corado. No se sentia nada corajoso.
- j pensaram em como chegar a Karsh? - perguntou o capito quando se 
viram na rua.
-j. sim. - Explicou o plano ao capito, que o escutou, acenando com a 
cabea.
- Clandestinos. hem? - Voltou a acenar, estudando a ideia.
- Pode dar resultado. Depois de se encontrarem a bordo. marinheiros 
espertos como vocs tero muitos lugares onde se esconderem. Mas como  
que querem entrar a bordo sem serem vistos?
- Pensmos aguardar at ser escuro. e trepar por cima da amurada.
- Talvez haja uma maneira melhor - respondeu o capito. com uma careta. - 
-Mas... Eh! - exclamou, ao ver que o Sol atingir o

270

meio-dia. - O melhor  discutirmos o assunto por cima de um empado de 
pescador. Que me dizem a isso? Alguma vez comeste empado de pescador? 
No, anda da. Este capito vai mostrar-te uma maravilha!
O capito Wiggam trotou ao longo da estreita rua empedrada. para onde se 
abriam as portas de todas as lojas possveis e imaginveis. Quentin e 
Toli seguiram-lhe na esteira. As ruas estavam apinhadas de marinheiros. 
mercadores e habitantes, que gritavam, se empurravam e tornavam difcil 
no perder de vista o capito, que seguia  frente como um navio a todo o 
pano. Por fim chegaram a uma estalagem to cheia de gente que alguns 
clientes se encontravam sentados na rua com as suas canecas de cerveja. 
Quando Quentin e Toli, a cambalear, conseguiram alcanar o capito, este 
exclamou:
- Ah. que tal este cheirinho, rapazes? Alguma vez ao vosso nariz se 
deparou um cheiro mais apetitoso?
O capito abriu caminho para a porta,  cotovelada, e comeou a chamar o 
estalajadeiro. com quem parecia ter relaes de amizade.
Quando Quentin deu por isso. j estava sentado a uma mesa com mais trs 
outros marinheiros - todos capites, como salientou Wiggam - e momentos 
depois comiam um rico guisado de peixes e vegetais, cozinhados num prato 
fundo e cobertos com uma espessa crosta castanha. Os jarros de cerveja 
estavam  disposio e Quentin bebeu a sua parte da bebida, que subia  
cabea com facilidade.

- S mais uma paragem - garantiu o capito Wiggam. J anteriormente o 
prometera por trs vezes. Quentin lanou olhos duvidosos para o cu, onde 
o Sol j se encontrava baixo, fazendo com que as sombras se alongassem em 
direco ao crepsculo. Tinham andado a correr de um lado para o outro 
toda a tarde. por aqui e por ali. falando com este e com aquele mercador.
Wiggam, concluiu Quentin, procurava uma determinada informao e 
aparentemente obtivera-a.
- Eis o que descobri - disse o capito, quando viraram para uma ngreme 
rua lateral, longe da rua principal. - O navio, como calculei pelo 
tamanho, s faz o percurso entre as ilhas.  um navio de abastecimento, 
para curtas viagens. Karsh est apenas a um dia e uma noite de distncia, 
com bom tempo. Vem aqui muitas vezes para refazerem os abastecimentos, e 
 disso que esto a tratar agora. Ah, c estamos.

271

Tinham-se detido em frente de um ptio aberto. Pelas lascas de madeira 
espalhadas pelas desgastadas pedras do pavimento, Quentin concluiu 
tratar-se de uma oficina de carpinteiro. O capito penetrou no ptio, 
gritando:
- Aistrop! Onde ests. meu velho amigo? Corre. AIstrop, tens um cliente.
- Estou a ouvir-te! No precisas de gritar! - foi a resposta, vinda de 
detrs de uma instvel torre de barris.
Uma cabea coberta por cabelos brancos e encaracolados espreitou de um 
dos lados da torre para ver quem eram os recm-chegados.
Wiggam! Minha velha raposa dos mares! - gritou o carpinteiro ao ver quem 
era o cliente. Apareceu de detrs do monte de barris e Quentin verificou 
tratar-se de um homem que, apesar dos cabelos brancos, era forte e cheio 
de vida, de grandes mos e braos musculosos.
- Espero que no tenhas estragado outra vez o teu barco... Seria 
demasiado azar - declarou o carpinteiro, apertando a mo de Wiggam.
- No... mas admito que nos podias ter sido til h alguns dias. Tivemos 
problemas com o leme.
- Pois, Tinha-te avisado. Bem te disse! D-me uma semana para trabalhar 
no Marribo e ponho-o como novo... mas no queres. Ests sempre demasiado 
ocupado! Pelos deuses!
-  um bom navio. At  suficientemente bom para aguentar todas as tuas 
reparaes!
- Ah! - O carpinteiro atirou as mos ao cu. - Ento. que te trouxe aqui?
- Tenho uns amigos que necessitam da tua ajuda. Dois daqueles barris iro 
servir muito bem.
O capito explicou o seu plano a AIstrop, enquanto o carpinteiro acenava, 
muito srio. e coava o queixo. Os seus brilhantes olhos azuis percorriam 
tudo: o cu por cima dele, as aparas de madeira no solo. Quentin, o 
capito, Toli. os barris. Examinaram tudo o que o rodeava, e depois de o 
capito Wiggam ter deixado de falar pareceram virar-se para dentro, para 
examinarem o prprio carpinteiro.
- Sim.  um plano... - murmurou. num tom vago. - Estou certo que o plano 
foi teu... pois quem mais poderia ter pensado numa coisa dessas? 
Ridculo,  o que ! No  um plano,  uma anedota!
O carpinteiro virou-se, regressou para junto da mesa de trabalho.

272

de onde voltou com uma curta vara de madeira esbranquiada. Era o seu 
"pau de pensar", explicou, batendo com a vara na palma da mo.
- Bom! Os barris podem resultar. Sim senhor. servem muito bem... mas 
temos de fazer algumas modificaes. Alm disso, tenho de ser eu a lev-
los. No? Bom, est bem, vamos juntos. Tenho um carrinho de mo. O resto 
tratamos depois. Ao trabalho! Depressa. o tempo escasseia.

A ltima luminosidade da tarde j desaparecera e a primeira estrela 
erguera-se nos cus antes de os dois homens, que se encontravam junto de 
um carrinho com dois grandes barris, acenarem um para o outro.
- Aqui vamos ns - murmurou um dos homens para os barris. - Esperemos que 
os deuses vos sorriam.
Empurraram o carrinho de mo. contornaram a esquina e seguiram ao longo 
da calada irregular at ao local onde o navio de velas negras se 
aprontava para partir.
Eh. tu, a bordo! - gritou o carpinteiro para um marinheiro do navio de 
Nimrood. O marinheiro mirou-os com um ar desconfiado, mas no respondeu. 
- Diz ao teu capito que temos carga para embarcar.
Depois de um olhar prolongado e duro, o marinheiro desapareceu e 
regressou com outro, um homem que exibia um chicote de couro entranado.
- s tu o capito? - perguntou AIstrop.
- O capito est ocupado - respondeu o homem. resmungando. - Vamos 
partir. Desapaream daqui!
- Temos barris para embarcar.
- J carregmos as nossas provises - retorquiu o homem, agitando o 
chicote.
- No digo que no... - replicou o carpinteiro com toda a calma mas estes 
barris so para embarcar.  melhor ires chamar o teu capito e deixar que 
seja ele a decidir.
- No preciso do capito para nada, porcos! Desapaream!
Virou-se para se afastar, fazendo sinal aos marinheiros que se tinham 
reunido  sua volta para continuarem com os preparativos para a largada.
Wiggam piscou os olhos para o carpinteiro.
- Muito bem, levamo-los de volta... - gritou em voz alta - mas no queria 
ser eu a ter de dizer ao teu amo que se esqueceram de dois

273

barris, que ficaram aqui mesmo, no cais! - Acenou para o carpinteiro, que 
se virou e comeou a empurrar o carrinho de mo de volta para a povoao.
O marinheiro com o chicote apareceu a espreitar por cima da amurada.
- Esperem! - pediu. - O que  que est nesses barris?
- Nada de especial - respondeu Wiggam. encolhendo os ombros. - 
Provavelmente. no tm importncia.---- concluiu. virando-se tambm, para 
seguir AIstrop.
- Esperem a! - gritou o marinheiro. Agitou a cabea para alguns dos seus 
homens e a prancha de desembarque apareceu na amurada. Desembarcaram dois 
homens, que correram pelo cais, para os barris. Viraram o carro e 
momentos depois j os barris se encontravam a bordo.
- Agora, ponham-se a andar - rosnou um dos marinheiros.
- Tenham cuidado com os barris - avisou o carpinteiro.
- No quero ser responsvel por mercadoria estragada. Se a quebrarem, 
sero vocs a pag-la!
Os dois homens ficaram a ver os barris a serem transportados com todo o 
cuidado para a popa, enquanto o navio se afastava, empurrado pela ligeira 
brisa nocturna.
- Que bons ventos vos levem, meus jovens amigos... - disse o capito 
Wiggam.
- E que os deuses vos tragam depressa de volta - acrescentou o 
carpinteiro.
Os dois homens viraram as costas ao mar e desapareceram no escuro do 
crepsculo. A Estrela da Tarde brilhava alta, no horizonte, perto da Lua 
que acabara de nascer.
- Ah! - comentou o carpinteiro. -  um bom augrio de xito!
- Sim - respondeu o capito -, mas a partir de agora iro necessitar de 
mais do que de bons augrios. Necessitaro da interveno da prpria mo 
do deus.

CAPTULO XXXVI

No h fuga possvel, senhora - disse Trenn, com uma voz trmula de 
desespero. - Verifiquei todos os fechos e todas as pedras desta masmorra. 
No h sada... excepto pela porta, e  Nimrood quem tem a chave.
A rainha, de braos dobrados e pernas puxadas para cima. no levantou a 
cabea.
- Outra coisa no seria de esperar - respondeu, com o mais profundo dos 
suspiros.
- No percam as esperanas, meus amigos. - Durwin permanecia de p sob a 
pequena mancha de luz que caa de uma qualquer seteira invisvel, por 
cima deles. Aproximou-se do local onde Trenn e Alinea se encontravam 
sentados e encolhidos. - Deus ir libertar-nos deste buraco.
- Desde quando  que os deuses se importam com o destino dos mortais? - 
perguntou Trenn, troando. - Olhe bem para ns... Que tem o seu deus a 
ver connosco, neste momento? Se se importasse, no tnhamos sofrido tanto 
como sofremos... e como provavelmente iremos sofrer.
- O mais Alto tem os seus prprios desgnios... que no so os desgnios 
dos homens.
- No me fale nos desgnios dos deuses. Estou cansado de ouvir falar 
neles. - Trenn virou o rosto para outro lado. - S me interessa aquilo 
que os homens podem fazer.
- No digas isso... - acalmou~o Alinea. pousando uma das mos no brao de 
Trenn. - De qualquer modo, temos de aguentar, e  melhor que o faamos 
com dignidade.

276

- Ests a ver? - perguntou Durwin, agitando um brao por cima da cabea. 
- Isto  obra de Nimrood... Esta impotncia que se abate sobre ns e que 
nos atira uns contra os outros. No ligues. no passa de um truque do 
inimigo.
Trenn lanou um olhar de pedra sobre Durwin.
- Alm disso, enquanto Theido e Ronsard andarem l fora em liberdade, h 
esperanas. Neste momento j devem estar a trabalhar pela nossa liberdade 
e pela do rei.
- Se no estiverem mortos... - replicou Trenn com amargura. A tempestade. 
os homens de Nimrood...
Durwin no fez comentrios e regressou  sua mancha de luz e s oraes.
A masmorra no passava de um buraco rudimentar aberto na parte mais 
profunda do castelo. No tinha quaisquer aberturas, excepto a da porta 
enferrujada e um buraco invisvel, muito no alto. O cho era de terra 
batida e lodosa, por causa da humidade que escorria pelas paredes e 
pingava do tecto. Podiam existir serpentes a deslizar pelas fendas das 
fundaes do castelo. pois era a que a masmorra se encontrava. nas 
prprias razes da fortaleza.
Como o cho estava hmido e cheirava a bafio e s obscenidades sobre ele 
praticadas. os prisioneiros haviam-se amontoado sobre a escassa palha 
meio podre que algum l colocara. havia muito tempo, para servir de 
cama. Era a que se encontravam. encolhidos no meio do buraco 
malcheiroso.
Na escurido da masmorra, s aquele fino feixe de luz os informava da 
passagem dos dias. Viam-no avanar pelo cho. at desaparecer na 
escurido da noite que se aproximava. Ento. encostavam-se uns aos outros 
para conseguirem resistir  misria da mais profunda das noites.
No segundo dia, quando a mancha de luz que mareava a passagem do dia j 
se aproximara da parede do outro lado, ouviu-se um som a ecoar pelo baixo 
corredor de pedra que dava acesso  masmorra, situada por debaixo de uma 
das torres, a partir do subterrneo principal. que era um labirinto de 
cmaras e celas.
- Passos! - disse Trenn, pondo-se de p rapidamente e levando uma das 
mos ao flanco ferido. - Vem a algum,.
Era verdade. os passos do que parecia ser um regimento completo 
aproximavam-se cada vez mais. Podiam ouvir uma voz spera e

277

ininteligvel a dar ordens. Ento. com um rangido e um estalido, a tranca 
da porta de ferro foi puxada para trs e a porta escancarou-se.
Pela estreita abertura passaram dois dos soldados de Nimrood. segurando 
tochas, seguido por um outro, armado com uma alabarda.
- Para trs! - rugiu um dos soldados quando Trenn se aproximou dele.
Depois, na porta da masmorra surgiu uma figura alta, a cambalear. que foi 
violentamente empurrada por detrs, e caiu de rosto para baixo sobre os 
degraus da entrada, rolando para o cho da masmorra. O homem gemeu quando 
o ar lhe fugiu dos pulmes, e ficou imvel.
Os dois soldados com as tochas recuaram uns passos. pegaram no homem 
pelos braos e colocaram-no de joelhos.
- Ests a querer dificultar o nosso trabalho. no ? - disse um deles. 
levantando um p, colocando-o nas costas do homem e empurrando-o para a 
frente. As mos do prisioneiro estavam amarradas nos lados do corpo, pelo 
que no podia proteger-se da queda. A sua cabea comeou por ser atirada 
para trs e depois embateu no cho da masmorra. Os dois guardas viraram-
se e saram.
A porta de ferro fechou-se com grande rudo e os passos dos guardas 
afastaram-se ao longo do corredor.
Durwin correu para o prisioneiro cado, seguido por Alinea, que parou a 
seu lado. Trenn atirou-se para a frente e debruou-se sobre o corpo. 
Depois olhou para cima, para os outros.
- Aqui est a nossa salvao - declarou.
- Theido! - exclamou Alinea, quando Durwin rolou o homem, nos braos.
O rosto do cavaleiro fora espancado. Escorria sangue e exibia manchas 
azuladas por debaixo de um dos olhos e por cima da tmpora. Tinha os 
olhos abertos mas no via, pois permaneciam nublados pelas torturas a que 
estivera sujeito.
- Se tivssemos gua--- - murmurou Alinea. - j no h nenhuma da rao 
que nos deram esta manh.
No entanto. Durwin j entrara em actividade. Colocou uma das mos na 
testa de Theido. fez um sinal com os dedos e tocou em cada uma das 
feridas, enquanto pronunciava estranhas palavras por entre dentes. Dos 
lbios de Theido escapou-se um gemido de dor.
- Agora, ir adormecer. Ajudem-me a desamarr-lo.

278

Na realidade, o resistente cavaleiro quase no dormiu e voltou a acordar 
pouco depois de o libertarem das cordas. O nublado desapareceu~lhe dos 
olhos, mas precisou de algum tempo para voltar a si. Pestanejou e olhou 
para os rostos dos amigos.
- Vocs esto vivos! - gritou.
- Theido. estivemos to preocupados contigo! - disse Alinea, estendendo a 
mo para segurar na dele.
- Disseram-me que tinham morrido no mar. Que se tinham afogado e que vos 
haviam deixado na praia para servirem de alimento s aves.
- Mentiras! - Trenn, com o rosto negro de fria, rangia os dentes e 
cerrava os punhos.
- Onde est Ronsard? - perguntou Theido, tentando erguer-se do cho sujo.
- Ento tu no o viste? - exclamou Alinea, admirada.
- No. no vi ningum. Nem sequer os homens que me apanharam. Arrastaram-
me da praia, cheio de gua do mar e ainda meio inconsciente. Nem sequer 
os ouvi chegar.
- Quando foi isso?
- No me lembro... Talvez perto do meio-dia.
- Fomos apanhados ontem, de madrugada - explicou Durwin.
- Devem ter voltado  costa para explorarem as praias com mais cuidado.
- Ento Ronsard... morreu? - inquiriu a rainha numa voz trmula.
- Bom, no podemos ter a certeza. Pode ainda estar vivo... Todos ns 
sobrevivemos ao afundamento do bote...
- Sim, mas no estvamos to feridos como ele - declarou Trenn com 
rudeza. - Ronsard morreu.
- De momento,  melhor no pensar no assunto - aconselhou Theido. - 
Trenn, inspeccionaste este maldito buraco? - perguntou, olhando devagar 
para a escurido  sua volta.
O guarda da rainha acenou em silncio e abriu as mos num gesto de 
frustrao.
- Estou a ver... Ento...
- Escutem! - interveio Durwin. Theido, com as palavras ainda na ponta da 
lngua, calou-se de repente. Ao longe, no corredor, voltavam a ouvir-se 
passos. - Vm a outra vez.

279

- Provavelmente vm buscar um de ns, para o torturarem disse Trenn. - 
Irei eu, e ser um alvio!
- No, no levaro outro de ns - replicou Theido. - Lutaremos!
Os passos estavam mesmo junto  porta da masmorra. A cela encheu-se com o 
rangido da tranca a ser deslocada e do chiar da porta a abrir-se sobre 
dobradias ferrugentas.
Mais uma vez surgiram dois soldados, que entraram com as tochas na frente 
deles, logo seguidos pelo homem da alabarda, que emitia um brilho frio 
sob a luz das tochas.
Atrs dele surgiu uma figura baixa e encurvada, que se colocou em 
silncio por detrs dos outros, de um lado da masmorra. Seguiu-se-lhe uma 
forma negra, que atravessou a porta e se instalou na esfera da luz das 
tochas. Os prisioneiros puderam ver um cabelo escuro riscado de branco.
- !-imrood! - exclamou Durwin.
- Eu mesmo! - retorquiu o feiticeiro, com um sorriso traioeiro. - 
Verifico que o nosso pequeno grupo j est completo. - Mirou-os um a um. 
e depois endireitou-se e gritou: - Loucos! A meterem-se com Nimrood, o 
necromante! Vou transform-los em cinzas!
Desceu os degraus da entrada, com a capa negra a agitar o ar hmido como 
se fossem as asas de um morcego.
- Comearei por ti, meu arrogante cavaleiro, meu "Falco"! Oh, sim! - 
silvou, ao ver que Theido reconhecia o nome. - H muito tempo que te 
tenho debaixo de olho. No entanto, no irs arder como estes outros. Para 
ti, tenho melhores planos. Muito melhores. H um lugar especial reservado 
para ti, cavaleiro.
- Morrerei antes de me obrigares a servir-te! - replicou Theido com 
frieza.
- Oh, sim, sem dvida. Garanto-te que sim! - cacarejou o malfico 
feiticeiro. - Mas antes disso, vers os teus amigos a morrerem gritando. 
- Escorria-lhe baba dos lbios. Lanou uma medonha careta para os outros, 
virou-se e voltou a subir os degraus da entrada.
Nimrood voltou a parar sob a luz das tochas, parecendo um fantasma sado 
da escurido que o rodeava. Hesitou, antes de se virar para sair, e 
declarou:
- Gostaria de comear j a tratar de ti... - disse. sorrindo para

280

os cativos, de novo com a sua expresso traioeira - mas isso ter de 
esperar. Talvez vos interesse saber que tenho de estar presente numa 
coroao. Depois... teremos tempo mais que suficiente para as nossas 
diverses.
- Qual coroao? - perguntou Durwin.
- Ah, finges que no sabes! A do prncipe Jaspin,  claro. Muito em 
breve, Askelon ter um novo monarca! Ah! Ah! Ah! Vou partir imediatamente 
e no me esquecerei de lhe transmitir os vossos melhores cumprimentos. E 
os seus tambm, rainha Alinea. Ou julgava que no a tinha reconhecido? O 
prncipe h muito que se interroga sobre o seu desaparecimento. Dir~lhe-
ei o que tem andado a fazer... e os planos que tenho para todos vocs.
Nimrood virou-se e desapareceu na porta, seguido pelo homem dobrado e 
pelos guardas. Os prisioneiros continuaram a escutar as suas gargalhadas 
loucas enquanto se afastava pelo corredor. A voz ecoava at eles como um 
trovo no dia do Juzo Final.
- Ah, ah, ah! Voltarei em breve, e ento poderemos comear! Ah, ah, ah! o 
novo rei de Askelon vai ficar muito satisfeito! At l... durmam bem, 
meus filhos! Durmam bem!

CAPTULO XXXVII

O som dos homens que trabalhavam, descarregando a carga do navio. j se 
tinha apagado. Quentin encostou a orelha ao lado do barril e escutou. 
Tudo o que se ouvia era o suave marulhar das ondas de encontro ao casco 
do navio, um som que lhe parecia vir de muito longe mas que sem dvida se 
encontrava perto. De vez em quando ouvia o guincho de uma ave marinha que 
pairava no alto. Todos os sons que lhe chegavam do exterior eram abafados 
e indistintos por causa da espessa madeira de carvalho do barril.
Enquanto a bordo do navio ocupara o seu tempo dormitando e esperando.  
escuta, no interior da pequena priso. ansioso por poder esticar as 
pernas mas sem ousar mover um msculo. Por fim. quando todos os seus 
nervos e fibras gritavam por alvio. permitira-se mudar de posio. 
Depois de o ter feito pela primeira vez. sem nenhumas consequncias 
desastrosas, passara a mudar de posio com mais frequncia, mas sempre 
to silenciosamente quanto possvel.
De vez em quando empurrava a rolha que tapava o barril e deixava que o ar 
fresco entrasse no abafado interior. Comprimia o rosto de encontro ao 
buraco e espreitava para o exterior. mas no conseguia ver nada das 
actividades a bordo. Era uma coisa simultaneamente boa e m, pensara 
Quentin. Permitia-lhe aspirar ar fresco com mais frequncia sem o receio 
de algum reparar nos pequenos movimentos da rolha. mas por outro lado 
queria dizer que no tinha a menor possibilidade de verificar, com alguma 
antecedncia, se eram descobertos. Como no via o convs. tambm no 
podia saber quando chegavam ao destino.

282

Assim, confiara nos ouvidos para lhe dizerem o que se passava  volta do 
barril. Estivera a dormir quando o barril fora levantado e transportado 
para fora do navio. A sensao de estar a ser erguido, sem qualquer 
aviso, e de acordar a balouar no espao surpreendeu-o tanto que teve de 
abafar um grito de susto.
A seguir fora atirado para a areia da praia. No se ouvira nenhuma 
pancada do barril contra o cho, como acontecera no convs, pelo que 
calculou que a carga fora largada na areia. Antes de ter a coragem de se 
arriscar a uma nova espreitadela pelo buraco do barril, esperara que 
desaparecessem os sons da descarga e o barulho dos homens a resmungarem e 
protestarem contra as suas tarefas.
A nova vista, a partir da minscula janela. era mais encorajadora. O 
barril parecia ter sido largado junto de uma rampa de madeira. que via a 
partir de baixo. Deveria ser o cais improvisado que sobressaa nas guas 
da baa que os homens de Nimrood utilizavam como porto. Para l da rampa 
avistava uma costa lambida pelas ondas, e escutava o barulho de ondas 
mais fortes a quebrarem-se contra qualquer coisa, ao largo.
Avistou algumas rochas a sobressarem da areia. cujas longas sombras. a 
estenderem-se para o mar, lhe disseram que o Sol ia muito baixo e o 
crepsculo estava para breve.
No via marinheiros, nem guardas, nem nada que lhe indicasse uma presena 
humana por perto. "Muito bem", disse para si mesmo, "espera pela 
escurido".
Quentin acabara de fechar a rolha do barril e de se instalar na sua 
posio enrolada, quando ouviu um ligeiro tilintar - que se foi tornando 
mais forte - e o murmrio abafado de vozes. Calculou que se tratava de 
dois homens a conversarem um com o outro. A seguir ouviu o relinchar de 
um cavalo e o rangido de uma roda em cima da areia. Pensou: " uma 
carroa, trouxeram uma carroa".
- Bom, vamos a isto - disse uma das vozes, abafada pelas madeiras do 
barril. Quentin retirou a rolha para as poder ouvir melhor.
- No tenhas tanta pressa! - respondeu a outra voz. - os outros esto a 
chegar e do-nos uma ajuda.
- Pois, mas dentro em pouco estar escuro. No tenho vontade nenhuma de 
levar a carroa at l acima, no meio da escurido. Mesmo de dia, j  
suficientemente mau...

283

Ento passamos aqui a noite. Que mal faz? No sejas to esquisito...
 fcil de dizer. porque no ests c h tanto tempo como eu, no ouviste 
o que ouvi nem viste as coisas que eu vi. Digo-te que...
- L ests tu outra vez. Gali-te. sim? No quero ouvir as tuas histrias. 
Por Zoar! s um fracalho.,
Sei coisas, estou a dizer-to. Se tenho medo deste stio  noite.  porque 
vi...
- No viste nada que no possa ser visto noutros stios. Cala-te, no 
estou para te aturar!
O outro homem ficou a murmurar sozinho depois daquela troca de palavras 
irritadas. Quentin no distinguia as palavras mas sabia que tinha de 
pensar depressa. Tinham-lhe apresentado uma nova alternativa. Ou esperava 
que o carregassem na carroa, com o resto das provises, ou tentava 
escapar-se antes de chegarem os outros. Voltou a fechar a rolha. com 
cuidado, e passou por um momento de indeciso: ir ou ficar?
Quentin decidiu esperar. Se pudesse entrar no castelo sem ningum dar por 
isso, seria melhor do que ter de rondar a toca do inimigo. Porm, no 
momento em que chegou a essa deciso, a capacidade de escolha foi-lhe 
repentinamente retirada.
- Eh! - gritou um dos homens da carroa. - Vi qualquer coisa a mexer-se 
junto de um dos barris!
- L ests tu outra vez! Cala-te! Quero dormir! - retorquiu o outro. 
zangado.
- Mexeu-se, estou a dizer-to! Um dos barris mexeu-se! - protestou o 
primeiro homem.
- Que Hoeth te leve e mais ao teu barril! Vou provar-te que no h ali 
nada. Qual foi o barril?
Quentin ouviu os passos do homem na areia, a aproximarem-se.
- Aquele, ali na ponta - indicou o homem assustado, seguindo atrs do que 
era mais corajoso.
Trs passos mais perto. O corao de Quentin martelava-lhe nas orelhas e 
imaginava que podia ser ouvido em toda a praia. como se fosse um tambor.
Ouviu a respirao do homem. Os passos haviam parado mesmo junto dele. 
Podia escutar o farfalhar das roupas do homem que olhava para baixo, para 
o barril.

284

- No h aqui nada, por Zoar!
- Vi qualquer coisa, ainda h momentos.
- Uma sombra.
- No foi uma sombra. H algo de estranho nestes barris.
- Olha em volta, idiota! Vs alguma coisa? Pelos deuses! Terei de abrir 
os barris, para to provar?
Quentin sentiu o corao a apertar-se-lhe no peito, como se tivesse sido 
espremido pela mo de um gigante. Escutou o barulho de qualquer coisa 
pesada a tocar na tampa do barril. Iam abri-lo...
Quentin colocou os ps debaixo do corpo e agachou-se. A tampa soltou-se.
- Olha para isto! - comentou o homem. - Esta tampa estava muito mal 
fechada.
Nesse instante, Quentin saltou disparado do barril, atirando a tampa 
contra o rosto do homem e gritando o mais alto que era capaz.
No momento em que saltou do barril, avistou, de relance, o homem 
aterrorizado que se virava e cambaleava, num esforo para fugir. O outro, 
quase to assustado como o primeiro, por causa daquela estranha criatura 
a gritar que saltara do barril, caiu para trs na areia e a tampa 
atingiu-o num dos lados da cabea.
- Toli! - gritou Quentin - Foge! Fomos descobertos!
Toli, que tinha bem a conscincia do que se estava a passar, saltou do 
seu barril num instante e comeou a correr pela areia, em direco  
floresta.
O homem cado no meio dos barris recuperou a conscincia quando os dois 
iam a fugir. O outro estava encolhido debaixo da carroa, com a cabea 
escondida na areia.
- A vm os outros, os soldados de Nimrood! Vo apanh-los! gritou o 
primeiro.
Quentin olhou por cima do ombro enquanto corria. Viu uma dzia de 
soldados a marcharem ao longo da praia, alguns com compridas lanas e 
outros com as espadas desembainhadas. no muito para l dos dois 
carregadores, que gesticulavam muito e apontavam na direco deles.
Virou-se, baixou a cabea e acelerou em direco s rvores.
- Corre, Toli, corre! Vm atrs de ns! Vamos fugir daqui!
Sem o menor abrandamento da corrida, os olhos de Toli examinaram

285

a floresta. Ento, como um veado a fugir em frente de uma seta. dirigiu-
se directamente para a zona onde o mato era mais cerrado.
Quentin tinha de dar o seu mximo para o conseguir acompanhar. Toli. 
alerta e com todos os seus instintos a funcionarem, encontrava-se de novo 
no seu elemento. Parecia deslizar sem esforo por entre os espessos 
matagais. desviando-se. fazendo fintas, penetrando pelas mais pequenas 
aberturas e saltando por cima de rochas e rvores cadas.
Ao princpio Quentin caiu vrias vezes, tropeando nos seus prprios ps, 
cambaleando atrs dele. mas depois resolveu imitar Toli, desviando-se 
onde ele se desviava e baixando-se onde Toli se baixava, e o avano 
tornou-se mais fcil. Esquecera o medo e corria. completamente livre. 
Sentia o corao cheio de fria excitao da fuga.
Atrs deles podiam ouvir os soldados a abrirem caminho pela floresta. 
Tinham-se disposto numa fila. para melhor apanharem a presa. Praguejavam 
enquanto avanavam, esmagando arbustos e moitas, deixando-se enredar nos 
ramos baixos e nas urzes. Toli parou por duas vezes. para um curto 
descanso e para escutar. Os sons da perseguio chegavam-lhes cada vez de 
mais longe. apagando-se no meio dos sons nocturnos da floresta.
- Vai escurecer em breve - disse Toli. Levantou os olhos para o cu, onde 
ainda se via um resto de luz. Todavia, em volta, as zonas mais cerradas 
da floresta mergulhavam rapidamente na escurido. Quentin j comeava a 
ter dificuldade em distinguir os troncos das rvores da escurido que os 
envolvia.
- -No podero seguir-nos durante muito mais tempo... Parece que nos 
esto a perder. - As duas afirmaes no passavam de perguntas: Quentin 
queria sentir-se tranquilizado.
- Agora j no nos apanham... - respondeu Toli - mas temos de continuar. 
Procuraremos um lugar para acamparmos esta noite. Virou-se e girou a 
cabea para um lado e para o outro. - No te afastes de mim - pediu, 
comeando outra vez a correr.

Mudaram de direco e comearam a subir a vertente de uma colina. O 
caminho era cada vez mais inclinado. o que os obrigava a passos mais 
curtos. Toli abrandou um pouco mas continuou em frente, com deciso.
A pouco e pouco, os rudos da floresta, atrs deles. foram morrendo. 
Quentin pensou que os soldados ou tinham desistido ou os haviam perdido 
completamente.

286

Agora. no entanto, Quentin tinha os ouvidos atentos a outros sons, os 
sons de uma floresta que despertava para a vida com a chegada  noite.
Os verdes das folhas e dos musgos, os castanhos das rvores e a terra e 
os azulados das sombras haviam-se misturado todos numa tonalidade 
confusa. Seguia Toli com os ouvidos. e no com os olhos, tentando 
acompanh-lo s cegas.
- Ui! - fez Quentin, quando caiu, com um gemido. Prendera o p numa raiz 
atravessada no caminho e cara de rosto. Toli ouviu-o cair e voltou para 
trs.
-  melhor parar, apenas por um momento - sugeriu Quentin - Est 
demasiado escuro para correr.
- Esqueci-me. Kenta, que tens uma m -viso nocturna. - Toli ficou imvel 
e virou a cabea,  escuta. Quentin ouviu um estranho som abafado. Toli 
parecia cheirar o ar.
- Este lugar  muito mau. No podemos ficar aqui - declarou o
jher passado um bocado. Dobrou-se e estendeu uma das mos para Quentin. 
ajudou-o, a pr-se de p e partiu outra vez. mas mais devagar
O caminho continuava a subir, mas de repente. e sem qualquer aviso, 
transformou-se numa ngreme descida. Atingiram o fundo de uma garganta. 
aberta na terra pelas chuvas. Ali perto corria um pequeno ribeiro. 
Quentin ouvia o rudo da gua. Do cho  volta deles comeava a levantar-
se um nevoeiro pestilento, que se lhe agarrava s pernas, em farrapos. 
enquanto avanavam por entre os seus tentculos.
Um mocho piou em qualquer lado. por cima deles. e ouviu-se a resposta de 
um companheiro, vinda de mais longe. No meio da floresta invadida pela 
escurido que descera sobre a terra. chegavam-lhes outros sons - pequenos 
trinados. rastejares furtivos sobre as folhas secas por onde passavam. o 
sopro de asas invisveis.
Houve uma vez em que Quentin escutou um fraco zumbido no ar, muito perto, 
e sentiu um ligeiro toque no rosto. Recuou ante aquele contacto suave, 
como se tivesse levado uma pancada. Levou a mo ao rosto e sentiu-o sujo 
com uma substncia pegajosa. Limpou-a com uma careta e continuou.
O nevoeiro malcheiroso adensava-se e tornava-se mais alto, originando 
remoinhos no ar. Quentin tinha a sensao de que o nevoeiro lhe prendia 
as pernas, como se o quisesse deter. j nem conseguia ver os ps.

287

Seguia Toli - que parecia no dar por nada do que se passava  sua volta 
- sem grande vontade. Ansiava por sair daquele amaldioado caminho e 
voltar a trepar para a floresta.
Todavia, continuou em frente.
O seu p embateu num ramo podre, que se partiu com um estalido oco, que 
pareceu encher toda a garganta. De sbito, mesmo de debaixo dos seus ps, 
surgiu uma forma a guinchar. Era branca e sem contornos, no meio do 
nevoeiro. e soltava longos gritos que ecoavam nos bosques. Ia direita a 
ele e Quentin colocou as mos na frente da cara para se proteger. Porm, 
no momento em que se deveria ter dado a coliso, no sentiu nada. Afastou 
as mos e viu as asas brancas de uma ave que se escapava ao longo da 
garganta.
- Toli. no haver um caminho melhor?
Toli parou e olhou em volta. como se calculasse a distncia que tinham 
percorrido.
- Sim. Em breve sairemos daqui.  s mais um pouco...
Cumprindo a sua promessa. pouco depois Toli conduziu Quentin por uma 
ladeira pronunciada. coberta de vinhas. Treparam-na por uma faixa 
enlameada, onde um pequeno riacho que corria pelo meio da floresta 
despejava um fio de gua ftida por cima de pedras cobertas de musgos 
negros.
Quentin escorregou na lama. Endireitou-se e segurou-se. mergulhando as 
mos na lama, e continuou a subir agarrado s ervas. Por fim conseguiram 
sair da garganta e ficaram de p num espao largo e plano, rodeado por 
rvores. Por detrs deles encontrava-se a garganta, com o seu nevoeiro 
empestado, e na frente via-se uma colina densamente arborizada.
Sem uma palavra. Toli comeou a trepar a colina. Quentin seguiu-o. 
tambm. em silncio. No valia a pena perguntar-lhe onde iam, ou porqu. 
Toli l tinha as suas razes e, alm disso, Quentin no se lembrava de 
nenhuma sugesto melhor.
Tinham caminhado durante vrias horas, com as rvores negras a ocultarem 
a escurido ainda mais profunda que ficava para l delas. quando Quentin 
viu qualquer coisa que o sobressaltou. apesar de no compreender porqu.
No disse nada e continuou a andar, de olhos postos no ponto da colina, 
muito  sua frente, onde vira aquilo. Voltou a v~la. No passava de um 
pequeno brilho.

288

Agitou a cabea e olhou. L estava outra vez. Oscilava e danava e 
parecia afastar-se enquanto se aproximavam.
O caminho continuava a subir e Quentin ganhou a certeza de que no estava 
a ver um fantasma.
- Olha - disse. apontando por entre os ramos. - Est qualquer coisa a 
brilhar l em cima.
-Mais dez passos e ficou a saber o que era: uma fogueira. Algum acendera 
uma fogueira de acampamento.
Aproximaram-se com todas as cautelas. Toli queria evitar a rea mas 
Quentin tinha uma sensao diferente: a de que era preciso inves tigar. 
Aproximaram-se cada vez mais, movendo-se muito devagar e com cuidados 
infinitos, sem provocarem o mnimo som.
Depois de uma hora quase a rastejar, atingiram o pequeno e confortvel 
acampamento. detendo-se no exterior do crculo de luz. Observaram e 
esperaram. No havia ningum  vista. Quem quer que tivesse acendido a 
fogueira no se encontrava por ali.
- Os soldados?
Toli abanou a cabea.
- No aqui... - e no com uma fogueira to pequena para tanta gent
O aviso chegou-lhes demasiado tarde.
Por detrs deles, no trilho, ouviram-se plantas a agitarem-se e passadas 
pesadas. De sbito, uma forma enorme caiu-lhes em cima, empurrando-os 
para a frente. Toli mergulhou para um dos lados, mas Quentin foi apanhado 
e empurrado para o acampamento. O monstro rugiu como se sentisse dores 
terrveis, e Quentin foi-se abaixo quando os golpes lhe choveram em cima. 
Contorceu-se, com a cabea demasiado perto da fogueira. Viu uma coisa 
clara a passar junto dele. Era u rosto. A seguir ouviu uma voz.
- Fica onde ests!
A ordem fora firme... Talvez com um vestgio de receio, que desapareceu 
imediatamente. Quentin levantou os olhos devagar e deparou-se-lhe a 
volumosa forma de um homem pairando sobre ele. empenhando o que parecia 
ser um pau.
Houve qualquer coisa de familiar naquela figura imponente, que ameaava 
rebentar-lhe o crnio de um momento para o outro com o pau.
Voltou a espreitar e procurou ver o rosto sob a luz incerta e oscilante 
das chamas.

289

"Impossvel!". pensou. "No pode ser! No entanto lembrou-se, ao mesmo 
tempo. que encontrar um fantasma num lugar to desumano no tinha nada de 
impossvel e at era de prever. Seguindo aquela linha de pensamento. 
Quentin pensou que, tanto quanto soubesse, as sombras no andavam armadas 
de paus nem batiam nas vtimas.
Mas o rosto... Sim, havia qualquer coisa de familiar naquela cara... J a 
vira em qualquer lado. Noutro stio, muito tempo antes...
De repente. lembrou-se. Lutou contra aquela recordao e tentou afast-la 
de si. Lutou para no acreditar. Todavia, o reconhecimento permanecia. 
apesar de Quentin no ter certezas.
- Ronsard? - perguntou baixinho, com uma voz trmula.
Durante o tempo de uma batida do corao, tudo o que ouviu foi o estalar 
da fogueira.
O homem ajoelhou-se a seu lado e baixou o rosto para Quentin, que 
estendeu uma das mos, a tremer.
- Ronsard... s tu?

CAPTULO XXXVIII

- Sou Ronsard - anuiu o homem ajoelhado junto da fogueira. Quem  que me 
conhece pelo nome neste lugar perdido?
A voz era suave, mas Quentin podia ver, quando o homem se aproximou mais 
da fogueira. as mesmas feies angulares, o mesmo queixo saliente, 
indicador de fora e deciso. No entanto, o cavaleiro parecia cansado e 
gasto. Tinha pesadas linhas de fadiga rodeando-lhe os cantos da boca e 
gravadas em volta dos olhos.
- No me conhece? - perguntou Quentin. - Sou Quentin, o aclito. 
Entregaste-me a mensagem para a rainha...
O rosto do cavaleiro transformou-se de repente, graas a um vigoroso 
sorriso que lhe fez desaparecer os cuidados e preocupaes, e lhe fez 
brilhar uma luz nos olhos.
- Poder ser verdade? Quentin?... Sim, recordo-me... Mas como?
As perguntas surgiam a grande velocidade, enquanto o cavaleiro, to 
surpreendido que quase no conseguia proferir uma frase completa. 
procurava tirar algum sentido daquele aparente milagre.
- Podes aparecer. Toli - chamou Quentin. Sabia que o amigo os espreitava 
ali perto, fora das vistas, pronto a intervir num instante.
Os arbustos afastaram-se e Toli apareceu e parou junto de Quentin.
- Est tudo bem.  Ronsard... o cavaleiro de quem te falei.
- O portador da mensagem - respondeu Toli, na sua prpria lngua. - Sim, 
e um grande guerreiro.
Toli fez uma profunda vnia, tal como Quentin lhe ensinara para ocasies 
como aquela. Porm, a formalidade da saudao no meio do mato levou 
Ronsard a sorrir e Quentin a soltar uma gargalhada.

292

- Bem-vindo, amigo da floresta - disse Ronsard. - Nunca tinha encontrado 
ningum da tua raa... e, para dizer a verdade. tambm nunca me constou 
que tivessem to boas maneiras.
- Estamos ambos ao teu servio - declarou Quentin. rindo-se e sentindo-se 
invadido por ondas de alvio.
- E eu ao vosso - respondeu Ronsard. - Bom, meus amigos, temos muito que 
falar, e muito para discutir. Em primeiro lugar. como vieram aqui parar? 
Theido disse-me que te tinham deixado em Dekra, gravemente doente. 
Receavam que no viesses a recuperar.
Quentin lanou-se num relato de tudo o que tinham feito desde Dekra e, 
antes disso, desde o momento em que abandonara o templo. Enquanto falava. 
pensou para si que tudo aquilo tinha algo de incrvel, como se tivesse 
acontecido a outra pessoa, e ele. Quentin, ainda se encontrasse no 
templo. Ao pensar no templo, e ao falar dele, ficou um pouco triste. No 
entanto sabia, no fundo do corao. que j nada a restava para ele.
Ronsard escutou tudo com pacincia, mas com uma certa ansiedade e 
ateno, meditando em todas aquelas informaes.
- s um rapaz especial - declarou Ronsard no fim do relato.
- Darias um formidvel cavaleiro.
Quentin corou ante o louvor.
- Sinto-me satisfeito por te ver vivo e inteiro - respondeu.
- Vivo... sim. Inteiro... talvez o venha a estar, e em breve. Sinto-me 
mais forte de dia para dia. Se no tivessem sido os naufrgios e os 
raptos, j estaria to em forma como sempre estive. - Ronsard prosseguiu, 
explicando como fora arrancado ao templo por Pyggin e pelo seu bando de 
patifes, directamente das mos de Biorkis. - j l me encontrava havia 
algum tempo. e comeava a ficar bom quando me apanharam. Os guardas do 
templo foram impotentes contra espadachins. Resistiram muito pouco e eu 
no me podia defender. Fui atirado para uma carroa. Dei tantos 
solavancos durante a viagem de Narramoor para Bestou, onde tinham um 
navio a espera, que quase morri. Foi uma sorte estranha terem conseguido 
encontrar Theido, Durwin e os outros, mas fiquei satisfeito com a 
companhia. - A seguir descreveu a tempestade, o afundamento do bote e a 
sua longa viglia solitria na ilha. - E agora, esta noite, encontro mais 
uma vez o meu amigo do templo! - Ronsard soltou uma gargalhada. - Para 
dizer a verdade

293

pensei que nunca mais voltaria a ver-te... e tinha a certeza de que a 
minha mensagem no seria entregue. No entanto... parece que os deuses 
resolveram ligar os nossos destinos.
Toli, que escutava a conversa, conseguiu ficar com uma ideia mais ou 
menos vaga do que estavam a dizer, mas depois cansou-se. bocejou. 
enrolou-se perto da fogueira e preparou-se para dormir.
- Acho que tambm devemos ir dormir - disse Ronsard. - Estava a apanhar 
lenha que bastasse para toda a noite quando deparei convosco no trilho. 
No vos vi nem ouvi at quase embater em vocs... e deixei cair toda a 
lenha.
- Ah, ento foi isso! - exclamou Quentin, recordando-se de ter sido 
atingido vrias vezes enquanto caa. - Tambm no te ouvimos quando 
apareceste atrs de ns.
- Nesta ilha, no  conveniente dar sinais de vida.  um stio estranho e 
nada seguro.
Quentin concordou com um aceno e perguntou:
- E os outros? - Estivera toda a noite ansioso por fazer aquela pergunta, 
mas no tivera coragem. O facto de se ter recordado deles foi um choque 
que o devolveu ao presente e  misso que tinham entre mos.
- Discutimos isso amanh, sob a luz do dia. - Depois daquela resposta, 
Ronsard bocejou e deitou-se para dormir.
- Boa noite - disse Quentin, que acrescentou aps uma pausa: - Estou 
muito satisfeito por te ter encontrado outra vez.
- Tambm eu. Boa noite.

Era bvio. mal Quentin abriu os olhos, que Toli se levantara com a 
madrugada ou at talvez antes. Dispostos em volta da fogueira viam-se 
cestos de folhas cheios de bagas, e vrios tipos de razes comestveis 
que tinham sido lavadas e amontoadas com cuidado. Por cima da fogueira 
encontravam-se a assar dois coelhos magrizelas, esfolados e limpos, e 
quase prontos. Para alm disso - e maravilha das maravilhas -, Quentin 
avistou, deixando correr o seu nctar dourado para cima de um tapete de 
folhas frescas. uma colmeia inteira!
- Parece que o nosso amigo nos preparou o pequeno almoo! comentou 
Ronsard.
Quentin esfregou os olhos, ensonado, e sentou-se.

294

- Estou a ver que sim. Onde est ele?
Nesse instante surgiu Toli, balouando trs objectos verdes e alongados 
numa das mos e trs mas na outra.
- Aqui tm gua - disse entregando-lhes recipientes feitos de grandes 
folhas verdes dobradas, repletos de gua cristalina. A seguir foi tratar 
dos coelhos.
Comeram como se nunca antes tivessem visto comida. enchendo bem a boca e 
saboreando cada dentada. O mel, guardado para o fim, foi o que deu origem 
a mais louvores  habilidade de Toli.
- Nunca tinha comido to bem, no meio do mato! - afirmou Ronsard. - As 
minhas foras regressam, em asas de guias. Podem ser necessrias, pois 
hoje iremos penetrar no covil de Nimrood.
Quentin esquecera-se completamente de Nimrood, ou ento preferira no 
pensar no feiticeiro negro. A referncia ao nome do homem provocou-lhe um 
arrepio na espinha.
- O castelo fica longe daqui?
- A uma certa distncia, sim... mas a no mais de uma ou duas lguas a 
voo de pssaro. Est no topo de uma montanha, e teremos muito que trepar 
para l chegarmos. Contudo, o caminho est bem assinalado. j o vi.
- Ento, vamos andando - disse Quentin. Toli j estava de p, apagara o 
fogo e espalhara as cinzas, fazendo desaparecer todos os vestgios de que 
tinham ali estado.
Avanaram mais uma vez pelo trilho que Quentin e Toli haviam seguido na 
noite anterior. Pouco depois, o trilho descia e desembocava num caminho 
mais largo. Era uma espcie de estrada com sinais de uso recente: pegadas 
de soldados caminhando nos dois sentidos, marcas de rodas de carroas, 
marcas de cascos.
- Vou mandar o Toli  frente - props Quentin -, para ver se vem a 
algum. As rvores esto to em cima da estrada que poderamos chocar com 
eles ainda antes de os vermos chegar.
- Boa ideia. Manter-me-ei atento  retaguarda, apesar de pensar que no 
temos de nos preocupar com perseguies.
Assim protegidos, cobriram a distncia rapidamente, atingindo o cimo da 
montanha quando o Sol trepava para o meio-dia. Ento, quando descreviam a 
ltima curva, avistaram Kasakh. o castelo do feiticeiro.

295

Ali est ele. - Ronsard protegeu os olhos com a mo e estudou a paisagem. 
- No  uma viso agradvel.
Quentin observou o castelo com o mesmo terrvel fascnio que sentiria se 
estivesse a olhar para uma mortfera serpente enrolada em cima de uma 
rocha.
-  assustador - acabou por responder.
Toli apareceu a correr, agachado, dando a volta a uma escarpa coberta com 
uma pesada confuso de vinhas.
- Os guerreiros do malfico saram do castelo - disse para Quentin, que 
traduziu para Ronsard.
- Vamos sair da estrada e ver o que andam a tramar. - Ronsard saltou para 
os arbustos ao lado da estrada e Quentin descobriu um lugar bem 
protegido, a seu lado. que lhe dava uma vista perfeita sobre o caminho.
Ouviu um rudo e o barulho de um ramo a quebrar-se. Quentin virou-se a 
tempo de ver Toli saltar para a estrada com um ramo de fetos
numa das mos. Estava a limpar as pegadas do stio onde tinham parado a 
conversar.
- Este Jher no deixa nada ao acaso - murmurou Ronsard.
-  astuto e rpido. Gosto dele.
- Os soldados j devem estar muito perto. - Quentin lutou contra o 
impulso de gritar para Toli, para o avisar, mas resistiu, com receio de 
que os soldados o pudessem ouvir. Mordeu o lbio quando escutou o barulho 
de muitos passos sobre a terra do caminho e o tilintar dos arreios de um 
cavalo.
De sbito Toli apareceu a seu lado, e um segundo depois aparecia o 
primeiro soldado. Montava um cavalo preto, malhado, e quando se virou na 
sela para dar uma ordem aos homens. por cima do ombro, Quentin viu-lhe 
uma cicatriz que parecia dividir-lhe o rosto ao meio.
- j o vi antes - sussurrou Ronsard. - Na praia.
A seguir ao cavaleiro vinha uma carroa com taipais muito altos, seguida 
por uma pequena fora de talvez quarenta homens. A procisso avanava sem 
qualquer espcie de precaues. Dois soldados iam sentados na traseira da 
carroa, de pernas penduradas.
- Falta de disciplina - disse Ronsard. - Pretensiosos!
- Devem andar  nossa procura. - Quentin observou o grupo a passar e 
recordou-se do medo que sentira na noite anterior.

296

- Como  que sabes?
- Fomos descobertos na praia, a noite passada, e fugimos para a floresta.
Os soldados continuaram pela estrada fora, marchando com passos 
vagarosos. Depois de desaparecerem, Ronsard esperou mais alguns minutos, 
viu que no vinha mais ningum e voltou para a estrada.
Aproximaram-se rapidamente da comprida e serpenteante estrada por cima da 
crista rochosa. Ronsard, de p junto da proteco oferecida pelas ltimas 
rvores, comentou:
- No gosto disto. Seremos vistos logo que ponhamos os ps naquela 
estrada.
Ronsard estudou o terreno com cuidado, medindo e analisando a distncia 
que os separava do covil do feiticeiro. A seguir acrescentou.
- Que consiga ver, no h outra maneira de nos aproximarmos do castelo. - 
Virou-se para Quentin e Toli. - Temos duas opes: esperar at que a 
escurido nos oculte, ou avanar em pleno dia, arriscando-nos.
- Se esperarmos. os soldados podem voltar. No gostaria de ser descoberto 
a rastejar no meio da noite. - Quentin estremeceu s de
pensar nessa possibilidade.
- Bem dito. E eu no gostaria de esperar nem mais um instante para me ver 
livre daquele lugar, se me encontrasse preso l dentro - respondeu 
Ronsard. - Est o assunto resolvido. Avanamos agora.
A mo de Quentin apalpou a adaga de ouro que tinha no cinto. Agarrou-a 
com fora enquanto se precipitava atrs de Ronsard, que avanava em 
direco  crista rochosa.
- At agora, tudo bem. No h guardas nem sentinelas  vista - disse o 
cavaleiro.
Estavam agachados na sombra dos poderosos pilares de pedra da ponte 
levadia, no fim da estrada, no ponto em que a ponte cobria o precipcio 
entre o castelo e a crista rochosa. Havia dois pilares. um de cada lado 
da estrada, que pareciam as ombreiras de um monstruoso porto. Do topo de 
cada um deles espreitavam-nos grifos de pedra.
Fazendo deslizar a cabea com cuidado para l da esquina do pilar, 
Quentin via o tnel negro da entrada, do outro lado da ponte. Estava 
vazio, tanto quanto lhe era dado ver.

297

- Tambm no h guardas l dentro - comunicou.
- Ento, comecemos! - exclamou Ronsard. - Poderemos no voltar a ter uma 
oportunidade to boa.
Quentin queria protestar. -No fim de contas, precisavam de ter um plano 
de qualquer espcie. Era assim que as coisas se faziam, e no agindo s 
cegas, sem preparao. Quem sabia o que poderiam encontrar pela frente? O 
prprio Ninrood. podia estar  espera deles mal atravessassem a ponte.
No entanto. Ronsard ia j a caminho, atravessando a ponte a correr. Toli, 
como uma sombra. corria atrs dele. Quentin. para no se deixar ficar 
para trs, foi obrigado a fazer o mesmo. Avanaram muito devagar pelo 
tnel da entrada e espreitaram para o ptio que se encontrava para l 
dele quando chegaram ao fim.
- No h ningum - disse Ronsard. - Estranho... - acrescentou, franzindo 
o nariz. Que diabo de cheiro  este?
Por cima do cheiro a humidade e bolor do tnel, sentia-se um odor 
ligeiramente cido que parecia proveniente do ptio.
- Bom, no se afastem. Aqui vamos ns... - Ronsard correu para fora do 
tnel e para a luz. Quentin. que corria a alguns passos de distncia, viu 
o cavaleiro parar de repente. Quentin parou tambm. interrogando-se sobre 
o que teria corrido mal. Teriam sido finalmente descobertos? Ronsard 
virou-se. com o rosto contorcido de agonia...
- O que...? - comeou Quentin. mas sem terminar a frase. O cheiro 
atingiu-o como um punho macio. Sentiu a garganta a revoltar-se e o ar a 
faltar-lhe. Os joelhos cederam e caiu com as mos no cho. Enquanto as 
lgrimas lhe enchiam os olhos, ouviu Ronsard a vomitar e Toli a tentar 
aspirar o ar.
Quando lhe passaram as vagas de nuseas, Quentin levantou a cabea e 
olhou lentamente em volta. O ptio estava decididamente mal tratado. 
Havia ervas a crescer por entre as fendas das pedras do cho, lixo 
acumulado em todos os cantos, e poas de gua estagnada sobre as quais 
zumbiam moscas, que formavam verdadeiras nuvens negras.
- Oh... no... - gemeu Ronsard. Quentin virou a cabea para onde o 
cavaleiro tinha os olhos fixos em qualquer coisa. No conseguu perceber 
o que era e aproximou-se mais.
- Maldito seja! - praguejou Ronsard, virando-se para outro lado.
Quentin olhou e viu as carcaas esquelticas de dois cavalos a

298

apodrecerem ao Sol. Os cavalos ainda permaneciam amarrados aos anis de 
ferro cravados nas pedras. Tinham morrido de fome ali mesmo. As aves j 
se haviam atirado a eles e arrancado grandes bocados dos flancos. Era 
aquela a fonte do cheiro pestilento. Quentin virou a cara e puxou Toli. O 
Jher no se manifestara mas os seus olhos haviam escurecido e tornado 
duros como pedra.
Dentro do castelo, o panorama era o mesmo: estava deserto e 
negligenciado. e fosse para onde fosse que se virassem deparava-se-lhes 
sempre uma qualquer atrocidade.
- Estpido desperdcio! - praguejou Ronsard, enquanto os trs avanavam 
lentamente. A pele de Quentin estremecia. e sentia-se sujo. como se 
tivesse sido contaminado por uma doena nojenta. Sabia que se encontrava 
na presena do -Mal, impudente e arrogante. e o sangue arrefecia-lhe nas 
veias.
Continuaram em silncio at atingirem um grande arco de pedra no fim de 
um comprido e contorcido corredor.
Que estranho - comentou Ronsard, abanando a cabea, incrdulo. - Onde  
que esto as pessoas?
Nimrood no deve ter muitos amigos - retorquiu Quentin. Ronsard lanou-
lhe uma olhadela de apreo.
- As masmorras devem ser l em baixo - disse Ronsard, apontando uma forte 
porta de madeira cintada a ferro, com uma tranca de ferro. - Vamos ver.
O cavaleiro experimentou a tranca e descobriu que esta deslizava com 
facilidade, apesar de no to silenciosamente como teria desejado. No 
entanto, a porta abriu-se de imediato e avistaram uma espiral de degraus 
de pedra que desciam para a escurido. Havia uma tocha pronta, num 
suporte de ferro, mesmo junto  porta. com uma vela a flamejar a seu 
lado. Ronsard pegou na tocha, acendeu-a com a vela, e iniciou a descida. 
Quentin seguiu-o e Toli foi atrs.
Quentin pensou que as escadas nunca mais acabavam. mas por fim atingiram 
um patamar que se abria para uma vasta cmara. Por debaixo deles, a 
cmara estava repleta de fardos, barris. de montes de armaduras e de 
lanas e espadas por utilizar.
- Deve estar a equipar um exrcito! - exclamou Ronsard.
- Aqui  a cave. As masmorras devem ficar por baixo.
Continuaram a descida. Os degraus terminavam numa entrada em

299

arco. Ronsard parou. entregou a tocha a Quentin e espreitou. Havia uma 
passagem baixa e larga que corria para a esquerda e para a direita, 
alinhada de celas, e na frente deles via-se outra passagem mais pequena 
que terminava na escurido. Ronsard voltou a pegar na tocha e disse:
- Vamos ter de revistar todas as celas. Eu sigo para a esquerda e vocs 
para a direita.
No precisaram de muito tempo, porque as celas estavam todas vazias. 
Encontraram-se os trs no local onde as passagens se cruzavam.
- Resta apenas... - comeou Ronsard a dizer, calando-se de repente. - 
Escutem!
Ouviram-se passos do outro lado do arco. A seguir escutaram uma voz:
- Euric ! s tu? Traze a tocha, homem. Euric!
Durante um curto instante, Quentin ficou paralisado. mas depois atirou-se 
de encontro  parede. Ronsard colocou um dedo sobre os lbios e piscou os 
olhos. Ento. quando o homem dava a volta  esquina do arco. Ronsard 
colocou-se-lhe na frente e, levantando a tocha bem alto. atirou-lhe o 
outro punho ao rosto. O homem foi-se abaixo e ficou inconsciente. sem 
chegar a saber quem. ou o qu, o tinha atingido.
- Deve ser o carcereiro - disse Quentin. apontando para o grande cacete 
que o homem tinha pendurado no cinto por uma tira de couro, ao lado de 
uma argola de ferro com chaves.
- Sim. estamos com sorte - respondeu Ronsard, j a puxar o homem por 
debaixo dos braos e arrastando-o para a cela mais prxima. - Vamos. o 
caminho deve estar livre.
Avanaram rapidamente e em silncio pelo corredor mais pequeno e desceram 
os degraus de pedra. A estreita porta de ferro estava bem fechada. Tinha 
uma tranca atravessada, presa com um cadeado. No interior, os 
prisioneiros ouviram os passos no corredor, os estalidos de uma chave no 
cadeado, e depois a tranca deslizou e a porta abriu-se.
- Ronsard! - A rainha foi quem primeiro o reconheceu. - Meu bravo 
cavaleiro. encontraste-nos!
- Sabamos que virias - declarou Durwin. Trenn e Theido olhavam-nos, sem 
fala.
A seguir entrou Quentin. logo seguido por Toli. Parou a olhar para os 
amigos, com os olhos a encherem-se-lhe de lgrimas.
- Quentin! - exclamou Durwin. O eremita precipitou-se para ele. de braos 
abertos. No instante seguinte Quentin descobriu-se a

300

abra-lo tal como teria abraado o prprio pai. Os outros juntaram-se em 
volta, dando-lhe pancadas nas costas. Alinea beijou-lhe a face.
Toda a gente falava ao mesmo tempo, com as perguntas a serem feitas em 
catadupa. Como? Quando? Onde? Queriam saber tudo. Quentin nem dava por 
isso. Limpava as lgrimas que lhe escorriam pelas faces e considerava que 
se tratava do encontro mais doce que jamais tivera.
Era um momento que iria guardar para sempre no corao.

CAPTULO XXXIX

A fuga do castelo de Nimrood no poderia ter sido mais fcil, ou mais 
rpida. para grande espanto de Quentin. Bastou subir as escadas de pedra, 
caminhar pelos corredores do castelo, atravessar o ptio empestado que 
ficava entre as muralhas interior e exterior e percorrer a ponte levadia 
que os levou  liberdade. Quentin continuava  espera que Nimrood. 
aparecesse de um momento para o outro, para os apanhar e aprisionar, ou 
pelo menos para lhes impedir a fuga. Todavia. no encontraram ningum, 
apesar de terem ouvido uma grande cantoria quando passaram pelo corredor 
que dava para as cozinhas.
- Uma festa? Aqui?! - admirou-se Ronsard.
- A serpente saiu da toca - disse Durwin, explicando que Nimrood partira 
para assistir  coroao do prncipe.
- O prncipe? O prncipe Jaspin... coroado? Ento as coisas ainda esto 
pior do que eu pensava! - declarou Ronsard.
-  verdade! - admitiu Durwin.
- Bom, de momento nada podemos fazer - disse Theido. - Teremos de tratar 
disso quando chegar a altura. Agora, temos de ir libertar o rei 
verdadeiro.
- Sim - concordou Ronsard. - Est na hora de reunirmos em conselho de 
guerra.
Reuniram-se sobre os pilares no fim da ponte levadia e discutiram qual 
seria a melhor maneira de localizar e libertar o rei. Quentin no ficou 
muito satisfeito com a misso que lhe deram, que era a de conduzir os 
outros ao longo do trilho, at ao ponto em que a crista rochosa se 
juntava  floresta, abrigando-os da vista do resto da estrada. Teria de

302

ficar ali e fazer sinal se os soldados regressassem antes de Theido e 
Ronsard se lhes juntarem.
- Esperar! - queixou-se Quentin, sombrio, para Durwin, enquanto 
caminhavam para o esconderijo. - Fiz todo o caminho at aqui para ter de 
ficar  espera enquanto o salvam. No  justo!
Apesar de anteriormente no ter pensado no assunto, partira do princpio 
de que estaria presente quando o monarca fosse salvo. Agora que essa 
perspectiva lhe fora negada, sentia-se enganado.
- Sim, no  nada justo - concordou Alinea com simpatia. No entanto a 
rainha est satisfeita com a companhia dos seus protectores.
- Lamento muito... - murmurou Quentin, corando. - No queria dizer que...
- Compreendo muito bem - interrompeu~o Alinea. - Tinhas todo o direito de 
l estar, mas cada um de ns tem o seu papel a desempenhar. E estou-te 
muito grata, de verdade! No seria capaz de suportar aquela cela nem por 
mais um instante. Mais uma vez, prestaste um grande servio  tua rainha. 
Nunca o esquecerei.
Quentin ganhou um pouco mais de nimo e encarou a sua tarefa com maior 
seriedade. Todavia, o caminho de regresso ao longo da crista rochosa 
passou-se sem contratempos e atingiram o abrigo da floresta com toda a 
facilidade. Trenn seguia atrs a resmungar. Tambm se encontrava 
aborrecido por ter sido mandado embora no grupo que considerava de 
"velhos, mulheres e crianas".
Detiveram-se para esperar, na pequena clareira afastada da estrada e bem 
escondida, mas de onde podiam ver o assustador castelo enpoleirado nas 
rochas. O local dava uma boa viso tanto para a crista rochosa como para 
a estrada. Cada um deles se instalou como pde. Durwin fechou os olhos e 
no tardou a adormecer.
Esperaram. Os minutos foram-se arrastando de um modo enlouquecedor. 
Passou-se uma hora. Depois outra. Era demasiado para Quentin, que saltava 
para a estrada com frequncia, para ver se via algum. Trenn tinha a 
certeza de que algo correra mal e que deviam voltar para trs para 
salvarem os amigos recentemente capturados.
A pouco e pouco, o Sol foi descendo o cu da tarde. Que observou a 
chegada de uma comprida caravana de nuvens vindas do oeste. Decidira que 
daria aos salvadores o tempo necessrio para a ltima nuvem que passasse 
por cima do castelo, antes de os ir procurar

303

contra todas as ordens em contrrio. Foi salvo desse acto de indisciplina 
para com os seus deveres pelo aparecimento de figuras sobre a crista 
rochosa.
- A vm eles! - exclamou, quase a gritar. Toli. que estivera a vigiar a 
parte inferior da estrada, surgiu a correr. Trenn e Alinea saltaram para 
a estrada.
- Sim, vem a algum. No consigo perceber... Quantos so? Conseguem ver? 
- Trenn semicerrava os olhos contra o brilho do Sol, que agora se 
encontrava ao nvel da crista.
Quentin tambm no conseguia ver to longe, pelo que se virou para Toli, 
que espreitou com ateno por instantes e anunciou:
- Lea nol epra. Rbunsar en Teedo.
- Que disse ele? - inquiriu Trenn, ansioso. A rainha no pronunciou uma 
palavra. Uniu as mos por debaixo do queixo e fechou os olhos.
- Disse que eram apenas dois, Ronsard e Theido. O rei no vem com eles - 
explicou Quentin. - Lamento muito. senhora.
Momentos depois, Theido e Ronsard aproximavam-se deles. Theido, ofegante 
por causa da corrida ao longo da ngreme crista. declarou, entre golfadas 
de ar:
- No est l. O nosso rei foi-se embora. Procurmos em todo o castelo... 
e at formos o camareiro, que apanhmos a dormir, a abrir as portas de 
todos os armrios. Disse que tinham todos partido. com Nimrood. mas ele 
prprio no sabia o que queria dizer com esse <todos>,...
- Tm a certeza? - gritou Trenn. A sua angstia era autntica e falava em 
nome dos restantes. - Ali em cima podem existir dez mil stios onde 
esconder um homem!
- E ns procurmos em dez mil stios! - retorquiu Ronsard. com o 
desapontamento a carregar-lhe o rosto. - Podem ter a certeza de que no 
se encontra no castelo.
Sim, tm razo - disse Durwin, que se mantivera muito calado durante todo 
aquele tempo. Quentin pensara que Durwin adormecera. Estive a sondar o 
ter, em busca de um sinal. No senti quaisquer vestgios da presena do 
rei. Ao que parece. o camareiro disse a verdade. o maldito Nimrood levou 
a sua presa com ele. Devia ter calculado.
- Faz sentido... - admitiu Ronsard com relutncia. - Foi por isso que no 
se nos deparou qualquer resistncia quando entrmos no castelo.

304

- E nenhuma tambm  sada - acrescentou Theido. - Agora temos de 
descobrir maneira de sair desta maldita ilha.
- Talvez isso tambm no seja difcil - disse Quentin. -  provvel que o 
navio que nos trouxe, a mim e ao Toli. ainda se encontre na baa.
- Excelente! Quentin acaba de nos fornecer um navio! Para a praia, vamos!
- No  um grande navio - acrescentou Quentin com um ar apo logtico.
At podia ser um balde com remos! - exclamou Theido.
Desde que nos leve para longe daqui. serve perfeitamente. Indica-nos o 
caminho!
Quentin e Toli partiram imediatamente, com Toli a correr  frent para 
investigar a estrada, no fosse dar-se o caso de se lhes depararem os 
soldados de regresso. Porm, o caminho estava livre, e atingiram rea de 
floresta rala, junto  praia, quando as suas sombras alcanavam o 
comprimento mximo. - A baa fica j a... - murmurou Quent - por detrs 
dessas rvores. Toli ir ver o que houver para ver.
Fez um rpido sinal ao jovem da floresta, e Toli desapareceu num abrir e 
fechar de olhos, confundindo-se com as manchas de luz e sonbra lanadas 
pelo crepsculo que se aproximava.
Regressou passados poucos minutos. Disse algumas palavras para Quentin. 
enquanto os outros os olhavam. ansiosos. Quentin virou-se declarou:
- O navio est l... - A seguir teve de deitar um balde de gu fria sobre 
as esperanas dos antigos cativos - mas os soldados tanbm. Toli diz que 
acamparam na praia.
- Que estranho - comentou Theido. - Porque teriam feito uma coisa dessas?
- Pelo menos ficmos a saber por que motivo no os vimos no castelo - 
disse Ronsard.
- Ora! - troou Trenn. - Quantos so? Chegamos bem para eles mesmo que 
sejam dez contra cada um de ns.
- Concordaria contigo... se no fosse o facto de no termos arma
- No precisaremos de esperar muito para que chegue a escurido - 
interveio Durwin. - Talvez possamos ter uma qualquer ideia entre o agora 
e o ento.

305

O grupo instalou-se para aguardar a chegada da noite. No entanto, mal se 
tinha arrumado confortavelmente, quando Durwin deu um salto.
- j sei! Descobri uma diverso perfeita!
- Shhh! No precisaremos de uma diverso se aqueles ces descobrirem que 
estamos aqui! - protestou Trenn.
Durwin no lhe deu ateno e lanou uma mirada para o cu.
- Depressa! Temos muito pouco tempo. Precisamos de juntar algumas coisas.
Explicou a cada um o que deveriam ir procurar na floresta: a casca de 
certas rvores. folhas de determinado tipo, algumas pedras e outras 
coisas vulgares.
- Apressem-se e tragam-me tudo o que encontrarem!
Quando o Sol se ps, Durwin tinha na sua frente uma pequena montanha das 
coisas que pedira. Lanou-se ao trabalho, partindo, pulverizando, 
amassando e misturando as substncias. e fazendo montinhos diferentes. 
Quando surgiu a primeira estrela da noite, anunciou:
- Acabei! Agora, estamos prontos! Theido e Ronsard, rastejem pela 
floresta at  beira da praia. Abram trs buracos, assim... - Durwin 
indicou o tamanho - um de cada lado do trilho que vai da praia para a 
floresta, e outro mesmo no meio. Quentin e Toli. cada um de vocs leva um 
bocado disto - prosseguiu, apanhando uma braada do que preparara - e 
sigam-me. Trenn, Alinea. recolham lenha. e vo ter connosco  beira da 
praia.
Toda a gente entrou em aco depois daquelas palavras. Depois de os 
buracos terem sido escavados na areia e aprovados por Durwin, as 
depresses foram cheias com as coisas que Durwin pedira, cuidadosamente 
dispostas em camadas, com uma aprecivel pacincia. A seguir. Durwin 
pegou na sua bolsa de couro e despejou o contedo por cima dos trs 
montes.
Na praia, os soldados tinham acendido uma fogueira e cozinhavam o jantar. 
O som das gargalhadas rudes e da grosseira conversa chegava at onde o 
grupo trabalhava em silncio. sob os olhares vigilantes de Toli. que fora 
posto de sentinela, no fosse acontecer que alguns dos soldados 
decidissem ir at  floresta.
- Agora - disse Durwin - vamos acend~las.
- Um momento - implorou Ronsard. - Diz-nos o que ir passar-se aqui.

306

- Ah, no vos disse? Crimos um drago para entretenimento dos soldados. 
Posso garantir-lhes que fugiro aos gritos. Acendam as piras que fizemos 
e escondam-se bem. Quando os soldados fugirem, corra para o barco. Irei 
ter convosco.
- Mas onde  que vai? - perguntou Theido.
Nesse instante, Trenn dava o alarme:
- Vem a algum!
- O drago precisa de uma voz! - explicou Durwin, virando-se para correr 
para os bosques.
- Espera! - exclamou Ronsard. num murmrio tenso. - No temos com que 
fazer lume!
- Qu?! - gritou Durwin, com uma expresso espantada. - Oh est bem! 
Suponho que ainda poderei fazer certas coisas.
Baixou-se e removeu um fino ramo de uma das piras em miniatura. Segurou o 
ramo na sua frente e levantou a outra mo, colocando-a bem alta, sobre a 
cabea, murmurando as palavras de um encantamento antigo, de olhos 
fechados. Desceu rapidamente a mo e de um dedo para o ramo, saltou uma 
fasca azul. O ramo comeou a arder.
- Pronto! Acendam as piras com isto, rpido. No h tempo para mais 
explicaes. Metam-se no barco e afastem-se logo que o caminho esteja 
livre.
- Depressa! - avisou Trenn. - Esto a aproximar-se e iro acabar por nos 
ver!
Theido, que segurava a chama, acendeu a primeira pira.
- Escondam-se e preparem-se! Quando eu der sinal, corram para o barco!
Acendeu as outras piras e ocultou-se ao lado do trilho. Dos lados da 
praia chegavam-lhes grandes gargalhadas. Era bvio que os soldados tinham 
bebido uma boa quantidade de vinho e comeavam a sentir-lhe os efeitos. 
Dois outros haviam-se juntado ao primeiro e avanavam tambm para a 
floresta, para se aliviarem.
Quentin olhou para as piras, nos seus buracos na areia. Tanto quanto 
pudesse ver, nada de especial se estava a passar a. Os farrapos de fumo 
erguiam-se no ar, quase invisveis na escurido que descera sobre a 
floresta.
Ento, enquanto olhava, da pira central ergueu-se uma grand bolha de 
fumo, seguida por uma bolha proveniente de cada uma das

307

outras. As bolhas achataram-se e espalharam-se, serpenteando por cima da 
areia, em direco  praia.
- Olha! - disse Quentin para Toli, escondido a seu lado. -  o bafo do 
drago!
As piras libertavam agora um fumo azulado que deslizava para a praia, 
muito baixo, junto ao cho, como se fosse um nevoeiro a cobrir a areia. O 
fumo avanava, contorcendo-se. iluminado pelo fogo verde da pira que 
ardia por baixo dele. Contorcia-se e lanava tentculos, escorrendo pela 
praia abaixo em direco  gua.
O primeiro soldado, que cambaleava pelo caminho e entoava uma quadra a 
plenos pulmes, parou e olhou para o cho com um ar de bbado quando o 
fumo lhe envolveu os ps e lambeu as pernas. Recuou, quase caindo em cima 
dos dois que o seguiam. Durante algum tempo ficaram todos a olhar para o 
misterioso nevoeiro que remoinhava em volta deles, engrossava e 
continuava a deslizar.
Quentin sentiu-a antes de a ouvir... Uma nota muito baixa que lhe vibrou 
dentro do peito. Chegou a parecer-lhe que a rocha que se encontrava a seu 
lado estremecia tambm, respondendo ao som.
A nota aumentou de volume, tomando-se mais e mais alta. Juntou-se-lhe um 
silvo agudo, o som de vapor a escapar-se de uma fissura na terra, ou de 
uma monstruosa serpente encolhendo-se para desferir o ataque. Ento, de 
repente, escutou-se um rugido que fez tremer a floresta. os arbustos 
agitaram-se como que soprados pelo vento, mas no havia vento. Caram 
folhas das rvores.
Quentin sentiu um tremor de excitao a percorrer-lhe as costelas. De 
olhos muito abertos, virou-se para Toli, que lhe devolveu o olhar com um 
largo sorriso.
- O rugido do drago.
Os trs soldados que se encontravam na praia, inicialmente intrigados, e 
agora alarmados, perderam a coragem e recuaram. Viraram-se como que para 
fugir, mas no se ouviam cantorias, e vrios homens olhavam para a 
floresta.
O rugido voltou a ouvir-se, desta vez ainda mais alto. De algures, no 
meio dos bosques, surgiu um grande claro, um raio de luz que apareceu no 
meio de um cu limpo. Sob aquela breve iluminao, Quentin viu os rostos 
aterrorizados dos homens na praia. O ar de indizvel horror que aparecera 
como que por magia em todas aquelas caras

308

provocou-lhe uma contraco de medo no estmago. E se o drago na 
realidade existisse?
O claro de luz foi seguido por um estranho som, o estalar de ramos de 
rvores a serem quebrados e os estouros abafados de troncos a carem por 
terra.
- Que os deuses nos valham! - gritou algum na praia. - Vem a o drago!.
O fumo deslizante atingira o grupo de homens que se encontrava na praia.
- o bafo do drago! Estamos perdidos!
Dois dos homens que se tinham dirigido para a floresta correram de volta 
para junto da fogueira, deixando o outro cado sobre os joelhos, 
aterrorizado. tapando as orelhas com as mos e de olhos fechados com toda 
a fora. Murmurava qualquer coisa. e depois caiu para frente. de rosto 
enterrado na areia.
- Vamos morrer todos! - gritou algum. Os cavalos, amarrados  traseira 
da carroa, conseguiram libertar-se e relinchavam de medo escoiceando 
quem quer que se aproximasse deles. Os homens comearam a correr de um 
lado para o outro, na praia, em busca das armas.
Ento, das piras fumegantes ergueu-se um estranho brilho que envolveu 
toda a cena num espectral claro verde. O rugido voltou a ouvir-se, 
agitando os ramos e - desta vez Quentin teve a certeza - abalando as 
rochas. Lanou um tmido olhar por cima do ombro e imaginou ver a enorme 
forma negra de um terror sem nome, movendo-se atravs das profundas 
sombras da floresta. enquanto aumentava o barulho de ramos a estalar e 
arbustos a serem esmagados. O ar cheirava enxofre a arder. As piras, que 
lanavam o seu claro fantasmagrico, explodiram de repente numa chuva de 
fascas e minsculas brasas, tornando-se em fontes que jorravam chamas.
Os soldados, dispersos e confusos. soltaram um grito em unssono e Os 
cavalos sobressaltaram-se e fugiram pela praia. Depois de um instante de 
hesitao, os homens largaram as armas e fugiram, alguns para irem 
mergulhar no oceano, pedindo a proteco das ondas. Outros correram ao 
longo da praia para se esconderem entre as rochas. No foi preciso mais 
do que o tempo de trs batimentos do corao para qi no se visse um 
nico soldado na praia, excepto os que se tinham deixado cair na areia.

309

- Mexam-se! - gritou Theido. Quentin descobriu que, quando ouviu o grito, 
as suas pernas j tinham entrado em movimento, to depressa quanto 
podiam, em direco  beira da gua.
Atirou-se para a periclitante rampa de madeira. e saltou por cima da 
amurada para bordo do pequeno navio. Precipitou-se ao longo do convs. em 
direco ao cabo de atracao. debatendo-se para o soltar. Nem olhou para 
cima quando sentiu as mos de Toli no cabo. trabalhando to febrilmente 
como as suas.
- Esto todos abordo? - perguntou Theido.
Ronsard. de p no fundo da rampa, com os braos cheios de espadas e um ou 
dois escudos. gritou-lhe de volta:
- No vejo Durwin. Deve estar a chegar...
Quentin olhou para a praia, em direco  floresta. No claro verde das 
piras Fumegantes. pareceu-lhe ver a forma enorme de um drago negro a 
avanar. Dois grandes crculos de luz brilhavam na noite. Soou mais uma 
vez UM rugido de gelar o sangue nas veias. Ento. inexplicavelmente, 
Durwin emergiu do meio do fumo e pareceu danar ao longo do caminho at 
ao barco.

CAPTULO XL

Do alto da muralha, o prncipe Jaspin observava os preparativos de ltima 
hora para a sua coroao. Em baixo, nos prados de Askelon, nascera uma 
centena de pavilhes coloridos semelhantes a flores de Vero. Os lordes e 
as suas damas passeavam pelos relvados enquanto os servos circulavam 
entre eles. cumprindo as suas importantes tarefas.
O ar estava perfumado com os odores de milhares de ramos de flores, com o 
saboroso aroma de carne a assar sobre as fogueiras, e com os cheiros dos 
doces a serem preparados para a grande festa. Por todo o lado para onde 
olhasse deparava-se~lhe apenas muita cor e um ar festivo. o que 
deliciava. e encantava at. os seus olhos exaustos.
Esfregou as mos gorduchas e estremeceu em paroxismos de prazer.
Jaspin assumira apressadamente uma aparncia real. Ostentava anis em 
todos os dedos e do pescoo pendiam-lhe correntes de ouro. As suas formas 
rotundas exibiam um belo casaco de brocado com largas mangas de renda. 
Cobrira a cabea com um chapu achatado, bordado a ouro. e os compridos 
cabelos castanhos haviam sido encaracolados especialmente para aquela 
ocasio. Calara os ps com botas de couro dourado e enfiara as pernas 
nas mais belas meias, que surgiam de uns curtos cales de veludo, 
apertados nos joelhos com botes de prata. Era a perfeita imagem da graa 
da realeza.
A sua entrada na cidade, no dia anterior. no fora menos grandiosa e 
majestosa. Todos os seus cavaleiros. envergando as mais belas armaduras e 
montados nos melhores cavalos, haviam cavalgado com ele numa procisso 
triunfante que atravessara a cidade. As ruas estavam cheias de multides 
de basbaques que soltavam vivas quando a ocasio

312

os requeria. Para uns ouvidos um. pouco mais objectivos, os vivas talvez 
no fossem nem muito efusivos nem suficientemente sentidos, mas de 
qualquer modo para Jaspin, mergulhado na sua prpria onda de pompa e 
circunstncia, aqueles aplausos pareciam-lhe a maior adulao possvel. 
Na realidade os seus ouvidos escutavam aclamaes to entusisticas que o 
prncipe Jaspin, inesperadamente, abrira os cordes  bolsa e comeara a 
atirar ducados de ouro e de prata para a multido. Isto.  claro. 
provocou manifestao de ainda maior aprovao por parte da populaa, que 
na sua maior parte era formada pelas classes mais baixas do reino. Os que 
no tinham grande amor por Jaspin, os cidados mais sinceros. haviam-se 
mantido longe da procisso.
Uns olhos mais objectivos teriam verificado que as aclamaes provinham 
de gargantas que poderiam ter sido descritas como pertencendo  ral. No 
entanto, para Jaspin, todos eles eram lordes e damas, e pares da nobreza.
Nessa noite tinham-se efectuado cerimoniais apalhaados, festejara-se e 
bebera-se at altas horas da noite. Jaspin, ao contrrio do que lhe era 
habitual. retirara-se cedo para que o vinho no viesse a dar-lhe cabo da 
felicidade daquele dia.
Agora, olhava radiante para a cena da sua glria, como se fosse o prprio 
Sol despejando uma rara beneficncia sobre todos os que passavam sob os 
seus olhos.
Passou-lhe uma sombra pelos olhos. Jaspin olhou para cima e viu uma 
grande ave a pairar no cu. Virou-se e regressou aos seus aposentos. para 
acabar de se arranjar para as cerimnias que iriam comear em breve e 
continuariam por vrios dias. Ouviu um grasnar no exterior da varanda, 
deu meia volta e verificou que a ave que vira momentos antes se preparava 
para pousar na balaustrada. Antes de poder pensar ou falar, a ave 
modificou-se, tornou-se maior, e as suas formas foram-se transformando. 
Num abrir e fechar de olhos tinha na sua frente a temvel figura de 
Nirmood. que lhe bloqueava a luz do Sol. O frio dedo do medo tocou no 
corao de Jaspin.
- Que queres? - perguntou o prncipe, ofegando.
- Ora, vamos! Ambos sabemos o que quero. Para qu fingir que no? - O 
feiticeiro exibiu o seu sorriso de serpente. - Quero o que me prometeste 
- acrescentou, num tom que era um silvo insinuante.
- O que prometi? No prometi nada que no te tivesse j dado. Querias o 
rei... e entreguei-to. Foi esse o nosso acordo.

313

- E pensaste que me satisfaria apenas com isso? Que ingnuo que s... - 
Os olhos negros de Nimrood despediam fogo, e o cabelo desordenado 
agitava-se como que soprado pelo vento. - No! Prometeste uma parte do 
teu reino a quem quer que te ajudasse a conseguir o trono. Dei-te o 
trono. Dei-to. compreendes? - O feiticeiro andava de um lado para o 
outro. raivoso. - Agora, exijo o pagamento!
- E qual  o pagamento que desejas? - perguntou o prncipe. 
cautelosamente. Se se sentisse muito apertado. estava preparado para 
protestar to alto como qualquer mgico louco. pelo menos no que 
respeitava  sua riqueza.
- Metade do teu reino. - Nimrood lanou-lhe um sorriso grotesco. - Metade 
do teu reino, principelho.
- Nunca o ters, por Azrael! Ousas pedir-me tal coisa?! Desaparece, 
miservel...
As palavras ficaram-lhe subitamente atravessadas na garganta. Jaspin 
fitava. aterrorizado. os olhos semicerrados de -Nimrood, em cujas 
profundezas havia um claro vermelho.
- Podia esmagar-te como a um insecto, prncipe. No brinques comigo. Sou 
o teu senhor. Queres ser rei? Muito bem, sers rei... mas ao meu preo.
- E se me recusar? - guinchou Jaspin, sentindo-se miservel.
- No podes recusar.
- No posso? - O prncipe tornou-se sombrio. - Quem mo poder impedir? 
Dentro de dois dias estarei a usar a coroa. Serei o monarca, 
independentemente de tudo o resto.
- Pergunto a mim mesmo se os teus regentes te entregariam a coroa com 
tanta facilidade se Eskevar aparecesse de repente...
- Disseste-me que estava morto. Enviaste-me o anel...
- No est... mas  como se estivesse. Est aqui perto, mas bem 
escondido. Nunca o conseguirs encontrar. No entanto, pode ser feito 
reviver para reclamar mais uma vez o trono.  algo que te posso garantir.
- No o farias! - troou o prncipe. - Darias cabo de tudo o que 
obtiveste at agora, e os teus planos ficariam desfeitos.
- Ah, mas a viso de dois irmos envolvidos num combate mortal dar-me-ia 
grande satisfao. No deve ser preciso dizer-te quem venceria esse 
combate. - Os olhos de Nimrood brilharam de triunfo.

314

enquanto se endireitava a toda a sua altura. - Ento, o que escolhes? A 
coroa, ou o regresso de Eskevar no momento menos oportuno?
- s pior do que uma serpente! - Jaspin lanou as mos ao ar, 
desesperado. - Est bem! Est bem! Ters o que pedes. E que garantias me 
ds? Como  que posso ter a certeza de que fars o que dizes?
- Tens, prncipe chacal, a certeza sobre o que farei se me atraioares. 
Para alm disso... nada! Nimrood no condescende para com nenhum mortal.
O rosto de Jaspin avermelhou-se de raiva, mas no ousava express-la em 
frente do necromante. Conteve a lngua, pois a discrio era em grande 
parte formada por medo.
- Ento, estamos de acordo - tranquilizou-o Nimrood. - Voltarei dentro de 
quinze dias para receber os necessrios ttulos das minhas novas terras. 
Alm disso, trarei comigo um penhor, que te recordar a promessa que 
fizeste... e te mostrar qual poder ser o teu destino, se a renegares.
Nimrood deu meia volta, com a capa a esvoaar atrs dele. Saltou para 
cima da balaustrada e lanou-se no espao sob o olhar horrorizado de 
Jaspin. Porm, no instante em que comeou a cair, a sua forma modificou-
se outra vez, to depressa que at pareceu nem se ter modificado e ter 
permanecido sempre como um grande corvo negro que bateu as asas em 
direco ao cu.

CAPTULO XLI

Quentin dormira pouco, e mesmo esse pouco fora um sono muito agitado. 
Mexera-se e virara-se, durante o sono, como se estivesse com febre. Ouviu 
vozes a chamar pelo seu nome, mas, quando acordou, as vozes 
desapareceram, deixando apenas o chapinhar da proa a cortar as guas.
Desistiu de conseguir algum descanso e foi sentar-se ao lado de Durwin, 
que se encontrava ao leme.
- Navegar pelas estrelas no  difcil, quando se lhe ganha o jeito - 
respondeu Durwin  pergunta de Quentin. - Como tudo o mais, trata-se 
apenas de saber o que procurar.
- Havia mesmo um drago, a noite passada, na praia? Quero dizer... Vi 
qualquer coisa, mas no sou capaz de dizer o que era.
- Era uma iluso... Um vapor, nada mais.
- S isso? Ento e aquele terrvel rugido, as luzes. o cheiro? - Quentin 
franziu o nariz ante a recordao. - Como  que o conseguiste?
- Como j disse antes, um antigo feiticeiro, que desistiu do seu poder, 
ainda pode conseguir algumas coisas. ~me permitido interceder. para o 
bem, em momentos de necessidade presente, mas mesmo assim h um preo a 
pagar. O poder exige sempre um preo a pagar. Os meus grandes poderes 
esto agora fora do alcance, mas ainda bem que desisti deles.
Quentin ficou em silncio, pensando no assunto. Quando voltou a falar, 
foi para perguntar:
Por que razo o fizeste?

316

- Pr de parte os meus poderes?  muito simples: um homem no pode servir 
dois amos diferentes ao mesmo tempo. O Poder  um amo terrvel. Nunca 
exige menos do que toda a nossa vida.
- E quem  o outro amo?
- Isso j tu sabes. O outro  o Mais Alto, o deus, o nico. Tambm ele 
exige toda a nossa vida, mas nele h vida, em vez de morte.. que  onde o 
Poder acaba sempre por nos conduzir.
- O poder no pode ser usado para o bem? Como esta noite, na praia?
- Ah, sim. Porm, aquilo no passou de um poder muito pequeno Sabes, 
surge~nos sempre a tentao de o usar cada vez mais. e de no dedicarmos 
cada vez mais ao seu domnio. Porm, apesar de sermo ns quem o tem,  o 
Poder quem nos domina. e tudo acaba sempre em escravido e morte. Mais 
tarde ou mais cedo, o Poder destri tudo aquilo em que toca.
- E ir destruir-te? - Quentin odiava a ideia, mas queria saber
- Quem sabe? Talvez! - respondeu Durwin, rindo-se baixinho
- Mas disseste-me que desististe dele.
-  verdade. Porm, o Poder foi forte em mim durante muitos anos. Usei-o 
como me apeteceu, para os meus prprios fins e. como j disse, temos 
sempre um preo a pagar. Estive quase para o recuperar outra vez, em 
Dekra, mas cabeas mais sensatas do que a minha aconselharam-me a no o 
fazer. Perceberam que. mesmo que se se verifi casse a queda de um reino, 
esse facto no merecia a perda de uma alma... apesar de essa triste alma 
ser a minha!
- Ento, se o puseste de parte, como  que te pode prejudicar
- Quem o poder saber? Esta noite, na praia. usei apenas um resto da 
minhas antigas capacidades... e j estou a sentir um impulso para usar 
mais... Devora-nos a alma at nada restar. Porm, o deus  ciumento. 
Desisti de muito do que podia ser seu. Quem poder saber no que me 
poderia ter transformado se no tivesse desperdiado tanto de mim nas 
artes negras? Durwin falava sem tristeza. mas Quentin pressentia pesar na 
voz do eremita, Pesar por algo que fora perdido e nunca mais seria 
recuperado.
- Tu, por exemplo... - continuou Durwin, segurando a barra do leme nas 
mos que tinha pousadas sobre os joelhos - tens a melhor oportunidade. 
Ainda s jovem. Para mim,  muito tarde.
Quentin ficou triste, mas compreendeu o que o eremita lhe queria dizer

317

- Conheo o deus de que falas. O nico.
- Conheces? Como?
- Encontrei-o numa viso. Em Dekra. Recebi a bno dos Ariga de Yeseph e 
dos ancies. Foi na noite antes de partirmos.
- Conta-me como foi.
Quentin relatou tudo o que lhe acontecera em Dekra, culminando na 
cerimnia da bno. Durwin escutou a histria com toda a ateno. 
acenando e fazendo rudos de aprovao.
Pela segunda vez, Quentin mergulhou na sensao que experimentara naquela 
noite. Parecia-lhe ter sido h tanto tempo... Descreveu o Homem de Luz e 
as palavras que este pronunciara. "O teu brao ser o brao da virtude, e 
a tua mo a mo da justia", citou. Num claro sbito e muito vivo, 
entrou mais uma vez no esprito da sua viso. "Serei a tua fora e a luz 
a teus ps. No me esqueas. e dar-te-ei a paz para sempre."
- Ah... - murmurou Durwin, no fim. - Viste-o. Agora. j sabes. Todos 
aqueles que o encontraram no podem voltar a ser o que eram antes.
- V-lo muitas vezes?
- Nunca o vi - respondeu Durwin com toda a simplicidade.
- Nunca?! - A resposta chocou Quentin. Sempre pensara que, entre todas as 
pessoas, o eremita deveria ser a que estava em contacto mais ntimo com o 
Mais Alto.
- No. nunca. e no preciso de o ver para saber da sua presena e para 
aprender o seu caminho. Basta-me que me tenha aceite como seu servo. Fico 
satisfeito.
- Mas eu pensei... Sabes tanto a seu respeito...
- Suponho que sim... que sei a seu respeito. D  vida de cada homem uma 
tarefa especial e uma bno para a levar a cabo. Foste escolhido para 
uma grande obra, e a tua bno  especial. Nunca me apareceu. Sim. 
recebeste uma bno do Poder, tal como diria Yeseph.
Quentin estava confuso. Durwin nunca vira o deus que servia com tanta 
fidelidade. As palavras do eremita ecoavam-lhe na mente: " suficiente. 
fico satisfeito.
Quentin deixou-se envolver por aquelas ideias. S se mexeu quando ouviu 
os passos que se aproximaram dele.
- Vocs dois tm de ir dormir um bocado antes de a noite chegar

318

ao fim - disse Theido. - Eu tomo conta do leme. Vo descansar. Em breve 
ser manh e entraremos no porto de Valdai ao meio-dia. Soltou uma 
gargalhada e acrescentou: - Isto , se este nosso eremita caador de 
drages no nos tiver levado para o mar alto!
- Mantm a proa alinhada com aquela estrela mais baixa, alm ( a do 
nosso porto) e a Lua por cima do teu ombro direito  medida que for 
descendo. Isso levar-nos- ao nosso destino. Boa-noite.

Estavam trs grandes navios ancorados no porto de Valdai.
Eram navios de guerra, disse Ronsard, mas no conseguia perceber a quem 
pertenciam. Encontravam-se ainda demasiado longe para se fosse o que 
fosse excepto os altos mastros e os grandes cascos recortados contra o 
fundo nublado do porto.
Ronsard e Trenn mantiveram-se junto da amurada, ansiosos,  espera de 
verem o primeiro smbolo identificador: um pendo, uma bandeira, alguma 
cor ou forma que conseguissem reconhecer.
- So do rei Selric! - gritou Ronsard quando finalmente se aproximaram o 
suficiente para distinguirem a bandeira que flutuava no topo do mastro 
mais alto. -  o seu estandarte de batalha! Conheo-o
bem como ao meu!
- Sim, parece ser Seldric - confirmou Trenn. - H quanto tempo eu no 
ouvia esse nome?
- Que pensas? - perguntou Theido. -  o princpio do regresso dos 
exrcitos?
- Ah, sim! Quase me esquecia disso! - gritou Ronsard, cheio de jbilo.
Quentin, apesar de no saber porqu, foi arrastado pela mesma excitao 
que invadira os seus companheiros. Ficou a observar enquanto o seu 
pequeno navio entrava na baa e se dirigia para o logar de atracao. Ao 
p dos poderosos navios de guerra, a pequena embarcao de velas negras 
parecia um brinquedo desajeitado. Quentin ficou de boca aberta ante os 
enormes cascos e altssimos mastros. Nunca viu nada to grande a flutuar 
nas guas, e agora, de repente, deparava-se-lhe trs navios gigantescos, 
cpias fiis uns dos outros, que demonstravam, com as suas linhas ousadas 
e graciosas, o poder e habilidade do seu proprietrio.
- H quanto tempo estaro aqui? - interrogou-se Theido.

319

- No muito. creio - replicou Ronsard. - No se encontravam no porto 
quando Quentin c esteve, pois recordar-se-ia de os ter visto. - Quentin 
acenou um assentimento.
- Ah. sem dvida que chegaram h pouco tempo! - exclamou Trenn. - Olhem, 
ainda esto a desembarcar as tropas. O exrcito de Selric desce para 
terra. - Agitou um brao, e os que se encontravam junto da amurada 
verificaram que o guarda tinha razo. Os compridos barcos a remos ainda 
estavam a transportar soldados para o cais. O ltimo navio estava a ser 
descarregado.
- Se bem conheo Seiric... - disse Ronsard -,  ali que ele est! - 
Apontou para o navio mais afastado. -  comandante at ao fim, 
permanecer a bordo at ter desembarcado o ltimo homem.
No perderam tempo e foram  procura de Selric.
Encontraram-no, tal como Ronsard previra, a vigiar o desembarque dos 
homens a partir do castelo de popa do seu navio. Ao ver Ronsard, Theido e 
a rainha, precipitou-se pelas escadas para o convs para os receber 
pessoalmente. Aps uma curta troca de palavras com Alinea, convidou-os 
para uma conferncia nos seus aposentos pessoais. Foi a que a rainha lhe 
contou a histria da traio de Jaspin e a provao do rei.
Apesar de ningum o ter dito em voz alta, todos haviam partido do 
princpio de que Selric seria compreensivo para com o problema que 
enfrentavam. Foi muito mais do que compreensivo. Selric, rei de Drin, 
extravasou a sua fria quando soube o que acontecera enquanto ele e os 
seus exrcitos suportavam o Inverno nas costas de Pelagia, esperando 
pelos primeiros ventos da Primavera para iarem as velas e voltar para 
casa.
Patife impudente! - gritou Selric, batendo com o punho fechado na palma 
da outra mo, enquanto andava de um lado para o outro nas suas 
instalaes de comandante. - As suas ambies so muito maiores do que as 
capacidades! Se depender de mim... isso vai custar-lhe a cabea!
- Ento ir ajudar-nos, meu senhor? - perguntou Alinea.
- Ajudar-vos?! Claro que vos vou ajudar, por todos os deuses do Cu e da 
Terra! - praguejou Selric. As cores tinham-lhe subido ao rosto, 
competindo com o cabelo ruivo e inflamando o seu lendrio temperamento 
explosivo.
Prosseguiu, sempre a andar furiosamente de um lado para o outro:

320

- No sabem que Eskevar me salvou a vida, e as vidas dos meus homens. 
mais vezes do que as que consigo recordar? Nenhum dos homens que lutaram 
contra Gorr deixariam de estender as mos para o ajudar, por Zoar!
Quentin observava o drama com ateno. Selric era o primeiro monarca que 
via. Estava fascinado com aquela figura delgada e poderosa. com um cabelo 
de um vermelho violento, que explodia de energia incontida. Selric no 
era capaz de estar quieto um instante. Mesmo quando se sentava. o que 
raramente fazia, as suas mos agitavam-se e contorciam-se, os olhos 
saltavam de um lado para o outro, no perdendo um pormenor do que via, 
por muito trivial que fosse.
Naquele momento, Selric era um leo furioso e pronto para o ataque. 
Quentin estremeceu por dentro. perguntando a si mesmo o que seria ter de 
enfrentar aquele feroz comandante.
- Quando  que podemos partir? - inquiriu Theido.
- Ora, imediatamente! Partiremos imediatamente! Nesta mesma noite!
- Mas os homens acabaram de desembarcar... - observou Ronsard.
- Bah1 - trocou Seiric. - Os homens passaram todo o Inverno em terra! Vou 
ordenar que os trombeteiros toquem imediatamente a reunir!
Selric atingiu a porta com duas longas passadas.
- Kellaris! - gritou. Instantaneamente. apareceu  porta um homem com o 
rosto cheio de marcas profundas. Baixou a cabea e entrou nos aposentos 
do seu monarca, cheios de gente.
- Ao seu servio. senhor - disse, fazendo uma ligeira vnia com a cabea.
- Kellaris, acabei de receber ms notcias. Envia os trombeteiros a 
terra, para tocarem a reunir por toda a cidade. Temos de embarcar os 
homens o mais depressa possvel. Mais tarde explicar-te-ei os motivos. 
Vem informar-me quando tudo estiver pronto.
s ordens, senhor. - Nova inclinao da cabea, e o homem saiu. Quentin 
inclinou-se para Toli e murmurou-lhe qualquer coisa junto do ouvido. Toli 
acenou e abandonaram os dois a cabina, sem que os outros dessem por isso, 
pois estavam de novo a discutir o que iriam ter pela frente.

CAPTULO XLII

O cu da noite resplandecia com o brilho faiscante de um bilio de 
minsculas estrelas, cada uma delas uma jia resplandecente de encontro 
ao azul-escuro dos cus.
Fora um dia muito comprido, pensou Jaspin. Um dia longo e glorioso. A 
coroao fora tudo o que desejara: uma exibio brilhante e estonteante. 
Um espectculo de pompa e poder. Finalmente, era rei. Revirava aquele 
pensamento na cabea, infindavelmente, enquanto passeava ao longo da 
varanda que dava para os magnficos jardins por debaixo do grande salo. 
A noite ainda respirava o calor do dia e oferecia o perfume entontecedor 
de um milhar de grinaldas que enfeitavam tanto o salo como tudo aquilo 
em que os olhos pousavam ao acaso.
O rei Jaspin suspirava de profundo contentamento, passeando com as mos 
atrs das costas, cantarolando para si mesmo. Os convidados, aos 
milhares, ainda festejavam e danavam no grande salo, ou ento 
passeavam, tal como ele, nas varandas ou jardins que lhe ficavam por 
baixo, sob o suave luar.
Porm, - Taspin. desejoso de ficar sozinho durante algum tempo, virou as 
costas aos festejos e procurou um lugar mais privado. Subiu um curto 
lano de escadas, que levava a uma pequena barbac aninhada nas muralhas, 
com vista para a varanda que lhe ficava por baixo. Ali, em tempo de 
guerra, era costume haver um soldado de sentinela, vigiando o ptio 
interior.
Mal pusera os ps no ltimo degrau da plataforma quando ouviu um silvo 
distinto e um leve rastejar sobre as pedras frias. Jaspin ficou como que 
congelado, receoso de se mexer. Sentiu os cabelos da nuca a porem-se de 
p.

322

Ento, sob o luar prateado, viu uma grossa serpente negra estendida sobre 
a balaustrada de pedra cinzenta. Jaspin avistou com clareza a cabea 
angulosa e as contas brilhantes dos olhos quando o rptil se aproximou 
dele a deslizar.
De repente, sob os olhos de Jaspin, a serpente enrolou-se num monte e 
desapareceu, tomando-se num fino farrapo de vapor que se contorcia no ar. 
O vapor condensou-se numa massa amorfa que pairou mesmo em frente do 
rosto horrorizado de Jaspin. Dentro daquela massa de nevoeiro via os 
vagos contornos de um rosto que conhecia demasiado bem.
- Nimrood! - exclamou Jaspin num murmrio abalado, sem desejar chamar a 
ateno de algum que andasse por perto. O rosto,
no nevoeiro, tornou-se cada vez mais distinto. As temidas feies do 
feiticeiro fixaram Jaspin e declararam:
- No tenho tempo para uma troca de delicadezas. - A voz era fraca e 
distante.
- Mas tu alguma vez... - comeou Jaspin a dizer, mas foi interrompido.
- Vim apenas avisar-te de que os prisioneiros fugiram.
- E que tenho eu com isso?
- No cometas o erro de brincar comigo, rei chacal. - Mesmo sob a forma 
de um nevoeiro nocturno, os olhos de Nimrood despediam raios. Jaspin. 
sentiu o terrvel poder do feiticeiro e mergulhou num silncio rgido.
- Assim  melhor. Tu e eu somos scios, meu obtuso amigo. Nunca te 
esqueas disso. No fim de contas, partilho metade do teu trono. Metade de 
Mensandor  minha... ou s-lo- muito em breve. Se me dou ao trabalho de 
te avisar,  porque o assunto te diz respeito. No tenhas dvidas!
- Os prisioneiros, disseste? - Jaspin tentou parecer devidamente 
preocupado, o que era dificil, atendendo s circunstncias.
- Esqueceste-te assim to depressa? Ou nem sequer foste capaz de 
adivinhar? - Os olhos de Nimrood captaram a expresso que foi a resposta 
 sua pergunta. - Idiota, concedo-te sempre um crdito de inteligncia 
maior do que mereces! No sabias que tinha nas minhas masmorras o rebelde 
Theido e alguns dos seus amigos? A rainha Alinea e vrios outros, 
incluindo um dos teus guardas, bem como um eremita chamado Durwin? 
Ronsard deveria encontrar-se tambm entre eles, mas presumiu-se que se 
tinha afogado.

323

Por muito que tentasse, Jaspin no conseguia estabelecer qualquer relao 
entre aquela gente e qualquer possvel ameaa para ele, apesar de o grupo 
lhe parecer muito suspeito. Exibindo uma expresso vazia, pestanejou na 
direco do rosto interrogativo de Nimrood.
- Pensei que estavam escondidos em Dekra.
- AIL nem sei porque  que me preocupo contigo! Escaparam-se e esto de 
volta aqui. Adivinha o resto... se fores capaz. Entretanto, toma em 
ateno o meu aviso e defende a tua coroa. Tratarei de os apanhar o mais 
depressa possvel. Os meus espies j esto em campo, em busca do seu 
paradeiro. No ficaro em liberdade muito mais tempo.
- Mas... - balbuciou Jaspin. Porm, o vapor que contivera o rosto de 
Nimrood j estava a desfazer-se. dispersando-se na noite e desaparecendo 
na brisa.
Jaspin sentiu um estremecimento frio, de medo, a percorrer-lhe o corpo. 
Virou-se e correu. lanando olhares furtivos por cima dos ombros, para 
verificar se algum testemunhara o que acabava de se passar.
- Que estpido tenho sido! - Jaspin amaldioava-se a si mesmo, 
apressando-se em direco aos seus aposentos. - No precisava daquele 
feiticeiro venenoso... podia ter tratado de tudo sozinho! Agora est a 
envolver-me nos seus planos...
O grupo dirigia-se para ali, pensou. Theido e a rainha, bem como Ronsard, 
se  que percebera bem, que afinal estava vivo. Mas quem era o tal 
Durwin? Haveria outros que no conhecesse? Mas que importncia  que isso 
tinha? Como  que o poderiam prejudicar? A coroao terminara. era rei. 
Pois muito bem, que viessem. Estaria pronto para tudo.
A cabea de Jaspin revolvia tudo aquilo enquanto corria. Todavia, ao 
chegar quela concluso, parou e voltou para trs, para se juntar s 
celebraes. Seguro de que nada poderia correr mal, regressou ao grande 
salo de Askelon e foi imediatamente rodeado por aqueles que o queriam 
cumprimentar e desejar-lhe felicidades, e por bajuladores que desejavam 
apenas lisonje-lo.

Uma brisa firme enfunava as velas do navio de Selric, que seguia na 
frente dos outros. Quentin estava de p junto da amurada de estibordo e 
observava a Lua a deslizar lentamente para o mar.
Respirava profundamente, aspirando o odor salgado do mar, e

324

escutava o suave marulhar da gua a passar por debaixo da proa do navio 
de guerra. Ouviu o murmrio de vozes que se aproximavam e viroupara ver 
Theido e Ronsard com o rei Seiric, que caminhavam na sua direco, sobre 
o convs. Virou-se outra vez para continuar a olhar para as estrelas, que 
subiam e desciam ao ritmo da lenta oscilao do navio.
Os homens pararam a pouca distncia do stio onde Quentin encontrava. 
Ouvia a conversa com clareza, apesar de falarem num tom baixo e 
confidencial. No lhe agradava o tom das palavras.
Por fim, cansou-se de escutar. A melancolia abateu-se sobre ele, suspirou 
e afastou-se.
- Algum problema. jovem senhor? - A voz dirigia-se-lhe, vinda da sombra 
de um mastro.
Quentin parou e espreitou para as sombras, mas no distinguiu ningum. 
Avanou para a zona mais escura e deparou-se-lhe Kellaris sentado numa 
pilha de cabos cuidadosamente enrolados, com as costas encostadas a um 
barril.
- Oh. s tu - disse.
-j tenho sido cumprimentado com maior entusiasmo... - comentou o 
cavaleiro de confiana do rei Selric.
- Desculpa... - murmurou Quentin, mas sem convico.
- Vejo que tens qualquer coisa a preocupar-te. Ests enjoado por causa do 
mar?
- No.
- Ento o que ?
- Acabei agora mesmo de escutar os outros. Ouvi o que diziam - admitiu 
Quentin.
- Escutar a conversa de outros sem ser convidado pode no trazer nada de 
bom.
- No o pude evitar. De qualquer modo, o que disseram sobre o rei... 
Sobre Eskevar... Quero dizer... - Quentin calou-se. No era capaz de 
encontrar as palavras para se expressar como desejava.
- Pensam que as esperanas so vs e que  possvel que j nda possa ser 
ajudado. No  isso?
Quentin, baixando-se para se sentar de pernas cruzadas sobre o convs, 
limitou-se a acenar. Sentia-se oco por dentro. Nem sequer levantou a 
cabea quando ouviu passos leves sobre o convs.
-  uma conversa s para homens, ou as mulheres podem

325

participar? - Era Alinea. Kellaris ps-se em p de um salto e Quentin 
levantou-se lentamente.
- Por favor, deixem-se estar sentados. No ficarei aqui, se os incomodar.
- De modo nenhum. junte-se a ns. Majestade. Receberia de bom grado os 
conselhos de uma rainha a respeito da questo que discutamos.
- s muito amvel. Nesse caso, fao-vos companhia. - A rainha instalou-se 
ao lado de Quentin. com os braos delgados a puxarem os joelhos para o 
peito. - Agora... que assunto era esse que necessita tanto dos meus 
conselhos?
- Quentin receia pelo seu rei, e que possa j ter acontecido o pior.
Apesar de o cavaleiro ter falado com gentileza, Quentin levantou a cabea 
de repente e lanou-lhe um olhar de aviso, como se o homem tivesse 
revelado um grande segredo ou houvesse violado uma confidncia sagrada.
- Sim, h motivos para ter medo. Tambm eu o receio...
Quentin levantou os olhos da escurido das sombras para olhar para a bela 
Alinea, sentada. to calmamente, a seu lado. No obstante ter manifestado 
as mesmas preocupaes, na sua voz no existia a resignao que Quentin 
sentia.
- Senhora. o dia j passou... Jaspin foi coroado e... - Queria continuar 
mas faltaram-lhe as palavras.
- E no sabemos onde est Eskevar? - perguntou a rainha. Mais uma vez, 
Quentin limitou-se a acenar.
- No percas as esperanas, meu querido amigo. A histria no foi toda 
contada. Ainda podemos fazer muita coisa. Se nos fosse possvel ver um 
bocadinho do amanh, como por vezes parece acontecer com Durwin... talvez 
tivssemos uma perspectiva completamente diferente da que encaramos 
agora. Porm, apesar de no podermos ver o futuro, temos esperana. A 
esperana ainda no nos abandonou. nem a devemos abandonar.
- Bem dito, senhora - concordou Kellaris. - So as palavras de um corao 
corajoso.
Quentin tinha de concordar. Alinea demonstrava uma coragem notvel, como 
sempre fizera. De sbito sentiu-se satisfeito com o manto da noite. pois 
escondia a onda de vergonha que lhe subira ao rosto.
Ps-se de p muito devagar e disse:

326

- Obrigado por essas palavras amveis, senhora. - Foi tudo o que 
conseguiu dizer antes de se comear a afastar, caminhando lentamente 
sobre o convs.
- Aquele jovem carrega o mundo sobre os seus ombros - declarou Kellaris, 
observando a forma de Quentin a desaparecer na escurido.
- Sim, e quando se queixa nunca  por ele prprio - murmurou Alinea. - 
Naquele peito bate um corao nobre, capaz de resistir a todo o mal.
Nessa noite, quando Quentin jazia em cima do colcho, no compartimento 
partilhado com outros, proferiu a sua segunda orao.
- Senhor, Mais Alto, deixa-me ver um pouco do amanh, ou ento d-me a 
esperana que faz fugir o medo. - A seguir adormeceu.

CAPTULO XLIII

Quentin acordou ao som de vozes a gritar e de ps a correrem no convs. 
Pela inclinao dos feixes de luz que penetravam no compartimento, podia 
ver que o dia j ia avanado. Atirou com as cobertas para longe e ps-se 
de p, experimentando aquela sensao momentnea por que passava sempre 
que acordava no mar.
Ao dirigir-se para o convs principal, Quentin tomou conscincia de que 
os gritos e os sons de actividade se tornavam mais frenticos. Passava-se 
qualquer coisa.
Com a curiosidade alertada, precipitou-se para o convs, quase chocando 
com Trenn, que se encontrava logo  sada da cabina.
- Olha para aquilo, jovem senhor - disse Trenn, semicerrando os olhos e 
atirando o queixo para a frente. - Se sei o que  um mau sinal... ento 
ali temos um!
Ao princpio Quentin no viu o que procurava. Depois, quando o avistou, 
perguntou a si mesmo como fora que no o vira. Mesmo em frente e 
aproximando-se por trs lados, pairava um tremendo banco de nevoeiro que 
deslizava rapidamente para eles por sobre as guas. O mar estava calmo e 
a brisa era ligeira. O espesso nevoeiro parecia estar a ser empurrado por 
trs. Era uma suja massa cinzenta, pesada, escura, com paredes que se 
elevavam muito acima deles. Enquanto Quentin o observava, os primeiros 
tentculos do nevoeiro comearam a cobrir o Sol. Quentin correu para a 
amurada e espreitou. Por detrs deles, os dois navios irmos tinham-se 
aproximado, e as tripulaes tentavam, sem xito, lanar cabos de navio 
para navio para que nenhum deles se perdesse dos outros no meio daquela 
cerrao.

328

Era essa a explicao para os sons de urgncia que escutara. Apesar de os 
outros navios ainda navegarem em guas claras, com o maravilhoso arco do 
cu azul por cima deles e o Sol a inund-los com uma luz generosa, o de 
SeIkic, que seguia a frente, fora j quase todo engolido pelo nevoeiro. 
Quentin viu as altssmas vagas de nevoeiro a cerrarem-se por cima da sua 
cabea, ocultando as ltimas manchas de cu azul e sem nuvens.
o Sol tomou-se num simples claro incerto, mas depois extinguiu-se o 
completamente. Era mesmo um mau sinal, pensou Quentin, quando as nuvens 
escuras, rolando sobre si mesmas, engoliram o navio, impedindo-os de ver 
os outros. Virou-se e ficou espantado ao verificar que nem sequer 
conseguia avistar o outro lado do convs. o nevoeiro era to espesso que 
no sabia
dizer em que ponto exacto se encontrava naquele momento. Se no tivesse 
uma ideia da disposio geral do navio, ter-se-ia sentido perdido.
- Trenn - chamou, e ficou surpreendido ao ouvir a resposta de muito 
perto.
- Estou aqui! - O guarda aproximara-se mais da amurada quando
o nevoeiro se cerrara, - No gosto nada disto.  um truque daquele
maldito feiticeiro, Nimrood! Podes ter a certeza de que  ele o 
responsvel. At eu o consigo sentir!
A voz de Trenn. apesar de se encontrar perto, soava abafada e longnqua. 
O rosto do homem aparecia e desaparecia no meio daquele vu
de nuvens. Era uma apario plida anunciando maus pressgios, Quentin. 
estremeceu e retorquiu:
-  apenas nevoeiro, Trenn. Tenho a certeza de que em breve sairemos 
dele.
- Sinto-me inclinado a concordar com Trenn - disse uma voz por
detrs deles. Quentin assustou-se e quase saltou borda fora. Como no
tinham escutado a aproximao de quaisquer passos, a voz parecera sair
do nada. No entanto, era familiar e Quentin avistou os vagos contornos
da figura rotunda de Durwin, na sua frente. - Esta no  a poca normal 
de nevoeiros no mar - continuou o eremita. Seguiu-se uma longa
pausa, - Penso que h magia por detrs disto. Uma magia malfica.
H sinais reveladores. No se trata de um nevoeiro vulgar, mas sim de
feitiaria.
Durwin no disse mais nada, e tambm no era necessrio. S havia

329

uma pessoa capaz de lanar um tal encantamento sobre eles. Trenn 
pronunciara~lhe o nome em voz alta. mas Quentin no ousava faz-lo.
O dia foi passando e o nevoeiro foi-se tornando cada vez pior. Tornava-se 
constantemente mais escuro e frio, pelo que ao meio-dia o ambiente era de 
crepsculo, e havia uma humidade gelada no ar que se infiltrava nas 
roupas de todos os que ousavam enfrent-la. Estranhas rajadas de vento 
sopravam repentinamente de lado nenhum, atingindo o rosto das vtimas 
surpreendidas, provenientes primeiro de uma direco e depois de outra 
diferente. Os homens de Selric, bem treinados e experimentados, no 
pronunciavam palavra, e mantinham a boca cerrada com sombria 
determinao. No entanto os olhos revelavam um medo crescente.
Quentin sentou-se no colcho. mastigando uma ma. No tinha vontade de 
comer. a ma no passava de um exerccio contra a crescente inquietao 
que todos sentiam. S Toli, que dormitava na sua enxerga, no parecia 
preocupado. De qualquer modo, o Jher no pronunciara uma palavra em todo 
o dia.
A seguir comearam as vozes.
Quentin tomou conscincia delas tal como uma pessoa qualquer toma 
conscincia de que o vento se levantou. De repente d-se por ele, apesar 
de dever ter estado presente h muito tempo, ganhando fora, mas passando 
despercebido. Foi assim que as vozes comearam. Ao princpio eram um 
murmrio quase inaudvel. Depois um pouco mais altas, e crescendo, at 
que os longos e constantes lamentos passaram a ouvir-se ecoando por cima 
da superfcie do mar.
Quentin e Toli. em bicos de ps, foram at ao convs e deslizaram at ao 
mastro principal, onde se lhes deparou um apertado grupo de marinheiros, 
muito juntos uns aos outros. Entre eles encontravam-se Theido, Ronsard. o 
rei Seiric e Durwin.
 volta, os gritos e gemidos enchiam o ar ftido. Por cima ressoavam 
chamamentos speros e berros tremendos. Outras vezes viam-se rodeados por 
sussurros, gritos e choros. A fantasmagrica cacofonia de vozes 
assaltava-os por todos os lados, como um coro de todos os espritos 
infelizes que vagueavam pelas regies inferiores do mundo.
No meio dos gritos e gemidos, dos berros e guinchos, dos uivos capazes de 
gelar os ossos e dos choros absurdos, surgiu um novo som que transformou 
o sangue de Quentin em gua.

330

Era uma gargalhada. Um risinho distante e fraco que comeou a crescer. 
Aumentava de um modo louco e incontrolvel, tornando-se cada vez mais 
forte, um riso cacarejado que sacudia o cordame e fazia vibrar todo o 
equipamento do navio. Quentin sentia aquela gargalhada de louco atravs 
das solas dos sapatos, enquanto permanecia imvel no convs, com as mos 
a taparem as orelhas.
No era capaz, de impedir a entrada do som que se infiltrara no interior. 
Na sua cabea. Comeou a pensar que, se a gargalhada no acabasse 
depressa, acabaria por saltar borda fora e deixar que as ondas o 
cobrissem com o seu silncio.
- Coragem, homens! - o grito soou, ousado e poderoso. - Coragem! - 
Selric, que estivera em consultas com Durwin quando Quentin se juntara a 
eles, trepara para o cordame do mastro e animava os homens com o som da 
sua voz, tal como faria numa batalha.
Estes gritos so apenas a criao de um feiticeiro. No so os espiritos 
dos mortos. So uma iluso e nada mais! Coragem!
As fortes palavras de Selric pareceram ajudar. Quentin notou que o medo 
desaparecia dos olhos dos que se encontravam  sua volta. Selric desceu 
do cordame e voltou para o seu lugar. Quentin e Toli, que at ali se 
haviam mantido imveis como se fossem de pedra, avanaram para se 
juntarem ao grupo.
- Quanto tempo pode isto demorar? - A pergunta era de Ronsard, a quem 
Quentin mal conseguia distinguir no meio do nevoeiro sujo.
- Indefinidamente... - respondeu Durwin, que se encontrava mais perto -, 
ou at que a sua finalidade se cumpra. No tenho a certeza de qual possa 
ser.
- Para nos demorar? Para nos lanar para fora da rota? - inquiriu Theido.
- Talvez... mas tenho a impresso de que pode haver uma outra razo.
Quentin sentiu uma agitao no nevoeiro e um vento frio que agitava as 
ondas.
Patro.1 - gritou Toli. Quentin traduziu.
Com estas vozes encantadas  nossa volta, e ele diz para escutarmos! - 
troou Trenn.
- No! Toli tem razo! - exclamou Durvvin. - Escutem! O que ouvem por 
detrs das vozes?

331

Quentin escutou e ouviu um som, o embater de ondas de encontro a rochas! 
Rochas!
- Vamos a caminho das rochas! - gritou Theido.
- Vamos chocar! - exclamou Selric, lanando-se para a frente. Timoneiro, 
tudo para bombordo!
- No! - interveio Durwin. - Selrie. diga ao timoneiro para manter o 
rumo. No se desviem!
Seiric virou um rosto intrigado para o eremita.
- Vamos esmagar-nos nas rochas. Esto a aproximar-se! De um momento para 
o outro...
-  um truque! -Mantenham o rumo!
Por instantes, Selric hesitou, mas depois ordenou:
- Timoneiro, mantm o rumo.
O grupo continuou amontoado,  espera do terrvel som do casco a esmagar-
se de encontro s rochas traioeiras de uma das ilhas Msticas, que 
pareciam encontrar-se to prximas. Aguardavam o embate, a paragem 
sbita, o convs a inclinar-se e a queda para o mar.
No entanto, apesar de estarem rodeados pelo som de vagas a fustigarem 
rochas invisveis, o previsto naufrgio no se verificou. O navio 
mantinha-se firme, abrindo caminho atravs do opressivo vapor.
Passaram-se vrias longas horas. O grupo do convs estava agora sentado, 
num tenso crculo de rostos preocupados. Periodicamente havia algum que 
se levantava e outro que tomava o seu lugar. mas a viglia continuou 
durante toda a noite.
Quando a noite caiu - a julgar pela escurido que invadia rapidamente o 
nevoeiro, mas que no passava de um aprofundamento geral do negrume j 
existente - Selric ordenou que fossem colocadas tochas ao longo das 
amuradas, para evitar que algum casse ao mar. Agachados no convs sob o 
claro trmulo das tochas. o miservel grupo continuava  espera---
Quentin, dormitando em cima das tbuas do convs, teve a sbita 
conscincia de uma grande confuso. Ouvia ps a correr e gritos de 
alarme. De um ponto mais distante. chegavam~lhe os terrveis sons de um 
naufrgio.
Ps-se de p num salto, sacudindo a cabea para a aclarar, e seguiu os 
outros para a popa.
Um dos navios embateu numa rocha! - gritou um marinheiro. Est a afundar-
se!

332

Espreitar para o nevoeiro era o mesmo que espreitar para dentro de lama, 
e no se via nada. No entanto, o ar estava cheio dos gritos horrveis dos 
homens e do terrvel estalar do navio, preso nas rochas e a desfazer-se 
aos bocados. Quentin ouviu o mastro a abater-se sobre o convs e os 
gritos dos homens esmagados debaixo do seu peso, logo interrompidos pela 
morte. Ouviu homens na gua, a afogarem-se. Uma doentia sensao de 
impotncia invadiu-lhe o corpo, enquanto se agarrava  amurada com tanta 
fora que os ns dos dedos ficaram brancos. Era preciso fazer qualquer 
coisa! Era preciso ir salv-los!
Selric ordenou que o navio desse meia volta, que lanassem os botes ao 
mar, para irem salvar a tripulao em perigo e recolher os sobreviventes. 
Porm, Durwin, que se encontrava perto, pousou-lhe a mo no brao e 
disse:
- No. Cancela essas ordens. No h ali nada! Mantenham o rumo que 
seguimos!
O monarca olhou em volta, para o nevoeiro. pedindo a opinio dos outros. 
Theido disse qualquer coisa e Ronsard virou o rosto para outro lado. 
Selric j tinha a sua resposta. Bateu na amurada com o punho e cancelou 
as ordens.
- Se quiseres, manda que o trombeteiro toque uma chamada aos outros 
navios. Se estiverem perto, sabero que continuamos sem problemas.
Selric obedeceu  sugesto de Durwin. O trombeteiro subiu ao cordame e 
emitiu um forte toque de chamada. Depois repetiu-o, como que dizendo: 
"Mantenham-se firmes. Est tudo bem. Mantenham-se firmes!"
O navio continuou como at ali, e os gritos dos homens do naufrgio 
foram-se apagando gradualmente no meio do pesado nevoeiro.

CAPTULO XLIV

- Devamos ter feito qualquer coisa - insistia Quentin. - No foi 
correcto deix-los morrer. Podamos ter ajudado. Devamos ter feito 
qualquer coisa.
- E fizemos - responde Alinea com gentileza. - Confimos em Durwin.
- No os ouviu, senhora! Foi horrvel... Os gritos dos homens...
Quentin encontrara a rainha a sair do seu camarote, debaixo do convs. 
No obstante a sua voz calma e suave, podia verificar, pelos olhos 
vermelhos, que fora to afectada por tudo aquilo como todos os outros, 
apesar de ter preferido suportar a provao sozinha no camarote.
- Durwin teve as suas razes. Quanto a isso, no tenho quaisquer dvidas. 
Anda, queres descansar um pouco? - Alinea virara-se, pronta para empurrar 
Quentin para as suas prprias instalaes, onde poderia repousar e 
aliviar o fardo que lhe pesava na mente. - Precisas de dormir.
Quentin acenou que sim, como que em transe. As pernas pesavam-lhe como 
chumbo e os olhos ardiam-lhe nas rbitas. Dormir! A palavra tinha um som 
to pacfico... Perguntava a si mesmo se algum deles voltaria a encontrar 
a paz. Passara-se tanto tempo desde que descansara a srio! O sono 
tomara-se num tormento de sonhos e de horrores meio reais.
Porm, quando deu um passo para descer as escadas para a cabina da 
rainha, ouviu o timoneiro a gritar:
- Mar limpo! Mar limpo em frente!
Virou-se e verificou que o nevoeiro se desfazia em farrapos, empurrado 
por um vento fresco. Recuando para o convs. Quentin levantou

334

os olhos para o cu e viu os vapores a tornarem-se mais finos e a 
afastarem-se como se uma gigantesca mo empurrasse um vu para um lado.
Por cima deles, as estrelas brilhavam alegremente, levando Quentin a 
pensar que nunca as vira fulgir com tanto brilho. O navio atravessou o 
ltimo banco de nevoeiro e, de repente. viram-se livres.
Quentin encheu os pulmes de um ar doce e fresco. No se conseguiu 
impedir de agarrar na mo da rainha e de a apertar com fora. quase 
danando de alegria.
- Desapareceu! - gritou. - Estamos livres do nevoeiro!.

Na manh seguinte, no convs no existia uma pessoa mais feliz do que o 
prprio Quentin. Os pavorosos acontecimentos do dia anterior tinham sido 
apagados por uma slida noite de sono, e agora, sob a luz clara de um dia 
verdadeiramente cristalino, tudo o que acontecera parecia-lhe remoto e 
irreal. apenas sombras. Sonhos de um crebro cansado, pensou. Todavia, 
sabia que fora verdade.
A revelao mais surpreendente e a que mais o alegrou deu-se no momento 
em que subiu para o convs. No conseguiu acreditar nos seus prprios 
olhos quando, investigando o horizonte, notando as poucas nuvens brancas 
e vaporosas que seguiam o seu caminho pela limpa cpula azul do cu, 
deparou-se-lhe a mais notvel das vises: dois navios a seguirem atrs 
deles. Os navios do rei Seiric.
Correu para Durwin. procurando uma explicao para aquele milagre. 
Encontrou-o no castelo da popa, meditando placidamente e olhando para o 
mar.
- Pois  verdade! Nenhum navio se perdeu a noite passada - respondeu o 
eremita  pergunta de Quentin.
- Mas eu ouvi! O naufrgio, os gritos por socorro, as madeiras a 
partirem-se. Ouvi tudo. Toda a gente ouviu.
- Sim, diria que ouvimos, mas, tal como o nevoeiro e aqueles gritos 
absurdos, o naufrgio foi s feitiaria. Sem dvida que se destinava a 
fazer-nos mudar de rumo, para nos confundir e provocar uma coliso 
verdadeira. Se tivssemos voltado para trs, poderamos embater num dos 
outros navios.
- Ento no houve naufrgio... nem rochas...
- Isso surpreende-te? Por que razo estiveste to pronto para acreditar 
que o nevoeiro e as vozes eram magia, mas no o naufrgio?

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- Porque... foi diferente. Mais subtil. Parecia to real...
- O mesmo aconteceu com o drago, na praia, para os soldados - disse 
Durwin, sorrindo misteriosamente. - H muita coisa que depende da nossa 
vontade de acreditar.
- Lamento muito - disse Quentin, de um modo abrupto, depois de pensar em 
toda aquela feitiaria.
- Lamentas? Lamentas... o qu?
- Pensei que tu... - Quentin no foi capaz de dizer o resto.
- Pensaste que eu tinha um corao de pedra, por no voltar atrs para 
ajudar os homens que se afogavam. Por momentos achaste-me to odioso como 
o prprio Nimrood, no foi?
Quentin fez um aceno de confirmao, evitando os olhos de Durwin.
- Ora, no penses mais nisso. Tinhas razo, por quereres ajud-los.
- Como soubeste? Como percebeste que era feitiaria?
- Tive um pressentimento... Um feiticeiro consegue distinguir as 
feitiarias. Seria prprio de Nimrood meter uma coisa daquele tipo no 
nosso caminho. Confiei no meu corao para me dizer o resto.
- Ento no sabias, no tinhas a certeza.
- No, a certeza no tinha. H muito poucas coisas certas neste mundo. 
Porm, Quentin, tens de aprender a confiar naquela vozinha que aparece 
dentro de ti. Tens de te deter para a escutar. O deus conduz-nos por 
palpites e sugestes... e s muito raramente por instrues directas.
Quentin afastou-se, pensando nas palavras de Durwin. Tinha tanto que 
aprender... Aquele deus era muito diferente dos outros que conhecia bem, 
que falavam por enigmas, era verdade, mas que pelo menos falavam com 
palavras compreensveis, e por sinais e augrios. No por palpites e 
vagas sugestes. Quando se recebia o orculo, havia qualquer coisa a que 
as pessoas se podiam agarrar.
Todavia, mesmo no instante em que assim pensava, recordara-se das muitas 
vezes em que, no templo, vira um sacerdote entregar a um esperanado 
peregrino o orculo fabricado apenas momentos antes. Sim. pensou com 
tristeza, as certezas eram muito poucas. Depois recordou-se das palavras 
de conforto de Alinea: "Fizemos. confimos em Durwin ... " Ento. sempre 
era possvel fazer qualquer coisa, independentemente do modo como uma 
pessoa se sentia: confiar.
O resto do dia passou-se sem incidentes, tal como o seguinte, e mais dois 
outros em sucesso. Quentin sentia, cada vez mais, que tudo

336

o que lhe acontecera desde que sara do templo fora um sonho, ou que 
acontecera a uma outra pessoa. No entanto sabia, pelo firme apoio do 
convs por debaixo dos seus ps, que tudo fora real.
 medida que o tempo passou e o navio ia abrindo um comprido sulco ao 
longo de muitas lguas de mar, Quentin deixou-se mergulhar numa 
disposio varivel. O seu humor alternava-se, ora sentindo um corao 
leve, que o levava at alturas soberbas. ora mergulhando em negras 
contemplaes em que imaginava a horda de horrores que ainda teria de 
enfrentar. Alm disso, a pouco e pouco, os voos de boa disposio foram 
desaparecendo. Apesar de no saber o que o poderia esperar quando 
chegassem a Askelon, Quentin previa que fosse qualquer coisa desagradvel 
e, mais do que provavelmente, tambm mortal. Atquele momento, o poder 
de Nimrood fora desafiado. Em breve teriam de o encarar, e s essa ideia 
bastava para o encher de maus pressentimentos.
Toli seguia atrs dele. pelo convs. Era um companheiro mudo. O devotado 
jher desistira de fazer o seu senhor interessar-se por qualquer 
actividade que lhe acalmasse o esprito. Logo que conseguiam um curto 
momento de alvio, Quentin caa de novo na melancolia.

Por fim, a fraca mancha vermelho-acastanhada que surgiu no horizonte deu-
lhes a saber que tinham Mensandor  sua frente. -Apesar do nevoeiro, onde 
as direces se tomam sem significado, tinham consegudo manter-se no 
rumo e feito um tempo notvel. A navegao por perto das Sete Ilhas 
Msticas dera mais uma vez razo ao provrbio: "Os homens de Drin 
nasceram do mar."
Durante o conselho de guerra que se seguiu, aps a costa ter sido 
avistada, ficou decidido que, em vez de desembarcarem e fazerem a p a 
viagem de Lindalia para Askelon, ou ento darem a volta  pennsula para 
atacar a partir de Hinsenby, o plano melhor e mais ousado, e portanto o 
mais inesperado, seria o de nem sequer desembarcar. Penetrariam em terra 
com os navios, pelo largo e lento brao ocidental do preguioso rio 
Wilst.
- Ser possvel faz-lo? - interrogou-se Theido.
Encontravam-se nos aposentos reais, olhando para um grande mapa pintado 
num pergaminho. Os rostos exibiam um ar vazio, por estarem todos 
concentrados em profundos pensamentos.

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No com marinheiros vulgares. Com os meus,  possvel. Os navios. apesar 
de serem grandes e de cascos largos, so de pouco calado.
No se esqueam que so navios de guerra. Nas guerras, nunca se sabe o 
que pode vir a ser necessrio, e por vezes  preciso navegar em rios.
- Posso dar testemunho da habilidade destes marinheiros e da qualidade 
dos barcos - declarou Ronsard. - Vi o suficiente, nas guerras contra 
Gorr, para os poder recomendar. No h melhores.
- Pois seja! Penetraremos ao longo do rio, a partir de Lindalia. Todavia, 
poderemos fazer o desvio onde o Wilst se junta ao Hem-ydd? Se no for 
possvel, ento seria melhor, apesar do tempo perdido, dar a volta a 
pennsula e atacar a partir de Hinsenby.
- Estou seguro de que poderemos - afirmou Selric.
- Sim - concordou Theido. - Conheo bem essa regio. O Hemvdd  longo e 
profundo, e no ponto onde se junta ao Wilst as guas abriram um espao 
muito grande. H altas falsias dos dois lados. As guas reunem-se 
aqui... - indicou o ponto no mapa - e so agitadas por correntes 
profundas. Se no tivermos problemas at esta juno, depois tambm no 
os teremos.
Quentin, encolhido a um canto. no se manifestou, mas estava satisfeito 
por finalmente ver alguma aco, apesar de no passar de conversa e 
planeamento.
Hora a hora, a costa de Mensandor tornava-se mais clara e distinta. A 
aproximao de terra animou-lhe o esprito, tal como o conselho de 
guerra, mas ainda passava por grandes estremecimentos de medo quando 
contemplava o que iria ter pela frente. A mente de Quentin via apenas 
imagens de sangue e maldio, o embate de espadas contra espadas, o fogo, 
a dor e a morte.

- Deixa de ser choramingas! s rei, actua como tal! - Nimrood agitou um 
comprido dedo ossudo em frente do rosto de Jaspin. Este encolheu-se e 
caiu para trs, sobre o trono.
Num tom sombrio, Jaspin lamentou-se.
- -Nada disto teria acontecido se...
- Ningum te autorizou a fazer julgamentos a meu respeito. Foi aqueie 
maldito eremita... o tal Durwin. Arruinou o meu feitio. Pagar por isso. 
Vers como ir rastejar. Todos eles iro rastejar na minha presena! Vo 
desejar terem encontrado um tmulo no fundo do mar!

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Nimrood, com os cabelos todos no ar, agitava-se em volta do trono de 
Jaspin num frenesim enlouquecido. Fervia de fria, mas o seu temperamento 
no encontrava um escape no gaguejar incoerente de Jaspin.
De repente parou e fitou Jaspin, que lhe devolveu a mirada com olhos 
receosos e meio encobertos, sem ousar encarar o feiticeiro de frente.
- Porque me olhas assim? Pra com isso! Incomodas-me! - queixou-se 
Jaspin, agitando-se no assento, inquieto, de mos agarradas aos braos do 
trono dourado.
- Pois que venham... - murmurou Nimrood com um sorriso de serpente. Os 
olhos negros despediam chispas.
- Qu ... ? - Jaspin quase tinha medo de perguntar.
- Eles que venham. Se no os consigo parar com magia, vamos par-los pela 
fora. Tu, rei chacal, de quantos homens dispes?
- Ora, apenas trs mil, mais ou menos...
- E de quantos cavaleiros, entre eles?
- Talvez quarenta ou cinquenta. Ainda no me preocupei com os pormenores. 
No houve tempo para...
- Cala-te! - O malvolo feiticeiro comeou outra vez a andar de um lado 
para o outro, fazendo as perguntas por cima dos ombros. Quantos nobres 
tens na mo?
- Pelo menos uma dzia, mas no duvido de que haja outros que possam ser 
persuadidos, agora que sou o monarca... - gabou-se Jaspin.
- Deixa-te de vaidades... Cansas-me. - Nimrood cruzou os braos sobre o 
peito e parou na frente de Jaspin. - Bom, temos trs dias para reunir as 
nossas foras. Rene os teus nobres e todos os seus homens de armas. 
Precisamos de foras suficientes para os esmagarmos rapidamente. - Pegou 
numa grande ma verde que se encontrava numa taa de fruta, numa mesa 
ali perto, e levantou-a no ar. Apertou-a com fora, e, para espanto de 
Jaspin, a ma explodiu em chamas amarelas. Momentos depois as cinzas 
caam para o cho como flocos de neve. - Ah! Ah! Vs como ? - O 
feiticeiro deixou cair o resto das cinzas negras, que eram tudo o que 
restava da ma.
Jaspin estivera a fazer alguns clculos rpidos.
- Isso deve dar cerca de dez mil homens... entre cavaleiros e infantaria. 
No pode ser feito. No h tempo suficiente.
- Tem de ser feito!

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- Mas quem comandaria uma tal fora? No creio que eu...
- No, no sers tu, verme. Tenho um comandante j pronto. Ter apenas de 
se juntar  minha legio de imortais.
Ante aquelas palavras, o rosto de Jaspin cobriu-se de uma palidez 
fantasmagrica.
- No! A Legio dos Mortos, isso no! No  preciso!
- Silncio! Desta vez as coisas sero feitas  minha maneira... e pronto. 
Se fosse deixar as coisas na tua mo, acabarias por estragar tudo! - O 
feiticeiro fitou Jaspin com o seu sorriso de serpente. - Sim, meu pequeno 
fantoche! - Nimrood riu-se, ameaador. - Desta Vez, o assunto ficar 
arrumado.

CAPTULO XLV

Ao cair da noite. os trs navios haviam atingido as avermelhadas costas 
de Mensandor. Essa cor avermelhada provinha das falsias rochosas que se 
erguiam abruptamente de cada lado do trgido rio Wilst. O macio arenito 
avermelhado brilhava sob a luz do poente. enquanto os gritos das gaivotas 
e das andorinhas ecoavam por entre as falsias.
Lanaram ncoras. para passar a noite. mesmo ao largo do grande penhasco 
triangular que guardava a foz do rio, O penhasco, denominado Carthwait. 
ou "O guardio". era uma sentinela, um soldado numa vigilncia eterna, 
fornecendo refgio a um nmero incontvel de aves marinhas. Em volta da 
sua base, as guas escuras do Wilst manchavam o verde do mar, baptizado 
de Gerfalon pelos primeiros habitantes da regio.
O dia seguinte viu os navios a abrirem caminho lentamente, subindo o rio, 
sob os olhares curiosos dos habitantes de Lindalia, que tinham aparecido 
para ver o espectculo de trs navios de guerra a serem puxados ao longo 
das falsias pelos esforados msculos dos remadores.
.No fim do segundo dia, os navios de Selric atingiram a juno de guas 
que Durwin descrevera. Era tal como Theido dissera: as guas dos dois 
poderosos braos do rio haviam escavado uma grande taa, rodeada por 
elevadas barreiras. Surgindo do alto dessas margens elevadas, numa 
profuso de verde. as vinhas e restante vegetao caam como uma espcie 
de quedas de gua feitas de folhas, para serem arrastadas pela corrente.
Um a um, os navios deram a volta nas guas mais profundas. Guardaram os 
remos e deixaram-se levar pela corrente. Silenciosamente.

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seguindo o amplo curso do Henvydd, os invasores desciam para as 
plancies. Pairava no ar uma grande calma - quase visvel -. semelhante  
luz cor de mel que os banhava, filtrada pela folhagem.
A pouco e pouco, lgua aps lgua, as altas margens foram desaparecendo, 
recuando para as terras de onde tinham nascido. Os navios, mantendo-se no 
canal mais profundo no centro do rio Hemvydd, passaram em silncio pelas 
distantes vertentes carregadas de rvores. Ocasionalmente avistavam um 
amontoado de cabanas grosseiras. onde os camponeses espreitavam, 
receosos, das portas escuras, enquanto desde a costa os ces malhados 
ladravam os seus desafios.
Para Quentin o tempo parecia passar como uma viso. Permanecia no convs. 
desinteressado, vendo o mundo a deslocar-se  sua volta, sem qualquer 
sensao particular. Os seus receios, to constantes e dolorosos, haviam-
se transformado num sentimento de antecipao. Estava a ser impelido para 
qualquer coisa. Qualquer coisa que conhecia mas a que no conseguia dar 
um nome. Tinha relances dessa coisa, no modo como a luz se movia sobre a 
gua, ou atravs das rvores. Luz dourada e sombras azul-prateadas. 
Escurido. No fim, existia sempre a escurido. Pensou em estar atento a 
augrios, mas desistira de ler esses portentos. Ou no desistira? No se 
lembrava de que tivesse tomado essa deciso de um modo consciente, mas 
tambm no se recordava de quando fora a ltima vez que pensara a srio 
em procurar um pressgio. Abandonara a prtica sem dar por isso, e at 
aquele momento no dera por falta dela.
Em Dekra, passara por uma modificao maior do que pensara. De que outros 
modos estaria tambm a mudar? Quentin passou o resto do dia contemplando 
o deus que tinha o poder de modificar os seus seguidores... o que era uma 
caracterstica nica no panteo de todos os deuses que at ali conhecera.

Ao terceiro dia, os navios atingiram as plancies de Askelon. As terras 
planas estendiam-se por debaixo das alturas do castelo de Askelon, a mais 
de uma lgua do rio. Era uma vasta expanso, cenrio de muitas batalhas, 
bero e tmulo de muitas campanhas.
Em volta da plancie, rodeando~a a sul e ao longo do Hemvydd. ficavam 
extensas zonas da floresta de Pelgrin. Era a, sob a proteco das 
rvores e ao longo do rio, que Selric decidira estabelecer a sua base. 
Acampariam no interior das rvores, com vista para a plancie.

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Quando as embarcaes tocaram em terra, os dias de espera e de 
inactividade terminaram bruscamente. Enxames de homens desembarcaram dos 
navios, transportando abastecimentos, armas, tendas e utenslios. Os 
cavalos foram conduzidos para terra, carregados com grandes fardos de 
armaduras e armas.  medida que os navios iam desembarcando a carga, ia 
surgindo uma pequena cidade entre as rvores. A floresta ressoava aos 
gritos de homens trabalhando, erguendo tendas, e ao som dos machados a 
limparem o mato.
-  um bom lugar - comentou Selric para Theido, enquanto observavam toda 
a actividade. - Temos a retaguarda protegida pelo rio. Resta-nos a 
plancie, em frente. No seremos surpreendidos com facilidade.
- Vamos at ali adiante. Talvez seja possvel ver o castelo.
Caminharam um pouco pela floresta, no meio da agitao dos homens de 
Selric, que preparavam o acampamento, Quando chegaram  beira das 
rvores, avistaram a plancie e, por cima dela, suspenso como uma nuvem 
imvel, o nebuloso volume do castelo de Askelon sobre a sua montanha. 
Todavia, perderam rapidamente o interesse por aquela paisagem. Na 
plancie em frente deles encontrava-se o exrcito de Jaspin disposto em 
formao de combate.
- Que Azrael o leve! - praguejou Selric. - A raposa est a nossa espera! 
- Virou os olhos chocados e desesperados para Theido. Nesse momento 
ouviram o estalar de um ramo por detrs deles e viraram-se os dois.
- Ah. ento  isso! - comentou Durwin, abarcando com a vista o milhar de 
tendas espalhadas nos campos, e as fogueiras que comeavam a brilhar na 
escurido. - Era de esperar. Sabiam da nossa vinda.
- Agora j no os apanhamos de surpresa - disse Theido.
- Com os homens de que dispomos, no nos podemos lanar contra uma fora 
to grande. Quantos soldados estaro ali?
- Pelo aspecto do acampamento... cerca de dez mil.
- Contra os nossos mil... - A voz de Selric morreu-lhe na garganta.
Sem mais comentrios, os trs homens regressaram ao acampamento.
As fogueiras j tinham sido acesas e o fumo, misturado com os cheiros de 
carne a assar e de guisados a ferver, espalhava-se pela floresta 
obscurecida. Quentin e Toli, muito atarefados com qualquer coisa desde

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que os navios haviam tocado em terra. apareceram naquele momento, 
conduzindo um cavalo castanho.
Encontraram Theido, Durwin, Ronsard e os outros. que se encontravam 
reclinados em volta de uma fogueira estralejante, em frente da tenda s 
riscas azuis e brancas do rei Selric.
Quentin mostrava um rosto radiante:
- Haver, no meio desta excelente companhia. um cavaleiro que d pelo 
nome de Ronsard? - perguntou.
Ronsard levantou a cabea, lanando-lhe uma mirada interrogativa.
- Sabes bem que h, jovem senhor. Sou eu.
Quentin soltou uma gargalhada.
- Ento, senhor cavaleiro, levante-se e reclame o seu ginete! Entregou as 
rdeas ao espantado Ronsard e recuou, para ver os resultados da sua 
brincadeira.
- Balder! - exclamou Ronsard. com a face a brilhar de inesperada 
felicidade. - Poder ser?! - Passou um brao em volta do espesso pescoo 
do animal, e deu-lhe uma palmada de afeio numa espdua. A seguir 
afastou-se e acariciou a testa da montada. inquirindo: Tomaste conta dele 
durante todo este tempo? Guardaste-o para mim?
Quentin acenou que sim, sentindo pela primeira vez uma ponta de desgosto 
por ter de se separar do cavalo.
- Ah! Sabes, tenho um segredo para te contar. - O resistente cavaleiro 
olhou com firmeza para Quentin. - Balder no  meu. Perdi o meu prprio 
cavalo durante a emboscada feita ao rei. Esta bela montada pertencia a um 
dos meus companheiros... - A voz fraquejou-lhe, mas voltou a ganhar 
firmeza. - Esse companheiro j no voltar a precisar dela.
- Mas... foste o seu ltimo dono.  teu, uma vez que o dono anterior 
desapareceu.
- No, no o posso aceitar. Um animal como este... - Ronsard afagou o 
elegante focinho de Balder - escolhe o seu prprio dono... e creio que te 
escolheu a ti.
Quentin quase no queria acreditar no que ouvia, mas os outros que se 
encontravam  sua volta concordaram com Ronsard. Theido declarou:
- Todos os cavaleiros corajosos deveriam ter uma montada igualmente 
corajosa. Penso que Balder  o nico cavalo que te convm.
- Cresceste muito e tomaste-te num verdadeiro cavaleiro... - disse

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Durwin - muito diferente do jovem aclito que encontrei em minha casa. e 
que deixou o cavalo  solta enquanto ele dormia!
Quentin ficou corado ao recordar-se daquilo, mas aceitou. grato, as 
rdeas que Ronsard lhe devolvia. e afastou-se com o animal, para o ir 
instalar para a noite.
O grupo comeu uma refeio simples, em silncio, o que Quentin considerou 
invulgar. Desde que tinham posto os ps em terra que a boa disposio dos 
companheiros se manifestara sempre a todas as refeies. A rainha Alinea 
nem sequer saiu da tenda para comer. Trenn comeu  pressa. resmungando. e 
foi-se embora para ir atender a sua ama.
Um a um, todos os outros se retiraram para descansar. Quentin percebia 
que se passava qualquer coisa, mas no teve a coragem de perguntar o que 
era. sentindo que isso poderia vir a deprimir ainda mais os seus 
companheiros. Interrogava-se sobre se o ambiente em volta da fogueira no 
seria um reflexo da sua prpria disposio dos ltimos dias. Deu voltas  
ideia, na cabea, deitado debaixo da rvore baixa onde Toli lhes 
preparara os leitos, perto dos cavalos.
Descansou, mas no conseguia dormir. Passado algum tempo, os rudos do 
acampamento foram esmorecendo  medida que os soldados se deitavam para 
dormir. Quentin levantou-se e regressou para junto da fogueira. onde 
encontrou Durwin, sozinho, cofiando a barba e olhando para as chamas que 
perdiam intensidade.
- Que se passa? - perguntou ao eremita. em voz baixa.
- No sabes? - retorquiu Durwin, sem tirar os olhos do fogo.
- Vai ver com os teus olhos - acrescentou, agitando o brao na direco 
da plancie.
Quentin levantou-se, abriu caminho atravs da floresta, parando  beira 
da plancie. Na sua frente, espalhada pelos campos, a luz de centenas de 
fogueiras tremelicava como as estrelas no cu.
Por instantes interrogou-se sobre o que seria aquilo, mas depois o 
significado do que via foi um verdadeiro choque. Sentiu a garganta 
apertada e uma dor aguda no peito. Desencorajado, cambaleou de volta ao 
local onde Durwin permanecia de viglia.
- So aos milhares... milhares...
-  verdade. Devia t-lo previsto. Tinha a obrigao de o saber. - Durwin 
mergulhou no silncio.
- Porque  que no nos caram em cima quando desembarcmos?

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- perguntou Quentin alguns minutos depois. Tambm se mantivera a observar 
o fogo, mas os seus pensamentos encontravam-se muito longe dali.
- j fiz essa pergunta a mim mesmo. Estive a pensar nisso durante toda a 
noite. Porque no o fizeram? Pois vou dizer-to! - declarou o eremita de 
repente. - Esto  espera de algum. Sim, deve ser isso. J possuem a 
vantagem do nmero: podiam destrur-nos com facilidade. No entanto, 
hesitam. Porqu? Porque precisam da presena de algum. Um comandante? 
Talvez.  algum que deve chegar antes do incio da batalha.
O que Durwin acabara de dizer parecia ser perfeitamente bvio. Quentin 
perguntou a si mesmo por que razo no pensara nisso. Procurou o rosto de 
Durwin com os olhos, rosto que se mostrava avermelhado sob o claro das 
brasas. O eremita tinha o aspecto de estar cego para o mundo e de 
procurar uma resposta nos carves ardentes. Quentin levantou-se e colocou 
mais um tronco na fogueira, fazendo-a renascer em novas chamas amarelas 
que soltavam estalidos.
O eremita permaneceu na mesma, como se estivesse a mergulhar no prprio 
corao da Terra,  procura da explicao. Quentin observava-o, de 
sentidos bem despertos. A pouco e pouco, as calmas feies de Durwin 
modificavam-se, transformando-se gradualmente numa mscara de terror.
Nesse momento Quentin sentiu uma onda de frio, como se um dedo gelado lhe 
tivesse percorrido a espinha. Estremeceu. contra a sua prpria vontade.
Com grande esforo, Durwin afastou os olhos da fogueira, e virou para 
Quentin a sua expresso horrorizada. Tinha as carnes do rosto plidas do 
esforo realizado, e o branco dos seus olhos tomara-se enorme.
- Tambm os sentiste, no foi ... ? Eles vm a... A Legio dos Mortos. 
Vm a...
Quentin sentiu o corao a agitar-se-lhe no peito. Mirou a Lua suspensa 
sobre a copa das rvores como um fruto maduro, que lanava sobre eles uma 
luz fria e desconfortvel. Tinha a sensao de se ter encolhido para 
dentro dele mesmo ou de estar a ser apertado por uma qualquer mo 
invisvel. Voltou a estremecer. Durwin, com um rosto assustador sob a luz 
vermelha, ps-se de p, de repente, pegou num comprido ramo quase 
direito, que se parecia com o basto de um feiticeiro. e gritou:

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- Rei Selric! - A voz trovejou na tranquilidade da escurido. Avanou 
para a tenda. chamando por Selric e pelos outros, para os acordar. - 
Envie o seu melhor cavaleiro para o sul, para Hinsenby - disse para 
Selric. que saiu a cambalear da tenda, meio a dormir.
- Que se passa? - A pergunta foi feita por todos os que se reuniram 
instantaneamente  volta do eremita.
- Que foi que viste? - inquiriu Theido.
- A Legio dos Mortos. Manda o teu correio mais rpido para a costa. 
Talvez encontre as tropas de Eskevar, que esto de regresso a casa.  a 
nossa nica possibilidade.
- A ajuda seria bem-vinda, em qualquer dos casos - disse Selric. - Mas 
esta...
- No tenho medo da legio dos malditos de Nimrood - declarou Ronsard com 
uma praga.
-  porque no sabes como ela ... - retorquiu Durwin, sacudindo a cabea 
devagar. - Os seus membros so terrveis. So os melhores cavaleiros do 
nosso tempo, que servem Nimrood depois de mortos. So imortais. No podem 
ser mortos em combate por lminas ou por raios. Lutam sem nunca se 
cansarem. pois esto fortalecidos pelos poderes do seu senhor da 
escurido.
- Ento, se so assim, que interessa o nmero dos nossos homens? Se 
fssemos dez vezes mais do que somos. poderamos derrot-los? Selric 
suspirou, desanimado.
- Com ajuda, poderemos obter alguma vantagem. Sem ela, nem sequer teremos 
tempo para tentar - respondeu Ronsard.
- Enviarei Kellaris - afirmou Selric. - Chamem-no! - ordenou para um dos 
homens. Depois virou-se para outro: - Preparem um cavalo. O mais rpido. 
O melhor  darem-lhe o meu. - O homem afastou-se  pressa e Selric virou-
se para os companheiros. - Esto de acordo com a escolha?
- Eu posso ir... - ofereceu-se Ronsard.
- O mais provvel  que nos faas mais falta aqui.
- Mesmo que o cavalo tivesse asas, duvido que fosse suficientemente 
rpido. - Quanto tempo pensas que iro ainda permanecer acampados na 
plancie? - Virou-se para Durwin, que franziu a testa, meditando.
- No o posso dizer ao certo. Um dia... ou talvez um pouco mais. Sinto 
que se aproximam, mas muito longe. Ainda nos resta algum tempo.

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- Ento. amanh de madrugada, Ronsard e eu iremos estudar as posies do 
inimigo - declarou Theido. - Talvez possamos encontrar um ponto fraco nas 
suas defesas, que nos d alguma vantagem.
- Sim,  uma excelente ideia. - Os cascos impacientes de um cavalo e o 
tilintar dos arreios interromperam Selric. - Ah, aqui est Kellaris! Vai 
com o vento. meu bravo cavaleiro. e volta com boas novas!
- Preferiria ficar aqui convosco, meu senhor - replicou o cavaleiro.
- E eu no escolheria outro para permanecer a meu lado, mas a necessidade 
 grande. A caminho e no falhes!
Kellaris levantou a mo numa saudao, virou o cavalo e desapareceu na 
escurido. Quentin imaginou, durante muito tempo, que conseguia ouvir os 
cascos do animal a martelarem na noite. Os outros dispersaram, cada um 
para seu lado. Quentin colocou-se ao lado de Durwin, que regressava para 
junto da fogueira.
- O que  a Legio dos Mortos? - perguntou, quando se viram sentados 
junto das chamas. - Nunca tinha ouvido falar nela.
- Seria melhor se nunca ningum tivesse ouvido falar nela. - Durwin 
suspirou. Estava exausto. Lambeu os lbios, como se se preparasse para 
morder um qualquer fruto cido. - A feitiaria de Nimrood no conhece 
limites. Tem coragem para tudo e nada lhe mete medo. Onde os outros 
vacilam, Nimrood avana. Viu o rosto do Mal quando era ainda jovem. 
Mergulhou no prprio corao do Mal e agarrou-o com ambas as mos.
"H muito que essa  a sua especialidade: lanar encantamentos sobre os 
mortos. Com essa arte, reuniu os melhores guerreiros, os mais corajosos 
cavaleiros que o mundo jamais viu. Sempre que um deles caa em combate, 
Nimrood. tinha disso conhecimento, no sei como, e levava o corpo para o 
seu castelo.  a que os mantm, sempre prontos, preservados na morte 
para o servirem de acordo com a sua vontade.
"So seis ou sete. Talvez agora j sejam mais, no sei. j h muitos anos 
que no ouvia falar nisso. mas antes, de tempos a tempos, ouvia coisas. 
Nunca tive coragem nem para imaginar que tal fosse possvel, mesmo para 
Nimrood. No entanto, quando estive nas masmorras do seu castelo, senti a 
presena desses homens. Foi ento que soube... - Durwin, calou-se, a 
olhar para o fogo. encolhendo-se, como que a querer esconder-se de uma 
recordao demasiado terrvel para ser contemplada.
- Mas no disseste nada...

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- Pois no. no disse. Selric. Theido e os outros j sabiam,  claro. No 
havia necessidade de preocupar mais gente. Alm disso. tinha a esperana 
de que Nimrood os reservasse para qualquer outro fim. Tenho de admitir 
que fui estpido...
- E no h nada que se possa fazer contra eles?
- Se h. no conheo ... exceptuando a morte de Nimrood. Se este morrer, 
 natural que esses ... mortos fiquem livres. O poder de Nimrood  que os 
mantm presos a este mundo. Porm. como tu prprio viste. o inimigo tem a 
fora de dez mil homens. Com tais nmeros, Nimrood est mais seguro. Se 
ainda tivesse os meus poderes... - Durwin olhava teimosamente para o 
fogo. Quentin via a impotncia estampada no rosto do eremita.
Durwin agitou-se e levantou-se devagar, lanando um sorriso para Quentin.
- Vou ficar de viglia toda a noite. Pode ser que descubra qualquer 
coisa... - bateu na cabea desgrenhada - que nos possa ser til. Boa-
noite. Quentin.
- Boa-noite. - Quentin queria aproximar-se de Durwin, passar os braos em 
volta dos joelhos do eremita, chorar com ele, reconfortar e ser 
reconfortado. Todavia, permaneceu junto da fogueira. e Durwin afastou-se, 
j imerso em pensamentos.
A solido desceu sobre o jovem sentado em frente das chamas. Quando 
finalmente se levantou para se ir deitar, sentiu-se mais sozinho do que 
alguma vez se sentira em toda a sua vida.

CAPTULO XLVI

Quando Quentin acordou, o Sol no passava de um enevoado globo vermelho 
que espreitava por cima das colinas mais distantes. Deixou-se ficar 
deitado a escutar o comeo de um novo dia: o grito de uma ave solitria a 
chamar o companheiro, o ressoar e tilintar de panelas de ferro nas mos 
dos cozinheiros, o sussurro das caudas dos cavalos a agitarem-se, e o seu 
suave resfolegar e respirar.
Permaneceu deitado e  escuta, em busca de um som que no sabia qual era. 
procurando uma resposta para o significado dos seus sonhos.
Sonhara durante toda a noite. Tivera a viso estranha e desconexa que j 
tivera antes. mas desta vez fora mais clara, mais distinta. No entanto, 
ainda estava muito longe de uma resposta para o enigma representado por 
essa viso.
Via-a principalmente como um jogo de cores: brilhantes verdes, com todos 
os tons possveis, misturados com dourados resplandecentes. Brancos 
frios, marcados por manchas de um cinzento-esverdeado. Sombras de um azul 
prateado que se tornavam num negro retinto. As cores agitavam-se e 
misturavam-se, giravam, fundiam-se umas com as outras, e terminavam 
sempre na mais profunda das escurides.
Durante todo esse tempo, escutava uma espcie de msica, um tilintar 
muito agudo. Seria um sino? Talvez, mas no tinha a certeza. Por debaixo 
daquele som havia qualquer coisa de vago e inquietante. No tinha a 
coragem de ir demasiado longe,  procura da sua origem, com medo do que 
l pudesse vir a encontrar.
O sonho era tambm acompanhado por uma grande saudade, por

352

uma maravilhosa solido e por uma violenta ansiedade. Era uma emoo que, 
quando acordava. o deixava sempre com vazio no peito.
Depois de alguns minutos, levantou-se e foi lavar-se ao rio. A mordedura 
da gua gelada despertou-o mais depressa. levando-o a esquecer 
gradualmente o sonho. apesar de continuar com a sensao de vazio.
Enquanto Quentin mergulhava as mos em taa nas guas claras, lanando-a 
sobre o pescoo e braos. ouviu uma agitao no acampamento atrs dele. 
Saltou, a pingar gua, da rocha plana em que se instalara, e apressou-se 
ao longo do trilho.
Chegou ao acampamento no momento em que um grande grupo se reunia em 
volta de um cavaleiro e de um cavalo que espumava. No conseguia ver quem 
era o cavaleiro rodeado pela multido. mas depois avistou Toli, que se 
afastava apressadamente do amontoado de gente.
- Quem , Toli? Quais so as novidades?
O amigo fitou-o com um olhar preocupado e respondeu:
 Kellaris, o mensageiro de Selric. Acabou de regressar...
Mas como?  impossvel estar de volta to depressa...
No conseguiu passar - disse uma voz por detrs dele. Quentin virou-se e 
viu Trenn a separar-se da multido - Jaspin, est a colocar foras  
nossa volta. Depararam-se a Kellaris durante a noite e foi perseguido. 
No h sada, estamos cercados.
Aos ouvidos de Quentin. aquelas palavras soavam a uma condenao. Trenn 
afastou-se para ir informar a rainha Alinea. Quentin virou-se de novo 
para Toli, que se limitou a devolver-lhe o olhar com os seus profundos 
olhos negros. O que o Jher pensava no se reflectia, tanto quanto Quentin 
conseguisse ver. nas expresses do seu rosto.
Ia sugerir que fossem  procura do pequeno-almoo quando se recordou de 
qualquer coisa que o fez parar de repente.
- Theido e Ronsard? Onde esto? - perguntou.
- Ora. foram examinar a disposio do inimigo - respondeu Toli, 
pestanejando. - Partiram antes da madrugada, com cinco cavaleiros. 
Seguiram para sul, ao longo do rio.
- Foi precisamente da que Kellaris regressou! - exclamou Quentin, com um 
tom de alarme na voz. - Podem cair numa emboscada e serem mortos! Algum 
tem de os avisar! Depressa. preparar o Balder!
Toli comeou por hesitar, como se tivesse objeces s ordens do amo. 
Abriu a boca. voltou a fech-la, virou-se e correu, logo seguido por 
Quentin,

353

Balder ficou pronto num abrir e fechar de olhos. Quando Quentin saltou 
para a sela do seu poderoso corcel, viu Toli a montar, com ligeireza, no 
dorso nu do seu prprio cavalo.
- Est bem. vem da! - gritou. - Vamos juntos.
Trotaram atravs do acampamento, para l do crculo de tendas. Durwin e 
Selric estavam em conferncia com Kellaris, e Quentin gritou-lhes 
enquanto esporeava o cavalo:
- Vamos avisar Theido e Ronsard!
- No! Esperem! - exclamou Durwin.
- Voltem aqui! Faam-nos parar! - ordenou o rei Selric.
Todavia, os dois jovens cavalgavam j no meio da floresta e desapareceram 
das vistas.
- Que o deus os acompanhe - suspirou Durwin.

Toli indicou o caminho. seguindo a pista do grupo de batedores com os 
perspicazes olhos de habitante das florestas. Cavalgaram, ou pelo menos 
assim lhes pareceu, durante horas. A excitao inicial transformou-se 
numa abafada sensao de urgncia. Quentin receava que viesse a ser 
demasiado tarde se no os encontrassem rapidamente.
O sol ia alto e lanava uma luminosidade brilhante sobre a floresta, 
dando origem a faixas amareladas no nevoeiro que cobria o cho e que ia 
desaparecendo  medida que era tocado pela luz. A floresta cheirava a 
terra hmida e a coisas a crescer. Havia hortel-pimenta algures, perto 
do trilho. o seu cheiro perfumava o ar.
Ento, ouviram sons na frente deles: cavalos que se deslocavam por entre 
o mato, o tilintar de arreios e os suaves estalidos do couro. Quando Toli 
puxou as rdeas para deter o seu cavalo preto e branco, chegou-lhes o som 
de um cavaleiro a conversar com um companheiro, em tons baixos. Quentin 
deteve-se ao lado de Toli.
- Achas que os encontrmos? - inquiriu, esperanado.
- Temos de procurar um lugar de onde os possamos ver sem que nos vejam - 
respondeu Toli. de testa franzida. Penetraram na floresta e detiveram-se 
num ponto onde o trilho teria de passar novamente na frente deles. 
Aguardaram. O grupo desconhecido encontrava-se mais perto. Quentin ouvia 
as vozes mas no conseguia distinguir as palavras.
Toli desceu da montada e deslizou at  beira do trilho. Os cavaleiros 
apareceram  vista. Quentin podia ver uma mancha branca a

354

mover-se por entre as rvores, logo seguida por outra, e por mais outra. 
Quando se aproximaram mais, deixou de as ver. As rvores que o protegiam 
tapavam-lhe a viso.
Em silncio, incitou Balder a avanar uns passos. As folhas escuras 
escondiam-lhe o rosto. Toli apareceu a seu lado.
Os cavaleiros, num total de quatro, tinham-se detido numa pequena 
clareira existente no trilho. Pareciam procurar qualquer coisa. Um deles 
ajoelhara-se sobre o trilho enquanto os outros estudavam as rvores que 
os rodeavam, como se estivessem em busca de um sinal.
- O inimigo - sussurrou Toli.
Tinha-se-lhes deparado um grupo de homens de Jaspin que estavam 
obviamente  procura de algum.
- Andam atrs de Theido e dos outros - respondeu Quentin. Anda, talvez os 
consigamos apanhar antes desses caadores.
Virou Balder e afastou-se do esconderijo ao p do trilho. Seguiram por 
entre as rvores durante algum tempo, mas depois voltaram para o trilho 
quando os soldados inimigos se encontravam j bastante para trs. Pouco 
depois de terem regressado ao trilho e seguido por ele apenas por 
instantes, voltaram a ouvir o som de cavalos e homens.
- Deve ser Theido! - declarou Quentin, com um sorriso no rosto.
Esporeou Balder e atingiu uma curva do caminho, bordejada por rvores. De 
sbito, encontrou-se frente a frente com cinco cavaleiros desconhecidos 
que avanavam directamente para eles. Quentn ficou imobilizado. Toli fez 
virar a montada e puxou pelo brao de Quentin. Inicialmente, os 
cavaleiros pareceram no dar pela presena dos dois jovens. Avanavam a 
passo, conversando entre si, com os olhos postos no trilho.
Todavia, no preciso instante em que Quentin virava Balder para fora do 
caminho, um dos homens levantou os olhos. Quentin fitou-os e viu, por um 
breve instante, a surpresa que exprimiam.
- Olhem! - gritou o cavaleiro inimigo para os companheiros.
Porm, Quentin, seguindo Toli, j se afastava a toda a pressa.
Ouviu-se novo grito:
- So espies!
- Apanhem-nos! No os podemos deixar escapar! - exclamou uma outra voz.
Toli no passava de uma mancha a cavalgar na sua frente quando

355

Quentin esporeou o cavalo. Balder baixou a cabea e saltou para fora do 
trilho. Quentn desviou-se dos ramos que o fustigavam e tentavam derrub-
lo da montada. permanecendo muito baixo na sela, quase deitado sobre as 
espduas do animal.
Atrs dele ouvia o som dos perseguidores abrindo caminho no emaranhado da 
floresta. No tranquilo ar da manh, as suas vozes soavam fortes e claras. 
Toli lanava repetidas olhadelas por cima dos ombros, para se certificar 
de que Quentin o seguia. Os cascos de Balder, calados a ferro, lanavam 
ao ar bocados do macio solo de turfa. os ramos embatiam nas pernas de 
Quentin, arranhando-as, mas no os sentia.
Continuaram a cavalgada. fugindo  frente dos perseguidores, voando sobre 
troncos cados e desviando-se dos ramos mais baixos.
Quentin ouviu um estalo atrs dele. o relinchar agudo de um cavalo e uma 
praga. Um dos cavaleiros fora deitado abaixo por um ramo. Ouviu-se um 
grito quando um segundo cavaleiro tentou evitar atirar-se para cima do 
que se encontrava no cho. Quentin virou um pouco a cabea e viu um 
cavalo a pr-se de p e um cavaleiro a rolar sobre as ervas. Sorriu para 
si mesmo, satisfeito.
Todavia, quando olhou novamente para a frente, Toli j no se encontrava 
 vista.
Puxou as rdeas de Balder com tanta fora que o animal estacou de 
repente, quase atirando Quentin para a frente, por cima da sua cabea. 
Escutou por instantes, mas no conseguiu ouvir nada. Todavia, logo a 
seguir. chegou-lhe o rudo de arbustos a serem afastados e o som oco dos 
cascos da montada de Toli, que se precipitavam por entre as rvores,  
sua frente, mas para a esquerda. Toli desviara-se para outro trilho.
Quentn inclinou-se e puxou as rdeas para o lado. Bauder recuou, 
equilibrando-se. relinchou e saltou. Vindo de algures, Quentin ouviu um 
silvo que cortava o ar e sentiu uma dor aguda numa perna. Balder soltou 
um berro de dor e lanou-se em frente.
O jovem virou-se na direco do som e viu um dos cavaleiros a baixar uma 
besta, preparando-se para a carregar e disparar mais uma vez. Lanou uma 
olhadela  perna e avistou a ponta do dardo a sobressair da perna. 
Atravessara-lhe a barriga da perna e espetara-se nos espessos msculos 
das espduas de Balder. Quentin estava literalmente pregado ao cavalo.

356

Balder. incitado pela dor. e sem receber ordens directas de Quentin, 
correu na direco oposta  seguida por Toli. Quentin fechou os
olhos com fora quando sentiu a dor a explodir-lhe no crebro no meio
de um ardente claro vermelho. Balder prosseguiu com a corrida, com a 
crina e cauda a flutuarem atrs dele, e com o cavaleiro a lutar para se 
manter na sela. O grande corcel escolhia o seu prprio caminho e lanou-
se ao longo de um trilho a descer e muito ngreme.
Aos olhos de Quentin. a floresta comeava a transformar-se numa mancha. O 
brilhante cu azul, o Sol dourado, a terra verde-escura e os tons dos 
troncos fundiam-se uns com os outros. Ouvia atrs de si os gritos dos 
cavaleiros que incitavam as suas montadas, mas os sons foram diminuindo e 
tornaram-se abafados enquanto Balder. galopando livremente, se 
distanciava dos perseguidores.
O trilho descreveu uma curva e tornou-se plano. Quentin pensou que devia 
encontrar-se de novo muito perto do rio, mas no sabia em que direco 
iam. Na sua frente surgiu um pequeno ribeiro. Ouviu-o, mais do que o viu, 
quando Balder o atravessou e galopou pela margem do outro lado.
O cavalo continuou o seu galope pelo trilho. Com os olhos meio enevoados 
de dor. Quentin reparou que a floresta se tornava mais profunda. mais 
escura e densa. Voavam em direco ao centro de Pelgrin. Quentin 
reconheceu os velhos e venerveis carvalhos que estendiam os ramos por 
cima dele. A luz ganhava um tom verde ao passar a cobertura de folhas 
vivas sobre a sua cabea.
Ento, sem qualquer aviso e mesmo na frente, uma muralha de terra 
sobressaiu do cho da floresta como se fosse um grande muro coberto por 
espessa vegetao entrelaada. No havia tempo para parar. Quentin 
atirou-se para a frente e segurou as rdeas nas mos, rangendo os dentes 
de dor.
Leve como um veado, Balder ergueu-se no ar e saltou por cima daquela 
muralha, mal tocando nos arbustos com a barriga. O animal recuperou do 
salto com graciosidade, deslizando pelo outro lado do muro de terra, na 
direco de uma grande depresso circular, uma vasta taa oca escavada no 
meio da floresta. S a se deteve.
Quentin deu folga s rdeas, girou sobre a sela e. com esforo. segurou o 
dardo que tinha espetado na perna.
Puxou com fora e sentiu o dardo a ceder. -Mais um puxo e o

357

dardo soltou-se. Quentin endireitou-se, mas antes de conseguir ver onde 
se encontravam comearam a formar-se manchas escuras e informes em frente 
dos olhos. De sbito, sentiu-se tonto. No conseguia respirar. ofegou. 
escorregou na sela e caiu para o cho.
Viu os olhos escuros de Balder a fitarem-no com uma mirada lquida e 
calma. O cu comeou a andar  roda e sobreveio a escurido.

360

- Jaspin est a reforar as suas foras a toda a nossa volta.
Selric recebeu a informao com uma calma aceitao.
- Compreendo... - disse.
- Pois ! - exclamou Durwin. - j sabamos disso.
- Como?! - admirou-se Theido.
- Kellaris regressou um pouco antes da madrugada - explicou Selric numa 
voz uniforme. - No conseguiu passar. As tuas palavras confirmam as dele. 
- Apontou para os mapas. - Tenho estado a estudar estas cartas para ver 
se haver algum factor que possamos explorar. - Suspirou, desencorajado. 
- No descobri nenhum.
- Que ir acontecer? - perguntou Alinea, com uma voz que, apesar de 
firme. denotava um sinal de angstia.
- Vamos lutar - declarou Theido com simplicidade. - Querem destruir-nos. 
Quanto a isso no h dvidas. Jaspin no ter merc. Nem sequer nos 
deixou a possibilidade de uma retirada honrosa.
- Pretende acabar connosco aqui onde estamos - disse Ronsard, furioso.
- Quando? - perguntou Alinea.
- Isso no o podemos dizer - replicou Theido. - O inimigo ainda est a 
reforar posies. Pode atacar a qualquer momento.
- A Legio dos -Mortos, de Nimrood, ainda no chegou - interveio Durwin. 
-  disso que esto a espera.
- Pus os homens a escavarem um fosso logo  frente das rvores. Pode ser 
que tenhamos tempo de o terminar. Sempre nos dar alguma proteco - 
declarou Selric. - Temos de manter a retaguarda protegida. para podermos 
retirar para os navios quando chegar o momento.
-  preciso comear a falar de retirada? - inquiriu Ronsard.
- Preferia morrer a bater em retirada.
- Sim,  claro, mas estava a pensar na rainha. - Fitou os olhos negros da 
rainha, que lanaram chispas de desafio. - Lamento, senhora...
- Lutarei ao lado dos meus companheiros, e morrerei com eles se for 
necessrio. No fugirei. Se o meu rei j no est vivo, para que me serve 
a coroa? Sem rei no sou rainha e no h reino. Lutarei!
Os corajosos companheiros olharam uns para os outros, naquele crculo 
apertado, jurando, em silncio, dedicarem as suas vidas  causa.
- Ento, est decidido - disse Theido baixinho.

361

-Nesse momento ouviu-se um grito e apareceu um mensageiro a correr. O rei 
Selric saiu da tenda para o receber.
- O inimigo aproxima-se, senhor! Avanam para aqui e esto a meia lgua 
de distncia!
- s armas! s armas! - gritou Selric. que a seguir chamou o trombeteiro. 
- Toca o alarme! Chama os homens as armas!
Instantes depois toda a cena era uma confuso de aos rebrilhantes e de 
vozes que gritavam. enquanto os homens do rei pegavam nas espadas e nos 
escudos, e os cavaleiros envergavam as armaduras.
- Renam os cavaleiros na minha presena! - gritou Theido por cima do 
tumulto. - Tenho um plano que nos pode fazer ganhar algum tempo! - Ele 
prprio envergara a armadura num abrir e fechar de olhos e encontrava-se 
em frente da tenda real. com o escudo suspenso de um ombro e a espada bem 
erguida no ar.
Toda aquela furiosa actividade comeou a abrandar poucos minutos depois. 
Os soldados alinharam-se por detrs da muralha de terra que tinham 
construido naquela manh, reforada com troncos afiados. Os cavaleiros, 
num total de sessenta, sob o comando de Ronsard e Theido, formaram dois 
grupos que iriam tomar posies  direita e  esquerda quando o inimigo 
se aproximasse do campo de batalha. O plano de Theido era o de fazer com 
que aquelas duas foras mveis se cruzassem. para um lado e para o outro, 
como uma tesoura, castigando o inimigo e enfraquecendo-lhe o ataque antes 
de poder atingir a infantaria abrigada atrs do fosso.
O rei Seiric comandava a infantaria, com Trenn a guardar a rainha, apesar 
de todos os seus protestos. Por sua parte. esta parecia calma e corajosa. 
armada com uma fina espada e um pequeno escudo, mais apropriados para o 
seu brao do que as pesadas armas dos cavaleiros. Usava um colete de cota 
de malha chapeada e um capacete com viseira, tal como todos os homens de 
armas.
Aguardaram.
 distncia podiam ser ouvidos os trombeteiros do rei Jaspin, dando sinal 
para a convergncia das foras. A poeira levantada pelos cascos dos 
cavalos e pelos ps dos homens erguia-se para o cu do meio-dia. Os 
soldados que aguardavam o embate no tinham dificuldade em ver os 
brilhantes estandartes no alto dos compridos paus, os pendes a flutuarem 
nas lanas dos cavaleiros, o longnquo brilho ocasional

362

de uma espada a ser desembainhada, o Sol a reflectir-se na viseira de um 
cimo.

Estavam mais perto. O vento levava-lhes o firme martelar dos tambores e o 
rumorejar de cinco mil soldados a marcharem como se fossem um nico. O 
Sol escurecia, encoberto pela nuvem de p levantada por todos aqueles 
homens. As aves devoradoras de corpos pairavam no ar, preparando-se para 
o festim.
Trenn virou o espesso pescoo, farejando o vento.
- Mais um problema - murmurou para o rei Selric. - Bem me parecia que me 
cheirava a qualquer coisa. Olhem para ali! Por cima deles erguiam-se os 
primeiros farrapos de fumo. Seiric confirmou com um rpido aceno.
- Esto a queimar a floresta por detrs de ns. - Segurou o punho da 
espada com mais fora. - Pois que seja!
- Onde est Durwin? - perguntou a rainha, olhando em volta.
- No o vejo.
- Vi-o dirigir-se para as tendas. Neste momento tambm no o vejo, mas se 
bem o conheo deve estar a preparar algum dos seus truques - respondeu 
Trenn.
O ritmo dos tambores acelerou-se. Ouvu-se um grande grito na plancie.
- A vem! - exclamou Selric. fazendo um floreado com a espada, por cima 
da cabea ruiva e crespa. - Pela honra! Pela glria! Pelo rei e pelo 
reino! - Os soldados repetiram aquele grito de batalha.
A frente inimiga, que avanava rapidamente, era formada por cavaleiros 
dispostos em cunha  frente do grande grupo de homens a p. que os 
seguiam a correr. O resto dos exrcitos deteve-se. esperando o momento em 
que teriam de entrar na contenda. Quando a cunha formada pelos cavaleiros 
se lanou sobre as tropas que os aguardavam, de cada lado destes soou um 
forte grito na floresta. Theido, Ronsard e os seus cavaleiros 
precipitaram-se para a frente e apanharam os atacantes em plena corrida. 
Surgiram dos dois lados ao mesmo tempo. Os cavaleiros que avanavam no 
tiveram tempo de se virarem para os enfrentar de uma maneira organizada, 
A carga perdeu o mpeto e desfez-se no meio da confuso. Caram alguns 
cavalos, rolando por cima dos cavaleiros que envergavam as pesadas 
armaduras.

363

Theido e Ronsard cobriram o espao entre eles e lanaram-se ao ataque. 
Instantaneamente, o ar encheu-se do ressoar das espadas e dos gritos dos 
moribundos.
A infantaria atacante, ao ver a sua frente protectora contida, deteve-se 
e recuou. Theido lanou as suas foras contra ela. enquanto Ronsard 
batalhava com os cavaleiros de Jaspin. Foram muitos os que caram na 
poeira para no mais se levantarem. Os guerreiros de Jaspin cederam ante 
a fria dos cavaleiros de Ronsard e bateram em retirada, deixando metade 
dos seus elementos cados no campo de batalha.
Theido e Ronsard ordenaram o fim do ataque e retiraram de volta ao fosso, 
sob as aclamaes dos soldados que a os aguardavam.
- Viste-os? - perguntou Selric, ansioso.
- No, a Legio dos Mortos no se encontrava entre eles - respondeu 
Theido.
- Ento, onde estaro?
- Provavelmente  espera, para ver como nos comportamos no campo de 
batalha - disse Ronsard, levantando a viseira. - Desta vez conseguimos 
surpreend-los. Para a prxima podemos no ter tanta sorte. No entanto, 
conheo um truque que aprendi em Gorr. - -Mergulharam numa rpida 
discusso e. a seguir, os cavaleiros voltaram a montar.
- Recordem-se... - gritou Theido - de dizerem aos homens para estarem 
atentos  Legio. Mantenham-se fora do seu alcance. Fujam-lhes da frente 
e ataquem-nos pelas costas. Penso que os soldados tentaro us-los como 
proteco. vindo logo atrs.
Theido e os seus dispuseram-se por detrs dos cavaleiros de Ronsard, com 
um dos grupos a formar uma muralha em frente do outro. A seguir 
esperaram.
O segundo ataque no levou muito tempo a surgir. Dois grupos de 
cavaleiros lanaram-se a carga, prevendo serem atacados dos dois lados. 
como anteriormente. Em vez disso deparou-se-lhes uma muralha de corpos 
couraados aguardando-os com placidez. Os soldados de infantaria 
avanaram tambm, atrs dos seus cavaleiros.
Logo que os cavaleiros inimigos, lanados a galope. se aperceberam que 
no seriam atacados pelos flancos, mudaram de direco para irem ao 
encontro dos homens de Ronsard. Era esse o momento aguardado por Ronsard. 
Ordenou a carga e desviou-se para a esquerda, logo

364

seguido por Theido, que a seguir se desviou para a direita no ltimo 
instante.
Os cavalos a galope foram mais uma vez lanados na confuso, levando os 
seus cavaleiros directamente para o fosso e para os troncos aguados que 
surgiam de repente na frente deles, como espetos. A, os homens do rei 
Selric acabavam com os que restassem.
Theido e Ronsard caram de novo sobre a infantaria, que puniram com 
severidade. As tropas de Jaspin cederam e comearam a recuar ante a fria 
daquelas espadas esfomeadas por sangue.
- Fizemo-los recuar por duas vezes! - exclamou Ronsard. radiante, quando 
se juntou ao rei. - Que truque vamos utilizar para os contermos da 
prxima vez?
- Sei de um - afirmou Theido, a quem as duas surtidas quase nem tinham 
alterado a sua respirao. - Pode resultar, se no mandarem muita gente 
contra ns.
A carga do inimigo voltou a dar-se, e mais uma vez o pequeno grupo obteve 
xito e conseguiu vantagem sobre as foras superiores de Jaspin e dos 
seus nobres. Quando estes retiraram, o campo de batalha estava repleto de 
corpos de homens e animais cados. Por debaixo deles, o solo estava 
manchado de escuro com o seu sangue.
Jaspin encontrava-se instalado no seu trono de viagem, numa tenda de 
cendal azul. erguida sobre uma alta plataforma construda por cima do 
campo, para ter uma boa viso da batalha. Gaguejava de raiva.
- Sir Bran! Sir Grenett! - gritou Jaspin, com o rosto negro de ira. - 
Lord Owen! Lord Enmore! - Os cavaleiros e nobres. sujos de suor e p, com 
as armaduras ostentando profundas amolgadelas e manchas vermelhas, 
aproximaram-se do pavilho montados nos seus cavalos.
Jaspin saltou do trono e apontou um dedo tremente aos rostos dos homens.
- Idiotas! - guinchou. - Esto a brincar convosco. Abatam-nos! Esmaguem-
nos!
-  mais fcil esmagar uma pedra do que um rio - respondeu Sir Bran -, 
tal como  mais fcil abater a rvore do que a sua sombra.
- No se detm para combater - queixou-se Sir Grenett. - Desaparecem 
antes da carga e depois surgem no meio de ns. Fazem com que os nossos 
soldados, inseguros e mal treinados. se ataquem uns aos outros!

365

- Faam qualquer coisa! Nimrood vai chegar em breve! Esperava poder 
vencer esta campanha sem a sua ajuda!
-  demasiado tarde - murmurou Ontescue por detrs de Jaspin. - Aquele de 
quem falais j c est.
Jaspin virou-se e viu a figura negra de Nimrood a contornar a esquina do 
seu pavilho. O necromante montava um cavalo negro que parecia meio 
selvagem e escarvava o cho, relinchando. O feiticeiro usava um capacete 
negro encimado por uma coroa ornamentada com asas puxadas para trs, de 
cada lado, e uma longa capa preta debruada a prata. Na mo trazia uma 
vara de mrmore negro com estranhos padres contorcidos, desenhados a 
embutidos de prata.
- Nimrood! - exclamou Jaspin, com a respirao a provocar-lhe rudos na 
garganta. - Estvamos  tua espera.
- Ah, sim? Estou a ver todos aqueles mortos amontoados no campo... devem 
ter morrido de aborrecimento, sem dvida.
- Os patifes atacaram-nos sem aviso. Tivemos de retaliar. No havia outra 
soluo - gaguejou Jaspin.
- Pelo aspecto do campo, diria que tiveram um notvel golpe de sorte - 
troou o feiticeiro. - Mil homens atacando dez mil e fazendo-os fugir! 
Ah! - Rgido, Nimrood virou-se na sela e cuspiu ordens para os cavaleiros 
e nobres reunidos em frente da tenda.
- Regressem imediatamente para junto dos vossos homens. Despertem-lhes a 
coragem, reanimem-lhes os espritos. e esperem. Quando regressar. trarei 
a minha Legio, que vos ir mostrar como se luta.
ora. vou buscar o meu comandante.
- Est aqui? - Jaspin ofegou e afundou-se no trono, sem foras
a tremer.
- Muito perto - silvou Nimrood. - Voltarei dentro de pouco
tempo. e entretanto no faam mais asneiras. A batalha est a durar 
muito... e j devia ter acabado h muito tempo. No faz mal. Iro todos 
ver um espectculo de que nunca mais se esquecero.
Com aquelas palavras, Nimrood esporeou o agitado corcel e galopou atravs 
da plancie, em direco  floresta.
- Que legio  essa de que o mgico fala? - perguntou Bran.
- Por que motivo temos de esperar? Podemos acabar com eles
-a. a vitria  nossa!
Jaspin ps de parte a sugesto com um gesto da sua mo hmida.

366

Tinha o queixo cado e os olhos focados em qualquer ponto muito distante. 
Quando voltou a si, olhou em volta, confuso, e disse:
- Em breve ficaro a saber...
- Podemos acabar com eles desta vez! Tenho a certeza! - insistiu Bran.
- No! - gritou Jaspin, pondo-se de p num salto. Tinha baba a escorrer-
lhe dos lbios e parecia um touro enraivecido. -  tarde de mais!  tarde 
de mais! Esperamos! - Passou um leno pela cara e fez um gesto para 
Ontescue, para que este fechasse a cortina da tenda. Necessitava de 
privacidade e queria esperar sozinho.
- Oh! - exclamou, angustiado e com os soluos a sacudirem-lhe o corpo. - 
Que foi que fiz? Que foi que fiz!

CAPTULO XLVIII

Quentin escutava, de um ponto qualquer, muito longnquo, um ntido 
tilintar de campainhas com um som muito agudo e que parecia flutuar. por 
cima da sua cabea, como se fosse transportado pelo vento. Alm disso, 
havia um outro som, um murmrio baixo semelhante a uma gargalhada.
A luz danava por cima dele, conseguia pressentir-lhe os movimentos 
atravs das plpebras fechadas. Sentia-se quente e sonhador, e apercebeu-
se de que havia qualquer coisa a tocar-lhe na face e no pescoo.
Abriu os olhos.
Pelo mais breve dos instantes, pensou que estava de volta a Dekra, mas 
essa sensao desapareceu quase no instante em que surgiu. Por cima dele 
havia uma copa verde que filtrava o Sol e fazia a sua luz dourada danar 
numa mirade de padres diferentes. As campainhas que escutara no 
passavam de minsculas aves que chilreavam, saltitando de ramo para ramo 
do grande carvalho em cujas razes se encontrava deitado. Distrado, 
levou a mo ao rosto e sentiu-o hmido. A seguir virou-se e viu Balder a 
baixar a cabea para lhe dar nova focinhada.
- Pronto, rapaz, estou acordado! - murmurou Quentin.
Ergueu-se muito devagar, apoiando-se nos cotovelos. Alguns segundos 
depois as tonturas desapareceram e foram substitudas por uma dor 
constante e pulsante que se lhe espalhou pelo corpo todo, mas que parecia 
localizada na perna esquerda. Apalpou a perna, lembrando-se de repente 
dos motivos para estar deitado no cho a olhar para o tecto de folhagem 
que tinha por cima. A ferida deixara de sangrar e o sangue j estava 
seco. Quentin compreendeu que deveria ter estado nconsciente

368

bastante tempo. Levantou a mo, agarrou numa das tiras de couro da sela 
de Balder e ps-se de p. Com um pouco de esforo, descobriu que 
conseguia andar, com movimentos inicialmente rgidos e alguma dor.
Investigou o que o rodeava. Apesar de se encontrar num lugar 
completamente desconhecido, tinha qualquer coisa de familiar. Todavia, 
sabia que nunca o tinha visto antes. Estava, tanto quanto conseguia 
perceber, num dos lados de um gigantesco anel de terra. Os seus olhos 
seguiram a lisa muralha de terra. acompanhando-lhe o permetro at este 
desaparecer por detrs dos velhos carvalhos que ocupavam o centro do 
anel.
Por todo o lado, no interior do crculo, levantavam-se pedras brancas 
esculpidas. espessas placas to altas como Quentin, marcadas pela idade e 
cobertas de lquenes cinzentos e verdes. As pedras verticais lanavam 
sombras, com estranhos ngulos, sobre as ervas do centro, e algumas 
estavam inclinadas, num equilbrio precrio.
Os olhos de Quentin varreram a cena, e s ento notaram os misteriosos 
montes, que se pareciam com gigantescas colmeias cobertas de verdura. Em 
volta, o ambiente era pacfico e tranquilo, mas Quentin sentiu uma emoo 
semelhante ao medo e que lhe provocou um arrepio pela espinha. at  
nuca.
j ali estivera, no seu sonho.
Vira tudo aquilo, nos seus sonhos. no apenas uma vez, mas muitas. No 
entanto, a realidade tinha uma aparncia muito diferente do sonho, que 
era a outra face da moeda. Todavia, tratava-se sem dvida da mesma moeda. 
Tinha a certeza. A sensao interna, de recordao. dizia-lhe isso mesmo.
Mas... onde estava? E o que eram aquelas estranhas formas semelhantes a 
colmeias?
Toda a sensao de urgncia - que no entanto permanecia no fundo do seu 
crebro - se tornara secundria  luz das singulares sensaes que o 
percorriam como uma torrente de guas frias. Quentin ficou a olhar  sua 
volta. "O destino quis que eu viesse aqui", pensou em voz alta.
Deixando Balder a mordiscar as ervas na base do carvalho. Quentin 
arrastou-se para o centro do permetro. em direco ao fundo da taa. Era 
antiga, via-se bem. As faces estaladas das pedras verticais estavam

369

desgastadas, e as inscries quase haviam sido obliteradas pelo tempo e 
pelos elementos.
Quem quer que tivesse feito aquilo tinha vivido havia muito, muito tempo, 
talvez na era dos misteriosos construtores de montes. Ainda existiam 
vestgios desses povos, perdidos em cantos esquecidos da Terra. Espirais, 
colinas, anis, construidos em terra e com estranhas formas.
Ouviu um som borbulhante e o salpicar de gua a cair sobre pedras. 
Afastou um ramo frondoso e penetrou num recanto abrigado onde cantava uma 
fonte, lanando a sua gua para um pequeno lago, lmpido como uma jia. 
Quentin ajoelhou-se e meteu as mos em concha no lquido gelado. Bebeu e 
reparou nas pedras brancas colocadas em volta do permetro do lago. Por 
cima deste, no local onde a fonte despejava a sua gua, estava um nicho 
dedicado ao deus da Primavera. Via-se a uma esttua, em pedra esculpida, 
do deus a que os camponeses chamavam Pol. Outrora, teria feito uma 
libao em louvor do deus. Limitou-se a um aceno para a mirada fixa e 
perptua do dolo e continuou o seu caminho.
Dirigiu-se para o monte mais prximo e examinou-o com cuidado. Coberto de 
ervas, tinha duas vezes a sua altura, e era perfeitamente liso e 
simtrico de todos os lados.
Alguns dos montes, via-o agora, eram maiores do que os outros. Por outro 
lado, havia uns quantos que tinham a sua cpula ligeiramente achatada, ou 
afundada, como se tivessem abatido, como por vezes acontecia com os 
tmulos.
Tmulos! Conservou a palavra na ponta da lngua e deu-lhe voltas como se 
a pronunciasse pela primeira vez. Ento, tal como um Sol a afastar 
lentamente a escurido da noite, ficou a saber onde se encontrava. A 
Quentin deparara-se-lhe o Anel dos Reis, ou o Anel do Rei, como por vezes 
lhe chamavam nas histrias e baladas. Era o antigo lugar funerrio dos 
primeiros reis de Mensandor. Os construtores do imprio estavam ali 
sepultados e tinham os seus tmulos no interior do anel. Era um lugar 
muito sagrado.
Quentin parou e virou-se para regressar para junto de Balder, com grande 
esforo, por causa das dores. Tinha de se ir embora. Todavia, havia 
qualquer coisa que o mantinha amarrado quele lugar. Sacudiu de cima de 
si a inexplicvel relutncia e avanou, mas voltou novamente para trs 
aps ter dado quatro passos.

370

Surgiu-lhe um pensamento. Se queria voltar vivo para o acampamento, 
precisava de uma arma qualquer, ou pelo menos de um escudo. Os monarcas 
eram habitualmente sepultados com as suas armaduras e armas, equipados 
para as provaes que enfrentariam no outro mundo.
De certeza, pensou, no haveria mal em tirar uma espada ou escudo de um 
dos montes funerrios. Apesar de serem sagrados, e de ir provavelmente 
incomodar os espritos dos mortos - e Quentin no se preocupava muito com 
qualquer desses dois problemas - decidiu tentar encontrar uma arma.
O primeiro monte que examinou no tinha uma entrada visvel, tal como 
aconteceu com o segundo e o terceiro. Fossem quais fossem os meios de 
entrada nos montes, ou tinham sido cobertos pela verdura ou ento 
cuidadosamente disfarados.
Preparava-se para desistir e regressar ao cavalo quando viu um monte 
muito maior, situado no meio de todos os outros. -Muito bem. tentaria 
mais um. pensou. Coxeou na sua direco, deslocando-se por entre os 
fantasmagricos montes como um gigante a passar por montanhas 
arredondadas e verdejantes.
O monte que lhe chamara a ateno era diferente dos outros que j 
examinara. Era mais redondo e descrevendo um arco mais suave, como se 
fosse a curva de uma grande esfera enterrada no cho. Deu-lhe a volta e 
tropeou num pequeno arbusto na base do lado sombrio da cpula.
Caiu, mergulhando de cabea na turfa e batendo com a perna ferida no 
cho. Quentin contorceu-se de dor e sentiu algo duro a ceder por debaixo 
do corpo. Ouviu um estalido estranhamente abafado, como que de uma raiz a 
rebentar, e deslizou para a profunda escurido que. de repente, se abriu 
sob o seu corpo. Soltou um grito de surpresa quando aterrou em qualquer 
coisa dura. Tossiu e cuspiu no meio da terra que se abatia a sua volta, e 
limpou a poeira dos olhos enquanto pequenos calhaus tilintavam sobre o 
cho de pedra.
Quando a poeira assentou e Quentin se conseguiu recompor. verificou que a 
queda no fora grande, mas sim de menos de trs passos. A luz do Sol 
penetrava, inclinada, pela fenda que acabara de abrir, e iluminava uma 
pequena zona do pavimento em que se encontrava. Terminava numa aresta 
direita e depois era a escurido. Degraus. Descobrira a entrada, que 
algum tivera grande trabalho a ocultar. que dava acesso ao monte 
funerrio.

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Acalmando os nervos excitados, Quentin desceu com cuidado primeiro um 
degrau e depois um segundo. Os degraus eram muito ngremes e em breve se 
via mergulhado numa escurido total. excepto quanto  luz que passava 
pelo buraco que o seu corpo abrira. Ergueu as mos na frente do corpo e 
prosseguiu. As escadas terminavam aps mais alguns degraus, e Quentin, 
com os olhos a habituarem-se ao escuro, apercebeu-se da existncia de uma 
porta de pedra, que barrava a entrada para a cmara subterrnea. A porta, 
negra da idade,. estava esculpida com os complicados desenhos e as runas 
dos antigos. No entanto, pelos fragmentos e riscos, que ostentavam uma 
cor branca sob a pouca luz, via que algum se servira de ferramentas para 
abrir a porta do tmulo, e no havia ainda muito tempo.
Quentin pousou as mos na rocha fria e hmida e empurrou. 
Inesperadamente. a porta moveu-se com muito pouco esforo, guinchando e 
girando sobre dobradias invisveis.
Avanou para o tmulo.
O interior era frio e silencioso. Sob a fraca luz da porta aberta, 
Quentin avistou o brilho de vasos de prata e ouro empilhados ao longo das 
paredes. A poeira dos tempos era espessa sobre o cho, cobrindo os 
mosaicos coloridos que proclamavam, em exticas pinturas, os feitos do 
monarca falecido. A sua esquerda havia uma fileira de lanas com pontas 
de prata e de escudos de peles de urso, agora a desfazerem-se em p.  
direita encontrava-se uma sela, com uma cobertura de cavalo e uma 
testeira, suportadas por lanas cruzadas.
Quentin nunca chegou a descobrir que mais poderia encontrar-se naquela 
velha cmara funerria, isto porque os seus olhos descobriram a mesa que 
se encontrava no centro. Sobre ela, imvel e sereno como se estivesse 
mergulhado num sono profundo, jazia o rei Eskevar, com a sua forma 
banhada por uma fantstica luminescncia azul.
Apesar de Quentin nunca ter visto o seu monarca, sabia, no mais profundo 
do corao, que o encontrara. No podia ser mais ningum. O queixo 
barbudo estava atirado para cima, num desafio. A testa alta e lisa 
sugeria sabedoria. Os olhos profundos, fechados no repouso, falavam de 
carcter, enquanto a boca direita e firme demonstrava a realeza.
Quentin, entontecido por uma incredulidade maravilhada, aproximou-se 
lentamente da placa de pedra, como se estivesse a caminhar num sonho. A 
figura na sua frente, vestida com uma brilhante armadura,

372

com os braos cruzados por cima do peito imvel, era como uma imagem da 
prpria morte. No entanto... Quentin, sustendo a respirao. aproximou-se 
ainda mais. No ousava respirar. no fosse verificar-se que aquela viso 
era demasiado insubstancial.
Um passo, dois passos... e estaria l.
Tremendo, Quentin deu o primeiro passo. Mudou o peso para a outra perna, 
levantou o p e...
Houve qualquer coisa que se moveu atrs dele. Sentiu o ar a agitar-se, 
ouviu um sussurro metlico e avistou dois pontos de brilhante luz amarela 
que descreviam um arco pelo ar. Virou-se instintivamente para aparar o 
golpe, e foi derrubado.

CAPTULO XLIX

O campo de batalha tornara-se to tranquilo como os homens que nele 
tinham cado para sempre. O silncio rastejava por cima da plancie onde 
ainda se podiam escutar os ecos do tilintar do ao e dos gritos dos 
guerreiros. As aves devoradoras de cadveres pairavam l muito no alto, 
em busca de uma oportunidade para comearem o seu horrvel banquete, e os 
seus gritos quebravam o silncio que cobria agora a plancie de Askelon 
como uma mortalha.
Nos intervalos da batalha. os feridos haviam sido recolhidos do campo e 
levados para o rio. onde os cirurgies de Selric davam a ajuda e conforto 
possveis. Os que ainda estavam em condies de empunhar uma espada ou 
uma lana eram tratados. ligados, e regressavam ao fosso, para aguardarem 
o momento da prxima matana.
Durwin. de braos nus e com as vestes metidas por entre as pernas e 
presas sob o cinto, apressava-se por entre as macas, para ajudar. com 
palavras ou com os seus dotes de curandeiro, tantos quantos pudesse. Por 
onde quer que passasse as dores eram aliviadas e iniciava-se a cura. Os 
que no tinham hipteses de recuperao eram reconfortados. e a sua 
passagem para o outro mundo era facilitada pela luz da esperana 
incutida.
Enquanto se debruava sob a forma inconsciente de um soldado que jazia 
sobre as ervas da margem do rio, Durwin sentiu um puxo no cinto. Desviou 
os olhos do paciente e viu um jovem, suado e sujo de sangue, que o 
chamava.
- O que queres, rapaz? - perguntou o eremita.
- Est ali um cavaleiro que quer falar consigo, senhor - replicou o jovem 
mdico.

374

- Ento, leva-me at junto dele - disse Durwin. Os dois homens caminharam 
apressadamente por entre as fileiras de feridos que jaziam ao longo da 
margem.
- Senhor cavaleiro. aqui est o santo eremita. Trouxe-lho, tal como me 
pediu - disse o rapaz, debruando-se sobre a orelha do cavaleiro. Durwin, 
pensando que chegara demasiado tarde, pois assim indicavam todas as 
aparncias, ficou surpreendido ao ver que o cavaleiro acordava e o fitava 
com os seus claros olhos azuis.
- Dizem-me que tenho de morrer - murmurou o cavaleiro. um jovem que ainda 
no devia ter ultrapassado os vinte anos. - Qual  a vossa opinio?
Durwin debruou-se para examinar o ferimento, um feio corte irregular no 
flanco do jovem, no local onde um machado cortara a cota de malha. e 
empurrara fragmentos da mesma bem para o interior da ferida. Sacudiu a 
cabea lentamente.
- Sim,  verdade. O ferimento  mortal, meu bravo amigo. Como  que o 
posso ajudar?
-  o que receava - disse o cavaleiro, com uma voz que se tornava mais 
fraca. - Tenho estado a v-lo passar por entre os feridos. Vi-o confortar 
homens que gritavam de agonia e acalmar aqueles que j se encontram nas 
mos de Nlanes.
- Fao o que posso - respondeu Durwin baixinho.
- Ento dizei-me o que tenho de saber a respeito da morte, porque no sou 
uma pessoa religiosa. Consta que vos  possvel ver para l dela, senhor. 
Fazei-o por mim e contai-me o que vedes.
Durwin. apesar de j saber o que iria dizer ao jovem, baixou a cabea e 
fechou os olhos, enquanto pousava uma das mos sobre o corao do 
cavaleiro. Passado um instante, comeou a falar.
- Vejo que h dois caminhos que podem ser seguidos, um de escurido e um 
de luz. O caminho da escurido  de infelicidade. -No h paz a encontrar 
onde quer que seja que conduz, e os que por ele viajarem nunca 
encontraro descanso ou conforto para os sofrimentos da alma.  um 
caminho solitrio e amargo. O outro, o da luz, leva a uma magnfica 
cidade onde os que l chegam se alegram na presena de um rei que os ama 
e que reina para toda a eternidade.  um reino de paz. onde as 
dificuldades e a morte foram conquistadas, e onde todos os que a 
atingirem nada mais tm a recear. Estes dois caminhos

375

esto abertos para ti, mas tens de escolher agora qual o que desejas 
seguir.
- A escolha  fcil de fazer, bom eremita. Irei para a grande cidade e a 
oferecerei os meus servios a esse honrado rei. Se tiver necessidade 
deles.  l que ficarei. Porm, no sei como o poderei realizar e receio 
que ainda me possa vir a enganar.
- No te preocupes. Cr, e assim acontecer. Acredita no rei, no Rei de 
todos os reis, no Deus Mais Alto. Ir ter contigo ao caminho e ser ele 
prprio quem te conduzir  cidade.
- Senhor, quero acreditar, mas as vossas palavras so estranhas. no se 
parecem com as que tenho ouvido pronunciar quando os sacerdotes falam. 
Sois um sacerdote?
- Sim, meu bom amigo. Sou um sacerdote do rei de que acabei de te falar. 
No manda embora nenhum dos que se lhe dirigirem.  uma promessa que faz 
a todos os homens.
- Ento, irei ter com ele imediatamente. - A voz do cavaleiro pouco mais 
era do que um sussurro. - Obrigado, bom eremita. Recordar-me-ei da tua 
bondade para comigo e saudarei o grande rei em teu nome. Adeus.
- Adeus, bravo cavaleiro. Voltaremos a encontrar-nos.
A estas palavras, o cavaleiro fechou os olhos e respirou pela ltima vez. 
Durwin ficou junto do corpo do jovem, maravilhando-se com a sua coragem e 
com a firmeza da sua f.
- O mais Alto ganhou hoje mais um servo fiel - disse para si mesmo. - No 
encontrar outro mais valente.
Depois de Drwin ter feito tudo o que lhe era possvel pelos feridos e 
moribundos, regressou ao fosso onde Selric. Theido e Ronsard estavam 
reunidos em conselho.
- Perdemos muitos bons combatentes - disse Ronsard. - No conseguiremos 
suportar um novo ataque se decidirem acabar connosco.
- De que estaro  espera? - interrogou-se Selric. - Talvez no voltem a 
atacar-nos.
- No - retorquiu Theido. - Iro faz-lo outra vez. Esperam que...
- Esperam que Nimrood traga os seus malditos - declarou Durwin quando se 
lhes reuniu. - Ainda no chegaram, mas j esto perto.
- Ento isso quer dizer que Jaspin queria ganhar o dia sem a ajuda de 
Nimrood?

376

-  verdade, mas agora ser forado a reconhecer Nimrood como seu amo, 
ante todos aqueles que lhe chamam rei.
- No  mais do que merecia - comentou Ronsard. - Penso que ainda ir 
amaldioar o dia em que ps os olhos no feiticeiro...
- Esta espera  pior do que o combate. No h mais nada que possamos 
fazer? - perguntou Selric.
- H, sim. Rezem ao Mais Alto. Agora,  ele o nico que nos pode salvar.

O golpe inesperado apanhou Quentin no momento em que se virava, 
atingindo-o num ombro e erguendo-o no ar. Foi atirado de cabea para a 
escurido, para se ir estender no cho da cmara funerria.
Contorceu-se e ps-se de joelhos, num esforo para se levantar, 
agarrando-se ao rebordo da mesa de pedra. Porm, antes que conseguisse 
pr-se de p. sentiu qualquer coisa muito forte a pux-lo para
trs, enrolada na sua cintura. Quentin agarrou-a e sentiu uma superfcie 
macia, mas rgida. que ondulava debaixo da sua mo.
Uma onda de horror e repulsa percorreu~o todo quando compreendeu que 
estava preso nos anis de uma gigantesca serpente. Um dos anis 
passou~lhe por cima dos braos. apertando~os junto ao corpo. Um outro 
enrolou-se-lhe em volta do peito. Quentin, lutando fracamente para se 
libertar, viu a terrvel cabea angulosa a erguer-se em frente do seu 
rosto.
Horrendos olhos amarelos ardiam com uma luz irreal, olhando-o com um ar 
de ameaa extrema. Sentia que os anis estavam a apertar-se  sua volta, 
expulsando-lhe o ar dos pulmes.
As mos de Quentin procuraram um apoio nas pesadas escamas da pele da 
serpente, mas no conseguia agarrar-se aquela armadura escorregadia. Cada 
aspirao do ar era difcil e dolorosa. Iria sufocar muito em breve. 
Ouviu o silvo spero da serpente a aproximar-se, mostrando uma dupla 
fileira de dentes cruis, semelhantes a agulhas, e duas grandes presas 
encurvadas.
A mente de Quentin estava a precipitar-se para o pnico. "Tem de haver 
uma arma", pensou. Levantando os olhos, que lhe pareciam ir rebentar por 
causa do cada vez mais apertado abrao da serpente, teve a sorte de ver o 
brilho da espada do rei que jazia a seu lado sobre a placa de pedra.

377

Quentin. cada vez mais enfraquecido, atirou-se para o lado. para baixo da 
mesa. Quando caiu, os anis da serpente alargaram-se momentaneamente. 
Aspirou o ar com toda a fora e puxou um brao, conseguindo libert-lo 
antes de os anis voltarem a apert-lo.
Arrastanto lentamente os ps por debaixo do corpo, Quentin apoiou-os nos 
suportes de pedra da mesa do rei. Deu um grande impulso com os ps. e 
forou-se a uma cambalhota para trs no preciso momento em que a 
serpente. silvando de fria, o atacava. Quentin ouviu as monstruosas 
mandbulas a fecharem-se, com um estalo, mesmo por cima da sua orelha. No 
entanto, conseguira o que pretendera: estava deitado de lado com o brao 
livre por cima do corpo. Levantou-o para a espada.
A serpente notou o movimento. Levantou a cauda, como um chicote. Enrolou-
lha em volta do pulso e puxou-o para baixo num aperto de ferro.
No tremeluzente claro da radiao azul, Quentin viu novamente o contorno 
da terrvel cabea negra. que se erguia pela segunda vez, preparando-se 
para o ataque final.
Forando todas as fibras dos msculos a obedecerem-lhe, levantou outra 
vez a mo. At os dedos lhe doam quando os esticou em direco  espada. 
Sentia a serpente a apertar-lhe o pulso e os dedos a ficarem 
entorpecidos. Fechou os olhos e gritou de esforo, sentindo que o corao 
ia ceder. Ento, tocou no rebordo da mesa e agarrou-se a ele.
Centmetro a centmetro, a mo foi avanando, com as unhas a partirem-se 
por se tentarem cravar na pedra. j no conseguia respirar e o brao 
tremia-lhe com violncia. As tonturas invadiram-no mas esforou-se por 
manter a cabea clara.
De repente, miraculosamente, a espada estava na sua mo. Agarrou na 
lmina de ao frio e puxou-a para baixo. Porm, as suas foras haviam 
desaparecido: no conseguia levantar a espada nem desferir um golpe com 
ela. A lmina afiada jazia na sua mo entorpecida e limitava-se a olhar 
para o seu fraco brilho, na escurido, enquanto os nevoeiros negros da 
morte se amontoavam sobre ele.
Queria desistir, queria abandonar a luta. penetrar naquela calma pacfica 
que o aguardava. Ouvia um som, que era como o soprar do vento ou um 
milhar de vozes a chamarem. Teve uma imagem de nuvens a subir e a 
apartarem-se. Deslocava-se entre as nuvens e caa.

378

As nuvens abriram-se e viu por debaixo de si as linhas de batalha na 
plancie de Askelon. Aqueles eram os seus amigos, ocultos por detrs do 
fosso. Assistiu  carga e ouviu o entrechocar das armas. A viso 
desapareceu e sentiu um calor a percorrer-lhe os membros enquanto era, ao 
mesmo tempo, dominado por uma profunda sonolncia. Sentiu que deslizava 
para o sono final...
- No! - gritou, recuando da beira do precipcio. - No! - respondeu-lhe 
o eco, devolvido pelas paredes abobadadas do tmulo.
A espada jazia na mo sem foras. Apertou-a e sentiu o ao a cortar-lhe a 
carne dos dedos. A dor despertou-lhe a mente.
Virou a cara e viu a cabea da serpente a oscilar por cima dele. O 
monstro movia-se, voltando~lhe o corpo, preparando-se para o golpe 
mortfero. Quentin puxou a espada para o peito.
Os brilhantes olhos da serpente fixaram-se nos dele, a forquilha negra da 
lngua agitou-se no ar quando a terrvel cabea se precipitou para ele. 
Nesse preciso instante, Quentin levantou a espada.
A cabea desceu. Quentin, de repente, sentiu que a espada lhe era 
arrancada das mos. Ouviu um silvo raivoso e abriu os olhos, para ver a 
espada a sobressair da boca e do alto da cabea da serpente. O monstro 
empalara-se a ele prprio, na espada! Os anis afrouxaram quando a 
serpente se comeou a agitar no cho. Num instante. Quentin ficou com o 
brao livre e conseguiu pr-se de joelhos. Arrastou-se para o lado, 
enquanto a serpente se enrolava sobre si mesma, numa bola, para se 
esmagar sob a forja dos seus prprios anis. A criatura agitava-se e 
contorcia-se com movimentos cada vez mais errticos. Por fim, com uma 
ltima convulso, ficou imvel. Quentin continuava ajoelhado, de mos 
pousadas na pedra fria, enchendo os pulmes de golfadas de ar fresco. 
Escutou uma espcie de silvo borbulhante e olhou, para ver a serpente a 
encolher-se e derreter-se. Do corpo do animal libertou-se um fumo verde, 
que o cobriu e depois desapareceu. No local onde jazera a grande serpente 
encontrava-se apenas um ligeiro farrapo de fumo, que acabou tambm por se 
dissolver.
Ofegante, Quentin apoiou-se  beira da mesa de pedra e deixou que a vida 
lhe regressasse. Doam-lhe as costelas, e tinha a mo a arder no stio em 
que agarrara na espada. Olhou para baixo e viu o sangue a pingar-lhe dos 
dedos. A tremer, aspirou o ar profundamente e virou-se para o monarca. 
Desaparecera a fantasmagrica radiao azul que lhe

379

rodeara o corpo, como se tivesse extinguido o que ainda restava de fora 
vital agarrada quela fora humana.
Sentiu uma dor no corao, pois agora parecia-lhe, para l de todas as 
dvidas, que o rei jazia morto. Nenhuma respirao lhe agitava o grande 
peito. j nada restava.
Quentin virou-se para sair. Nada mais poderia fazer.
Porm, t-lo descoberto para depois o abandonar pareceu-lhe penoso e 
pouco apropriado.
Quentin baixou a cabea e rezou uma orao.
- Pai da Vida - disse, servindo-se do nome que Toli dava ao deus -, 
devolve a vida ao nosso rei. - Pensou um pouco e acrescentou: - Ergue um 
campeo que nos leve  vitria contra os nossos inimigos... - Calou-se de 
repente, porque no se lembrava de mais nada para dizer.
Aproximou-se do corpo do rei e estendeu a mo para lhe tocar no rosto 
frio e sem vida. Quando o fez, uma gota de sangue caiu-lhe da ponta de um 
dedo. salpicando um lbio de Eskevar. Quentin ficou a olhar para a mancha 
vermelha.
Sob a fraca luz da entrada do tmulo, imaginou que via a cor a 
desaparecer da mancha de sangue e a estender-se pelas feies do rei. 
Ficou a olh-lo fixamente, maravilhado, ao ver as mudanas a que 
assistia.
As feies rgidas de Eskevar comearam a amaciar-se. A carne fria e 
acinzentada aquecia e ganhava a aparncia da vida. Quentin olhava, sem 
ousar mexer-se. sem coragem para pestanejar ou virar-se para outro lado. 
Viu a cor regressar s mos sem vida cruzadas por cima do peito. Viu a 
minscula batida da pulsao a surgir debaixo do queixo.
Das feies do rei pareceu emanar uma luz prateada, uma radiao que dava 
vivacidade  expresso imvel. Tornou-se to forte que Quentin no a 
conseguiu suportar e teve de levantar um brao para proteger os olhos. 
Quando voltou a olhar, a luz desaparecera, e viu o estremecer de uma 
plpebra e o prolongado sopro do ar a ser absorvido pelas narinas.
Quentin caiu de joelhos. com lgrimas a correrem-lhe pela face e a 
salpicarem a poeira do cho. Vergou a cabea para um breve agradecimento 
silencioso. Ouviu um gemido baixo, ps-se de p e debruou-se sobre o 
rei. Novo suspiro, e Eskevar abriu os olhos.

380

A respeito de tudo o que se passou a seguir, Quentin nunca mais teve 
certezas sobre o que acontecera, ou em que ordem. quem falara primeiro e 
quais as palavras exactas. Ficou com a sensao de que tudo se verificara 
ao mesmo tempo.
Lembrava-se de falar a Eskevar do perigo e da batalha que tinha lugar na 
plancie. Recordava-se de Eskevar a erguer-se lentamente da mesa de 
pedra, inseguro, e de ter cado no cho. Lembrava-se de ter sentido uma 
alegria impossvel de exprimir quando o rei pousara a mo no seu ombro, o 
apertara com fora e dissera: "Procedeste muito bem, bravo cavaleiro."
A seguir haviam sado da cripta e avanado para Balder. com Eskevar a 
ficar mais forte a cada passo. O Sol brilhava alto, por cima das cabeas, 
e era uma esfera dura e feroz que enchia Quentin de esperana e 
determinao enquanto caminhava, de um modo algo doloroso. sobre o verde 
das ervas.
Montaram ambos em Balder. com Quentin atrs do rei. contando-lhe 
pormenores de toda a histria enquanto cavalgavam juntos.
- Ainda devem existir algumas pessoas leais! - gritou Eskevar, com a voz 
forte a ressoar na floresta. - Iremos procur-las!
Quentin no pde deixar de pensar que, a no ser que encontrassem dez mil 
que no se tivessem vergado ante Jaspin. a procura era intil.
- Primeiro, vamos para Askelon - disse o rei. - As gentes do povo lutaro 
pelo seu rei! Organizaremos um exrcito de camponeses e mercadores, se 
for necessrio!
Cavalgaram pelo meio da floresta at atingirem a estrada para Askelon. 
Eskevar montava com facilidade, sobre a sela, mas Quentin, que ia atrs, 
dava saltos todo o caminho e fazia o possvel por se segurar.
Pareceu-lhe terem-se passado apenas instantes at se verem a matraquear 
nas ruas de Askelon, por debaixo do castelo. Eskevar dirigiu-se para a 
praa do centro da cidade e ergueu-se na sela, com a espada bem levantada 
sobre a cabea.
- Compatriotas! O vosso rei j regressou! - A voz pareceu abalar as 
fundaes do prprio castelo. - Sigam-me! - ordenou. - O nosso reino est 
em perigo! Tragam espadas e escudos, tragam lanas e forquilhas, tragam 
ps e ancinhos! s armas, por Mensandor!
Quando o povo ouviu aquele grito, maravilhou-se e caiu de joelhos.

381

As mulheres choravam e os homens olhavam para cima, espantados. Ouviu-se 
ento um grande clamor:
- O nosso rei voltou! O rei Drago est vivo!
Os homens correram pelas ruas, pedindo a todos os que encontravam para se 
unirem quele apelo s armas. Um ferreiro apareceu a correr. trazendo 
consigo um cavalo branco, j selado e caracoleando de excitao ansiosa. 
Eskevar saltou para o cavalo e fez sinal ao seu rudimentar exrcito.
Mal tinham sado da cidade e entrado na estrada que conduzia s plancies 
quando se lhes deparou um grande nmero de homens vestidos com tnicas 
verde-escuras, carregando lanas, arcos. bem como aljavas suspensas dos 
ombros, cheias de setas novas.
Eskevar, com Quentin logo atrs, parou no meio da estrada quando os 
homens se aproximaram. Ao avistar o monarca, o lder daqueles homens 
ajoelhou, gritando:
- Um vosso fiel servo, Majestade! Os meus homens esto ao vosso dispor.
Quentin pensou que o homem e os seus modos lhe pareciam familiares. Onde 
fora que o vira? Ento. de sbito, recordou-se de uma fria noite em que a 
floresta de Pelgrin ficara cheia de homens surgidos do nada. Quando o 
homem se ps de p, Quentin reconheceu o duro rosto de Voss. marcado 
pelas intempries. Todavia. o nmero dos seus seguidores aumentara e era 
agora de vrias centenas.
- Ouvimos dizer que se combatia - declarou Voss, aproximando-se do seu 
amado rei. - Decidimos vir e combater pelo rei e pelo reino... mas no 
espervamos ser conduzidos  batalha pelo prprio Rei Drago.
- A tua lealdade ser recompensada, pois hoje vereis o vosso rei a erguer 
a espada contra os seus inimigos. Sigam-me!
Eskevar conduziu o cavalo para o meio da estrada e conduziu o seu povo 
para a batalha.
A cada passo que davam. os acompanhantes iam aumentando.
Quentin olhou para trs, por duas vezes, e no quis acreditar no que os 
seus olhos viam: um ondulante mar de lanas. grosseiros espetos de 
madeira. forquilhas, ancinhos e outras ferramentas agrcolas, que

382

se tinham transformado em armas para defenderem o Rei Drago de 
Mensandor.
Elevou-se um canto daqueles coraes corajosos e felizes, que ganhou asas 
e se levantou at ao cu brilhante:

Vejam os exrcitos alinhados seguindo a espada do Rei Drago.! Vejam dez 
mil homens armados Erguendo-se ao som duma cano!

Vejam os inimigos apavorados escutando o clamor da multido! Vejam os 
vitoriosos coroados No grande trono do Rei Drago.!

CAPTULO L

Jaspin enfrentou os olhos de Nimrood com uma expresso impossvel de 
interpretar: uma mistura de alvio e desapontamento, de angstia e de 
esperanas perdidas.
- No... no compreendo... - gaguejou.
os olhos de Nimrood despediram raios e a voz libertou troves:
- A presa foi-se! A minha presa desapareceu! - Lanou um olhar odioso 
para o outro lado da plancie, onde o exrcito de Selric os aguardava, e 
gritou: - Negro  o dia do vosso fim! Os vossos corpos iro servir de 
alimento s aves e os ossos sero espalhados pelos confins da Terra! 
Agora. no escaparo  ira de Nimrood!
Agarrou no basto de mrmore, ergueu~o no ar e uivou um longo 
encantamento. O corcel negro, por debaixo dele. sacudiu as crinas e 
escarvou o solo, demonstrando a sua impacincia. Nimrood no lhe prestou 
ateno. Levantou-se na sela e repetiu o encantamento:
- Ratra Nictu deasori Maranna Rexis!
Uma brisa fria agitou as sedas da tenda de Jaspin. As bandeiras vermelhas 
e douradas flutuaram e os pendes acenaram. No cu surgiu uma pequena 
nuvem negra. Nimrood continuou o seu encantamento, de olhos fechados, 
pronunciando as terriveis palavras.
O vento ganhou fora, as bandeiras agitaram-se e os pendes estalaram nas 
lanas dos cavaleiros. A nuvem cresceu, rolando sobre si mesma. e comeou 
a engrossar e a transformar-se numa ameaadora nuvem de tempestade. As 
cordas da tenda de Jaspin vibraram sob a fora do vento.
A Legio dos Mortos surgiu a cavalo, transportada nas asas do vento.

384

Eram seis, cavalgando aos pares. montados em cavalos de batalha que 
resfolegavam. Apareceram a galope vindos do sul, do interior da floresta. 
Levantou-se um murmrio nos exrcitos ali reunidos e,  medida que os 
cavaleiros se aproximavam, os homens que se encontravam no seu caminho 
iam recuando.
Jaspin ficou a olh-los, perto. cada vez mais perto. Eram seis cavaleiros 
de armadura negra - da negrura da mais escura das noites - e com longas 
plumas negras a flutuarem no alto dos elmos. No olhavam nem para a 
direita nem para a esquerda, e cavalgavam com um passo medido at pararem 
directamente em frente da tenda. As viseiras escondiam todas as feies 
reconhecveis. e no se via o mnimo brilho dos olhos atravs das fendas 
escuras do metal.
A Terra mergulhou num fantasmagrico crepsculo quando as nuvens 
cresceram o suficiente para encobrir o Sol. Tudo ficou em silncio. 
Ningum falava, ningum gritava. Os dez mil soldados estavam imveis como 
esttuas. Silncio total. Os nicos sons eram os dos uivos do vento, o 
estralejar das bandeiras e o impaciente resfolegar dos cavalos.
A um gesto de Nimrood, o cavaleiro da Legio dos Mortos que se encontrava 
mais  frente incitou a montada a avanar para ir colocar-se directamente 
em frente de Jaspin. Para os ouvidos do rei, o ressoar dos cascos de 
ferro do animal era parecido com o som de um sino funerrio. O usurpador 
empalideceu, estremeceu e encolheu-se ante a mirada do cavaleiro negro.
- O dia  nosso! - gritou o necromante com fora, para que todos os que 
se encontravam na plancie o pudessem ouvir. A seguir virou-se para 
Jaspin e disse: - Olha para o rosto da morte... e desespera!
Jaspin viu, horrorizado - e o corao tremia-lhe no peito, enquanto o 
sangue lhe gelava nas veias -. que o assustador espectro levava a mo 
enluvada de negro  viseira e a levantava. Jaspin fechou os olhos e 
virou-se para outro lado.
- Observa bem o meu trabalho! - gritou o feiticeiro.
Jaspin virou-se outra vez, para ver o rosto cinzento e exangue da 
apario. Apavorado, viu as plpebras cor de cinza abrirem-se lentamente 
para o fitarem. Jaspin agarrou-se com fora aos braos do trono e emitiu 
um grito baixo: o cavaleiro no tinha olhos!
- Afasta-te! - soluou.

Durwin virou o rosto para o vento. Os seus olhos conhecedores

385

examinaram as grandes nuvens negras que rolavam sobre a plancie de 
Askelon e viram o cu a escurecer quando aquele crepsculo pouco natural 
desceu sobre o campo de batalha.
- Nimrood chegou. j c est, e trouxe a legio com ele - disse o 
eremita. - Temos de nos preparar para o assalto final.
- Estou pronto - declarou Ronsard, com uma voz forte que no revelava 
vestgios de medo. - j encarei a morte muitas vezes.  um adversrio que 
conheo demasiado bem para que me acobarde na sua frente, neste momento.
- Bem dito. nobre Ronsard - respondeu Theido. - Tambm estou pronto. 
Acontea o que acontecer, a glria espera-nos a todos, naquele campo - 
Fez um aceno e olhou para a plancie de olhos cerrados. - Fao conta de 
ganhar uma parte dela.
- Sim - concordou Selric - e um lugar nos coraes dos homens quando as 
aces de valor forem contadas em volta das fogueiras.
Alinea, que at ali se mantivera silenciosa, levantou os olhos para o 
horizonte e olhou pela ltima vez para a forma tremeluzente das muralhas 
de Askelon, enevoadas pela distncia. Trenn, com a boca contrada numa 
careta de desafio, mantinha-se firme a seu lado.
- Sou mulher - declarou a rainha num tom suave - e no um soldado. Porm, 
por amor do meu rei. colocar-me-ei alegremente ao lado dos meus 
companheiros at que a cruel lmina do inimigo lance o meu esprito para 
o seu descanso final.
Trenn no pronunciou palavra, mas o seu espesso pescoo contraiu-se 
quando segurou na espada com mais fora e levou a tocar com
O punho no corao.
Toli, que regressara da floresta depois de, sem xito. ter procurado
o desaparecido amo durante horas, pegou num arco e colocou-lhe uma seta 
na tensa corda. Por debaixo do seu aspecto sombrio ardia um fogo de raiva 
contra os que tinham abatido o amigo.
No meio do silncio que se instalara sobre a plancie, os companheiros de 
armas ouviram o distante roncar de troves que marchavam pelo cu. 
aproximando-se deles. Selric ocupou o seu lugar,  frente dos soldados, e 
saltou para cima de uma rocha para se lhes dirigir, levantando as mos e 
a voz.
- Homens de Drin, meus guerreiros! Escutem-me! Fizeram com que me sinta 
orgulhoso de ser o vosso rei. e, apesar de o nosso tempo

386

ser cada vez mais curto, no pediria merc maior do que conduzir-vos mais 
uma vez para a batalha.
"O inimigo  forte, mas mesmo que quebre os nossos corpos. nunca 
conseguir vencer o orgulhoso esprito que nos dar foras at ao fim. 
Lutem bem, meus amigos! No olhem para trs. olhem em frente! Hoje, ireis 
conquistar a glria e a honra. Sejam fortes e meream-nas. No as 
receiem!
Os soldados, at a imveis como esttuas, ergueram as espadas e as 
lanas. Ouviu-se um grito poderoso. pronunciado em unssono por mil vozes 
diferentes:
- Pela glria! Pela honra! Pelo nosso rei!
A seguir. comearam a bater com as espadas nos escudos e a cantar um 
canto de batalha que acompanhava a cadncia das pancadas. Com Selric  
frente, formaram em forma de cunha e marcharam para a plancie, para a 
aguardarem o inimigo.
Theido e Ronsard reuniram-se aos seus cavaleiros e foram colocar-se nos 
dois flancos dos seus indmitos camaradas. Os cavalos de batalha sacudiam 
as cabeas e resfolegavam quando o vento lanava para cima deles o fumo 
da floresta que ardia do outro lado da plancie.
Voltaram a ouvir o som de tambores quando o inimigo avanou. Theido olhou 
em volta, em busca de Durwin, para se despedir dele pela ltima vez, mas 
verificou que o eremita voltara a desaparecer.
Ento, no meio dos rolos de fumo que cobriam a plancie, viram aparecer o 
inimigo, que desta vez era conduzido, numa cerrada procisso. pelos seis 
cavaleiros negros da Legio dos Mortos, de Nimrood.
Detiveram-se e os tambores abrandaram o ritmo. Os seis cavaleiros 
baixaram as lanas e, ao ouvirem o toque da trombeta. esporearam os 
cavalos e lanaram-se para a frente.
A Legio voava pela plancie, com os cascos dos cavalos a despedirem 
chispas, cobrindo a distncia que separava os dois exrcitos. Atrs deles 
vinham os cavaleiros das foras de Jaspin, seguidos pelos soldados a p, 
que comearam a correr depois de soltarem um poderoso grito.
O exrcito do rei Selric, batendo com as espadas nos escudos, 
mentalizara-se para o embate. Theido e Ronsard avanaram, com os seus 
cavaleiros, para irem ao encontro da carga de cavalaria.
O estrondo foi enorme e a prpria terra tremeu com o choque. A poeira 
levantada do cho escondia os combatentes das vistas. Relinchavam

387

cavalos e ouvia-se o frio tilintar do ao. Quando a poeira se afastou, 
Selric verificou que Theido, Ronsard e os restantes cavaleiros tinham 
conseguido abrir uma brecha nos oponentes, sem grandes perdas. Alm 
disso. o que era bastante melhor, tinham conseguido desmontar um dos 
cavaleiros da Legio dos Mortos. O cavalo relinchava de agonia, cado no 
campo de batalha, mas o cavaleiro continuava a lutar.
Theido, ignorando os cavaleiros de negro, virou o seu ataque para
o interior das fileiras, para os inimigos mais fceis de abater. Os 
cavaleiros de Jaspin ficaram surpreendidos com esta estratgia, mas no 
fugiram ao combate. Instantaneamente, todos eles ficaram rodeados pelos
soldados a p, que se haviam atirado para a luta.
- Em frente! - gritou Selric. O trombeteiro tocou ao ataque e os mil 
indmitos homens de Drin. precipitaram-se para a peleja. Os soldados a p 
esforavam-se para conseguirem derrubar das suas montadas os cavaleiros 
couraados, pois enquanto permanecessem nas selas eram praticamente 
invencveis.
Os cavaleiros faziam chover golpes sobre as mal protegidas cabeas dos 
homens da infantaria, abatendo-os um a um. Os cavaleiros desmontados 
agrupavam os seus homens atrs deles, servindo-lhes de escudos vivos e 
atirando-se de novo para a luta. Theido abriu caminho para o mais espesso 
da contenda, mas os seus seguidores no o conseguiram acompanhar e 
ficaram separados. Viu-se envolvido por um verdadeiro mar de inimigos 
irados. Levantando o escudo na frente do corpo, lanou-se sobre eles. com 
o brao armado de espada a subir e descer sobre os pescoos dos 
atacantes. Sentiu um solavanco, olhou para baixo e viu uma lana inimiga 
espetada nos flancos do seu cavalo. O animal ergueu-se sobre as patas 
traseiras. relinchando, e depois desceu, de cascos rebrilhantes lanados 
contra o seu atacante, a quem desfez o rosto. Theido caiu juntamente com 
o cavalo moribundo. quando mos ansiosas se estendiam j para o arrancar 
da sela.
Ronsard viu o amigo cair e virou o seu cavalo de batalha para o ir 
auxiliar. A sua espada cortava o ar e a lmina que assobiava tornou-se 
numa verdadeira muralha na sua frente. Os inimigos preferiam atirar-se 
para o cho a terem de enfrentar aquela terrvel arma.
O cavaleiro sem medo mergulhou no tumulto que rodeava Theido e, num abrir 
e fechar de olhos, trs dos seus inimigos caram por terra.

388

Quando os outros recuaram, Ronsard estendeu a mo, ps Theido de p e 
ajudou-o a subir para a garupa do animal.
- A tua mo foi muito oportuna, meu amigo - disse Theido.
- Um cavaleiro sem corcel  uma triste viso. No gosto de ver os meus 
amigos to em baixo - retorquiu Ronsard, afastando-se daquele local.
O rei Selric abriu uma passagem na sua frente quando ele e os seus homens 
avanaram para onde as foras de Ronsard se defendiam valentemente, 
apesar de estarem completamente cercadas. Muitos corajosos cavaleiros 
tinham j cado quando haviam sentido no corpo a mordedura de uma lmina 
enfiada por uma qualquer fenda das armaduras. Quando Selric l chegou, s 
um se mantinha sobre o cavalo, com a maa avermelhada a escorrer mucos 
dos infelizes que se lhe tinham oposto. Fez uma saudao ao rei e aos 
amigos cados e atirou-se de novo para a confuso. Pouco a pouco, a 
vantagem numrica das tropas de Jaspin e a Legio dos Mortos de Nimrood 
comearam a enfraquecer os resistentes. Aproximava-se rapidamente um fim 
cruel, e Selric fez sinal ao que restava do seu exrcito para formar um 
crculo e constituir uma muralha de escudos, a fim de atrasar tanto 
quanto possvel a destruio.
Theido, que conseguira apanhar um cavalo sem cavaleiro. conduziu o seu 
grupo por entre a multido de inimigos, num esforo para se juntar a 
Selric, que se encontrava ao lado de Alinea. no interior do crculo de 
escudos.
- Lutem, bravos cavaleiros! - gritou, incitando os companheiros. De 
sbito, na sua frente surgiram, lado a lado, dois cavaleiros da Legio 
Negra. Theido desviou-se para um lado para os evitar, mas era tarde de 
mais. Uma lmina brilhou e deu-lhe um tremendo golpe no brao, abrindo-
lhe um corte profundo. Theido deixou cair a espada para o cho e sentiu 
as foras a fugirem-lhe da mo.
Esporeou a montada e puxou as rdeas para trs, fazendo com que o cavalo 
se empinasse. O bem ensinado animal comeou a escoicear os inimigos com 
as patas da frente. Porm, os cavaleiros de negro desviaram-se para um 
lado. Brilhou uma lmina. Theido lanou-se para cima do pescoo do cavalo 
e ouviu o assobio da espada a cortar o vazio do ar no local onde a sua 
cabea se encontrara um instante antes.

389

Desesperado. Theido investigou o cho em busca de uma arma, colocando o 
escudo por cima da cabea, para se proteger. Houve um golpe que atingiu o 
pequeno escudo. quase lho arrancando das mos. Seguiu-se um segundo, que 
cortou o escudo ao meio. Theido virou-se na sela.
Pelo canto dos olhos. teve tempo de assistir a uma cena curiosa. O 
cavaleiro negro da sua esquerda levantou a espada acima da cabea, para 
desferir o golpe mortal. Porm. quando a mo enluvada de preto comeou a 
descer, descrevendo um arco, o brao soltou-se subitamente do corpo, 
caindo como um ramo arrancado a uma rvore. Um machado havia-o cortado de 
uma vez s. e no havia sangue a escorrer.
Ouviu um grito e viu o rosto vermelho de Trenn a rir-se para ele. Um 
segundo depois tinha o machado enfiado na mo.
O cavaleiro negro da sua direita, indiferente ao que acontecera ao 
companheiro, lanou-se contra ele com uma maa de guerra que assobiava no 
ar. A maa atingiu o fraco escudo de Theido por duas vezes.  terceira 
vez, ficou presa no metal e arrancou-lhe o escudo do brao. Theido 
deixou-o ir. No momento de confuso em que a maa descia com o escudo 
preso. Theido ergueu o machado e atirou-o com toda a sua fora contra o 
peitoral do cavaleiro negro.
O machado enterrou-se profundamente. trespassando a armadura e 
mergulhando no peito do cavaleiro. Este no soltou qualquer grito de dor 
nem deu mostras de ter ficado enfraquecido. Theido no conseguia 
acreditar no que os seus olhos viam, pois um homem vulgar teria cado 
como uma pedra.
No entanto, o golpe teve os seus efeitos, porque Theido conseguiu 
afastar-se enquanto a criatura negra puxava pelo cabo do machado que 
tinha enterrado no peito.
Os exrcitos de Jaspin comeavam a esmagar o cada vez menor nmero de 
homens de Selric, que se defendiam tenazmente. Mais uma vez o corajoso 
rei reuniu as suas tropas, mas as foras eram poucas e o inimigo no os 
largava.
- Receio que seja o fim - disse Seiric, quando Ronsard e Theido. 
abandonando os cavalos, se foram juntar ao valente monarca.
- Demos uma boa luta - afirmou Ronsard. - No tenho vergonha de morrer 
deste modo.
- Nem eu! - concordou Theido, que apertou as mos dos

390

companheiros quando o inimigo conseguiu abrir uma brecha na muralha de 
escudos. - At  morte! - gritou.
Nesse instante chegou-lhes aos ouvidos um som inesperado: o som de vozes 
a cantarem a plenos pulmes. Ento, algum gritou:
-  o Rei Drago!
Aquelas palavras animaram-lhes os coraes como fascas vivas. Poderia 
ser verdade?
- Estou a v-lo! - berrou uma voz. -  o Rei Drago com o seu exrcito!
De imediato, escutou-se um clamor:
- O rei Drago est vivo! Ele regressou!
No meio do rudo da batalha, j se conseguiam distinguir as palavras da 
cano:

Vejam os exrcitos alinhados Seguindo a espada do Rei Drago.! Vejam dez 
mil homens armados Erguendo-se ao som duma cano.!

Os atacantes comearam a fraquejar e a lanar olhares preocupados de uns 
para os outros. Antes de terem tempo para pensar ou para fazerem qualquer 
coisa, ouviu-se um estranho silvo, como que produzido por um vento muito 
forte. Instantaneamente, o cu abriu-se. O crepsculo que pairava, como a 
morte, sobre o campo de batalha, cedeu o lugar a uma brilhante bola de 
luz branca que rugia nos cus.
Ento, todos o puderam ver: o rei Eskevar, montado num grande cavalo 
branco, com a armadura a brilhar sob a luz intensa, levantava a espada 
acima da cabea.
Aquela viso era de mais para os soldados de Jaspin. Gritaram de terror e 
atiraram fora as armas. Alguns caram no cho como se tivessem sido 
abatidos por raios, outros recuaram, cambaleando sobre os que se 
encontravam atrs.
Foi em vo que os comandantes de Jaspin tentaram reunir os seus homens. 
Outro risco cortou os ares, e outra bola de fogo explodiu nos cus, 
iluminando a cena com o mais profundo dos vermelhos. isto decidiu as 
foras que j hesitavam. A linha quebrou-se e o exrcito de Jaspin 
recuou. Milhares fugiram para a floresta, gritando enquanto corriam.

391

Dentro de instantes. toda a plancie mergulhara na confuso. Os homens 
que tinham vendido a sua lealdade a Jaspin. em troca de grandes favores. 
mantinham-se agarrados  sua sombria tarefa, mas os homens de armas, que 
nada tinham a ganhar se ali ficassem, viravam-se e fugiam.
Foi para o meio deste pnico que avanou o Rei Drago, seguido pelo 
exrcito de camponeses. No violento claro vermelho da bola de fogo, 
aqueles vulgares camponeses equipados de forquilhas e ancinhos, 
transformavam-se subitamente, aos olhos dos abalados atacantes, em 
gigantes armados e em cavaleiros.
Um grito de terror elevou-se das foras de Jaspin quando o Rei Drago e o 
seu misterioso exrcito se lanaram na batalha.
Nimrood. que observava o combate  distncia, gritou:
- Parem. ces! So apenas camponeses! A vitria  nossa! - Esporeou o 
cavalo para o campo, numa tentativa para evitar a debandada. - Para trs! 
A vitria  nossa! Voltem para trs e combatam!
Ningum prestou ateno aos gritos do feiticeiro. Entalados entre a 
teimosa resistncia dos soldados de Selric e a feroz vingana do Rei 
Drago, o exrcito de Jaspin abandonava o campo e fugia para a floresta e 
para o rio. que ficava para l dela. S os nobres e os seus cavaleiros, 
bem como Nimrood e a sua Legio, permaneceram no local, para resolverem o 
que ainda momentos antes parecia ser uma vitria.
Os cavaleiros e os nobres comearam a juntar-se e a formar em cunha, para 
se lanarem, de cascos trovejantes, sobre Selric, esperando dispersar os 
seus homens para depois poderem virar as suas atenes para Eskevar e 
para os camponeses. A cunha formou-se e lanou-se pelo campo para esmagar 
os adversrios. Ouviu-se um sonoro zumbido e de repente o ar ficou cheio 
de flechas.
Voss e os seus homens da floresta haviam ocupado posies numa fila 
paralela  linha do ataque, de onde os seus arcos lanavam uma saraivada 
de flechas. As setas. numa nuvem espessa. na sua maior parte escorregavam 
das armaduras dos cavaleiros. mas algumas, graas  sua fora ou  pura 
sorte, encontravam uma fenda ou uma zona mais fraca e faziam o seu 
trabalho. Os pobres cavalos apanharam alguns dos projcteis apontados aos 
seus cavaleiros, caram e arrastaram outros consigo.
A cunha quebrou-se e desfez-se.
Nimrood assistiu ao falhano desta ltima tentativa para virar a

392

mar da batalha, e percebeu que estava tudo perdido. Virou o cavalo e 
escapou-se a galope. No se afastara muito quando um outro cavaleiro, 
surgindo da floresta, o interceptou.
- Pra, maldito! - gritou o cavaleiro, envolto numa capa.
- Ah, Durwin! Feiticeiro falhado e sacerdote falhado. Devia ter 
reconhecido os teus truques infantis! - -Nimrood silvou quando o
cavalo do outro se lhe colocou na frente, para lhe impedir a fuga. - Sai 
do meu caminho ou desfao-te como a uma pea de fruta podre!
j devia ter-me livre de ti h muito tempo. Devia ter-vos destruido a
todos, quando os tive nas mos!
- Poupa o flego, Nimrood. j no podes fazer mais nada!
- No! Pois ento, observa! - O necromante estendeu um dedo e descreveu 
um crculo no ar. Instantaneamente, levantou-se  sua volta uma barreira 
de fogo. Durwin caiu quando o cavalo (de tal modo aterrorizado com as 
chamas que ficou com o branco dos olhos  vista) recuou de repente e 
fugiu.
- Ah! Ah! Ah, - gargalhou o feiticeiro. - Este mgico ainda pode fazer 
muita coisa. Agora, irs provar o sabor da morte, por te teres metido 
onde no eras chamado!
Nimrood ergueu o basto de mrmore negro e murmurou um rpido 
encantamento. Do exterior da cortina de chamas que rodeava o feiticeiro. 
Durwin viu que o basto ficava vermelho como ferro incandescido. O cruel 
Ninrood. baixou o basto e apontou-o ao eremita.
- Diz adeus a este mundo, Durwin! Vamos a ver se os teus amigos te salvam 
desta! Ah! Ah! AhI
Do basto saltaram fascas semelhantes a raios, que atingiram Durwin e o 
atiraram ao cho. Lutou para se pr de joelhos enquanto o feiticeiro 
sorria de satisfao.
- Isto foi apenas uma amostra. Agora...
A voz falhou-lhe quando descia o basto pela segunda vez. Vinda do nada, 
uma seta voara pelo ar e espetara-se no brao do necromante, que deixou 
cair o basto.
Antes de Nimrood se poder virar, outra seta acertou-lhe num ombro e f-lo 
cair do cavalo. Num abrir e fechar de olhos, Toli apareceu junto de 
Durwin, metendo outra seta no arco.
Ergueu-o e comeou a estic-lo.
- No! No! - gritou o feiticeiro. - No me mates! Ahh...
O jher ignorou os apelos do necromante. A flecha brilhou atravs da 
parede de chamas e enterrou no negro corao de Nimrood.
O feiticeiro pareceu encolher-se e transformou-se num monte de roupas 
negras cadas no cho. Estremeceu e ficou imvel.
- Finalmente, estamos livres dele - disse Durwin, levantando-se com 
esforo. Tinha o manto a fumegar no ponto onde o raio lhe atingira as 
carnes. Toli ofereceu o brao ao eremita e afastaram-se os dois, para se 
irem juntar aos companheiros, enquanto o rudo da batalha diminua 
rapidamente e desaparecia de todo.
Ainda no tinham dado dez passos quando ouviram uma espcie de borbulhar. 
Viraram-se para o local onde Nimrood cara e viram a forma negra explodir 
em chamas. enquanto se elevava no ar uma espessa fuligem negra. Ento, 
incrdulos, distinguiram, no meio das chamas, uma grande ave negra que se 
erguia com o fumo.
Um momento depois as enormes asas negras agitaram-se e voaram para a 
floresta, de onde lhes chegou o spero grito de um corvo.

CAPTULO LI

Depois do desaparecimento de Nimrood, verificou-se uma invulgar 
transformao. A Legio dos Mortos, que se lanara contra Selric e os 
seus homens de espadas a brilhar e maas a rodopiar, deteve-se de 
repente. As mos enluvadas de negro perderam a fora nas rdeas. 
Oscilaram nas selas e precipitaram-se para o cho, no meio de uma 
tempestade de p e de cascos dos cavalos em fuga. Os seis corcis negros 
cavalgaram pela plancie, finalmente livres. A terrvel legio jazia 
imvel no solo.
O rei Selric foi o primeiro a aproximar-se dos seis corpos revestidos de 
couraas. Abordou-os devagar, com a espada avermelhada pronta para o que 
desse e viesse. Ajoelhou-se ao lado do primeiro dos cavaleiros cados, 
mirou os rostos interrogativos dos homens que naquele momento j o tinham 
rodeado e levantou lentamente a viseira do elmo.
As rbitas vazias de um esqueleto devolveram-lhe o seu olhar. j no 
existia a Legio dos Mortos.
O campo de batalha ficou muito tempo envolto em tranquilidade. pois um 
profundo e reverente silncio cara sobre a terra ensopada com o sangue 
de tantos homens corajosos. Depois. um a um, todos levantaram a cabea ao 
ouvirem o som de arreios a tilintar e deparou-se-lhes uma viso que lhes 
encheu o corao de felicidade, a felicidade que havia tanto tempo lhes 
era negada. O Rei Drago, montado no grande corcel branco. que danava no 
meio deles, j ali estava. Alinea, a rainha, corria para ele. Eskevar 
libertou-se do elmo, Alinea atirou para um lado o escudo e a espada. 
Eskevar prendeu-a nos seus braos fortes, ergueu~a e colocou-a sobre o 
cavalo. apertando-a num abrao prolongado.

396

A plancie vibrou com uma tremenda, tumultuosa e alegre aclamao. 
Lgrimas de alegria escorreram por muitos rostos sujos da batalha. O Rei 
Drago e a sua bela rainha estavam finalmente reunidos. O reino de 
Mensandor encontrava-se seguro.

Para Quentin, que seguira na esteira do rei, a cena pareceu ganhar a 
qualidade de um dos seus prprios sonhos. Ali estava um rei e uma rainha 
cavalgando no meio das aclamaes dos seus leais sbditos. Alinea, 
sentada na sela  frente de Eskevar, parecia mais feliz do que qualquer 
mulher jamais fora. Apesar de as tranas avermelhadas carem sem vida, e 
de ter as faces sujas de p e lgrimas, Quentin pensou que isso ainda a 
tornava mais encantadora. Eskevar, com a armadura a brilhar sob a luz 
dourada de uma tarde gloriosa, porque o Sol irrompera bruscamente no meio 
das sombrias nuvens, erguia a grande espada sobre a cabea e proclamava a 
vitria numa voz clara e triunfante.
A seguir, Quentin viu-se nos braos dos amigos. Toli puxou-o do cavalo e 
quase o esmagou com um violento abrao. Theido, com um brao envolto em 
ligaduras recentes, batia-lhe nas costas com o outro, enquanto Durwin lhe 
segurava no rosto com as duas mos enormes e quase danava de alegria. 
Ronsard, Trenn e Selric apertavam-lhe as mos e riam-se at as lgrimas 
lhes correrem dos olhos e o peito lhes doer.
Quentin, demasiado emocionado para poder falar - pois a voz parecia ter-
lhe secado na garganta -, sorria para todos, radiante, mirando-os com 
olhos lacrimejantes, mas brilhando de felicidade. Nunca antes se sentira 
to bem, e to completo.
Eskevar ergueu a voz, para falar, e os companheiros viraram-se para o 
escutarem. A voz ressoou na plancie, dizendo:
- Hoje ser um dia de luto, por todos os companheiros que caram. Esta 
noite, as piras funerrias iluminaro o caminho s suas valentes almas. 
Os exrcitos de Heoth reclamaram muitos bons e bravos soldados para as 
suas fileiras. Iremos honr-los, tal como  devido aos homens de grande 
valor. Porm, amanh... - prosseguiu o Rei Drago, com todos os olhos 
postos nele e repletos de maravilha, pois eram muitos os que ainda no 
conseguiam acreditar no seu regresso - amanh ser um dia de celebraes 
em todo o reino de Mensandor! A vitria foi conseguida!
A plancie de Askelon encheu-se novamente de gritos e de cantos de 
vitria, sados das bocas de todos os que ali se encontravam reunidos.

397

Os cantos continuaram durante toda a noite, silenciando-se apenas no 
momento em que foram acesas as piras funerrias dos compatriotas cados 
na batalha.
Por fim. quando as piras estavam reduzidas apenas a carves ardentes. 
Quentin e os outros iniciaram o regresso a Askelon.
Quentin ficou a olhar para a plancie obscurecida, onde as piras 
funerrias soltavam os clares finais e se extinguiam. como se fossem 
estrelas a apagarem-se para sempre.

O dia seguinte ficaria gravado para sempre na memria de Quentin. Acordou 
com a bela e brilhante luz do Sol a entrar por uma janela aberta, 
juntamente com uma brisa perfumada pelo fresco odor de plantas 
silvestres. Esfregou os olhos, e s ento se recordou que passara a noite 
no castelo de Askelon.
Ao saltar da cama descobriu que lhe tinham levado as roupas, e que no seu 
lugar se encontravam os ricos trajes de um jovem prncipe; uma tnica de 
samito branco com botes de prata, cales de azul-real e uma capa 
ricamente bordada e tecida a fios de ouro, que brilhou ao Sol quando lhe 
deu voltas nas mos. Fechava-se com uma corrente de ouro e um medalho em 
forma de cabea de veado. Quentin nunca na vida vira roupas to 
maravilhosas... E as botas! Eram de um couro muito macio e serviam-lhe 
perfeitamente!
Surgiu um criado com gua de rosas, que ficou  espera que Quentin se 
lavasse. As mos tremiam-lhe quando se vestiu, e saiu a correr do quarto. 
ainda a prender a capa com a corrente de ouro, completamente esquecido da 
rigidez da perna. Theido e Durwin, com o ar mais nobre com que jamais os 
vira. saam tambm dos seus respectivos aposentos. que eram em frente dos 
de Quentin.
- Eh! jovem senhor, para onde  que vai a correr a estas horas da manh? 
- gritou-lhe Theido com um grande sorriso.
- A no ser que os olhos me enganem - comentou Durwin -, este deve ser o 
campeo do rei a partir em busca de uma nova aventura!
-  maravilhoso! Tudo isto... - respondeu Quentin. mas as palavras 
faltaram-lhe.
- Sim, sim.  maravilhoso - concordou Durwin, com uma gargalhada. - Mas 
ainda no viste nada! Espera at veres o grande salo do Rei Drago em 
plena celebrao!

398

- Vamos l agora! Quero v-lo!
- No te apresses tanto - disse Theido. - Primeiro, o pequeno~ -almoo. 
Aconselho-te a no encheres demasiado a barriga, pois estou certo de que 
iremos ter acepipes  disposio durante todo o dia. Vamos ter com os 
outros.
Depois. podemos l ir? - inquiriu Quentin, ansioso.
A seu tempo... - riu-se Durwin. - s a impetuosidade em pessoa! Devia ter 
imaginado, quando te vi a cavalgar para a floresta atrs deste nosso bom 
Theido, que voltarias com o nosso rei! Devia t-lo previsto!
- Temos de deixar que os criados do rei preparem o salo. Ainda no deve 
estar pronto. Uma celebrao como esta... Bom, no irs ficar 
desapontado! - explicou Theido. - Anda, vamos comer um pequeno-almoo 
leve e depois ocupamos os nossos lugares na corte.  hoje que o Rei 
Drago far justia pelas traies cometidas contra ele.
Durante o pequeno-almoo, juntaram-se Toli, Ronsard e Trenn. todos 
ricamente vestidos. Toli parecia um escudeiro real e insistiu em servir 
Quentin com as suas prprias mos. Teria ido prestar assistncia a 
Quentin, no quarto, se no tivesse sido impedido pelos seus prprios 
criados, pois tambm ele era um hspede de honra.
Quentin corou, embaraado com as entusisticas atenes de Toli. Apesar 
de o Jher no pronunciar uma palavra a esse respeito, Quentin podia ver 
que os olhos negros lhe cintilavam de orgulho. Para Toli, Quentin ocupava 
finalmente o lugar de prncipe do reino, que lhe competia.
Na macia cmara da corte, o rei Eskevar permanecia sentado no elevado 
trono enquanto escutava as provas das traies cometidas contra ele e o 
povo, durante a sua ausncia.
Lord Larcott e Lord Weldon foram libertados da priso e recuperaram toda 
a confiana do monarca. Para as suas celas foram Sir Grenett e Sir Bran, 
at mudarem de opinio e estarem dispostos a renovar o seu juramento de 
fidelidade para com o rei.
Jaspin apareceu a seguir ante o trono. Estava to abatido e cheio de 
remorsos que teve de ser arrastado pelos guardas e instalado num banco, 
para ouvir a sentena.
- Pela tua parte, Jaspin - disse Eskevar, no sem compaixo -, serei 
indulgente, embora seja natural que consideres o teu castigo como sendo 
mais do que consegues suportar. Seja como for, j tomei uma deciso.

399

"Sers banido do reino, para vagueares pelo mundo e para te instalares 
onde quer que encontres homens que te queiram receber. Nunca mais 
causars problemas a Mensandor.
Jaspin uivou como se lhe tivessem tocado com um ferro em brasa, e 
implorou piedade ao irmo:
- Permite-me ficar confinado ao meu castelo. Com o tempo acabars por 
esquecer esta situao desagradvel...
Todavia. a resoluo de Eskevar era firme.
- Poders levar um companheiro contigo: Ontescue. - Fez um aceno e os 
guardas fizeram avanar o astuto Ontescue, que murmurava para si mesmo.
- Ontescue - declarou Eskevar. - Tu. que querias ser companheiro do rei, 
irs acompanhar o teu "monarca" para onde quer que ele v, para o guiares 
no exlio, tal como pretendias gui-lo neste trono.
ontescue empalideceu, mas fez uma vnia e manteve-se silencioso. 
satisfeito por ter salvo a cabea.
A seguir fizeram entrar todo um grupo de nobres e cavaleiros, que tinham 
sido feitos prisioneiros no campo de batalha. Foram obrigados a renovar. 
um a um, os seus juramentos de lealdade para com o Rei Drago. e a 
prometerem pagar um resgate por eles prprios, bem como uma pesada multa 
sobre as terras que possuam, mas foram libertados imediatamente.
- Fiz justia sobre os meus inimigos, tanto quanto mo permite a lei e a 
misericrdia. Agora. quero fazer justia tambm aos meus amigos - 
anunciou o monarca.
Selric. rei de Drin, foi o primeiro a ser chamado  presena de Eskevar, 
que. por deferncia com o seu amigo, se levantou do trono e permaneceu de 
p.
- No posso recompensar a tua coragem e valor no campo de batalha, nem 
pagar os servios que tu e os teus soldados prestaram a este reino. Por 
isso, passarei a chamar-te irmo, pois demonstraste uma dedicao maior 
do que todas as que se obtm atravs dos laos de sangue.
"Todavia. e como um mero smbolo da minha gratido, permite-me que te 
oferea os valiosos resgates com que estes cavaleiros se redimiram. 
Aceita-os e divide-os entre os teus homens e pelas famlias dos valentes 
soldados que morreram a cumprir o seu dever. Por favor aceita-os...  uma 
muito pequena recompensa.

400

- Agradeo-te, bom Eskevar. s um homem honesto e justo, mas a recompensa 
aos meus homens  de minha responsabilidade, e tenho os meios mais que 
suficientes para o fazer. No faltaro aos que serviram nesta campanha, 
nem haver famlias na misria por falta de quem lhes fornea o po. 
Quanto a mim. fico satisfeito com a tua amizade, e alegra-me poder 
chamar-te irmo.
Ao escutar aquelas palavras, Eskevar desceu da plataforma onde se 
encontrava o trono e envolveu Seiric nos braos, num forte abrao de 
amizade. A seguir os dois homens ergueram no ar as mos unidas. sob as 
ruidosas aclamaes de todos os que ali se encontravam reunidos.
Trenn foi chamado a seguir e ajoelhou-se em frente do trono. Quando se 
levantou para se ir embora, a cidade de Askelon tinha um novo xerife.
Seguiu-se Ronsard, que foi feito lorde-marechal do Reino.
Theido recebeu de volta o seu ttulo, que Jaspin lhe retirara. bem como 
as terras correspondentes e as de Jaspin em Erlott.
Depois, foi a vez de Durwin.
- Gostaria de te recompensar com tudo o que estiver ao meu alcance: 
ttulos, posies ou ouro. Basta que me digas qual a recompensa desejada, 
e ser vossa - disse Eskevar.
- O vosso regresso em segurana, para governar o povo com justia,  
recompensa bastante, Vossa Majestade - respondeu o eremita da floresta de 
Pelgrin. - Quanto a mim, desejo apenas voltar para a minha cabana para a 
viver em paz.
- E nada mais?
- Nada mais, excepto ser o servidor de um rei justo e honesto. Fez uma 
pausa para pensar e acrescentou: - No entanto, poderei pedir-vos um 
favor?
- Ser concedido.
- A promessa de que o Rei Drago nunca mais deixar o trono abandonado 
durante muito tempo.
Eskevar soltou uma gargalhada e levantou a mo:
- Assim ser.  uma promessa. H mais uma pessoa a quem gostaria de 
recompensar - prosseguiu o rei, olhando em volta, para as fileiras de 
espectadores.
Quentin ficou chocado ao ouvir o seu nome.
- Quentin, avana, por favor.

401

Nervoso, tremendo de excitao. Quentin parou aos ps do grande trono do 
Rei Drago. Ajoelhou tal como os outros tinham feito, com as mos 
pousadas sobre um joelho.
-  a ti quem devo recompensar com maior gratido... - disse o rei, com a 
emoo a surgir-lhe na voz. - Foste tu quem quebrou os laos do feitio 
que me dominava e quem me arrancou dos braos da morte. O teu sangue e as 
tuas oraes libertaram-me dos poderes do malfico necromante. Tudo o que 
eu tenho, todos os tesouros do reino, so teus, porque a partir deste dia 
sers o meu protegido, meu filho.
Quentin olhou para cima, num espanto de incompreenso, e viu Alinea, 
novamente rainha, com um diadema de ouro sobre a testa, que se aproximava 
dele com os olhos a brilhar. Eskevar desceu do trono em direco a 
Quentin, e encontraram-se os dois no local onde o jovem estava ajoelhado. 
Puseram-no de p, e ento Eskevar anunciou, numa voz que ressoou pela 
sala da corte e pelos corredores que ficavam para l dela:
- Meus amigos, as celebraes vo comear!
Nesse preciso instante, as portas da corte abriram-se e as trombetas 
anunciaram a proclamao do rei. O toque ecoou e voltou a ecoar pelo 
castelo, por Askelon e pelos campos, e toda a gente que o escutou ficou a 
saber que, naquele dia, todos eram bem-vindos ao grande salo do Rei 
Drago.
Foi ento que Quentin, caminhando entre o rei e a rainha, com os ps que 
mal tocavam no cho, foi introduzido no grande salo de Askelon.
Era como uma fantasia tomada realidade. Do tecto do salo pendiam dez mil 
pendes vermelhos e dourados. Fiadas de flores formavam grinaldas 
multicoloridas por cima das suas cabeas, e as janelas estavam 
escancaradas para que o sol dourasse tudo aquilo em que tocava. O jardim 
que ficava para l do salo fora transformado numa vasta arena de 
banquete, cheia de mesas, enquanto a comida de todo o tipo e descrio 
era preparada em frente de pavilhes erguidos para os cozinheiros e 
ajudantes, que corriam ao longo das mesas com travessas de carne, de 
frutas e bolos.
Na brisa, como se fosse o canto de felicidade de uma cotovia. flutuava um 
ambiente de alegres festejos. As portas foram abertas e o povo entrou 
para iniciar a mais magnfica celebrao de que algum se conseguia 
recordar.

402

O sol comeava a pr-se quando Quentin e a sua sombra pessoal, Toli, se 
fartaram finalmente de comer, cantar e rir. Sob o claro das centenas de 
tochas que espalhavam a sua luz por todo o salo e pelos jardins, Quentin 
procurou Durwin, que se encontrava sozinho na grande varanda por cima do 
espao onde se desenrolavam as festividades.
- Que se passa, Durwin? - perguntou Quentin baixinho. Vira um ar 
melanclico nos olhos do eremita quando se aproximara. - Porque no te 
juntas  festa?
- Ah, Quentin, s tu! Oh, j me diverti tanto quanto fui capaz. Sorriu. 
mas foi um sorriso que Quentin considerou como um pouco triste.
O jovem virou-se para observar as estrelas que apareciam, uma a uma, na 
vasta abbada azul dos cus.
- Vencemos - murmurou Quentin, com o rosto virado para cima, iluminado 
pelo brilho das tochas. - Finalmente, vencemos.
-  verdade, Ganhmos esta batalha... mas receio muito que a guerra no 
tenha terminado.
- No terminou?! Que queres dizer?
- Olha  tua volta, Quentin. Pensa em tudo o que te aconteceu. Os velhos 
deuses da Terra e dos Cus esto a despedir-se, a velha ordem est a 
terminar. O verdadeiro deus est a dar-se a conhecer. O seu governo est 
apenas a comear... mas os velhos hbitos no desaparecero sem 
resistncia. Este  o crepsculo dos deuses, e h ainda muita escurido 
na nossa frente antes de surgir a madrugada. Ah, mas a luz acabar por 
chegar! Posso prometer-to! - O eremita virou-se e fitou Quentin com uma 
longa e meditativa mirada, prosseguindo: - Lembra-te da tua bno, 
Quentin. Tens um papel a desempenhar em tudo isto. Deus tem-te sob a sua 
mo. Talvez tenhas sido escolhido para ajudar a impor a nova ordem. O que 
fizeste agora foi apenas o princpio. Ainda tens muito a fazer.
Quentin ficou a olhar o santo eremita, pestanejando.
- Durwin - disse, com uma sbita urgncia -, quero voltar l. Quero 
voltar a Dekra. Achas que h alguma coisa que o impea?
- De modo nenhum! Um protegido do rei pode ir onde quiser. todas as 
portas lhe sero abertas.
- Queres ir comigo?
- Nada me agradaria mais. H muita coisa que gostava de te mostrar.

403

- Podemos partir j!
- Logo que seja possvel, meu jovem e impetuoso senhor, mas seria bom 
permanecer em Askelon durante algum tempo, para permitir a Eskevar que 
expresse a sua gratido. Descansa. iremos em breve. Notando o olhar 
ansioso de Quentin. perguntou: - Ento, queres dizer que uma aventura no 
foi suficiente para ti? Tens de comear outra, assim to depressa?
- H tanto para fazer, tanto para aprender!
- E muito tempo para realizar as tarefas que nos foram destinadas. 
Pensaremos em tudo isso noutra altura, porque agora vem ali o Toli com 
algum, que quer conhecer o heri do dia.
Quentin virou-se e viu Tol a aproximar-se  pressa. com uma jovem a 
segui-lo com um ar muito reservado. Com um sobressalto, Quentin 
apercebeu-se de que se tratava da jovem que encontrara  porta do peleiro 
naquele frio dia de Inverno que lhe parecia to longnquo. Esboou um 
sorriso envergonhado quando se aproximou, e Quentin verificou que era 
muito parecida com a rainha Alinea. O cabelo avermelhado e os olhos de 
esmeralda eram idnticos. Antes de Toli conseguir fazer as apresentaes, 
Theido, que surgiu na varanda. exclamou:
- Ah. Bria, ests a! Depois de me teres incomodado todo o dia para que 
vos apresentasse, vejo que o conseguiste por ti mesma!
Quentin fez uma profunda vnia e disse. um pouco inseguro:
- Sou Quentin, e estou ao seu servio, senhora. - A rapariga, com os 
olhos verdes a brilhar, devolveu-lhe a cortesia no meio do frufru do 
vestido azul-claro ornamentado a fitas.
- Disseste "senhora" - comentou Theido, divertido. - No sabes que te 
ests a dirigir  princesa? - Theido e Durwin riram-se, mas quando 
Quentin os olhou j os dois homens se afastavam para o jardim. onde a 
msica comeara a tocar sob as estrelas.
- Sou a princesa Bria - confessou a rapariga. - Queres ir ouvir a msica?
Quentin estava sem fala, mas os seus olhos falavam, e muito 
eloquentemente, por ele. Toli quase danava de alegria, com as feies 
morenas a irradiarem satisfao enquanto seguia atrs do tmido par. A 
mo quente de Bria fechou-se em volta da de Quentin, puxando-o para uma 
noite que. de repente, desejava que nunca viesse a terminar.

Fim
